Monthly Archives: maio 2010

A vida é um fenômeno interessantíssimo que, embora nossa intuição diga o contrário, teve um início e nunca mais parou. O que entendemos como vida em sentido estrito é aquele tempo de duração medido entre o nascimento e a morte de um indivíduo. No entanto, para que este indivíduo tenha nascido, tomando a nós mesmos como exemplo, foi necessário que um espermatozoide e um óvulo, ambos vivos, fossem unidos.

Para a panspermia [1], a vida na Terra é o resultado das sementes pré-bióticas que se encontram por todo o universo. Essas sementes teriam chegado ao nosso planeta através de metereoritos, enxergados como cegonhas cósmicas que levam os aminoácidos fundamentais a todos os cantos do vasto espaço sideral. É relativamente fácil encontrar metereoritos carbonáceos que possuam uma diversidade de compostos orgânicos maior do que a encontrada na Terra [2].

É uma hipótese intrigante, por mais que haja poucas evidências diretas para comprová-la ou refutá-la. A sua principal concorrente e paradigma mais aceito nas teorias de gênesis da vida é aquela que explica o seu surgimento a partir de reações químicas de elementos que existiam em abundância na Terra primitiva. Harold Urey e Stanley Miller [3], ainda nos anos de 1950, conseguiram sintetizar aminoácidos e outros compostos essenciais para a nossa existência a partir de compostos simples. É a face moderna da teoria da abiogênese, quebrando aquela sequência em direção ao passado na busca do ponto em que o não-vivo tornou-se vivo [4].

O ponto crucial que nos trouxe até este exato momento foi o aparecimento da primeira molécula autorreplicante. Essa capacidade comum a todos os seres-vivos é a base de toda a biodiversidade observável na natureza. Muito provavelmente, o RNA [5] primitivo é o ancestral de todas as formas atuais de codificação/decodificação de proteínas. Não só ele continua presente no DNA [6], molécula muito mais elaborada, como exerce funções fundamentais e específicas, dependendo do seu tipo, no processamento e na síntese de proteínas.

Iniciada a vida, há cerca de 3,5 bilhões de anos atrás [7], restaria agora explicar como ela se desenvolveu. O mecanismo de seleção artificial sempre foi um dos meios mais eficientes que o homem encontrou de manipular o meio-ambiente. Foi assim que conseguimos domesticar os cães, variantes dos lobos selvagens, criando a imensa variedade de raças, desde os graciosos poodle até os ferozes pitbull. Com base no mesmo princípio, cultivamos vegetais de acordo com nossas necessidades, escolhendo as sementes mais férteis de árvores que dão os melhores frutos.

Darwin [8] e Wallace [9], independentemente, chegaram à conclusão de que a natureza poderia agir de forma semelhante, selecionando os indivíduos mais aptos para uma determinada situação ambiental. Mesmo sem a função de um agente consciente, seria possível que indivíduos se adaptassem ao seu meio e, mais impressionante do que isso, que diferentes indivíduos, separados geograficamente, pudessem, ao longo de várias gerações, diferir de forma tão radical a ponto de se transformarem em espécies distintas.

É interessante notar que ambas as seleções – natural ou artificial – não têm um objetivo teleológico a longo prazo. A seleção artificial nos serve para a geração imediata e continuará nos servindo para as gerações futuras, mas isso não quer dizer que a geração atual só existe como meio para elas. De forma análoga, podemos fazer um exercício mental: uma mutação que seria benéfica para um futuro distante dificilmente passará no crivo imediatista da seleção natural, pois não apresenta vantagens para o momento em que a sobrevivência as exige.

Com base em análises tanto morfológicas quanto químicas e genéticas, é possível vasculhar o presente e o passado, relacionando todas as espécies das quais temos notícia com seus parentes e antepassados. A síntese desses dados pode ser expressa de forma gráfica em árvores filogenéticas [10], ou em sua forma mais ampla, conhecida popularmente como árvore da vida.

