Monthly Archives: julho 2010

por Rafael Bittencourt Santos

Algo que deve ser bastante notado por qualquer iniciante na filosofia, quando abordada como uma área do saber, é quão escorregadia e confusa ela é. Esse tipo de abordagem na filosofia causa, algumas vezes, um estranhamento e pode levar a uma conclusão inusitada: a filosofia é fracassada.

Explico-me melhor. Desde a “independência” ganha pela ciência e seu grande e indubitável progresso guiado pelo método empírico, a filosofia tem perdido o seu brilho. Na verdade, o grande brilho da filosofia foi perdido com o fim das escolas helenísticas – platônicos, aristotélicos, estoicos e epicuristas, além das correntes cínicas e céticas – quando ela deixou de ser um modo de viver para tornar-se apenas discussão e interpretação de textos. Se observarmos o que era a filosofia nos tempos de Platão e Epicuro, veremos a busca pelo bem-viver. Veremos homens que não apenas estudavam, mas praticavam. Havia certa diferença entre “filosofia” e “discurso filosófico”.

No entanto, depois do término desse período de esplendor, a filosofia tornou-se apenas ferramenta. Foi, assim, abusada e deturpada. Argumentos filosóficos eram usados para defender cristãos e defender muçulmanos. A filosofia servia a religiosos e laicos. Aparentemente, ela se tornara uma prostituta do saber onde qualquer um ia buscar inspiração para defender qualquer tese que tivesse.

É interessante notar, também, que a filosofia é a única área em que seus estudantes podem “gostar” de teorias. Não é raro escutarmos alguém dizer que não “gosta” muito do determinismo, ou que prefere as tendências do pragmatismo. Contudo, soaria estranho se alguém falasse que não é um fã da Teoria da Relatividade ou não fosse simpático às consequências da Lei da Gravidade. E então a questão: será mesmo a filosofia, agora que não tem mais em seu baralho a ciência, uma disciplina digna de ser dita “acadêmica”? Não seria ela tão digna de foro público quanto a teologia?

Tais questionamentos podem soar estranhos, mas merecem atenção. A filosofia parece, cada vez mais, uma “testa de ferro” que se aventura onde a ciência ainda não está madura o suficiente. E, cada vez mais, perde seu espaço. Numa tentativa de sobrevivência, a filosofia como atividade acadêmica tem se voltado para suportar as bases da ciência, mesmo que ainda não haja consenso sobre questões milenares de epistemologia. A sobrevivência de relativistas, por exemplo, é um fato que denota a fragilidade da argumentação filosófica, visto que tal corrente é duramente atingida desde Platão. Hoje, a filosofia se foca nas bases da ciência – em justificar seu método, dizem alguns – mas devemos lembrar que há algum tempo ela estava nas bases da teologia, serva utilizada por religiosos para justificarem suas crenças de modo “racional”.

Dessa maneira, proponho, humildemente, uma mudança no modo de ver a filosofia. Vê-la, como há bastante tempo, como uma atividade prática e um modo de vida. Não como um conjunto de conhecimentos acadêmicos, pois ela não os tem. Não há como ensinar “filosofia”, e isso é fato. Há como repassar e interpretar textos filosóficos, e lê-los como se fossem literatura. Considerá-los como os que estudam Dom Quixote de La Mancha ou Dom Casmurro. Todavia, interpretar textos não é filosofia nem filosofar. Devemos começar a entender filosofar como aprender a viver.

De que importa isso? Qual a utilidade de tal mudança? Seria uma mudança de ordem bastante prática, o que não tem sido o forte ultimamente da atividade filosófica, geralmente enclausurada nos altos círculos acadêmicos. Atualmente, há grande dificuldade de as pessoas enxergarem a moral como independente da religião – o que causa grande transtorno a ateus com estereótipos preconceituosos, diga-se de passagem. Mas isso não ocorre simplesmente por que as pessoas são ensinadas que a moral vem de Deus ou da Bíblia. Muitas vezes as pessoas reconhecem que seus preceitos éticos não vêm dessas fontes, e muitas trocam de religião justamente porque uma não combina com seu “sistema” ético e a outra está mais de acordo. Se é assim, então por que há tanto transtorno com o fato de ateus não terem nenhuma espécie de crença religiosa, esteja ela ligada a uma instituição ou seja ela independente?

