Monthly Archives: junho 2010

Umas semanas atrás eu estava conversando sobre evolução com um criacionista. Em um momento do debate, ele alegou que a única evolução que ele considerava verdadeira era a dos pokémons. Claro que ele estava tentando ser irônico, mas como o resto da argumentação dele não estava grandes coisas eu resolvi desistir. Daí então me ocorreu a seguinte pergunta: até que ponto a cultura pop reflete o conhecimento de evolução da população geral?

Xmen, Spore, e Pokémon são exemplos de como a evolução aparece na cultura pop. Obviamente, nenhum desses três exemplos tem a pretensão de ensinar preceitos básicos de biologia a quem quer que seja.

A "verdadeira evolução", segundo alguns criacionistas.

Seria de se esperar que as pessoas enxergassem a evolução de uma maneira muito diferente do que a apresentada pela televisão ou por jogos eletrônicos. O que acontece é que ela não é tão diferente assim. A “evolução” que presenciamos na cultura pop é um reflexo de como ela é vista pela grande massa de leigos não-curiosos. Isso é algo meio preocupante; percebo nas perguntas que me fazem a respeito da teoria neodarwinista e vejo algumas ideias obsoletas encravadas nelas, ideias que podemos encontrar nos Xmen e no Pokémon, por exemplo. Vou falar sobre esses dois mais tarde. Deixarei Spore de fora, pois é um jogo para computador relativamente recente que, ao que parece, aborda a evolução de maneira um pouco mais fiel do que os outros dois exemplos.

Pokémon. Para todos os que nasceram nos anos 90 ou segunda metade dos 80 esses monstrinhos nipônicos certamente são bem familiares. Aos que ainda não conhecem, Pokémon é uma série de jogos que se expandiu para a TV, mangás e virou filmes. Trata de bichos encontrados na natureza que podem ser confinados em pequenas bolas – as pokébolas – que cabem na palma da mão. Esses mesmos bichos estão condenados a serem usados em batalhas que envolvem outros seres de semelhante natureza e situação. Resumindo, a série é uma briga de galo ao melhor estilo otaku. Isso é apresentado para crianças e, posso confirmar, na minha época de pirralho eu achava tudo isso muito divertido. A parte interessante é que esses mesmos bichos evoluem. Depois de muito tempo lutando, um determinado pokémon pode se transformar noutro, maior e mais forte.

Evidentemente que a “evolução” desses monstrinhos serve tão somente para dar uma apimentada no gameplay. Uma “evolução” tão caricata e despretensiosa não tem – ou ao menos não teria – como ser interpretada de outra maneira. O que me espanta é o número de vezes em que eu encontro perguntas semelhantes a esta: “se a evolução existe, como é que eu nunca vi um peixe se transformando em um anfíbio?”. Devo dizer que já fiquei muito tempo imaginando de onde diabos o sujeito tirou que um peixe deveria se transformar em um anfíbio. A única resposta que me veio em mente foi Pokémon. Fora as variantes dessa pergunta, como sapos se transformando em passarinhos, macacos em humanos e demais metamorfoses impossíveis. Não existe absolutamente nada dentro da teoria evolucionista dizendo que um indivíduo de certa espécie deveria se transformar noutra. Outro conceito presente dentro dos pokémons é que uma evolução sempre é melhor que a sua antecessora. Ao passo que imaginar a evolução como uma metamorfose de uma espécie em outra é um erro tacanho cometido apenas por uma “elite” de alienados, supor que ela é uma força geradora de seres progressivamente mais complexos é um erro comum. Essa ideia de evolução e progresso é quase onipresente na cultura pop não sendo exclusiva dos pokémons.

