Pense em um genocídio, um grande crime. Qual o primeiro evento que lhe veio à mente? Holocausto. A Alemanha nazista, o terceiro Reich, é um exemplo clássico de crime hediondo contra a humanidade. É muito difícil encontrar alguém hoje em dia que não veja o holocausto como uma afronta às mais básicas noções de ética. Baseados nesse julgamento, acabamos taxando por tabela todas as coisas associadas a esse crime como igualmente ruins. E uma delas é o darwinismo social, erroneamente associado, devo dizer, à teoria evolutiva propriamente dita.

O cerne do darwinismo social é/era cruel, porém cientificamente embasador em algo conhecido como eugenia: um método que consiste em selecionar indivíduos de interesse dentro de uma população e fazer com que eles se reproduzam, gerando uma prole mais útil. Mas antes que me atirem pedras, saibam que eu defendo a lógica por trás da metodologia, apenas. Animais domésticos, cereais e culturas de bactérias são exemplos vivos de sua eficácia. O problema do darwinismo social foi aplicar este método para uma população na qual ele não seria útil, no caso, populações humanas. Matar seres-humanos em massa é o total desprezo por um dos maiores trunfos da humanidade: uma adaptação maior do que qualquer outra que poderia ser produzida através da eugenia, que é a sociabilidade. A força do Homo sapiens reside na sua sofisticada capacidade de se comunicar e de sociabilizar, habilidades completamente desprezadas quando um crime dessa magnitude acontece.

Pois eis aí o maior de todos os espantalhos criacionistas: a suposta “Lei do mais forte”. O mais imundo e apaixonadamente defendido de todos os espantalhos. Quando uma crítica à teoria da evolução apela para temas como o darwinismo social, ela deixa de ser apenas desinformada e começa a ser suja. Dizer que devemos aplicar o princípio da eugenia em populações humanas é um exemplo clássico de falácia naturalista, na qual confundimos postura ética com fenômenos observados no comportamento de outros seres vivos. Resumindo o mais imundo dos argumentos criacionistas: a teoria da evolução é falsa, pois apoia crimes como o holocausto, através da “lei do mais forte”. Sujo, não?

Mas, se a teoria da evolução não diz que o mais forte deve prevalecer, então o que ela diz? Bom, aqui convém eu expor a minha própria visão sobre o que essa teoria diz. Antes devo lembrar que, como todas as teorias dentro das ciências empíricas, a teoria evolutiva é uma maneira de explicar um conjunto de fatos observáveis através de sentenças puramente racionais. Ela não é uma ideologia que deva ser seguida com paixão por uma multidão de fanáticos.

Quanto ao que a teoria diz, é comum lermos que se trata da “sobrevivência do mais forte”. Mais uma vez a ideia equivocada de que o indivíduo forte deve sempre sobrepujar os mais fracos. Antes de ser uma luta pela sobrevivência a vida é uma luta pelo legado. O legado de nosso material genético e, em níveis mais sofisticados, o legado de nossas ideias (memes). Como fazer para perpetuar os genes não interessa, desde que funcione. Se para tal propósito seja necessário ou conveniente desmerecer os fracos e favorecer os fortes, assim será. Mas se for mais interessante que os indivíduos de uma determinada população formem uma sociedade na qual um lava a mão do outro, então está feito. O que realmente importa é crescer e se reproduzir, produzindo uma prole que seja capaz de fazer o mesmo por si só. Para tal vale tudo: existem seres vivos que voam, outros que nadam, alguns que fazemc fotossíntese. Talvez a mãe se sacrifique para que a prole tenha segurança e alimento, ou a única célula de um protozoário se preocupe apenas em se dividir em mais duas células. O objetivo é sempre o mesmo, porém o ambiente está em constante mudança. O que é adaptativo pode deixar de ser depois de alguns milhões ou milhares de anos e os caminhos para atingir esse mesmo objetivo são inúmeros.

Acontece que esse é um espantalho com mais de um erro. A falácia inicial é dizer que a evolução se baseia na lei do indivíduo mais forte, a já extensivamente comentada falácia do espantalho. Uma segunda falácia é bem mais sutil, mas um bocado irrelevante quando posta lado a lado com os outros erros desta afirmação. O fato de uma teoria supostamente trazer tristeza não invalida o seu caráter de verdade. Bom, essa falácia é irrelevante porque ela se baseia no maior equívoco presente na ideia de “lei do mais forte”, que é confundir teoria empírica com ideologia, coisa que eu já discuti anteriormente. Portanto, não se trata de uma teoria trazer felicidade ou tristeza, pois isso não está no seu escopo.

