A história da fé, das religiões, da metafísica, quase poderia ser resumida aos métodos que inventamos ao longo do tempo para nos doparmos naturalmente. Se a fé consola, se a meditação acalma, isso ocorre pura e simplesmente porque rezar e meditar são meios de induzir estados mentais que consideramos agradáveis, arrancando recompensas específicas de nossos cérebros. Dentro disso, Deus nunca passou de um grandioso pretexto, pois o fato é que verdades reveladas não nos revelam nada. Invejamos nas catarses místicas dos santos o mesmo que invejamos em junkies com agulhas espetadas nas veias, e quando viciados superam sua dependência por meio da fé, não se trata de milagre algum: apenas mudaram de traficante.

Isso pode parecer uma argumentação delirante. Porém, se o objetivo da religião não fosse dopar os indivíduos, alucinações e experiências místicas, paz na alma, sucesso e felicidade pessoal não seriam vistos como argumentos em favor da veracidade da religião. Ninguém, ao buscar religiões, está em busca da verdade, e sim da felicidade, e isso deixa perfeitamente claro que ter fé se trata de maximizar as possibilidades de sucesso no emprego do efeito placebo. Como a eficiência do placebo está intrinsecamente ligada à nossa capacidade de acreditar, não de saber, a veracidade da crença religiosa torna-se absolutamente irrelevante nesse particular. O conteúdo da crença é simplesmente gratuito, pois não passa de uma metáfora, de uma imagem à qual a convicção pode fixar-se para alcançar o resultado que deseja, coisa que será um benefício prático qualquer, pois é óbvio que, se almejassem conhecimento, se dedicariam ao estudo.

Muitos criticam, não sem razão, a cegueira causada pela fé. Contudo, tendo em vista que a eficiência do efeito placebo depende exatamente da firmeza da convicção, faz perfeito sentido que a fé não dê importância aos fatos, pois sua função não é conhecer, mas exercer controle sobre nosso universo mental. Apenas por isso na religião a dúvida é um pecado, e também por isso se prega desprendimento em relação ao mundo material e submissão à autoridade. Quem acredita quer resultados, não explicações. Basta ter fé: compreende-se agora o que isso significa? Deus existe para tornar a fé possível, e não o contrário. Milagres são os casos em que o efeito placebo deu resultados, e isso é prova suficiente da existência de Deus. Chorem os ateus, mas a crença funciona, do contrário não haveria tantos viciados em fé. Observemos apenas que, assim como usuários pesados de LSD, aqueles que utilizam muita fé dificilmente retornam à realidade. Incapazes de administrar seu vício, a depender de seu caráter, tornam-se santos ou fanáticos.

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6 Comments

  1. Resumindo: a fé só prova que ela própria existe (ou: o que ela prova é que ela, enfim, existe).

    Felicidade, consolo, bem-estar, alívio, proteção são subprodutos originados mediante o autoconvencimento fixo, bruto, intransigente e hostil de que não há nada além da “minha fé”, nem mesmo um deus pode tirá-la de mim.

    Por ora, é isto.

    Volto quando estiver revigorado para comentar decentemente. (03:15, horário de Brasília!)

    Abraço.

    RW.

    • Fábio Rodrigues
    • Posted 11 de junho de 2010 at 15:41
    • Permalink

    André, seu comentário é realmente muito bem escrito e inteligente, mas há alguns contra-pontos. É importante não confundir religião com aqueles que a praticam. Uma pessoa pode acreditar em reencarnação simplesmente porque lhe dá alívio, mas tal coisa (reencarnação, Deus, espíritos, ou que for) pode existir independente de consolarem ou não.
    No meu ver, seu enfoque está equivocado, ainda que exposto de forma muito interessante
    e sua crítica seria mais rica se houver uma divisão entre religião e o aspecto subjetivo envolvido nela.

    • BossGrave
    • Posted 11 de junho de 2010 at 23:58
    • Permalink

    Man… o fato da fé fazer efeito torna ela algo objetivo (sic), caso contrario o efeito do CRACK seria algo subjetivo.

    Só existe uma explicação pra tudo. 42

    42=inicio (enfie o que quizer aqui) meio (enfie o que quizer aqui) e fim.

    • historiador
    • Posted 17 de junho de 2010 at 0:59
    • Permalink

    Desculpe, mas sua percepção sobre a história da fé é equivocada. Tudo bem se quiser criticar e converter a massa de “ignorantes”, que não compartilham da sua concepção de Verdade. No entanto, alegar que a história da fé se resume à ideias criadas para dopar a mente dos homens é ignorar a forma como a própria humanidade se construiu, e por bem ou por mal, a fé foi um dos grandes ingredientes para esta construção.
    Se acha que estes ingredientes devem ser simplesmente descartados da História então, primeiramente, você deve fundamentar seus argumentos do porque você é habilitado para dizer o que é ou não digno de ser História.

