“Não há assuntos chatos, apenas escritores chatos.” (Henry Louis Mencken)

O que essa frase de Mencken ilustra é que todo o assunto, quando devidamente abordado, pode se tornar interessante. Eu vou um pouco mais longe e digo que todo o assunto se torna mais interessante na medida em que é contemplado o mais próximo de sua totalidade. Isso é algo que deveria ser dito aos atuais escritores de livros didáticos e professores de ensino fundamental e médio que abordam suas matérias de maneira demasiadamente superficial.

Para exemplificar o que eu estou falando, imagine duas aulas de física. Na primeira, os alunos de ensino médio estão tendo aula com um professor que não sabe muito da matéria. Física é um assunto aparentemente chato, os alunos estão preocupados com o vestibular, filmes, jogos, músicas e do sexo oposto, não com as forças físicas envolvidas no movimento de um carro sobre uma estrada. Mas estes alunos estão prestando atenção ao professor justamente porque ela sanaria uma de suas preocupações, o vestibular. É um sacrifício que devem fazer para serem recompensandos posteriormente. Para isso o professor improvisa musiquinhas com as fórmulas que eles devem decorar. E então a aula se segue com uma típica decoreba de ensino médio inundada de showzinhos e aborrecimento, na qual o maior momento de felicidade é quando toca o sinal que sinaliza término de aula.

Ainda temos a segunda aula. Uma turma que está aprendendo o mesmo assunto da anterior, porém, com um professor que domina o assunto como velejador domina o seu barco. Ao invés de obrigar os alunos a decorarem fórmulas ele insere em suas mentes a lógica e as aplicações de seus ensinamentos. Não os trata como meros recipientes vazios de conhecimento, prestes a serem preenchidos, mas sim como criaturas pensantes que precisam refletir sobre sua maneira de ver o mundo. Quando termina a aula, os alunos não pensam em musiquinhas de fórmulas, mas sim de como o mundo funciona e como é interessante entender isso.

Antes de eu seguir com a conclusão de minha parábola, saibamos reconhecer que uma aula não é mérito apenas do professor e que, dependendo do aluno, nem mesmo o mais sábio dos professores conseguiria incutir interesse ou mesmo o mais chato deles seria capaz de tirá-lo, caso o aluno já fosse um grande curioso.

Agora o leitor deve estar se perguntando o que tudo isso tem a ver com a ideia de “mundo cinzento do ateísmo”, tão difundida pela sociedade. Bom, para explicar o que isso tem a ver eu vou entrar um pouquinho mais na analogia dos alunos de física e ficará bem claro o que eu quero dizer.

Imaginem que, durante as aulas, seja anunciado que a matéria “física” não cairá mais no vestibular. Para os alunos da primeira aula, isso significa que eles perderam suas preciosas manhas e tardes estudando algo totalmente inútil, afinal, eles não precisam daquelas musiquinhas para o seu objetivo. Os alunos da segunda aula certamente perceberão a perda que houve da importância das aulas de física. Mas o seu interesse pelo assunto não cessará da maneira abrupta com que cessou no primeiro caso, pois agora eles vêem a física como um assunto interessante, têm uma noção maior da área e conseguem visualizar a imensidão que é o campo de estudo da física. A semente da curiosidade foi implantada em suas mentes e não é um vestibular ou qualquer fator externo que eliminará a vontade de aprender. O sentido de aprender física não é imposto, vem de dentro.

Assim é o mundo de muitos ateus, incluído esse que vos escreve. Eu não vejo sentido na vida por ela supostamente ter sido arquitetada por um ser sobrenatural. Não acho que devo agir bem para ser recompensado pela mesma entidade. A beleza das coisas não é reflexo da obra de um suposto criador. Para o ateu em questão, o universo é digno de interesse devido a sua própria natureza, da mesma maneira que os alunos da segunda aula vêem no estudo da física um recompensa, e não apenas um meio de atingir a recompensa que seria externa ao aprendizado, no caso, passar no vestibular. Os alunos da primeira aula devem imaginar que tudo ficou vago e indigno de dedicação para os seus amigos da segunda aula, mas isso acontece tão somente porque eles não aprenderam a enxergar a parte interessante do assunto.

Para aqueles que ainda acreditam firmemente que a vida de um ateu é cinzenta pois não há sentido, eu digo simplesmente: sou ateu e minha vida não é cinzenta. Indo além, sou ateu, conheço muitos amigos que são, e suas vidas não são cinzentas. Muito pelo contrário, são pessoas bem dispostas, divertidas, abertas a diálogos e a ideias que divergem das suas. Não que eu ou essas pessoas sejam exemplos de como se deve aproveitar plenamente a vida (na verdade, algumas delas são) mas isso mostra que a nossa vida não é um mar cinzento de depressão e delírio. A grande maioria das pessoas aprendeu a ver a vida como uma extensão de algo maior, esse “algo” que muitos chamam de “deus” e, quando tiram esse “algo” sobra um resto que pode ser chamado de “nada” ou “quase nada”. Elas não sabem o quão estão enganadas. Reflitam profundamente sobre a existência de todas as coisas e perceberão que o mero fato de existirem já as tornam muito interessantes.