Suspeito que “religião” tenha se tornado, claro que não com as mesmas bases, a filosofia de outrora. As pessoas vivem sua religião. Praticam-na. Reúnem-se para discuti-la. Religião se tornou mais que crença ou fé; tornou-se o viver. E quando escrevo que a filosofia deva retornar às suas raízes, não digo que a filosofia deva se tornar religião (mesmo que, muitas vezes, o comportamento dos filósofos seja muito parecido com o dos religiosos). Digo que ela deve se tornar de novo a busca pelo bem-viver. Seja ele as virtudes, o prazer, o conhecimento ou a busca do ideal de bem.

Por fim, tomando a filosofia como um modo de vida baseado na razão, em contraposição à religião, que se baseia na fé, muito seria ganho. Teríamos, depois de suplantado o terreno da fé, um debate racional, finalmente. Talvez seja a hora de ateus e agnósticos responderem, quando perguntados se têm alguma religião, que, ao invés disso, têm uma filosofia.


(artigo recebido em 21 de julho de 2010)

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“Não há assuntos chatos, apenas escritores chatos.” (Henry Louis Mencken)

O que essa frase de Mencken ilustra é que todo o assunto, quando devidamente abordado, pode se tornar interessante. Eu vou um pouco mais longe e digo que todo o assunto se torna mais interessante na medida em que é contemplado o mais próximo de sua totalidade. Isso é algo que deveria ser dito aos atuais escritores de livros didáticos e professores de ensino fundamental e médio que abordam suas matérias de maneira demasiadamente superficial.

Para exemplificar o que eu estou falando, imagine duas aulas de física. Na primeira, os alunos de ensino médio estão tendo aula com um professor que não sabe muito da matéria. Física é um assunto aparentemente chato, os alunos estão preocupados com o vestibular, filmes, jogos, músicas e do sexo oposto, não com as forças físicas envolvidas no movimento de um carro sobre uma estrada. Mas estes alunos estão prestando atenção ao professor justamente porque ela sanaria uma de suas preocupações, o vestibular. É um sacrifício que devem fazer para serem recompensandos posteriormente. Para isso o professor improvisa musiquinhas com as fórmulas que eles devem decorar. E então a aula se segue com uma típica decoreba de ensino médio inundada de showzinhos e aborrecimento, na qual o maior momento de felicidade é quando toca o sinal que sinaliza término de aula.

Ainda temos a segunda aula. Uma turma que está aprendendo o mesmo assunto da anterior, porém, com um professor que domina o assunto como velejador domina o seu barco. Ao invés de obrigar os alunos a decorarem fórmulas ele insere em suas mentes a lógica e as aplicações de seus ensinamentos. Não os trata como meros recipientes vazios de conhecimento, prestes a serem preenchidos, mas sim como criaturas pensantes que precisam refletir sobre sua maneira de ver o mundo. Quando termina a aula, os alunos não pensam em musiquinhas de fórmulas, mas sim de como o mundo funciona e como é interessante entender isso.

Antes de eu seguir com a conclusão de minha parábola, saibamos reconhecer que uma aula não é mérito apenas do professor e que, dependendo do aluno, nem mesmo o mais sábio dos professores conseguiria incutir interesse ou mesmo o mais chato deles seria capaz de tirá-lo, caso o aluno já fosse um grande curioso.

Agora o leitor deve estar se perguntando o que tudo isso tem a ver com a ideia de “mundo cinzento do ateísmo”, tão difundida pela sociedade. Bom, para explicar o que isso tem a ver eu vou entrar um pouquinho mais na analogia dos alunos de física e ficará bem claro o que eu quero dizer.