Referências:

[1] http://pt.wikipedia.org/wiki/Panspermia

[2] http://en.wikipedia.org/wiki/Murchison_meteorite

[3] http://pt.wikipedia.org/wiki/Experiência_de_Urey-Miller

[4] http://pt.wikipedia.org/wiki/Abiogênese

[5] http://pt.wikipedia.org/wiki/ARN

[6] http://pt.wikipedia.org/wiki/ácido_desoxirribonucleico

[7] http://pt.wikipedia.org/wiki/Evolução_da_vida_e_formação_da_Terra

[8] http://pt.wikipedia.org/wiki/Charles_Darwin

[9] http://pt.wikipedia.org/wiki/Alfred_Russel_Wallace

[10] http://pt.wikipedia.org/wiki/árvore_filogenética

Da insatisfação I: Como surgiu o universo?

Existem várias maneiras desonestas de se atacar um argumento. Essas maneiras são conhecidas como falácias e os criacionistas abusaram delas para atacar a teoria da evolução durante uns bons séculos. Talvez, mais corretamente, eu deva dizer que existem maneiras desonestas de não se atacar um argumento, visto que uma falácia consiste em desviar do argumento principal para tratar de um assunto inválido e/ou irrelevante para o debate. Falarei de uma falácia em especial, perniciosa e muito eficiente quando apresentada a um público leigo. É a famigerada falácia do espantalho.

“Argumento” de um criacionista. Eles tentaram...

“Falácia” é o tipo de coisa que, depois que conhecemos, começamos a encontrá-las por todos os lugares. Pois bem, quanto à falácia do espantalho, ela tem um certo grau de imundície, visto que ela consiste em criar uma versão deturpada do argumento e atacar a versão falsa, não o argumento em si. O que eu vejo como “certa imundície” reside justamente na deturpação e posterior atribuição de ideia tão ridicularizada ao debatedor. Imagino que essa deturpação venha principalmente da própria ignorância e não de uma tentativa deliberada (e propriamente suja) de ridicularizar.

Como a “versão espantalho” criacionista da evolução é imensa, vou abordá-la ponto a ponto. Falarei aqui sobre a ideia de que a teoria da evolução é incompatível com a teoria da biogênese. Começarei por ela por se tratar de um equívoco comum, principalmente quando levamos em conta como a evolução e a origem da vida são explicadas na escola.

Em primeiro lugar, a alegada incompatibilidade é incorreta. A teoria evolutiva não busca explicar a origem da vida, mas sim como as populações variam conforme o passar do tempo. Contudo, é inegável que essa mesma teoria acaba levantando a questão da origem. Certo, derrubamos a crença de que as espécies foram criadas tais como são hoje de maneira sobrenatural. Mas, então, como surgiram?

Eu estava ajudando a minha irmã a estudar para a prova de biologia do colégio. Comecei a discutir sobre a teoria da abiogênese, que foi cabalmente derrubada por Pasteur, sendo imposta a teoria biogenética no lugar. Só que a teoria da biogênese carregava uma ideia um tanto quanto ilógica: “A vida surge apenas de vida”. Então a minha irmã veio com uma pergunta, muito pertinente por sinal: “Mas, afinal, se vida surge apenas de vida, como surgiu a primeira?”

Perguntinha cabeluda. Não vou adentrar nas respostas por dois motivos. O primeiro é que não existe uma teoria sólida, apenas um conjunto de hipóteses. Segundo que, mesmo que eu abordasse apenas as hipóteses, acabaria tornando o texto demasiadamente extenso. O ponto é que a afirmação citada há pouco é falsa. A vida não pode surgir apenas de vida. Aliás, essa sequer é a conclusão do próprio Pasteur. O que ele atacou não foi toda a ideia de abiogênese, mas, especificamente, a da geração espontânea, como seres vivos complexos surgindo de matéria inorgânica.

Louis Pasteur derrubando a hipótese de geração espontânea.

O espantalho de toda essa história é o seguinte. A teoria evolutiva é falsa, pois supostamente estaria dependendo da teoria abiogenética, cabalmente derrubada por Pasteur. Devo dizer que este é o espantalho criacionista mais feliz de todos, visto que ele consegue pegar uma ideia simples ensinada na escola e colocá-la deturpadamente para falsear outra ideia, bem menos ensinada, que seria a evolutiva. Quando a questão é colocada desta maneira, com a evolução entrando em discórdia com a biogênese, realmente parece que o neodarwinismo é um devaneio patético.