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17 Comments

    • Beloni
    • Posted 24 de julho de 2010 at 9:52
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    Outro texto muito bom! Parabéns!

  1. Rezar com certeza demora mais do que pensar para atingirmos a satisfação e a felicidade.

    Mas e se a confusão for tão grande que a base do pensar não consegue atingir nenhuma solução?

    • Sara
    • Posted 24 de julho de 2010 at 15:06
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    A quem se interessar no site, sugiro conferirem o blog a seguir!

    http://sphodras.blogspot.com/

    • santos
    • Posted 25 de julho de 2010 at 22:56
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    cara, esse foi o melhor texto que eu ja li sobre ateismo! eu penso exatamente igual! é pena que eu não tenha o dom da escrita…para escrever pensamentos parecidos…

  2. Deus morre, eo homem vive.Essa é minha….Matos

    • adis
    • Posted 27 de julho de 2010 at 10:23
    • Permalink

    excepcionalmente uma manânima a analogia feita entre ambos os assuntos, texto bastante interessante de ler.. para os “curiosos” o âmago da casualidade foi muito bem exemplificada.. meus parabéns

    • Rodson
    • Posted 31 de julho de 2010 at 19:28
    • Permalink

    Boa analogia e isso serve para dar uma outra ótica sobre a vida de um ateu, que vive não objetivando recompensas futuras fora do meio físico, mas simplesmente vive por amor a vida que tem.

    Vou contar-lhes um segredinho. Sou crente e pamem,também vivo sem objetivar unicamente recompensas. Talvez isso seja o que menos importa em minha vida de fé, que embora signifique crença no novo e eterno, é movido muito mais pelo amor que carrego. Amor pela vida e pelo semelhante. Quando auxilio alguém, não é para a minha projeção pessoal a Deus ou a quem ajudei ou a quem presenciou ou a mim mesmo. Vivo amando para minimizar sofrimentos, cativar vidas, ver sorrisos etc, e porque não dizer para me sentir vivo. Jesus mesmo fala disso quando cita o exemplo dos religiosos que mostram-se reverenciando nas esquinas para serem cortejados pelo povo. Se haverá uma recompensa, e sei que haverá, por muitos motivos, que assim seja. Amém! Contudo, busco amar verdadeiramente,incondicionalmente, o que é bem difícil, mas busco, e assim como eu existem outros mais.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/03. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Ricardo Ramos
    • Posted 31 de julho de 2010 at 22:43
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    Você SABE que haverá uma recompensa? Pôxa…

    Numa boa, Rodson, nada contra sua exposição acima, mas acho incrível como vocês usam a palavra SABER de maneira irresponsável.

    Algumas palavras devem (deveriam) ser usadas mantendo o rigor de seus significados, caso contrário qualquer debate se transforma numa discussão de “loucos” relativistas. Palavras como CERTEZA ou SABER, não deveriam se “cuspidas” dessa forma.

    Não importa o tamanho da sua fé ou da minha falta de fé. Da sua crença ou da minha descrença. Nem eu ou você SABEMOS se existe ou não um deus, podemos apenas acreditar ou não nessa possibilidade.

    Se eu dissesse para você que eu SEI que não existe deus algum, você não acharia estranho?

    • Antônio Zanotti
    • Posted 2 de agosto de 2010 at 20:51
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    Uma pergunta. Ateu significa sem crença. ou seja tudo pela razão? ou Ateu significa não acreditar que Deus existe?

    1- Ou tudo faz sentido. Crendo ou descrendo. E você vive e vive bem.
    2- Ou nada faz sentido. Confusão. E você se mata.

    Acredito que Deus existe. Acho que isso não tem muito valor, digo não interferi muito, acho que não fomos criados pra pensar nisso.

    Agora. Pelo mínimo que sei, digo que não sei grande coisa. Pessoas que levam tudo pela razão não são consideradas psicopatas?

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/03. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Eduardo Bitencourt
    • Posted 2 de agosto de 2010 at 22:07
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    Ateu não acredita em deuses, Antônio.
    Ele pode ou não ser cético, materialista, niilista ou flamenguista, os outros atributos não interessam.

