Indivíduos inteligentes e racionais nunca escolheram ser incapazes de se dopar com ilusões infantis, bem como religiosos nunca escolheram ter fé. Nenhum dos dois tem a liberdade de mudar voluntariamente o modo como seu cérebro desde sempre se habitou a funcionar. Porém, como precisamos de ilusões para viver, cada qual, de acordo com sua inteligência, se vê obrigado a empregar métodos diferentes para suportar a existência.

É inútil insistir: não conseguimos ter fé. Nossa única alternativa passa a ser buscar consolo no esclarecimento, mas como? Só causa miséria a lucidez diante de um mundo miserável. Então, se não conseguimos contornar esse problema nos envolvendo com ilusões absurdas, passamos então a nos envolver com ilusões sensatas, que satisfazem nossa inteligência. Mentiras simplesmente não nos cativam, nos enojam. Assim, como não conseguimos nos iludir com falsidades, iludimo-nos com o seu oposto: a verdade. Encontramos no conhecimento o que os tolos encontram na fé, buscamos na honestidade o mesmo que os demais no engano, entendemos de olhos abertos como se consolam os vendados. Aprendemos a suportar a vida à nossa maneira. Se hoje temos uma consciência tranquila diante do fato de não precisarmos ter fé, isso ocorre porque nos bastam farmácias e bibliotecas. Nossos milagres estão em blisters. Concluímos em vez de acreditar, refletimos em vez de suplicar.

O fato é que nunca teríamos aceitado tão tranquilamente a morte de Deus se não dispuséssemos de meios seguros de substituí-lo. No lugar do jardim do Éden, colocamos o jardim da filosofia, e tanto um como o outro servem apenas para nos distrair, para esconder o desfiladeiro niilista. Sabemos que, em nossas vidas, a filosofia, a reflexão abstrata, cumpre o mesmo papel que a religião, e ambas as coisas não passam de meios de fugir da realidade. Reconhecemos que nem a filosofia nem a religião nos levarão a lugar algum, apenas nos distrairão do tédio. Parece pouco, mas basta. Somos humanos, e uma existência decente é tudo o que esperamos. Como temos farmácias, o autoengano tornou-se dispensável. Como temos inteligência, encontramos consolo na reflexão, e sentimo-nos plenos por podermos levar adiante nossa natural inclinação à honestidade.

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4 Comments

    • Guilherme Policena
    • Posted 29 de maio de 2010 at 14:50
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    Também penso que a religião,apesar de ser uma mentira descarada,está ligada apenas à necessidade de certezas e ao lar dos ursinhos carinhosos post-mortem;e, por assim dizer,ao bem-estar biológico.Se não conseguimos ser imbecis,temos outros meios de obter a mesma satisfação;um deles pode ser um belo Prozac ou Diazepam.
    De todo modo,só temos duas opções:o suicídio ; ou viver esse absurdo,essa piada de mau gosto,essa tragicomédia,essa zombaria do acaso;enfim,a vida.Continuo insistindo na imbecilidade da segunda opção;algumas migalhas de felicidade ainda persuadem minha existência nesse mundo.Pelo menos aqui tem música e coca-cola,então vou ficar mais um pouquinho.

    • Wallace
    • Posted 30 de maio de 2010 at 17:25
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    Acho que a pior das opções, no final, é misturar a fé e a tentativa de esclarecimento, pelo menos vc saiu do muro… eu fiquei em cima, ao mesmo tempo que há “a lucidez que causa miséria diante do mundo miserável”, ainda há a minha fé batendo na cabeça e insistindo que no final das contas, tudo vai dar certo.

    • Laércio
    • Posted 1 de junho de 2010 at 20:58
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    Parabéns pela observação, acho admirável alguém com a sua idade já ter capacidade para fazer uma reflexão destas.

    • Wallace
    • Posted 2 de junho de 2010 at 16:30
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    A quem vc se refere Laércio? :o


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