A parte mais interessante desse assunto é que poucas pessoas conhecem uma das mais interessantes conclusões tiradas da teoria neodarwinista: é bom ser bom. Ser altruísta pode ser adaptativo. Claro que isso vai depender muito do contexto. O altruísmo é interessante quando consiste em um indivíduo realizando um sacrifício que é compensado pelo benefício gerado ao grupo. Podemos concluir que, em um caso isolado, o indivíduo ainda assim é prejudicado. Mas se formos considerar vários casos ao decorrer do tempo nos quais existe um altruísta e um grupo sendo beneficiado, então esse indivíduo estará sendo beneficiado indiretamente, mesmo que eventualmente ele tenha que se sacrificar. Evidentemente, o altruísmo só se mostra útil dentro de grupos, desde bandos a sociedades com milhões de indivíduos. Mas esse é um assunto extenso demais que precisaria de outro texto. Quanto à suposta “lei do mais forte”, só posso dizer que é uma ideia ultrapassada, que não condiz com todos os casos presentes na natureza e utilizá-la como desculpa para menosprezar seres-humanos é um erro grosseiro.

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8 Comments

    • Jaison
    • Posted 18 de junho de 2010 at 22:24
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    Cuidado com a lei de godwin

    • Sodom
    • Posted 18 de junho de 2010 at 22:46
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    Jaison, são os crentes que costumam falar de nazistas ao tocarmos no assunto ‘evolução’. Nesse texto, Eduardo está mostrando que uma coisa não tem nada haver com a outra.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/03. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Eduardo Bitencourt
    • Posted 18 de junho de 2010 at 23:02
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    Pois é, Sodom.

    E a minha preocupação maior não é a falta de argumentos criacionistas explicitados pela lei de Godwin. O problema é o preconceito e o ódio visceral que algumas pessoas desenvolvem por uma teoria que, como você disse, tem pouco ou nada a ver com Hitler e seus coleguinhas nazistas.

    • Huni
    • Posted 19 de junho de 2010 at 19:40
    • Permalink

    Pois é: É aí que a Lógica Espacial meteu um trofeú bonito em favor dos 1 Bilhão de Sem-crenças no mundo.
    Veja em Atheyst Nexus uma “pequena” pala dessa questão da “lei do mais forte’.
    http://www.atheistnexus.org/profile/HaddammannVeronSinnKlyss
    Mas queremos postar neste espaço uma lembrança à Saramago, que foi com certeza um dos homens que deram suporte sociológico ao avanço da espécie humana, e precisamente confirmando outros homens de arrojo.
    Só um detalhe: Se fosse pela lei do mais forte aí mesmo é que estávamos ferrados, pois há muito tempo os covardes chafurdados nas crenças têm desgraçado a espécie humana matando os mais habilitados. Talves por isso, entre a nossa espécie haja tanta aberração não só de trairagem, mas de feiúra; porque a usurpação impera.
    Vamos lá:
    De 2002 a 2010, enquanto Saramago bradava sua voz, um outro Pensador via a mesma praga das crenças comer, queimar, roubar, plagiar, perseguir, suas obras.
    O engasgo na garganta e os olhos estupefactos dum homem, que ingênuo como um garoto apresentava contente a mais extraordinária evolução do PENSAMENTO HUMANO: A Lógica Espacial, versada em Arte, em Palestras, em exposições.
    Saramago tinha os microfones e câmeras, e batia firmemente na praga, e o outro era mais ‘perigoso’ pois trazia ao ser humano não apenas a contestação mas a chance, e toda a elaboração que o homem precisava para vislumbrar erecto psicologicamente a sua ideal estatura, expressava-se então o pensador Haddammann Veron Sinn-Klçyss, eas latas de lixo, o peito aberto no frio, a fome, era o que tinha por pagamento; mas nada o detinha pois empunhava o brio dos campeões que a praga levava … Senna, Lee, Michael, Lennon, … …;
    E no exato dia da morte de Saramago, nasce a chance do outro escritor, e ele estréia, graças ao Google, ao Tig Blog, à Microsoft, e ao Um Bilhão de Sem-crenças que não se acovardam no mundo.
    Obrigado Saramago, obrigado Haddammann, os garotos e as garotas sabem gratamente o quilate que alcançaram como Instrutores.
    Equipe Primers
    Athan Gene (comentário autorizado)