Pois o que eu posso dizer sobre tudo isso? Conclui-se que Pasteur derrubou, entre outras coisas, que carne podre não era capaz de gerar moscas espontaneamente. Mas ele certamente não derrubou a teoria de que essas moscas surgiram a partir de insetos dípteros ancestrais e se diversificaram através de mutações e seleção natural. Uma coisa definitivamente não tem nada a ver com a outra.

Percebe-se uma tentativa desesperada de encontrar incongruências no neodarwinismo. Falarei sobre outro exemplo, no meu próximo texto, que falará sobre… asas!

Ultimamente os pastores têm deixado de ser o foco da mídia – melhor para eles, assim podem continuar suas falcatruas sem serem incomodados – porém, há um revezamento característico entre as variadas facções cristãs. Saem de cena os pastores, com suas contas bancárias recheadas, e entram os padres, com suas crianças “recheadas” (se é que me entende).

Obviamente, não podemos generalizar. Nem todo padre é pedófilo, assim como nem todo pastor é ladrão, ou muçulmanos são homens-bomba. O fato é que há sempre um agravante para cada consequência dessas. Agora que estou devidamente justificado, deixemos os coadjuvantes de lado e foquemos em nossas estrelas.

Sabemos que o “voto de castidade” é uma tradição antiga e difícil de ser alterada, ainda mais por estar relacionada à igreja católica e, consequentemente, a um papa nazista. Isso não impede que rotas alternativas possam ser criadas. Os padres devem poder “descarregar” seu instinto animal (sexo!). Já que não podem ter mulheres, proibiram-lhes as crianças e relação homossexual é pecado mortal, supondo que tenham a necessidade do não-uso das mãos e uma boneca inflável não é algo que um padre possa ter em sua casa, pensei em algumas soluções alternativas e concluí que uma alternativa em específico solucionaria todos os problemas dessa classe tão sofrida, para aqueles que não suportam mais o voto de castidade. São apenas quatro passos básicos:

1) O papa já é um homem bastante velho, e pode não compreender, mas para evitar quebrar as regras, libere a masturbação! É aquela história: se não sair por bem, vai sair por mal mesmo; ou seja: sai de qualquer jeito.

2) Feito o voto, cada padre ganha uma muda de bananeira. Esta muda o acompanhará aonde ele for e será plantada em seu local de trabalho assim que possível. Sempre que se muda o local de trabalho, ganha-se uma nova muda.

3) É necessário esperar a bananeira crescer, mas, como é apenas uma bananeira, não há problema em se “divertir” com ela enquanto pequena, da mesma forma criativa que fazem com as crianças.

4) Quando a bananeira já estiver formada, o padre deve fazer um furo cilíndrico, na altura de seu falo e com a devida largura e profundidade para tal. Para isso necessitará de uma régua, um compasso e uma faca, mas sugiro como alternativa um martelo e um cano PVC, para furar (retirar ou não o cano fica a critério de quem faz).

Pronto! Eis que surge a “mulher do padre”. Uma bananeira onde se pode “descarregar as energias” sem se preocupar com reclamações, processos, intervenções na carreira profissional, doenças etc. Além da seguinte vantagem: as bananeiras são versáteis. Pode-se usar na posição “ativo”, facilmente imaginável, ou na posição “passivo”, encaixando a banana formada por ela mesma no furo feito para o falo e utilizando-a de costas!
Acredito que sexo com bananeiras não caracteriza homossexualidade, pedofilia ou quebra do voto de castidade, devido a suas características vegetais.

O fato é que, independente da posição religiosa/filosófica de cada um, hemos de convir que é melhor alguns padres apinhados de bananas do que crianças inocentes nuas em suas camas.

Em minha última coluna, falamos sobre a inexistência dos tais “elos perdidos”. Comentamos também que as espécies diferenciam-se através de pequenas etapas, fato este que pode ser observado atualmente com as espécies em anel, que além das gaivotas que comentei, também são representadas pelas salamandras da Califórnia (discutidas no último texto de Eduardo).