E então temos os Xmen. Um número bem maior de gerações está familiarizado com esses senhores. Além da ideia, muito comum, de que evolução traz sempre alguma melhoria, os Xmen trabalham com o mito da evolução do homem (e da mulher também). A humanidade ficou muito tempo sendo apenas humana e, segundo os quadrinhos, chegou a hora de evoluir. E que evolução! Uns evoluem para seres com poderes psíquicos, outros controlam o ferro e temos ainda os que emitem raios pelos olhos. E todas essas mutações maravilhosas acontecem no mesmo bendito gene, o tal do “gene x”. Pois bem, isso são apenas detalhes. Da mesma maneira que os pokémons evoluem da maneira deles, os Xmen assim o fazem apenas para servir de entretenimento e não devem ser levados a sério. Bom, mas assim como o exemplo anterior, aqui reflete a maneira que o grande público vê a evolução. Nesse caso, mais especificamente, a evolução humana. “Quando vamos evoluir?”, já li perguntarem. Ou então: “Se nós somos seres-humanos, por que os macacos já não evoluíram para humanos também?”. Essas são perguntas que eu realmente leio na internet. Algumas vezes, os autores dessas perguntas acham que encontraram uma falha grotesca na teoria, quando deveriam supor falta de estudo (o que é o caso). Acontece que evolução não é uma obrigação mas sim uma consequência. São linhagens de indivíduos, populações, que se dividem em mais linhagens. Cada conjunto de indivíduos vai sofrer pressões seletivas diferentes se adaptando de acordo com elas, e então temos a evolução. Ela não vai bater na porta de sua casa e dizer: “Chegou a hora de evoluir”.

É muito estranho, mas parece que um europeu em pleno século XIX teria mais facilidade de compreender a teoria do que um leigo alienado de nossa época. Vimos como a evolução aparece na cultura pop. Vimos também como muitas perguntas a respeito da teoria evolutiva feitas pelo público leigo se assemelham muito mais à “evolução” encontrada em desenhos, filmes e jogos do que com a teoria propriamente dita. Hoje nós vivemos em uma época na qual a aquisição de informação é fácil (chega a ser conhecida como a “era da comunicação”). Mas então, como tantas pessoas estão tão desinformadas quanto a certas teorias? Bom, para começar, a informação está em todo o lugar, mas só quem quer encontrá-la usufruirá dela. A grande maioria das pessoas não possui tanto interesse assim no que a teoria evolutiva diz ou deixa de dizer, o que já é um problema, principalmente para a miríade de críticos que certamente não leram nenhuma obra cientifica relacionada ao tema.

Na época de Darwin, praticamente toda a população estava envolvida com algum tipo de criação, desde cereais até pombos (animais que Darwin utilizou para embasar a seleção natural, na Origem das Espécies). Todo mundo tinha muito mais contato com a natureza e não era difícil perceber como a seleção artificial afetava intensamente a constituição dos seres vivos trabalhados. Darwin expandiu a ideia bem fundamentada de seleção artificial para a natureza sem influência antrópica e por isso foi tão eloquente. Hoje muitas pessoas compram um frango no supermercado sem ter a menor ideia de todo o processo de criação que levou uma ave silvestre a se tornar um animal doméstico com o passar das gerações. Comemos milho sem conhecer a sua longa história como cereal que tem o seu início com os Maias e Astecas. Vivemos na ilusão de que somos melhor informados a respeito do mundo graças aos avanços da comunicação, mas o que vejo é uma multidão indo em direção contrária.

Observe com atenção a figura abaixo:

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Estão representados nessa gravura alguns gestos manuais do nosso cotidiano. Você provavelmente conseguiu identificar o significado de muitos deles, talvez de todos.

Esses são sinais conhecidos em todo o mundo. Aonde quer que você vá, é possível entender e se fazer entender utilizando qualquer um desses exemplos, apesar de alguns sofrem variações em seu significado.

Apontar para algo ou alguém não gera dúvidas quanto ao que se quer dizer; porém, pode ser que, numa excursão por uma tribo apache, você peça, com um gesto, para o índio parar, mas este, entendendo como apenas um cumprimento, responda: “Haw!” e continue seu caminho; ou que, num passeio pela Austrália, entre num bar e, percebendo algum clima não muito amistoso, cumprimente alguém utilizando-se do gesto que representa “paz e amor”. Fazendo-o, num descuido, com as costas da mão voltadas para o sujeito em questão, que não aceitará o insulto envolvendo sua progenitora. Pode-se perceber então que, apesar de determinados gestos serem universais, estão sujeitos a diferentes significados, gerando desentendimentos ignoráveis ou não.