Imaginem que, durante as aulas, seja anunciado que a matéria “física” não cairá mais no vestibular. Para os alunos da primeira aula, isso significa que eles perderam suas preciosas manhas e tardes estudando algo totalmente inútil, afinal, eles não precisam daquelas musiquinhas para o seu objetivo. Os alunos da segunda aula certamente perceberão a perda que houve da importância das aulas de física. Mas o seu interesse pelo assunto não cessará da maneira abrupta com que cessou no primeiro caso, pois agora eles vêem a física como um assunto interessante, têm uma noção maior da área e conseguem visualizar a imensidão que é o campo de estudo da física. A semente da curiosidade foi implantada em suas mentes e não é um vestibular ou qualquer fator externo que eliminará a vontade de aprender. O sentido de aprender física não é imposto, vem de dentro.

Assim é o mundo de muitos ateus, incluído esse que vos escreve. Eu não vejo sentido na vida por ela supostamente ter sido arquitetada por um ser sobrenatural. Não acho que devo agir bem para ser recompensado pela mesma entidade. A beleza das coisas não é reflexo da obra de um suposto criador. Para o ateu em questão, o universo é digno de interesse devido a sua própria natureza, da mesma maneira que os alunos da segunda aula vêem no estudo da física um recompensa, e não apenas um meio de atingir a recompensa que seria externa ao aprendizado, no caso, passar no vestibular. Os alunos da primeira aula devem imaginar que tudo ficou vago e indigno de dedicação para os seus amigos da segunda aula, mas isso acontece tão somente porque eles não aprenderam a enxergar a parte interessante do assunto.

Para aqueles que ainda acreditam firmemente que a vida de um ateu é cinzenta pois não há sentido, eu digo simplesmente: sou ateu e minha vida não é cinzenta. Indo além, sou ateu, conheço muitos amigos que são, e suas vidas não são cinzentas. Muito pelo contrário, são pessoas bem dispostas, divertidas, abertas a diálogos e a ideias que divergem das suas. Não que eu ou essas pessoas sejam exemplos de como se deve aproveitar plenamente a vida (na verdade, algumas delas são) mas isso mostra que a nossa vida não é um mar cinzento de depressão e delírio. A grande maioria das pessoas aprendeu a ver a vida como uma extensão de algo maior, esse “algo” que muitos chamam de “deus” e, quando tiram esse “algo” sobra um resto que pode ser chamado de “nada” ou “quase nada”. Elas não sabem o quão estão enganadas. Reflitam profundamente sobre a existência de todas as coisas e perceberão que o mero fato de existirem já as tornam muito interessantes.

Quando Jesus Cristo voltar, todos aqueles que o aceitaram como seu salvador vão ressuscitar para viver junto de seus entes queridos em eterna felicidade.

O trecho acima descreve, com precisão variando de seita para seita, a crença da maioria dos cristãos. A bíblia não é nada clara quando fala no que exatamente podemos encontrar depois de morrermos. Em Lucas 16: 19-31, existe uma das estórias que, apesar de bastante infantil, dá mais detalhes de como seria o pós-morte. Conta sobre um homem rico e o mendigo Lázaro, que têm suas posições trocadas após morrerem; o mendigo aproveitava a eternidade nos seios de Deus, enquanto o homem rico passava sede no inferno.

Não há dicas na bíblia de como seria a rotina do dia-a-dia celestial. Precisamos comer depois de mortos? Podemos fazer sexo no céu? Mulheres mortas engravidam? Nada sobre isso é abordado na bíblia. Assim, os líderes religiosos, que não são nada bobos, podem dar suas impressões pessoais que, vez por outra, envolvem algum investimento em vida. Exemplos: compra de lotes no céu, depósitos no Banco de Deus, compra de indultos etc.

A eternidade é algo que, de certa forma, é inconcebível para nós. É difícil imaginar algo interessante o suficiente para se fazer continuamente por um ano, imagine então por cinquenta anos, um milhão de anos. Tentar imaginar a vida eterna é, pra dizer o mínimo, muita pretensão.