No caso dos humanos, as etapas de diferenciação que nos separam dos chimpanzés ocorreram na dimensão tempo e não somente na dimensão espacial como nas espécies em anel. Desta forma, a única maneira de termos contato com estas espécies seria por meio dos fósseis, que neste caso são apelidados de fósseis de transição.

É claro que os criacionistas, em seu ceticismo parcial, não aceitariam tais fósseis como evidência; afinal, para eles, o registro está incompleto, existem vários buracos na continuidade de um fóssil para outro.

Nem todos os mortos se tornam fósseis, já que o processo de fossilização requer uma série de condições muito especiais para ocorrer. Porém, quando ocorre, deixa um registro para a posteridade, algo como uma fotografia daquela espécie naquele período.

Observemos as duas fotos abaixo:

 

Sabemos que a foto da direita representa o Rei Pelé. Porém, de que maneira poderíamos ter certeza de que o simpático garoto da esquerda também é o Rei? Quem sabe poderíamos juntar as tais fotos de transição.

 

Ainda não é o suficiente; mesmo que juntássemos todas as numerosas fotos que foram tiradas ao longo da vida do Pelé, não cobriríamos todas as falhas desta transição. Mesmo que tirássemos uma foto a cada minuto da vida do Rei, não seria suficiente para aqueles que acreditam (como eu) que o Rei Pelé foi criado por uma inteligência superior, os buracos de um minuto na sequência de transição seriam inaceitáveis.

Aliás, para quem duvida da origem superior do Rei, curvem-se diante destes fatos:

httpv://www.youtube.com/watch?v=AFSbUPgjRio

O que acontece aos 2m54s não pode ser explicado pelas leis naturais.

No século XIX, décadas antes de Einstein ter proposto suas contra intuitivas teorias da relatividade, pairava no meio científico a dúvida sobre a existência do éter luminífero. Não só a intuição, mas também o conhecimento sobre a natureza das ondas sonoras (que constituem a vibração de um meio material tal como o ar, ou qualquer porção de líquido ou corpo sólido) levavam cientistas a postular a existência desse elemento. Tendo a luz, tal como o som, a natureza de onda, o éter luminífero seria o meio através do qual ela se propagaria. Em outras palavras, a propagação da luz consistiria na vibração desse meio. Era estranha a ideia de que a luz se propagasse no vácuo, onde não há o que vibrar.

Dispostos a esclarecer a dúvida, em 1887 os físicos Albert Michelson e Edward Morley propuseram e realizaram um experimento[1] capaz de constatar a existência do éter, como acreditavam, e que poria fim à questão. O engenhoso experimento era baseado na grande velocidade com que a Terra se desloca na órbita em torno do Sol (cerca de 107.000 km/h) e, portanto, em relação ao éter, e tentava constatar uma diferença de tempo entre dois feixes de luz que percorreriam uma dada distância, mas em direções perpendiculares. Na sua fundamentação, um dos feixes de luz seria desfavorecido pela corrente contrária de éter causada pelo deslocamento da Terra sobre o éter no espaço, levando mais tempo para percorrer a mesma distância[2].

O dado curioso a respeito desse famoso experimento é que, embora ele tenha sido possível de realizar fosse bem fundamentado teoricamente, o resultado foi exatamente o contrário do que esperavam seus autores. Não se constatou nenhuma diferença no tempo de percorrimento dos feixes perpendiculares e, em vez de provar a existência do éter, como pretendido a princípio, acabou por afastar a hipótese da existência. Outras versões mais refinadas do experimento foram realizadas desde então, obtendo o mesmo resultado negativo.

Como se sabe, em ciência o conhecimento é produzido empiricamente. É possível descobrir não só se algo faz parte da realidade, como também se não faz; desde que esse algo esteja bem definido, tendo características detectáveis ou, melhor ainda, mensuráveis. Quando descreve o dragão na garagem, Carl Sagan[3] usa o artifício de jamais defini-lo objetivamente, conseguindo com isso sempre manter a hipótese da existência como possível. Tal como outros seres míticos em outras literaturas.

 

Referências

[1] Experimento de Michelson e Morley <http://pt.wikilingue.com/es/Experimento_de_Michelson_e_Morley>. Acesso em 6 de maio de 2010.