Gestos também têm o poder de motivar ou enfurecer. Quando você faz um trabalho cuja qualidade se considera particularmente boa, a aprovação, mesmo que dita apenas com as mãos, traz certa satisfação pessoal, reforçando a continuidade de tal padrão de trabalho. No trânsito, um gesto obsceno pode ser o gatilho para uma briga séria. Ninguém precisa te explicar o significado, pois você já sabe, assim como ninguém te pergunta por que você sabe, pois parece claro que isso foi aprendido pelo contato com o meio, que tradicionalmente já utilizava esses gestos.

Algo intrigante em relação aos gestos representados na gravura é que, pelo menos em sua maioria, não se sabe dizer quando e onde eles foram criados, se são manifestações intrínsecas do ser-humano ou mero aprendizado e, se assim o são, por que são utilizados, mesmo que de diferentes formas, em povos isolados?

Com certeza não fazem parte de um plano maior, nem nada de sobrenatural. Na verdade não aparenta ser algo que necessite atenção. Não mudaria em nada o modo como os gestos são utilizados, ou o poder que exercem sobre o movimento e a psique humana. Seria uma grande perda de tempo, cujos anos de pesquisa estariam propícios a resultarem em contradições, devido à variedade de abordagens, muitas delas divergentes entre si, porém com os mesmos princípios lógicos e/ou filosóficos.

E se os gestos se chamassem Deus?

Há poucos dias, criacionistas tiveram mais uma importante derrota nos tribunais dos Estados Unidos. Um juiz federal negou ao ICR (Instituto para Pesquisas Criacionistas) a possibilidade de oferecerem o grau de Mestrado em Ciências com “uma perspectiva do criacionismo bíblico-científico”. Atribuindo a jovens crentes o grau de Mestre em Ciências, o ICR poderia diminuir a escassez de Criacionistas “Cientistas” que promovam a Teoria da Terra Jovem.

As batalhas nos tribunais americanos não são nada novas. Começaram com o Julgamento de Scopes em 1925, no qual um professor do ensino médio, John Scopes, foi acusado do ensino ilegal da Teoria da Evolução no Estado do Tennessee. Esse julgamento ganhou grande notoriedade nos EUA, juntando grandes juristas tanto do lado da defesa quanto da acusação e até virou o filme O Vento Será Tua Herança, em 1960. Ao final do julgamento, Scopes foi considerado culpado, o que lhe garantiu uma multa de U$ 100, o equivalente nos dias de hoje a aproximadamente R$ 2.200. O julgamento elevou as proibições em diversos outros estados que só seriam derrubadas em 1968 no julgamento Epperson vs Arkansas.

Susan Epperson era uma professora secundária que se viu em um dilema. Deveria seguir a recomendação de adotar um novo livro que discutia a evolução, ou seguir a lei que proibia o ensino da Evolução no Estado? Susan Epperson decidiu levar o caso à justiça e o estendeu até a Suprema Corte Americana, órgão máximo da justiça. Nesse julgamento, a corte deu ganho de causa aos professores, alegando que a proibição feria a primeira emenda da constituição americana, que prevê a separação do Estado das Religiões.

A saída adotada pelos criacionistas foi tentar ensinar o criacionismo e a Evolução juntos, como se tivessem a mesma importância dentro da ciência. Nascia aí o termo “Criacionismo Científico”. O caso foi novamente à justiça, em 1982, no Estado de Arkansas e, em 1987, na Suprema Corte dos Estados Unidos. Nesse segundo julgamento, uma carta, assinada por 71 ganhadores do Prêmio Nobel, 17 academias estaduais de ciências e outras 7 associações científicas, foi entregue aos juízes afirmando que o criacionismo não possuía nenhuma qualidade científica e era composta de diversos elementos religiosos. Assim, o criacionismo foi banido do currículo de ciências nos Estados Unidos.

O resultado desse julgamento obrigou uma mudança de estratégia por parte dos criacionistas: já que não podiam ensinar o criacionismo, eles passaram a atacar o evolucionismo e rebatizaram o Criacionismo para Design Inteligente, diferenciando-os apenas pelo detalhe de não nomear deuses como a inteligência responsável pelo design.