Penso que poucos crentes tenham parado para pensar seriamente em como seria viver para sempre em uma vida de perfeição estática. Não seria a perfeição, aliás, mais um termo inconcebível? Existe algo que possa escapar ao tédio? Temos necessidades dinâmicas, ou seja, sempre que saciamos uma delas, novas necessidades surgem. Se perfeição significa a total ausência de necessidades, haveria aí um paradoxo com a nossa própria natureza.

Saciar as nossas incessantes necessidades é um tremendo desafio. Fazê-lo por toda a eternidade é um desafio digno da onipotência divina, outra coisa que é fácil dizer mas impossível conceber.

Há, basicamente, três tipos de respostas: as filosóficas, as empíricas e as científicas. Todas elas buscam satisfazer níveis de curiosidade, que vão desde o prático até o simplesmente especulativo.

Chamo de filosóficas àquelas que dizem respeito ao nosso pensamento abstrato, como as noções de certo e errado, ou de bem e mal. São a forma que encontramos de conceber padrões de conhecimento para questões inerentes à nossa condição intelectual.

As empíricas versam sobre um acontecimento concreto e buscam tão-somente estabelecer uma conexão entre o input e a resposta a ele. Assim, aprendo que se tal comida me faz ter reações alérgicas, preciso tirá-la de meu cardápio. A explicação pouco importa, desde que funcione.

Já as científicas podem ser tanto especulativas quanto práticas, tendendo a ser uma mescla das duas. Uma teoria científica terá tanto mais validade quanto suas previsões corresponderem a acontecimentos. Há áreas, como a física teórica, nas quais a especulação prevalece por falta de meios para testá-las; e outras, como a medicina, em que a especulação está necessariamente vinculada aos resultados empíricos.

Por mais que goze de maior prestígio, as respostas científicas só serão mais adequadas se o objetivo pessoal for saber de relações que pretendem explicar toda uma sorte de acontecimentos. Sua pretensão é de ser aplicada ao mesmo fenômeno toda vez que ele se repetir, não limitando-se a um caso específico.

A muitas pessoas não interessa ir tão a fundo em suas crenças. E não estão erradas simplesmente por isso. O problema é quando tentam defendê-las usando uma resposta menos eficiente. É o caso das falácias mais comuns que buscam defender a existência de deus(es).

Destarte, encontramos pessoas tentando conectar a melhora repentina de um parente próximo a um ritual místico que buscava tal resultado. De forma superficial, podemos concluir que funcionou. No entanto, a conexão não resiste a uma análise estatística e a relação causal não se sustenta.

Também encontramos argumentos que buscam ceder a deuses o título de detentor de construções lógicas e padrões de moralidade. Partindo de nossas ideias, podemos imaginar outros seres racionais, supostamente superiores e, portanto, nossos criadores. Não seria mais do que uma racionalização de possibilidades.

Mas, se todos os argumentos têm sua funcionalidade, por que, então, tais argumentos não nos servem? Porque o objetivo de provar a existência de algo cai no domínio das respostas científicas e é inegável o fato de que todas as explicações para a existência de deus(es) falham nesse nível.

Em suma, posso continuar a creditar minha moral a deus(es), bem como agradecer a boa intervenção em casos aleatórios. Isso tudo diz respeito somente ao modo como me relaciono com o mundo, não como ele realmente é. Seguirei feliz, talvez, em minha crença, mas me decepcionarei profundamente cada vez que tentar justificá-la de modo imparcial.

E se eu dissesse que, dentro de uma semana, uns primos seus do interior te visitarão em casa. Sete dias depois aparecem uns chimpanzés. Qual a sua reação? Vai recebê-los com comes e bebes ou vai mandá-los para um zoológico? Pense bem, pois os seus primos vieram diretamente do interior da África só para restabelecer laços familiares enfraquecidos há mais de 4 milhões de anos¹. Você e os seus primos, unidos por um casal de antropoides, que recordações vocês teriam dessa época de vacas magras? Um ramo da família ficou pelas florestas da África e o outro pretende conquistar o mundo.

