Em meu texto anterior, procurei fazer uma comparação entre a paixão por um time de futebol e por uma congregação religiosa. Procurei demonstrar como cada séquito religioso busca se firmar como verdadeiro e estabelecer de vez o seu poder enquanto representantes oficiais de uma determinada religião. É assim com o cristianismo, islamismo, judaísmo, xintoísmo, animismo, e por aí vai. Hoje vamos nos aprofundar nas diferenças entre as religiões e as possíveis explicações lógicas para esse ânimo defensivo sempre que confrontados os seus dogmas e as suas ideologias.

Dando início a esse intento, devo introduzir uma breve e interessante estória. Há aproximadamente 180 anos atrás, um norte-americano que atendia pelo nome de Joseph afirmou ter testemunhado a aparição de um anjo em seu quarto, enquanto rezava. Esse anjo o havia instruído para procurar em meio a uma floresta na Pensilvânia por duas grandes placas de ouro. As placas, segundo Joseph, estavam escritas na língua dos anjos, e apenas com a utilização de dois ornamentos esculpidos em pedra seria possível a sua tradução.c

O jovem Joseph, então, traduziu aquela revelação e escreveu um livro, que nos ensinava a respeito de uma antiga população de judeus vivendo nos Estados Unidos há milênios, que teriam erguido imensas cidades e guerreado entre si. Afirmava também existirem três mundos póstumos, qualificados por uma espécie de índice de satisfação, e apenas aos que seguissem a sua revelação seria garantido o posto mais alto. Joseph afirmava também que seus fiéis restabelecessem a tradicional poligamia e que, na época de Cristo, negros opressores também habitavam terras americanas. Jesus, entretanto, três dias após ser crucificado, haveria se revelado a esse povo do hemisfério norte. Os Judeus então teriam aprendido sobre a verdade e os negros, como punição pelos seus crimes, foram escravizados.

Para qualquer brasileiro de inteligência normal que não tenha sido afetado por essa tacanha doutrina, a estória narrada certamente parecerá estranha e absurda. Não é difícil constatar que há dois mil anos não existiam judeus ou negros vivendo nos Estados Unidos, bem como nunca foram reveladas ao público aquelas placas de ouro das quais Joseph falava. Talvez surpreenda alguns saber que existem por todo o mundo pessoas que defendem veementemente a veracidade deste conto. Tenho certeza de que o leitor já se deparou com algum missionário mórmon, que se autointitulam Santos dos Últimos Dias (por acreditar que são escolhidos e serão os únicos a sobreviver ao Apocalipse), afirmando possuir as verdades relevadas a Joseph Smith Jr. pelo anjo Morone.

E se nós ousássemos modificar um pouco essa estória, e ao invés de um norte-americano rezando em seu quarto, adotássemos um árabe rezando dentro de uma caverna, e a exemplo da primeira estória, um anjo haveria aparecido e mantido um diálogo com ele por onze anos? Para encurtar a nossa lenda, vamos dizer que este Árabe, que aqui chamaremos de….Maomé, recebe de presente um cavalo alado, através do qual ele viaja até o paraíso. Parece estranho, não é mesmo? Mas muito mais popular do que o mormonismo, o islamismo tem crescido de forma desenfreada na Europa e Oriente médio (graças a alta taxa de natalidade das famílias imigrantes). Para você, toda essa estória de anjos em cavernas, cavalos que voam, devem parecer absurdo, mas para eles é a verdade em sua essência mais pura.

E a estória sobre um anjo que engravida uma mulher virgem, que pariu um carpinteiro (que supostamente é a personificação do próprio deus), e esse opera uma série de milagres inúteis (transforma água em vinho, anda sobre o oceano, cura um ou outro deficiente), é acusado de heresia e crucificado, ressuscitando no terceiro dia, apenas para provar que realmente é filho de deus, e em seguida sobe aos céus ainda em carne para se juntar ao seu pai criador? Calma lá, essa estória não nos parece tão estranha assim; talvez haja um fundo de verdade nela, correto?