No distrito de Dover, na Pensilvânia, dois membros do conselho de educação, que por acaso também eram criacionistas da Terra Jovem, conseguiram convencer a maior parte do conselho que era inadmissível que um livro dissesse que o homem descende dos macacos, não havendo nada para contrabalancear essa hipótese. Desta forma decidiu-se que o Design Inteligente deveria ser ensinado para os estudantes.

Tammy Kitzmiller, mãe de um aluno, decidiu levar o caso à justiça, e argumentou o óbvio, que o Design Inteligente era apenas mais uma roupagem para o velho criacionismo. Os defensores convocaram, como testemunha, diversos especialistas. O primeiro deles foi Michael Behe, bioquímico e autor do famoso livro A Caixa Preta de Darwin, um dos marcos do Design Inteligente.

Em seu depoimento, Behe, sob juramento, assumiu não haver qualquer artigo revisado por pares que suporte o design inteligente. Além disso, assumiu que pelo conceito de teoria científica que o Design Inteligente se encaixava, a astrologia também poderia ser considerada como cientificamente válida. O juiz concluiu, desta forma, que o ensino do Design Inteligente era inconstitucional e assim, não mais poderia ser ensinado nas escolas.

Os criacionistas, para não caírem no ostracismo, reuniram esforços na difícil tarefa de embasar cientificamente suas afirmações e, para isso, procuram aumentar o número de crentes cientistas pagando altos prêmios, investindo em “pesquisas” e criando universidades. Felizmente, desde 1925, a justiça têm sido coerente colocando o criacionismo em seu lugar de direito: junto das doutrinas religiosas.

Que é ser ateu? Que é ser religioso, seja qual for a congregação? É simplesmente aquiescer a um juramento pré-determinado para saber se se encaixa nesta ou naquela rotulação. Na falta de crença, é afirmá-la, por quaisquer motivos. Na presença dela, é simplesmente aceitá-la. São estados de mente; serenas posturas filosóficas para responder quando se é perguntado. Não existe uma doutrina ateia, assim como não existe uma doutrina cristã, muçulmana, budista, judaica ou xintoísta. Dentro de suas paredes conceituais, são todos dissidentes irreconciliáveis. Qualquer adjetivo comum além do rótulo abnóxio cai na falácia do espantalho. Não passo a ser religioso por visitar templos, nem deixo de sê-lo por não visitá-los. No fim das contas, cada um fala por si e segue os exemplos que julgar interessantes. Se não concordamos com países teocráticos é porque sabemos como líderes carismáticos podem ser perigosos para a política; não porque suas visões de mundo são incompletas ou porque acreditam em coisas improváveis. Qualquer argumento que usemos contra a paixão religiosa pode ser usado para atacar qualquer outra ideia apaixonadamente defendida. Afinal, é isso: queremos nos outros o niilista imparcial que não podemos ser e passamos a atacar quem não se encaixa na nossa projeção ascética. Por coerência, respeitamos mais os religiosos que seguem suas confissões arcaicas ao pé da letra, por seguirem o ideal de entrega que a sociedade atual não consegue emular, do que o religioso ecumênico que cria para si um conjunto flexível de crenças para não ir de encontro ao mundo em que vive. No fundo, a causa antirreligiosa se resume a advogar pela perda de uma grande paixão em favor de várias outras menores, na esperança de que os absurdos que não toleramos passem a ser suportados em doses homeopáticas. Grupos sempre serão autoexcludentes e, sendo iguais em todos os aspectos que nos tornam demasiadamente humanos, resta-nos fazer diferença em nossas posturas filosóficas, fingindo ser motivo suficiente para toda essa discórdia. Se um mundo sem religião seria melhor? Exatamente na mesma medida em que todos os motivos que nos fazem querer o seu fim também nos façam pedir pelo fim das outras paixões. Combatamos os homens ruins que estão no poder e torçamos para sua periodicidade no comando ser a tônica de nossa representação, pois a perversidade individual ou inconsciente coletiva será a mesma, não importa que nomes tenha.

