Esta semana minha família comemorou o aniversário de nascimento da minha mãe. Até então, nada fora do padrão, mas foi um envelope esquecido em cima da mesa da sala que me chamou a atenção. Como já havia sido aberto e seu conteúdo restava depositado entre outros papéis, tomei a liberdade de me familiarizar com o conteúdo daquela intrigante carta. O motivo pelo qual o envelope me chamou a atenção: nele havia estampado um ou dois símbolos cristãos e um escudo, que achei representar uma arquidiocese.

O conteúdo da correspondência: uma mensagem padrão, contendo felicitações pela data, no primeiro parágrafo, e ocupava-se nos demais de ressaltar a importância do dízimo para a igreja, e como isso ajudaria a construir igrejas em lugares remotos do país. Apesar de os católicos terem fama de serem mais discretos quanto à cobrança do dízimo, esta mensagem me pareceu um tanto quanto desesperada. A carta tinha por remetente uma organização situada em São Paulo e registrada sob a alcunha de “Sociedade brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade” (TFP).

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O mais interessante é que, acompanhado de tal carta, havia um boleto bancário solicitando a contribuição da quantia que variava entre 15 e 25 reais, podendo ser mais se o fiel assim o desejasse, para fomentar uma campanha de nome ridículo: “Vinde Nossa Senhora de Fátima, Não Tardeis!”. Acabei descobrindo que esta campanha existe há mais de uma década, e anualmente mais de três milhões de correspondências são enviadas para casas de todo o Brasil.

A organização utiliza-se de datas importantes para pedir contribuição financeiras, a exemplo do que fez no carnaval de 1997, enviando cerca de um milhão de correspondências, falando sobre os pecados carnais típicos dessa época.

Não é de hoje que tenho percebido a popularização da tecnologia para conquistar novos fiéis e arrecadar dinheiro para as igrejas, a exemplo do texto abordado em outra oportunidade, sobre a utilização de jogos eletrônicos para fidelizar a juventude. Entretanto, eu desconhecia que os templos religiosos ousaram ir tão longe. A revista Veja da primeira semana de abril trouxe a notícia de que a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), do controverso Edir Macedo, haveria adquirido quase duzentas mil máquinas de cartão de crédito para a implementação do dízimo eletrônico.

Como em toda boa empresa, agora o dízimo pode ser pago através de cartão de crédito.

Entretanto, justiça seja feita, foi a Catedral Católica de Ribeirão Preto que encabeçou tal manobra no país. De forma mais

humilde, adquiriu máquinas para que os fiéis pudessem doar de bom grado seu dinheiro através de cartões de crédito ou depósitos na conta da igreja. Os equipamentos, que são benzidos, ganham popularidade também nas paróquias católicas do Brasil afora.

Com essa latente oportunidade de maximizar os lucros, não faltam oportunistas para lucrar com esse período de transição. Encontrei, por exemplo, uma empresa de Engrenharia de Software que projeta programas de computador com a missão de cobrar, registrar e até criar correspondências padrão, como aquela que minha mãe recebeu. Os criadores do programa se orgulham da possibilidade de “poder enviar automaticamente cartas padronizadas sem precisar digitar sequer uma linha de texto.”

Com a constante perda de fiéis por parte da Igreja Católica, me parece que a discrição que lhes era particular foi substituída pela necessidade de arrecadar, assim como as cestinhas que circulavam entre os que frequentavam tal estabelecimento estão perdendo lugar para as máquinas de cartão de crédito.

httpv://www.youtube.com/watch?v=vrhQQLJRNIs

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