Talvez você nunca tenha se perguntado sobre ela, mas a consciência é considerada o suprassumo de nossa existência. O fato de nos olharmos no espelho enquanto executamos o ritual de mutilação conhecido como barbear-se deixa boquiaberto quem se dedica a pensar sobre o assunto.

É por causa da consciência que você consegue emular a minha voz dentro de sua cabeça, como se estivéssemos conversando. É também por causa dela que é possível refletir abstratamente sobre o mundo ao nosso redor. É, realmente, uma ferramenta magnífica, mas não passa disso.

A consciência como a entendemos é um epifenômeno da matéria; um mecanismo extremamente útil e selecionado naturalmente como todos os outros traços dos quais dispomos. Um ser que pensa e faz escolhas tem uma vantagem muito grande em relação a outros seres cujos comportamentos são puramente genéticos. O tempo para que algo seja estampado no nosso código é simplesmente uma eternidade, se comparado com o tempo que levamos para aprender novas informações.

Mesmo assim, é um mecanismo relativamente recente na escala evolutiva. Tanto é que as decisões conscientes dizem respeito principalmente às situações novas. Conforme o mesmo problema se repete, a memória mecânica passa a agir. Eis a razão para que façamos coisas sem que percebamos. Convenhamos: seria um desperdício de energia pensar em todas as tarefas que executamos diariamente. De maneira extremamente pragmática, deixamos a consciência para o que ainda precisa dela.

Com o advento das neurociências e do eletroencefalograma [1], conseguimos mapear com uma boa margem de segurança as partes do cérebro que influenciam os comportamentos e verificamos como o estímulo em certas áreas pode mudá-los. Constatamos as mudanças de personalidade que advêm de traumas cerebrais [2] e induzimos experiências trancendentais, mostrando que são muito parecidas com transtornos de personalidade, como epilepsia [3] [4] [5].


Referências:

[1] http://pt.wikipedia.org/wiki/Eletroencefalografia

[2] http://super.abril.com.br/superarquivo/2003/conteudo_270373.shtml

[3] http://g1.globo.com/Noticias/Ciencia/0,,MUL1563325-5603,00-ESTUDO+LIGA+VISOES+ANTES+DA+MORTE+A+ALTOS+NIVEIS+DE+CO+NO+SANGUE.html

[4] http://science.slashdot.org/story/10/04/03/2247213/Science-Attempts-To-Explain-Heaven?art_pos=7 [em inglês]

[5] http://super.abril.com.br/ciencia/eles-veem-espiritos-446853.shtml


Da insatisfação I: Como surgiu o universo?

Da insatisfação II: Como surgiu a vida na Terra?

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20 Comments

    • Wallace
    • Posted 1 de junho de 2010 at 19:34
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    A idéia de que a consciencia seja produto unicamente da materia, é na minha opinião, irremediavelmente frágil. Matéria só pode fazer uma coisa: se mover, reagir, se chocar. Se a consciência fosse produto apenas da matéria ela não existira de fato, seria só uma ilusão causada por esses choques da máteria. É obvio que há processos físicos na consciencia, mas a consciencia mesmo não aparenta ser só física. Os materialistas estão em uma uma tarefa inglória pra explicá-la.

    • Wallace
    • Posted 1 de junho de 2010 at 19:38
    • Permalink

    Mas o mais curioso é se essa ideia for verdade: basta mover as moléculas da cabeça direitinho e veremos o que quisermos :)
    Ê matéria doida! Gera umas boas ilusões!

    • Jairo Moura
    • Posted 1 de junho de 2010 at 21:11
    • Permalink

    Os materialistas explicaram tudo isso que você leu. Os espiritualistas não conseguem explicar por que lesões no cérebro afetam a personalidade sem a tese materialista. Parece que só temos a vontade de crer a favor do dualismo. Não vale muita coisa em estudos sérios…

  1. Muito interessante Jairo. É ótimo ver como aos poucos a ciências vai iluminando com o conhecimento onde antes só as trevas da ignorância.

    Tenho como consciência simplesmente o conjunto de conhecimentos.

    • São Marx
    • Posted 7 de junho de 2010 at 11:49
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    Os materialistas explicam tudo. É a biblia dos novos tempos… tsc…

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      Jairo Moura
    • Posted 7 de junho de 2010 at 12:03
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    Muito pelo contrário. Os materialistas BUSCAM explicar, enquanto os inconformados com a realidade tal como se apresenta se limitam a lamentar por suas “explicações”. Ao invés de melhorarem a autointitulada incompleta realidade materialista, passam a vida a desdenhar quem realmente busca respostas factíveis.

    • São Marx
    • Posted 8 de junho de 2010 at 10:22
    • Permalink

    Uma atitude típica de um religioso: “Eu estou certo e eles estão errados.” ou “Nós buscamos a verdade e vocês não.”

    Os materialistas explicam uma realidade, porém, longe de ser a única a querer explicar, a religião também explica, assim como a mitologia dos povos antigos, ou você acha que eles viviam sem fazer as mesmas perguntas como: de onde eu vim, para onde vamos e o que será depois da minha morte?

    • São Marx
    • Posted 8 de junho de 2010 at 10:24
    • Permalink

    Mas o problema dos materialistas é que somente eles acreditam estar em busca da verdade, igualzinho os que na Idade Média acrediatavam que somente a biblia era o caminho da verdade….

    Tudo o mesmo saco de batata.