Um indivíduo que abraça todas as oportunidades de defender seu ponto de vista, que tenta explicá-lo a todos os que se dispuserem a ouvir, sempre encontrando um meio de relacionar qualquer assunto à sua ótica particular, é um fanático. Ele está apaixonado. Não consegue mudar de assunto. Todos sabemos o que é uma paixão, e é indiferente se ela se direciona a uma pessoa ou a uma ideia, tampouco se essa ideia é verdadeira ou não. Inspirado pelo sentimento místico de iluminação interior, o indivíduo se sente inclinado a mudar o mundo sem jamais mudar a si próprio, mas aqueles que o cercam só veem alguém que nunca muda o assunto.

Agora imaginemos a seguinte situação: somos apresentados a um vídeo no qual vemos alguém numa praça pública defendendo seu ponto de vista ardorosamente, interrompendo todos os que se encontram no caminho para propagandear suas convicções. Logo percebemos que se trata de um fanático. Porém, eis o detalhe: o vídeo em questão não tinha áudio, com imagens de pouca definição. Inferimos que se tratava de um fanático pela forma como se comportava em relação às suas ideias, pelo modo agressivo como tentava impô-las, não pelo seu conteúdo propriamente dito. O indivíduo poderia muito bem ser um ateu falando de evolucionismo; não faz diferença. O fanatismo independe do conteúdo da crença — e até a postura mais racional pode ser defendida fanaticamente. Por isso mesmo, o fanatismo também não indica se um ponto de vista está certo ou não. A verdade depende dos fatos, não da convicção.

O exemplo acima nos permite distinguir entre a forma de uma ideia e o conteúdo dessa mesma ideia. Assim, por motivos diferentes, um indivíduo torce por um time, outro torce por um time diverso, mas a forma de ambos é a mesma: eles torcem. Muda apenas o conteúdo, a explicação que dão para justificar seus atos, ainda que isso não justifique nada.

Pois bem, suponhamos agora que o indivíduo realmente fosse um ateu. Naquela situação, ele estava defendendo a ciência com o mesmo ardor com que um beato se curva à cruz. Poderíamos recorrer à explicação segundo a qual não é possível que um ateu seja fanático, pois o ateísmo não é uma crença, e sim uma descrença, mas isso é meramente um rodeio vocabular. Nenhuma argumentação muda o fato de que ele se comportava exatamente como um igrejeiro.

A conclusão é que para um indivíduo ser fanático basta que se comporte como um. Não importa se suas convicções têm fundamento ou não. Por isso, na medida em que se torna prescritivo — seja por si próprio, seja na forma de antimovimento —, o ateísmo — ou qualquer outro ponto de vista — também não se distingue de uma religião.

Em meu texto anterior, procurei fazer uma comparação entre a paixão por um time de futebol e por uma congregação religiosa. Procurei demonstrar como cada séquito religioso busca se firmar como verdadeiro e estabelecer de vez o seu poder enquanto representantes oficiais de uma determinada religião. É assim com o cristianismo, islamismo, judaísmo, xintoísmo, animismo, e por aí vai. Hoje vamos nos aprofundar nas diferenças entre as religiões e as possíveis explicações lógicas para esse ânimo defensivo sempre que confrontados os seus dogmas e as suas ideologias.

Dando início a esse intento, devo introduzir uma breve e interessante estória. Há aproximadamente 180 anos atrás, um norte-americano que atendia pelo nome de Joseph afirmou ter testemunhado a aparição de um anjo em seu quarto, enquanto rezava. Esse anjo o havia instruído para procurar em meio a uma floresta na Pensilvânia por duas grandes placas de ouro. As placas, segundo Joseph, estavam escritas na língua dos anjos, e apenas com a utilização de dois ornamentos esculpidos em pedra seria possível a sua tradução.c

O jovem Joseph, então, traduziu aquela revelação e escreveu um livro, que nos ensinava a respeito de uma antiga população de judeus vivendo nos Estados Unidos há milênios, que teriam erguido imensas cidades e guerreado entre si. Afirmava também existirem três mundos póstumos, qualificados por uma espécie de índice de satisfação, e apenas aos que seguissem a sua revelação seria garantido o posto mais alto. Joseph afirmava também que seus fiéis restabelecessem a tradicional poligamia e que, na época de Cristo, negros opressores também habitavam terras americanas. Jesus, entretanto, três dias após ser crucificado, haveria se revelado a esse povo do hemisfério norte. Os Judeus então teriam aprendido sobre a verdade e os negros, como punição pelos seus crimes, foram escravizados.