[2] Simulador para a hipótese do experimento <http://galileoandeinstein.physics.virginia.edu/more_stuff/flashlets/mmexpt6.htm>. Acesso em 6 de maio de 2010.

[3] SAGAN, Carl. “Um dragão em minha garagem”. In: O mundo assombrado pelos demônios.

A crescente expansão do universo evidenciada pelo afastamento das galáxias entre si fez aventar a possibilidade de um momento muito anterior no qual toda a massa estaria unida em um único ponto supercondensado que, por alguma razão, explodiu e gerou o que conhecemos hoje como leis da física.

Esse afastamento pôde ser observado por um processo chamado de “desvio para o vermelho” (redshift, no original inglês) [1]. Para um emissor e um receptor de luz estáticos, a frequência da onda eletromagnética é sempre a mesma e, por isso, conseguimos identificar uma cor que lhe é característica. Para emissores e receptores dinâmicos entre si, no entanto, há um desvio de frequência que dá a impressão de mudança de cores. Se o emissor se move em direção ao receptor, este desvio vai para as faixas eletromagnéticas de maior frequência, fenômeno conhecido como desvio para o azul. Quando o emissor se afasta do receptor, o desvio se dá para o vermelho.

É com base nesse exame espectrográfico que podemos medir a velocidade de expansão do universo. Para tal, usamos como medida padrão o desvio para o vermelho de quasares [2], por serem os mais elevados e, portanto, os mais distantes da Terra. Alguns quasares se afastam da Terra com velocidade aproximada de 90% da velocidade da luz. Os mais distantes se encontram a aproximadamente 10 bilhões de anos-luz de nosso planeta.

Voltando à nossa gênese: depois da rápida expansão inicial, sugiram os elementos mais leves da tabela periódica, fato observável até hoje pela sua proporção: hidrogênio e hélio, os dois mais leves, constituem cerca de 95% de toda a massa bariônica do cosmos [3]. Já os elementos mais pesados surgem da fusão dos mais leves, geralmente no interior de estrelas. O nosso Sol [4], por exemplo, fusiona dois prótons (reação próton-próton) de hidrogênio em um núcleo de hélio, liberando dois pósitrons, dois neutrinos e uma quantidade massiva de energia, tão essencial para a vida na Terra.

No entanto, é no interior de estrelas mais massivas que o hélio é formado a partir de um ciclo de reações conhecido como carbono-nitrogênio-oxigênio [5]. A reação se inicia com a fusão de dois prótons de isótopos de carbono, nitrogênio e oxigênio, que atuam como catalisadores da reação principal, liberando dois neutrinos carregados de energia que escapam da estrela, e dois pósitrons, que se anulam imediatamente com elétrons, liberando energia na forma de raios gama.

Quando estrelas gastam todo o seu material de fusão, seu estágio final dependerá de sua massa crítica. Prevê-se que nosso Sol tornar-se-á uma anã branca, condensando sua massa num volume muito menor do que o seu original. São nessas condições de densidade que podem se formar os diamantes estelares, com suas gigantescas pedras de carbono [6]. É da explosão dessas estrelas mais massivas que surge o carbono que, ao ligar-se a outros elementos na Terra, dá origem à química orgânica, sem a qual não teríamos vida como a conhecemos.

Uma outra forma de evidenciar o Big Bang é através de suas consequências. A explosão causada pela singularidade deveria deixar rastros perceptíveis até hoje, aproximadamente 13,5 bilhões de anos depois. Esse “eco” é o que conhecemos atualmente como radiação cósmica de fundo [7], que pode ser captada por aparelhos extremamente simples. Com esse olhar “arqueológico”, podemos chegar até o limite máximo posterior à singularidade, quando as quatro forças fundamentais da física – a saber, gravitacional, eletromagnética e nucleares forte e fraca – tiveram sua alvorada. Experimentos para saber o que há além disso estão sendo conduzidos no Conselho Europeu para a Pesquisa Nuclear (CERN, na sigla em francês) [8], através do Grande Colisor de Hádrons (LHC, na sigla em inglês) [9], num túnel a 100 m de profundidade, na fronteira entre Suíça e França.