    • Nath
    • Posted 23 de junho de 2010 at 20:08
    • Permalink

    Gostei do texto. É muito triste, quando se para para pensar, que bilhares de seres humanos caminhem para a morte acreditando que essa gloriosa e rara vida é apenas um prelúdio. Não posso dizer que não seja, e espero mesmo que exista alguma coisa, porém, é muito provável que não. É muito provável que sejamos apenas essa complexidade estonteante que se sobressaiu de um mar de coincidências e possibilidades, mas que irá perecer igualmente como uma formiga e, oh céus, como uma estúpida esponja.
    É injusto, eu penso às vezes, que nosso destino seja a não existência eterna. O ser humano deu um passo adiante dos outros animais, e ainda assim, mesmo com toda a nossa poesia e ciência, a morte é igual.
    Acredito que um dia iremos superar isso, que a tecnologia nos salvará da ironia da morte humana. Será uma sociedade diferente, mudanças tremendas. É como se estivessemos nas portas de uma imensa revolução.
    Mas, chega, nem estou falando realmente sobre o post e isso daqui já está gigantesco. Ótimo texto, sério. Claro e bem escrito e de bons argumentos. :)

    • Jonas
    • Posted 28 de junho de 2010 at 23:55
    • Permalink

    Caro Edu
    Você leu a obra prima de Darwin: “A ORIGEM DAS ESPÉCIES”?? Tenho certeza que não. Darwin nunca afirmou que a evolução se dá pela lei do mais forte e sim pelos individuos melhor adaptados. Se fosse pelos mais fortes, não estaríamos hoje aqui pra contar história, pois do reino animal, os humanos são uns dos mais fracos: não voamos, não corremos, não nadamos… nossos predadores já teriam acabado com nossa raça há muito tempo. E sabe por que logramos êxito? Porque desenvolvemos a inteligência, e isso demorou milhares de anos. Certamente os dois maiores sucessos da época, foram o andar sobre dois pés e o domínio do fogo. Seu texto carece de objetividade e atrativo. Há várias frases de efeito, mas para quem conhece o assunto, isso não faz efeito algum (desculpe o trocadilho). Percebi que os comentaristas que lhe deram feedback tampouco conhecem a teoria evolucionista. O que não se pode jamais, é ir atacando um cientista ou uma teoria cientifica, sem conhecimento de causa. Nesse ponto incluo as religiões que se arvoram o direito de dizer que isso é bom ou mau, dependedno de seus interesses no caso. O coitado do Darwin passou 26 anos debruçado sobre seus estudos, e só publicou sua famosa teoria por insistência de alguns amigos que sabiam do imenso valor para o mundo da ciência. E aí vem um pastor ou bispo e diz que isso não tá certo, porque não concorda, etc e tal. Com base em quê, se ele sequer leu uma linha do assunto nos bancos escolares?? Precisamos abrir nossa mente para o novo, o ousado. O mundo tem que caminhar pra frente!!

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/03. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Bruno Teixeira
    • Posted 29 de junho de 2010 at 14:05
    • Permalink

    Jonas,

    Você leu o texto inteiro? Não parece. Afinal, o texto foi escrito para refutar a idéia que vc tenta refutar.

    Vale a pena, antes de criticar um texto, ler um pouco mais do que dois parágrafos.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/03. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Eduardo Bitencourt
    • Posted 29 de junho de 2010 at 15:08
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    Primeiro, parece que você não leu o meu texto.

    A começar que em nenhum momento eu disse que Darwin defendia ou defendeu a “lei do mais forte”.
    E ainda por cima diz que eu estou “atacando o cientista”. Legal, agora faça um favor a todos nós e leia o meu texto, por favor. A impressão que dá é que você leu pouca coisa além do título do texto.

    Segundo, você tem certeza que eu não li a Origem. Estou com uma versão traduzida para o português e ilustrada. Peguei o Origem pois estou chegando ao final do curso e queria ler eu mesmo as palavras de Darwin antes de me formar. O livro é um pouco repetitivo mas é muito eloquênte. Eu até me surpreendi, pensei que o livro seria mais obsoleto, mas ele possui umas ideias bem atuais. Então é muito cômico você ter “certeza” de que eu não li.


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  1. […] This post was mentioned on Twitter by JOSEAN SALES, André Cancian. André Cancian said: [garagem] O Espantalho de Darwin III – A Lei do Mais Forte, de Eduardo Bitencourt http://bit.ly/aI39ww […]

  2. […] evolução é essencialmente aleatória e de que essas características são praticamente iguais. A terceira falácia citada é a mais suja e polêmica de todas e diz que evolucionismo e nazismo andam de mãos dadas. […]

  3. By A Origem da Moral: Altruísmo Egoísta on 18 maio 2011 at 12:58 pm

    […] existe uma discussão muito grande sobre o assunto. Eu mesmo falo um pouco sobre isso neste texto. Existe um padrão observável de organização na natureza. A tendência é que os corpos mais […]