Para qualquer brasileiro de inteligência normal que não tenha sido afetado por essa tacanha doutrina, a estória narrada certamente parecerá estranha e absurda. Não é difícil constatar que há dois mil anos não existiam judeus ou negros vivendo nos Estados Unidos, bem como nunca foram reveladas ao público aquelas placas de ouro das quais Joseph falava. Talvez surpreenda alguns saber que existem por todo o mundo pessoas que defendem veementemente a veracidade deste conto. Tenho certeza de que o leitor já se deparou com algum missionário mórmon, que se autointitulam Santos dos Últimos Dias (por acreditar que são escolhidos e serão os únicos a sobreviver ao Apocalipse), afirmando possuir as verdades relevadas a Joseph Smith Jr. pelo anjo Morone.

E se nós ousássemos modificar um pouco essa estória, e ao invés de um norte-americano rezando em seu quarto, adotássemos um árabe rezando dentro de uma caverna, e a exemplo da primeira estória, um anjo haveria aparecido e mantido um diálogo com ele por onze anos? Para encurtar a nossa lenda, vamos dizer que este Árabe, que aqui chamaremos de….Maomé, recebe de presente um cavalo alado, através do qual ele viaja até o paraíso. Parece estranho, não é mesmo? Mas muito mais popular do que o mormonismo, o islamismo tem crescido de forma desenfreada na Europa e Oriente médio (graças a alta taxa de natalidade das famílias imigrantes). Para você, toda essa estória de anjos em cavernas, cavalos que voam, devem parecer absurdo, mas para eles é a verdade em sua essência mais pura.

E a estória sobre um anjo que engravida uma mulher virgem, que pariu um carpinteiro (que supostamente é a personificação do próprio deus), e esse opera uma série de milagres inúteis (transforma água em vinho, anda sobre o oceano, cura um ou outro deficiente), é acusado de heresia e crucificado, ressuscitando no terceiro dia, apenas para provar que realmente é filho de deus, e em seguida sobe aos céus ainda em carne para se juntar ao seu pai criador? Calma lá, essa estória não nos parece tão estranha assim; talvez haja um fundo de verdade nela, correto?

Tão fantasiosa quanto nos parece os ensinamentos do Islamismo e Mormonismo, o Cristianismo traz fantasias capazes de causar inveja nas imaginações mais férteis; porém, por estarmos inseridos em sociedades cristãs, nos parece ser uma crença privilegiada. Há uma dissonância entre esses três exemplos que não nos passa desapercebido. Se tratam, todavia, de religiões próximas e abordadas de forma genérica. Como se não bastasse a gritante discordância entre essas três doutrinas abraâmicas, cada uma delas compreende congregações que dão a sua própria versão do conto, esteja ele contido no Corão, na Bíblia ou no Livro de Mórmon.

Da mesma que nós, cristãos e ex-cristãos, conseguimos perceber o absurdo de crenças como islamismo, somos até certo ponto complacentes com o cristianismo. Entretanto, para um mulçumano, o oposto ocorre. Imaginem agora as milhares de outras religiões que se encontram fora da esfera das religiões do deserto, aquelas que não tem conexão, ou apenas de forma remota, com a doutrina abraâmica. Imaginem todos os fiéis dessas inúmeras correntes olhando uns para os outros com profundo estranhamento, apontando os erros e fantasias da religião do vizinho, mas reforçando as suas próprias crenças sem sentido.

Mais uma vez, o sentimento de pertencer a um grupo, que acredito ser herança de tempos primitivos, cria uma esfera de ignorância em volta daqueles que adotam determinada doutrina. É quase como se os cegasse para determinadas realidades, como se desligasse o sensor crítico do cérebro, responsável por separar o que é verossímil e o que é fantasioso.