Além dos esforços de observação, temos modelos matemáticos que buscam explicar os momentos para os quais ainda não temos evidências diretas. Tais modelos tentam calcular, através de equações, as variáveis envolvidas nos processos que buscam analisar. É a partir desses modelos que podemos especular a posição de nosso universo [10] e o que existia antes do Big Bang [11].

Referências:

[1] <http://en.wikipedia.org/wiki/Redshift>. Acesso em 21 abr. 2010.

[2] <http://en.wikipedia.org/wiki/Quasar>. Acesso em 21 abr. 2010.

[3] <http://en.wikipedia.org/wiki/Abundance_of_the_chemical_elements#Abundance_of_elements_in_the_Universe>. Acesso em 2 maio 2010.

[4] <http://pt.wikipedia.org/wiki/Fus%C3%A3o_nuclear>. Acesso em 21 abr. 2010.

[5] <http://pt.wikipedia.org/wiki/Ciclo_CNO>. Acesso em 21 abr. 2010.

[6] <http://www1.folha.uol.com.br/folha/bbc/ult272u28888.shtml>. Acesso em 21 abr. 2010.

[7] <http://pt.wikipedia.org/wiki/Radia%C3%A7%C3%A3o_c%C3%B3smica_de_fundo>. Acesso em 21 abr. 2010.

[8] <http://public.web.cern.ch/public/>. Acesso em 21 abr. 2010.

[9] <http://public.web.cern.ch/public/en/LHC/LHC-en.html>. Acesso em 21 abr. 2010.

[10] <http://www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=universo-dentro-buraco-minhoca&id=010130100413>. Acesso em 21 abr. 2010.

[11] <http://www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=o-que-existia-antes-do-big-bang&id=010130090105>. Acesso em 21 abr. 2010.

Emocionalmente, entender a realidade como um sistema físico impessoal equivale a desumanizá-la, ou seja, remover todos os atributos subjetivos que nela havíamos projetado, o que em certo sentido significa matá-la. Para compreendê-lo melhor, basta imaginar a seguinte situação: estávamos pesquisando em uma biblioteca, e por acaso encontramos um documento com nosso nome; ao lê-lo, descobrimos que todos os nossos familiares na verdade não são seres humanos: são máquinas pré-programadas para conviver conosco; elas gostam de nós automaticamente; até mesmo seus sentimentos são reações químicas em seus processadores centrais. Pois bem, mesmo que tal compreensão não mudasse nada na prática, sabê-lo não seria emocionalmente devastador? O sentimento de que tudo nunca passou de uma grande mentira nos esmaga. Agora basta perceber que não se trata de ficção científica: eles realmente são máquinas, e nós também. Todos são. A vida é um sonho dentro de uma máquina. Diante disso, ficamos atônitos, perplexos; e luto é a melhor palavra que nos ocorre para descrever esse sentimento niilista de vazio existencial, pois temos a exata sensação de que algo morreu, embora não saibamos dizer muito bem o quê; tudo morre um pouco.

por Elisa Maia

Eu me considero uma pessoa de sorte: nasci numa família ávida por mim, pelo meu crescimento e florescimento como ser humano, disposta a acreditar no meu potencial e a investir todo o possível no meu futuro. Fui acolhida em minha fragilidade primordial e assistida em todas as necessidades, materiais e imateriais. Quando tive frio, recebi o calor dos cobertores e do afeto; quando tive medo, recebi as armas para enfrentá-lo – o escudo da proteção do clã e a espada do empoderamento.

Havia, porém, um incômodo sempre presente: a fome. Não a fome do corpo, pois nunca passei sem almoço e jantar, e sim a fome da mente. Fome de conhecer, de saber, de decifrar, de compreender. (“Compreender”: entender, perceber. Mas também: abraçar, envolver). Desde sempre, concebi o conhecimento como o único meio de se conquistar o mundo, de obter força, poder e sabedoria.