  2. A fé é só mais uma pralavra,em um dicionario.Mas quando usada por algum religioso,está parece ganhar vida.
    Como alguem pode ter fé se as supostas profecias nao foram materializadas em fatos concretos?como posso fechaR meus olhos á tudo que acontece de errado e dizer?:ISTO É PROVIDECIA DIVINA.
    Nao sou ateu,porque deus nao existe,e sim,poeque nao o encontro em lugar nenhum.O´que vejo sao homens tirando proveito,sem perceberem que o suposto deus sao eles mesmos.

  3. Achei o texto muito bom em certos momentos, mas no geral MUITO pobre como todo texto genérico de militante ateísta. Pobre pela falta de austeridade científica. E olha que eu sou ateu probabilístico, agnóstico, portanto compartilho da mesma ontologia. Resumindo, e olha que eu gosto de Marx, é a velha simplicidade dos estudos sociológicos pré-científicos do século 20: “religião é o ópio do povo”. É uma conclusão às vezes precisa, porém muito rasa na hora de cobrir a questão em sua totalidade. É daí o limite a pobreza do texto. A questão não é tão simples.

    A reza ou meditação induz à estados alterações de consciência. Independente da modalidade, ambos estão correlacionados à respostas neuro-fisiológicas pontuais. Em longo prazo, estão correlacionados também à mudanças na organização cérebral e disparos neuronais correlatos. Ambos dão prazer, mas também estão associados à terapia, pois estão correlacionados com mudanças psicossomáticas consideráveis como alteração da função imunológica positiva, alteração nos níveis de cortisol (estresse), tempos de reação e performance cognitiva geral. Mais precisamente, a meditação, em diversas modalidades, principalmente a meditação de foco (mindfulness), são usados em conjunto com as diretrizes de tratamento psiquiátrico e psicológico consideradas mais eficientes no meio acadêmico, as terapias cognitivas-comportamentais. Desde tempos de resposta diferenciados até performance elevada para simples principantes, esses são alguns dos efeitos da meditação de foco, passando por diminuição da freqüência cardíaca basal comparáveis ao de um sedentário após semanas de introdução à atividade física leve.

    Segal, Z., Teasdale, J., Williams, M. (2002). Mindfulness-Based Cognitive Therapy for Depression. New York: Guilford Press.
    Davidson, RJ et al. (2003). Alterations in brain and immune function produced by mindfulness meditation. Psychosomatic Medicine, 65(3).
    Shao, RP and Skarlicki, DP. (2009). The role of mindfulness in predicting individual performance. Canadian Journal of Behavioral Science, 41(4).
    Brown, KW et al. (2009). When what one has is enough: Mindfulness, financial desire discrepancy, and subjective well being. Journal of Research in Personality, 43(5).
    Lutz, Dunne and Davidson, “Meditation and the Neuroscience of Consciousness: An Introduction” in The Cambridge handbook of consciousness by Philip David Zelazo, Morris Moscovitch, Evan Thompson
    Lazar, S.W.; Bush, G.; Gollub, R. L.; Fricchione, G. L.; Khalsa, G.; Benson, H. Functional brain mapping of the relaxation response and meditation” NeuroReport: Volume 11(7) 15 May 2000 pp. 1581–1585 PubMed abstract PMID 10841380
    Kabat-Zinn, Jon; Lipworth L, Burney R. (1985). “The clinical use of mindfulness meditation for the self-regulation of chronic pain”. Journal of Behavioral Medicine 8 (2): 163–190. doi:10.1007/BF00845519. PMID 3897551.
    Fredrickson, BL et al. (2008). Open hearts build lives: positive emotions, induced through loving-kindness meditation, build consequential personal resources. Journal of Personality and Social Psychology, 95(5).
    Richard J. Davidson et al. Alterations in Brain and Immune Function Produced by Mindfulness Meditation. Psychosomatic Medicine 65:564-570 (2003).

    A fenomenologia da meditação é irrelevante, o importante é que a meditação está associada à marcadores de ótima saúde mental e performance cognitiva. Pouca pesquisa foi feita em cima de rezas de contemplação divina e de oração orientada. Andrew B. Newberg constatou que freiras rezando e monges budistas meditando apresentam os mesmos correlatos neuronais, menos um. A diminuição na atividade parietal, relacionada à propriecepção e localização espaço-temporal, que provávelmente confere a sensação de ‘estar conectado com o universo, uno, calmo ou em comunhão com deus’. O aumento da atividade frontal, relacionada ao foco cognitivo e performance cognitiva. Já a freira teve uma atividade aumentada na região de Broca e de Wernicke, relacionadas à linguagem. Justamente por estarem se concentrando em textos ou rezas, talvez. Não existe pesquisa sobre os benefícios da REZA em si, somente da meditação, apesar de ambos terem reporte de fenomenologia similar, de correlatos neuronais e outras alterações fisiológicas e comportamentais. Fica claro que para se beneficiar dos efeitos desse método de tratamento ou modalidade de atividade mental, não é preciso ‘rezar’, muito menos concertrar-se em qualquer texto, canon religioso, deus. Especulo até que estados alterados de consciência de cunho espiritual ou religioso não garantem tantos benefícios, já que a manifestação neuro-fisiológica é outra e o conteúdo à religioso é de total inconsistência lógica e ética, pois associa estados mentais beneficiários e prazerosos à besteiras clássicas da religião.