Bom, se você é um teísta bitolado, deve ter odiado essa minha situação hipotética. Meu texto é endereçado a esse público, teístas e criacionistas reacionários que rolam de rir com a idéia de um suposto parentesco entre nós, humanos, e o resto dos primatas. Uma coisa que você, criacionista, não percebe é que a sua casa está cheia de primos. Até mesmo o seu intestino está cheio deles. No seu almoço você deve ter devorados alguns.

Não, não existem chimpanzés morando no seu intestino ou no seu prato (assim eu espero). Falo de primos ainda mais antigos. Se o seu almoço foi um bife, saiba que você divergiu da sua comida cerca de 85 milhões de anos atrás¹. Mas, se você é um vegan, então você e seu almoço estão separados por muito mais tempo. A data é imprecisa, mas é superior a um bilhão de anos. Tudo família.

Eu falei tudo isso para deixar clara uma coisa. A teoria da evolução não é sobre humanos evoluindo de macacos é algo muito mais amplo. Ela é ainda mais incorreta ser for interpretada como os humanos descendendo de macacos atuais (e não de primatas extintos, que seriam os ancestrais comuns a humanos e chimpanzés, por exemplo). Mas os macacos, os humanos, ou mesmo todos os primatas são meramente uma pequena parte do objeto de estudo que seria toda a biosfera, seus componentes vivos e seus ancestrais (compondo o que chamamos de “Árvore da Vida”).

Clássica caricatura de Darwin

É aí que entra a falácia do texto. Fazendo um retrospecto, no meu primeiro texto eu falei da falácia da abiogênese, um erro advindo da falta de clareza com que a biologia é ensinada nas escolas. Depois eu fui para a falácia da convergência de características, provinda de uma idéia errada na qual a evolução é essencialmente aleatória e de que essas características são praticamente iguais. A terceira falácia citada é a mais suja e polêmica de todas e diz que evolucionismo e nazismo andam de mãos dadas. Na quarta eu lidei com a evolução apresentada na mídia em massa e como isso reflete a visão das pessoas sobre a teoria. Nesta última, a falácia mais clássica de todas é a do homem surgindo do macaco. Traduzindo essa última falácia em apenas uma pergunta, muito difundida e freqüente: “Você acredita que viemos dos macacos?”.

Provavelmente você, criacionista ao qual me dirijo, já deve ter perguntado isso a muitas pessoas. Outra frase muito recorrente é: “Eu não acredito na evolução, pois não acho que o homem tenha se originado de macacos.” O que eu posso dizer é que essa afirmação está completamente equivocada em diversos graus.

O primeiro erro eu já deixei bem claro. Evolução não se trata apenas da origem do homem, portanto, não serei repetitivo. O segundo erro, como eu já disse no quarto parágrafo, depende do que você entende por “macaco”. Se a sua idéia é um macaco que você viu no zoológico ou na televisão, então devo dizer que está enganado. Os macacos atuais são tão ancestrais seus como você é ancestral do seu priminho de dois anos. Ou seja, vocês são parentes, unidos por um ancestral comum que, no caso do primo de dois anos são o vovô e a vovó; no caso dos macacos são vovôs e vovós de espécies extintas há milhões de anos, mas um não é o ancestral do outro.

É muito interessante notar o quão difundida é essa falácia. O motivo principal eu falei logo no meu primeiro texto deste sítio. Dizer que somos parentes de macacos ofende. Algumas pessoas ainda deliram sonhando que viemos de anjos ou de partes da anatomia de deuses poderosos. É meio frustrante para essa legião de iludidos admitir que seus avós não faziam parte de guerras celestiais ou participaram da criação do mundo. Frustrante porque ainda não foram capazes de contemplar a realidade em toda a sua grandiosidade, então preferem o devaneio místico a que estão habituados. Essa falácia é a mais importante, embora não seja a mais suja ou perigosa, porque traduz claramente a maior barreira para a compreensão da teoria evolutiva: o orgulho.


1. DAWKINS, Richard. A Grande História da Evolução: Na trilha de nossos ancestrais. Tradução de Laura Teixeira Motta – São Paulo: Companhia Das Letras, 2009.