Novamente, tive sorte: meus tutores sempre buscaram saciar a minha fome. Deram-me educação escolar e educação familiar, livros e conversas, discursos e exemplos. Mas, acima de tudo, me deram amor: amor que se refletiu na liberdade para fazer minhas perguntas e buscar minhas respostas, amor que me acolheu em todas as minhas dúvidas e posicionamentos, fossem eles quais fossem. O amor foi, desde o começo, o fator que permitiu minha libertação. O amor nutre e faz crescer.

Mas agora, feita essa constatação, faz-se necessário olhar para aqueles que não tiveram sorte: aqueles que foram privados de amor. O que perderam? No que se tornaram deficientes?

Lembro-me de um caso contado quando trabalhava numa escola pública para jovens em risco social: a mãe havia dado à luz gêmeos. Pobre, desnutrida e desesperada, ela costumava largar os dois bebês num quintal abandonado durante o dia, quando saía para trabalhar, na esperança de que pelo menos um deles sucumbisse ao frio, à fome ou ao ataque das cobras e escorpiões. Assim, a responsabilidade pela eventual morte das crianças seria, ao menos e em última instância, não dela, mas de um suposto juiz onipotente.

Os meninos sobreviveram. Mas apenas isso. Descartados desde o nascimento, cresceram à margem da humanidade, como muitos outros. A subnutrição do cérebro resultou no raquitismo de pensamento. Carregados de ódio e desprezo, é ódio e desprezo o que agora atiram à sociedade, aos outros, que para eles são muito mais outros do que para nós.

Como eles, muitos cresceram e crescem com fome e sem amor. Nunca viram a bondade, por isso chegaram à conclusão de que ela não existe. Pelo menos, não para com eles. Enxergam um mundo desfigurado pela violência a que foram submetidos, e projetam sua existência de acordo com esse mundo pervertido. É aterrorizante constatar que hoje, no tão celebrado século XXI, tantos de nós ainda vivam entre a humanidade primitiva de milênios passados. Nossa civilização falhou com essas pessoas.

Vem-me agora outra lembrança daquela escola: duas professoras conversavam com um aluno, menino franzino de onze anos, resumido pelo olhar jornalístico a delinquente juvenil. As professoras queriam saber se ele vinha se comportando bem, se não vinha “aprontando” mais nada. Ele, convicto, respondeu: “Eu não! Jesus tem poder”.

Eis algo que todos nós – ateístas, secularistas e racionalistas, tanto quanto teístas, religiosos e fundamentalistas – devemos admitir, mesmo a contragosto: sim, Jesus tem poder. Jesus, Deus, ou qualquer um dos muitos modelos de Redentor, ainda possui grande poder para aqueles que buscam desesperadamente amor e todas as benesses que decorrem deste sentimento: aceitação, dedicação, proteção, perdão, ensinamento. O Salvador, qualquer que seja seu nome ou religião, tem o poder de fazer os rejeitados da humanidade sentirem-se acalentados pela divindade.

A descoberta do amor divino pode operar transformações tão intensas na vida dessas pessoas que ele é comumente dito milagroso, curador, libertador. Para os carentes de afeto humano, Deus surge como o provedor amoroso, e a religião, como o modo de vida saudável e tranquilo que a civilização traidora lhes prometera. Para essas crianças perdidas, Deus é o mapa e o caminho. Tudo o que nós não lhes demos, Deus oferece. Tudo que não lhes ensinamos, Deus ensina. Por Deus, o único ser que lhes promete amor eterno, elas farão sacrifícios. A Deus, pai do céu que supre a falta do pai terreno, elas obedecerão com humildade e alegria, mesmo que suas ordens sejam as mais severas.

O amor divino, ainda que irreal, supre a carência dessas crianças. A crença nesse amor é o que leva muitos a adotarem condutas melhores, a buscarem a honra, a dignidade e a retidão dentro de si mesmas. Porque aprendem que Deus acredita nelas, elas passam a acreditar em si mesmas. Eis por que Jesus segue tendo poder.

Frente a esse quadro, emerge a dúvida perturbadora: onde Deus ainda se faz tão necessário, onde a religião ainda funciona como pão e guia, seria correto revelar a verdade aos milhões de rejeitados, lançando-os mais uma vez ao abandono?

 

(artigo recebido em 14 de abril de 2010)

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