Observação importante: Talvez o leitor encontre algumas inconsistências quanto a datas e números. Entretanto, utilizar-se de tais inconsistências dativas para provar um ponto é uma estratégia pobre. Se um determinado fato histórico ocorreu em 1819 e não 1833, não altera sua veracidade ou irrealidade. Nem mesmo a bíblia consegue chegar a um consenso quanto ao número de pessoas para as quais Jesus haveria se revelado após a sua morte. Tentar debater se Maomé demorou 11 anos ou 16 anos para “revelar o alcorão”, como se isso alterasse sua natureza fantasiosa é como argumentar que o coelho da páscoa é marrom, e não branco

Pense em um genocídio, um grande crime. Qual o primeiro evento que lhe veio à mente? Holocausto. A Alemanha nazista, o terceiro Reich, é um exemplo clássico de crime hediondo contra a humanidade. É muito difícil encontrar alguém hoje em dia que não veja o holocausto como uma afronta às mais básicas noções de ética. Baseados nesse julgamento, acabamos taxando por tabela todas as coisas associadas a esse crime como igualmente ruins. E uma delas é o darwinismo social, erroneamente associado, devo dizer, à teoria evolutiva propriamente dita.

O cerne do darwinismo social é/era cruel, porém cientificamente embasador em algo conhecido como eugenia: um método que consiste em selecionar indivíduos de interesse dentro de uma população e fazer com que eles se reproduzam, gerando uma prole mais útil. Mas antes que me atirem pedras, saibam que eu defendo a lógica por trás da metodologia, apenas. Animais domésticos, cereais e culturas de bactérias são exemplos vivos de sua eficácia. O problema do darwinismo social foi aplicar este método para uma população na qual ele não seria útil, no caso, populações humanas. Matar seres-humanos em massa é o total desprezo por um dos maiores trunfos da humanidade: uma adaptação maior do que qualquer outra que poderia ser produzida através da eugenia, que é a sociabilidade. A força do Homo sapiens reside na sua sofisticada capacidade de se comunicar e de sociabilizar, habilidades completamente desprezadas quando um crime dessa magnitude acontece.

Pois eis aí o maior de todos os espantalhos criacionistas: a suposta “Lei do mais forte”. O mais imundo e apaixonadamente defendido de todos os espantalhos. Quando uma crítica à teoria da evolução apela para temas como o darwinismo social, ela deixa de ser apenas desinformada e começa a ser suja. Dizer que devemos aplicar o princípio da eugenia em populações humanas é um exemplo clássico de falácia naturalista, na qual confundimos postura ética com fenômenos observados no comportamento de outros seres vivos. Resumindo o mais imundo dos argumentos criacionistas: a teoria da evolução é falsa, pois apoia crimes como o holocausto, através da “lei do mais forte”. Sujo, não?

Mas, se a teoria da evolução não diz que o mais forte deve prevalecer, então o que ela diz? Bom, aqui convém eu expor a minha própria visão sobre o que essa teoria diz. Antes devo lembrar que, como todas as teorias dentro das ciências empíricas, a teoria evolutiva é uma maneira de explicar um conjunto de fatos observáveis através de sentenças puramente racionais. Ela não é uma ideologia que deva ser seguida com paixão por uma multidão de fanáticos.

Quanto ao que a teoria diz, é comum lermos que se trata da “sobrevivência do mais forte”. Mais uma vez a ideia equivocada de que o indivíduo forte deve sempre sobrepujar os mais fracos. Antes de ser uma luta pela sobrevivência a vida é uma luta pelo legado. O legado de nosso material genético e, em níveis mais sofisticados, o legado de nossas ideias (memes). Como fazer para perpetuar os genes não interessa, desde que funcione. Se para tal propósito seja necessário ou conveniente desmerecer os fracos e favorecer os fortes, assim será. Mas se for mais interessante que os indivíduos de uma determinada população formem uma sociedade na qual um lava a mão do outro, então está feito. O que realmente importa é crescer e se reproduzir, produzindo uma prole que seja capaz de fazer o mesmo por si só. Para tal vale tudo: existem seres vivos que voam, outros que nadam, alguns que fazemc fotossíntese. Talvez a mãe se sacrifique para que a prole tenha segurança e alimento, ou a única célula de um protozoário se preocupe apenas em se dividir em mais duas células. O objetivo é sempre o mesmo, porém o ambiente está em constante mudança. O que é adaptativo pode deixar de ser depois de alguns milhões ou milhares de anos e os caminhos para atingir esse mesmo objetivo são inúmeros.