    • BossGrave
    • Posted 3 de agosto de 2010 at 0:33
    • Permalink

    Hummm.. vejo falhas grosseias em sua posição Antônio Zanotti.

    1- Se tudo faz sentido, não quer dizer que você vá viver bem, crendo ou descrendo.
    2- Se nada faz sentido, não quer dizer que a vida será desagradavel.

    Eu levo uma vida razoavel, felicidades momentaneas e aborrecicemntos exporadicos. Algumas coisas fazem sentido para mim, mas a existencia em si me parece absurda, agora nem por isso vou dar cabo a minha vida.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/03. O diretório pai possui permissão de escrita?
      RicardoRamos
    • Posted 5 de agosto de 2010 at 10:12
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    Cada um que fale por sí, Antônio. Eu não acredito em nada sobrenatual, em vida eterna ou num “objetivo” maior para as coisas, e ainda assim sou fascinado pelo cosmos e pela existência em geral. Amo minha vida, meus filhos, neto, a observação de tudo, as sensações, meus sentidos, as pequenas nuances, o vento, e se pudesse escolher viveria até os 100 anos (mesmo necessitando do Viagra ahahahaha…). Claro que se antes disso for acometido por uma terrível enfermidade que me castre totalmente a qualidade de vida, provavelmente desejaria a morte muito antes do esperado. Mas aí é uma outra história.

    Tem ideia o quanto improvável foi tudo ter acontecido e estarmos aqui hoje, na maneira como estamos? Já parou pra pensar em todos os detalhes?? Portanto, Enjoy!!

    • Arthur
    • Posted 5 de agosto de 2010 at 13:10
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    –Deus morre, eo homem vive.Essa é minha….Matos–

    O engraçado de tudo isso é que, quando o médico diz: Infelizmente você está com cancer.
    A primeira coisa que a pessoa pensa, sendo ateu ou sei lá o que, é: “AI MEU DEUS, E AGORA, O QUE EU FAÇO??”

    Ou seja, o nome do todo-poderoso está até mesmo nas mentes de quem não crê nele hahaha.

    Mas é isso ae, continuem assim, quem sabe um dia vcs consigam chegar lá.

    • Collingwood
    • Posted 5 de agosto de 2010 at 14:02
    • Permalink

    RicardoRamos, você crítica o rapaz por ter criado um sentido para a vida dele, como se você mesmo fosse um ser humano neutro – se você é neutro porque ama seus filhos e sua família?

    Critica-o por dizer certezas, quando a sua resposta à ele e ao Antônio estão cercadas de certezas, como por exemplo, a certeza de que o mundo é um amontoado de casualidades. (o que concordo)

    Todos necessitamos de certezas para viver, mesmo a certeza de que no dia x todos os motorisas de uma empresa y irão trabalhar e você esperará pacientemente no ponto de onibus.

    Seja crente ou ateu, acreditamos em Deus ou na Fisica, não se ache superior à ninguém apenas porque acreditam em algo diferente de você.

    Isso é feio e presunçoso.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/03. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Eduardo Bitencourt
    • Posted 5 de agosto de 2010 at 14:24
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    Pois é, Arthur

    E, sejam crentes ou ateus, eles vão para o médico.

    Ou seja, primeiro os médicos, se não funcionar daí sim apela-se para deus.

    —————————-

    Mas sobre o nome do “todo-poderoso” supostamente estar nas mentes de todos, acho que você sabe que isso não significa nada.

    Da mesma maneira, o paciente poderia gritar “p#t@ que pariu! O que eu faço agora?!”
    Daí você diria o que? Que mesmo nas mentes dos mais puros as prostitudas estão dando a luz?

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/03. O diretório pai possui permissão de escrita?
      RicardoRamos
    • Posted 5 de agosto de 2010 at 16:23
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    Collingwood, acho que você não me entendeu. Eu escreví aquilo justamente porque acho que a vida vale a pena tanto para crentes ou descrentes. Acho o suicídio uma coisa lamentável, embora respeite a vontade do suicida (cada um é dono de sí).

    Não houve presunção alguma da minha parte, apenas disse que mesmo que uma pessoa não acredite em NADA sobrenatural, em deuses, e que não espere NADA após a morte, ainda assim ela pode ser feliz, curtir intensamente e ainda por cima desejar viver muitos anos (a menos que fique gravemente doente).

    Talvez, então, eu não tenha entendido o que o Antônio quis dizer, pois eu só quis passar a mensagem que viver a vida feliz e com prazer independe de crenças ou descrenças.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/03. O diretório pai possui permissão de escrita?
      RicardoRamos
    • Posted 5 de agosto de 2010 at 16:38
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    Dudu, deixe as putas fora disso! Já não basta o que elas aguentam?!

    hehehehe…


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