Que é ser ateu? Que é ser religioso, seja qual for a congregação? É simplesmente aquiescer a um juramento pré-determinado para saber se se encaixa nesta ou naquela rotulação. Na falta de crença, é afirmá-la, por quaisquer motivos. Na presença dela, é simplesmente aceitá-la. São estados de mente; serenas posturas filosóficas para responder quando se é perguntado. Não existe uma doutrina ateia, assim como não existe uma doutrina cristã, muçulmana, budista, judaica ou xintoísta. Dentro de suas paredes conceituais, são todos dissidentes irreconciliáveis. Qualquer adjetivo comum além do rótulo abnóxio cai na falácia do espantalho. Não passo a ser religioso por visitar templos, nem deixo de sê-lo por não visitá-los. No fim das contas, cada um fala por si e segue os exemplos que julgar interessantes. Se não concordamos com países teocráticos é porque sabemos como líderes carismáticos podem ser perigosos para a política; não porque suas visões de mundo são incompletas ou porque acreditam em coisas improváveis. Qualquer argumento que usemos contra a paixão religiosa pode ser usado para atacar qualquer outra ideia apaixonadamente defendida. Afinal, é isso: queremos nos outros o niilista imparcial que não podemos ser e passamos a atacar quem não se encaixa na nossa projeção ascética. Por coerência, respeitamos mais os religiosos que seguem suas confissões arcaicas ao pé da letra, por seguirem o ideal de entrega que a sociedade atual não consegue emular, do que o religioso ecumênico que cria para si um conjunto flexível de crenças para não ir de encontro ao mundo em que vive. No fundo, a causa antirreligiosa se resume a advogar pela perda de uma grande paixão em favor de várias outras menores, na esperança de que os absurdos que não toleramos passem a ser suportados em doses homeopáticas. Grupos sempre serão autoexcludentes e, sendo iguais em todos os aspectos que nos tornam demasiadamente humanos, resta-nos fazer diferença em nossas posturas filosóficas, fingindo ser motivo suficiente para toda essa discórdia. Se um mundo sem religião seria melhor? Exatamente na mesma medida em que todos os motivos que nos fazem querer o seu fim também nos façam pedir pelo fim das outras paixões. Combatamos os homens ruins que estão no poder e torçamos para sua periodicidade no comando ser a tônica de nossa representação, pois a perversidade individual ou inconsciente coletiva será a mesma, não importa que nomes tenha.

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9 Comments

    • Posted 29 de junho de 2010 at 7:47
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    Muito bom o texto jairo.
    Podemos perceber que a caráter filosófico de “Jesus”, ou quem quer que vocês queiram considerar a pessoa à qual sua vida está narrada nos quatro evangelhos, ou mesmo que seja uma ficção para a comunidade cética, consideramos então que seja uma ficção, logicamente ela teve um autor certo? E mesmo que a posição filosófica do autor seja lá quem ele for (tenho certeza que não é Ronaldinho Gaucho). Mas mesmo que sua posição não seja o que está descritos nos seus ensinamentos, ele deixou algo de bom visando o que para nós hoje é certo e não pede nenhum sacrifício, Jesus não ensina a matar ou roubar, e nenhum outro principio imoral ou à margem do que nós consideramos hoje ser licito. Podemos considerar ele um filósofo que passou instruções para um povo. E que seria melhor que esse povo vivesse daquela forma pois assim garantiriam suas vidas mais honestas.

    • collingwood
    • Posted 29 de junho de 2010 at 13:28
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    Bom texto, mas algo me intriga, ele destoa dos teus outros textos, o que aconteceu Jairo?

    • Jairo Moura
    • Posted 29 de junho de 2010 at 14:03
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    Gê,

    os evangelhos são uma mistura de frases humanistas com ideais ufanistas. É possível perceber uma clara diferença de discurso no homem que diz para nos amarmos e depois diz para abandonarmos os que não o aceitam. No mais, concordo com você: a maioria consegue captar o que interessa hoje para viver sua vida. O meu problema é porque isso advém de dogmas e não de livre iniciativa.

    collingwood,

    não vejo em que pontos o texto destoa dos outros. Nunca ataquei pessoas e sim ideias. Não sou fã de relativismos baratos e não foi o que aconteceu agora. Apenas achei de bom grado lembrar que não há diferença prática entre ser ateu ou religioso, desde que isso seja guardado em foro íntimo.

    • Rubens
    • Posted 1 de julho de 2010 at 15:45
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    Puro fatalismo alegar que a perversidade será sempre a mesma. Me lembrou um documentário do aniversário da TE, aonde um professor ingles alega que os filhos sabem que todos nascemos no pecado.
    Se perpetuamos um pensamento que sempre seremos gananciosos, não é a genética que ditará esta “ordem” e sim o sistema que o individuo se molda.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/03. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Jairo Moura
    • Posted 1 de julho de 2010 at 18:59
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    Independente do -ismo em que tentar encaixar o texto, você acabou deturpando a mensagem do final. A paranoia quase sempre é justificada e ter mecanismos para observar e contornar erros é muito mais eficaz do que o otimismo infundando, conforme matéria que você sempre cita no Fórum.

    • rubens
    • Posted 2 de julho de 2010 at 7:40
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    Jairo,
    Seus preciosos posts e links no fórum sempre nos ajudaram e e uagradeço muito po isso mas seu texto reflete um pensamento niilista. Assim também há niil(ismo) nele e otim(ismo) na réplica pois não há como escapar de definições (semantica) para nos expressar. Se existe a possilidade de sermos inevitavelmente pervesos, ainda é uma possibilidade.
    Não quero tornar do comentário um fórum, se estou sendo incoveniente, me desculpe.

    • Jairo Moura
    • Posted 2 de julho de 2010 at 9:08
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    Mais uma vez, pouco me importa os -ismos que você concluir. Não falei de possibilidades e sim dos governos que já tivemos e que temos agora. Os que permanecem livres de problemas de corrupção e abuso de poder são exatamente aqueles que são controlados de fora de maneira eficaz, não aqueles dos quais seus líderes não partilham de sentimentos e pensamentos mesquinhos. Portanto, pouco me importa o futuro, se o presente é como descrevo. Partindo do fato, quero soluções e não possibilidades.

    • Rubens
    • Posted 2 de julho de 2010 at 14:24
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    Querer é fácil, mais do que qualquer ismo que eu ou voce mencionarmos e com certeza também quero. Mas julgar a perversidade do homem na História também pouco me importa. eu não quero descrever o presente e sim mudá-lo, transformá-lo ou qualquer á-lo que seja, pois os governos são resultado de um sistema que se provou incapaz. Não há soluções “solúveis”, ou seja, coloque água, agite e voilá!

    • Posted 3 de julho de 2010 at 15:03
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    a mudança, sobre qualquer ordem deve partir de nós mudando primeiro nós mesmos foi assim com todos os personagens que fizeram hitória na humanidade (Gandi – Mandela e outros) consegue-se mais dizendo a um povo vém… do que dizer vai…