Acontece que esse é um espantalho com mais de um erro. A falácia inicial é dizer que a evolução se baseia na lei do indivíduo mais forte, a já extensivamente comentada falácia do espantalho. Uma segunda falácia é bem mais sutil, mas um bocado irrelevante quando posta lado a lado com os outros erros desta afirmação. O fato de uma teoria supostamente trazer tristeza não invalida o seu caráter de verdade. Bom, essa falácia é irrelevante porque ela se baseia no maior equívoco presente na ideia de “lei do mais forte”, que é confundir teoria empírica com ideologia, coisa que eu já discuti anteriormente. Portanto, não se trata de uma teoria trazer felicidade ou tristeza, pois isso não está no seu escopo.

A parte mais interessante desse assunto é que poucas pessoas conhecem uma das mais interessantes conclusões tiradas da teoria neodarwinista: é bom ser bom. Ser altruísta pode ser adaptativo. Claro que isso vai depender muito do contexto. O altruísmo é interessante quando consiste em um indivíduo realizando um sacrifício que é compensado pelo benefício gerado ao grupo. Podemos concluir que, em um caso isolado, o indivíduo ainda assim é prejudicado. Mas se formos considerar vários casos ao decorrer do tempo nos quais existe um altruísta e um grupo sendo beneficiado, então esse indivíduo estará sendo beneficiado indiretamente, mesmo que eventualmente ele tenha que se sacrificar. Evidentemente, o altruísmo só se mostra útil dentro de grupos, desde bandos a sociedades com milhões de indivíduos. Mas esse é um assunto extenso demais que precisaria de outro texto. Quanto à suposta “lei do mais forte”, só posso dizer que é uma ideia ultrapassada, que não condiz com todos os casos presentes na natureza e utilizá-la como desculpa para menosprezar seres-humanos é um erro grosseiro.

Engana-se quem pensa que a ilusão restringe-se ao amor e à religião. Somos tão hipócritas que, ao dizer “somos livres por romper os laços da fé!”, acabamos por nos esquecer de que a fé é regida por dogmas, hierarquias e, consequentemente, submissão. Não estamos livres disso em nosso dia-a-dia, nem em nossas mentes.

Todo o conceito que temos de certo e errado, educado e grosseiro, engraçado e triste, agradável e repugnante, tudo isso não passa de imposições estúpidas do cotidiano.

Um cristão se baseia em sua fé (entre outras coisas) para definir o certo e o errado. Neste caso a fé gera convicção. Não é errado dizer que um ateu tenha convicção, apesar de ser uma baita provocação dizer que tenha fé. Às vezes somos tão convictos de nossas posturas filosóficas que nos sentimos no direito de julgar o que é fútil e vulgar e o que é proveitoso e belo.

A velha frase “gosto não se discute” só é aplicada ao que não nos incomoda, ao que não perturba nossa linha de raciocínio e intelectualidade.

É triste quando percebemos que aquilo que julgávamos medíocre pode ser, para o outro, a mais bela arte; quando acordamos para o fato de que apesar de declararmos não sermos os donos da verdade, ainda assim tentamos impor uma verdade, de forma sutil ou não, consciente ou inconsciente.
A supervalorização de si, do outro ou de algo só nos faz perder tempo e oportunidades. Nossos olhos, rigorosamente treinados para a detecção do que é falso, servem apenas para o que está além da ponta do nosso nariz.

Ainda que apenas mais uma pirita entre tantas outras, chego a uma (particular) importante conclusão: mas que ridículo eu sou ao tentar descrever quão ridículos somos…