Tão fantasiosa quanto nos parece os ensinamentos do Islamismo e Mormonismo, o Cristianismo traz fantasias capazes de causar inveja nas imaginações mais férteis; porém, por estarmos inseridos em sociedades cristãs, nos parece ser uma crença privilegiada. Há uma dissonância entre esses três exemplos que não nos passa desapercebido. Se tratam, todavia, de religiões próximas e abordadas de forma genérica. Como se não bastasse a gritante discordância entre essas três doutrinas abraâmicas, cada uma delas compreende congregações que dão a sua própria versão do conto, esteja ele contido no Corão, na Bíblia ou no Livro de Mórmon.

Da mesma que nós, cristãos e ex-cristãos, conseguimos perceber o absurdo de crenças como islamismo, somos até certo ponto complacentes com o cristianismo. Entretanto, para um mulçumano, o oposto ocorre. Imaginem agora as milhares de outras religiões que se encontram fora da esfera das religiões do deserto, aquelas que não tem conexão, ou apenas de forma remota, com a doutrina abraâmica. Imaginem todos os fiéis dessas inúmeras correntes olhando uns para os outros com profundo estranhamento, apontando os erros e fantasias da religião do vizinho, mas reforçando as suas próprias crenças sem sentido.

Mais uma vez, o sentimento de pertencer a um grupo, que acredito ser herança de tempos primitivos, cria uma esfera de ignorância em volta daqueles que adotam determinada doutrina. É quase como se os cegasse para determinadas realidades, como se desligasse o sensor crítico do cérebro, responsável por separar o que é verossímil e o que é fantasioso.

Observação importante: Talvez o leitor encontre algumas inconsistências quanto a datas e números. Entretanto, utilizar-se de tais inconsistências dativas para provar um ponto é uma estratégia pobre. Se um determinado fato histórico ocorreu em 1819 e não 1833, não altera sua veracidade ou irrealidade. Nem mesmo a bíblia consegue chegar a um consenso quanto ao número de pessoas para as quais Jesus haveria se revelado após a sua morte. Tentar debater se Maomé demorou 11 anos ou 16 anos para “revelar o alcorão”, como se isso alterasse sua natureza fantasiosa é como argumentar que o coelho da páscoa é marrom, e não branco

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6 Comments

    • abadePrivada
    • Posted 21 de junho de 2010 at 11:38
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    Uma curiosidade: Você acha que é historiador?

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/07. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Victor Alves
    • Posted 21 de junho de 2010 at 13:01
    • Permalink

    Defina historiador…

    • Rudi
    • Posted 23 de junho de 2010 at 8:33
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    Excelente texto

    • Luan HC
    • Posted 24 de junho de 2010 at 10:25
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    Parabéns pelo texto, muito bom.

  1. Nobre, não existe cinderela sem um pé de cristal, como não existe religião sem uma história de revelação divina.
    Agora sabemos nós que, tanto uma quanto a outra, são meras fantasias, as quais a maioria prefere acreditar.

  2. Segundo a neurociência, uma parte de nosso cérebro ou mente tem uma necessidade natural de acreditar(a mente reptiliana também chamada de complexo R). Nosso cérebro nos engana quase que o tempo todo. É esse cérebro primitivo(o sistema reptiliano ou complexo R) que as religiões exploram. Tudo bem, até aqui eu não tenh dificuldade nehuma para entender isso. A grande questão é: Como em tempos tão antigos alguns homens “experts” já sabiam elaborar técnicas tão avançadas de P.N.L(programção neurolingúistica)? Como sabiam que pelo medo ou terror, é que facilmente acesavam essa nossa mente? Se ainda hoje pouquíssimas pessoas sabem dessa posse,ou que pelo desconheciemnto de possuir essa mente, e de sua grande capacidade de ser sugestionada, então se expõem aos métodos de lavagens cerebrais amplamente efetuados em todas as religiões!?Por essa e outras coisas acho que a História que conheçemos bem como a linha do tempo na qual nos disseram que os fatos ocorreram, no mínimo precisam ser revistos.