Algo que nos interessa, a princípio, é a etimologia da expressão utilizada no título. Pois bem: Hocus Pocus, segundo o linguista Jairo Moura, “é pseudo-latim e tenta emular a primeira declinação dos nomes; os magos usavam porque era a língua ‘oficial’ para conjurar magias”; ou seja, é apenas uma expressão que os mágicos adotaram há alguns séculos para distrair a plateia; tão significativa quanto shazam!. Enquanto a platéia se concentrava no Hocus Pocus!, mil coisas aconteciam nas mãos do mágico e atrás das cortinas. Uma ótima forma de tapear o povão.

Devidamente apresentada a expressão, vamos ao que se segue: um amontoado de truques para você fazer e divertir sua família ou, quem sabe, tornar-se um grande bruxo, macumbeiro, médium, pastor, trombadinha… enfim, qualquer coisa relacionada à religião.

Brincadeiras à parte, é provável que você já tenha percebido o quanto as religiões tem-se utilizado das artimanhas dos mágicos para iludir multidões de pobres coitados (nem sempre a palavra pobre está relacionada ao financeiro, mas também ao intelecto). James Randi que o diga.

Sei que, apesar desta revista ser voltada, principalmente, ao público ateísta, muitos religiosos tem nos visitado, e mesmo esses hão-de convir que, pelo menos fora de suas religiões, o que não falta são charlatões posando de super-heróis.

Lembro que cheguei ao ateísmo após experimentar muitas religiões (nem todas ativamente, mas sem medo dos rituais). Acredito que não há modo melhor e mais divertido de compreender e trucar religiões do que quando já se experimentou pelo menos um pouquinho delas.

Proponho então aos ateus que, como eu, se divertem com as crendices; aos agnósticos, que não têm medo de experimentar para tirar a prova; e aos teístas que ousam arriscar a alma pela comprovação dos fatos; que comprem suas velas, aprendam a fazer farofa e energizem suas auras, porque testaremos, a partir dos próximos textos, milagre por milagre, mandinga por mandinga, cada superstição que pudermos imaginar, das mais light às mais pesadas (exceto os sacrifícios; a não ser que eu descubra uma seita em que se possa utilizar ratos de laboratório como sacrifício).

Chega de pilantras e charlatões gritando palavras mágicas e tapando nossa visão. Veremos o show de cima do palco, com os olhos no movimento por detrás das cortinas e ignorando as distrações.

Que rufem os tambores!

Foi ao ar recentemente mais uma excelente fonte de informação científica. O programa Fronteiras da Ciência, mediado pelo Prof. Marco Idiart do Departamento de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, vai ao ar às segundas-feiras na rádio da UFRGS. A ideia do programa é discutir o que é e o que não é ciência e, para isso, o Prof. Idiart recebe diversos outros cientistas para, em um debate descontraído, discutir temas relacionados às suas áreas de especialização. Um dos convidados mais assíduos é o Prof. Renato Flores do Departamento de Genética, que, com comentários ácidos e uma didática invejável, torna o programa bastante divertido. Para aqueles que, como eu, não moram perto dos pampas gaúchos, existe links para download dos episódios no site, incluindo um guia de estudo para cada um deles.

Além deste excelente programa, existe o já bastante conhecido Science Blogs Brasil que, constituído por 33 blogs, traz as mais variadas faces da ciência. Os grandes destaques do Science Blogs são os posts com o selo do Research Blogging que traduzem as mais fantásticas, interessantes e bizarras pesquisas do reservado mundo das revistas científicas para o público leigo.

A interação entre aqueles que fazem ciência e o público leigo é, ainda, escassa. De modo geral, a ciência chega ao público pelos meios de comunicação com notícias fragmentadas, exageradas e, muitas vezes, irresponsável. Exemplo disso é demonstrado no artigo do Átila Iamarino do Rainha Vermelha, que acompanhou a recepção de sua própria publicação na imprensa, destacando das más interpretações desta até a confusão gerada no público.

Por esse motivo, são dignos de aplausos aqueles que saem de seus laboratórios para trazer ao público um pouco de ciência direto da fonte.