    Como disse o Pondé na Folha Ilustrada essa semana: De Crente e Comunista (marxista) eu quero é distância…

    • São Marx
    • Posted 8 de junho de 2010 at 10:24
    • Permalink

    corrigindo:

    Como disse o Pondé na Folha Ilustrada essa semana: De Crente e Comunista (MATERIALISTA) eu quero é distância…

    • São Marx
    • Posted 8 de junho de 2010 at 10:27
    • Permalink

    Uma dica: Se aprofunde na questão filosófica da “Verdade” na pós-modernidade.

    Assim, neste espaço de neo-ateus/bobos, seus textos podem fazer o maior sentido do mundo, mas se chegar com este discurso simplista numa roda de pessoas que não caem nessa bobagem de provar que Deus existe ou não e que passam o tempo estudando, por exemplo, o estatudo da “verdade” na pós-modernidade, vc não será levado à sério.

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      Jairo Moura
    • Posted 8 de junho de 2010 at 12:31
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    Obrigado pela dica. O texto não fala sobre deus(es) e sua (in)existência. Dizer que um discurso é simplista não é demonstrar a sua falha. Gostaria que o fizesse, se possível. Não busquei estabelecer verdades. Usei do conhecimento difundido e baseado no método científico para apresentar respostas a uma pergunta inquietante. Em nenhum momento entrei no mérito da epistemologia ou da disciplina filosófica da verdade.

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      Jairo Moura
    • Posted 8 de junho de 2010 at 12:33
    • Permalink

    Uma frase feita que coloca no mesmo saco dois conceitos diferentes — ao menos na interpretação que o senhor lhe deu. O materialismo científico é diferente do materialismo histórico, base para os estudos de Marx.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/09. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Jairo Moura
    • Posted 8 de junho de 2010 at 12:35
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    É exatamente para responder essas perguntas de forma científica que esta série existe. As outras explicações já sabemos de cor e salteado. Foi exatamente a insuficiência delas que nos levou a estabelecer um crivo objetivo que sirva para todos, indendependente de sua cultura.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/09. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Jairo Moura
    • Posted 8 de junho de 2010 at 13:59
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    Em nenhum momento foi dividido o mundo entre crentes e não crentes. O texto se limita a dar informações sobre o fenômeno conhecido como consciência. Se estão erradas ou incompletas, o senhor deveria rebatê-las ao invés de falar sobre supostas atitudes.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/09. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Jairo Moura
    • Posted 8 de junho de 2010 at 14:00
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    Não vejo problema nenhum. Se outros também buscam a verdade, que apresentem seus postulados para revisão de pares e testes de realidade, como qualquer teoria científica deve fazer. Passado no crivo, não importa de onde veio nem qual sua motivação filosófica.

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      Bruno Teixeira
    • Posted 11 de junho de 2010 at 10:16
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    @Wallace: “Mas o mais curioso é se essa ideia for verdade: basta mover as moléculas da cabeça direitinho e veremos o que quisermos :)”

    Vc já ouviu falar de remédios anti-psicóticos?

    • Wallace
    • Posted 14 de junho de 2010 at 12:36
    • Permalink

    @ Teixeira:

    A quimica cerebral tem relação inequívoca com a consciência.. isso é algo impossível de negar. Não é isso que digo. O que digo é que e impossível admitir ser apenas produto da matéria, pois a materia não aparenta possuir essa propriedade instrinseca,nem reunida dentro da nossa cabeça. A matéria me parece muito mais um meio que uma causa direta da consciência. (isso é uma daquelas coisas que só dá pra perceber por si mesmo, e não adianta eu tentar explicar)
    Pode ser verdade, admito.. mas olhe pra uma pedra ou qualquer outro objeto inanimado, feitos da mesma materia que nos formou, e pergunte porque a conscienca não aparenta existir neles. o que falta, além dos minerais? é só juntar proteina e gordura? E meter uma descarga elétrica pra fazer uns aminoácidos?

    • Wallace
    • Posted 14 de junho de 2010 at 12:37
    • Permalink

    Se a cosnciencia for só produto da materia ,ela é ainda mais incrivel do que se não for!

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/09. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Jairo Moura
    • Posted 14 de junho de 2010 at 13:12
    • Permalink

    Wallace, é exatamente esse sentimento de insatisfação a que me refiro no título da série: uma profunda negação do que já sabemos em nome de uma noção vaga de que algo a mais precisa existir, de que nossa explicação não pode ser tão simples. Como bem sabemos, a natureza é o que é e pouco ou nada se importa com o modo que nos sentimos em relação a ela.

    • Mário SF Alves
    • Posted 19 de fevereiro de 2011 at 19:43
    • Permalink

    Jairo,
    Admiro seu equilíbrio e, obviamente, o respeito demonstrado ao debater com o “São Marx”. Parece que o problema dele tem início já na escolha do apelido, referindo-se a um Marx qualquer, vulgar, medíocre e não ao estudioso que mostrou ao mundo uma nova abordagem da História e da Economia Política.
    A propósito, é do conhecimento de muitos que Marx combatia as religiões, tidas por ele como sendo o ópio do povo. No entanto, quando perguntado sobre a existência ou não de Deus, Marx não titubeou e disse: “minha ciência é a economia política, sugiro que se busque um teólogo a quem possam submeter tal pergunta”.
    Outra coisa. Os ditos anti-materialistas, em sua grande maioria, são incapazes de definir o que é a matéria; aliás, nem a física teórica tem a palavra final sobre a complexidade dela.
    E só para lembrar, foi Engels, amigo de Marx, em seu “A Dialética da Natureza”, quem afirmou que o espírito (ou a consciência) é o mais excelso produto da matéria. E isso em meados do século XVIII, lá atrás, quando Darwin (não tendo ido para o fogueira) estava já em vias de publicar o “A Origem das Espécies”.


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