    A meditação é uma das atividades promovidas por misticismos orientais e sistemas filosóficos orientais. Nessas pesquisas neuropsiquiátricas e psicológicas, as pessos são divididas entre praticantes novatos e praticantes experientes, isso revela o caráter prático da inclusão da meditação em todos esses sistemas de tratamento. A meditação pode ser descrita como um momento de foco (mindfuless) ou aplicação de um sistema dialéctico de foco mental e processamento cognitivo. É você aceitar um problema, talvez entrar em um estado de ataraxia e tranquilidade estóica, reduzí-lo em partes (reducionismo) e processá-lo de maneira não-forçada ou que não elicite respostas emocionais. É talvez por isso que a meditação aliada à terapia cognitivo-comportamental (Mindfulness-based cognitive therapy) é altamente eficiente na resolução de depressão crônica ou de uma simples distimia. A meditação como terapia é muitas vezes tratada como uma subversão do Estoicismo e de estudos filosóficos meta-cognitivos. O Budismo é desses sistemas filosóficos que agiu como proponente desse processo de investigação (meditação). Arthur Schopenhauer foi altamente influenciado por ele. Schopenhauer foi um dos primeiros tradutores de textos Hindus e Budistas para o ocidente no século 19. Sua filosofia e método de trabalho precedeu e influenciou os trabalhos de Nietzsche, de Darwin e sua teoria de evolução e a criação da psicanálise por Freud, com a noção de libido e mente inconsciente.

    Niels Bohr, que criou o modelo de Bohr do átomo, disse sobre o processo de investigação meditativo (budista no caso): “Traçando um paralelo para a lição da teoria atômica, nós precisamos nos virar para os problemas epistemológicos que pensadores como Buddha e Lao Tzu já confrontal, quando tentaram harmonizar nossa posição como espectadores e atores no teatro do drama da existência.”

    1958 Niels Bohr, Atomic Physics and Human Knowledge, (edited by John Wiley and Sons, 1958)

    Bertrand Russell, sobre a natureza da investigação meditativa: “Budismo é uma combinação de ciência filosófica e especulativa. Ela advoca pelo método científico e busca uma finalidade que pode ser chamada de Racionalista. Nela estão respostas para questões de interesse como “O que é a mente ou matéria? Delas, qual é a de maior importância? A universo está se movendo para um objetivo? Qual é a posição do homem? Existe um viver que é ético? Ela continua aonde a ciência não pode continuar por causa das limitações de seus instrumentos.”

    Ou o pai da primeira bomba atômica, J. Robert Oppenheimer, que fez um paralelo entre Budismo e princípio de incerteza de Heisenberg:
    “Se nós perguntarmos, por exemplo, se a posição do elétron continua a mesma, nós precisamos responder ‘não’; se perguntarmos se a posição do elétron muda com o tempo, nós precisamos dizer ‘não’; se nós perguntarmos se o elétron está parado, precisamos dizer ‘não’; se nós perguntarmos se ele está em movimento, precisamos dizer ‘não’. O Buddah já deu essas respostas quando interrogado sobre a condição do ego ou identidade pessoal do homem após sua morte.” J. R. Oppenheimer, Science and the Common Understanding, (Oxford University Press, 1954) pp 8-9.

    Acredito que estados alterados de consciência similares à meditação acontecem em toda investigação científica, daí a semelhança entre os dois. Portanto, acho que implicar que meditação é somente uma forma de prazer é uma conclusão raza e muito pobre. Infelizmente, existe religião em volta da meditação e existem estados alterados da consciência em muita atividade transcendental de cunho religioso. Porém ela é prazerosa e eficientes por motivos que vão além do simples prazer. São estados alterados próprios do nosso funcionamento neuropsíquico, que você pode experienciar na sua atividade investigativa-científica, filosófica ou até religiosa. Dependendo do contexto, um evento desses pode servir como adorno religioso. Não é por um acaso que tanto a atividade científica quanto a atividade transcendental de cunho religioso é tão prazerosa. O cientista também é viciado no transcendental científico. Ciência é o ópio do cientista. Aí de quem nunca teve prazer fazendo seu trabalho ou ciência, pois essa atividade também é meditativa e prazerosa.


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