por Rafael Bittencourt Santos

Algo que deve ser bastante notado por qualquer iniciante na filosofia, quando abordada como uma área do saber, é quão escorregadia e confusa ela é. Esse tipo de abordagem na filosofia causa, algumas vezes, um estranhamento e pode levar a uma conclusão inusitada: a filosofia é fracassada.

Explico-me melhor. Desde a “independência” ganha pela ciência e seu grande e indubitável progresso guiado pelo método empírico, a filosofia tem perdido o seu brilho. Na verdade, o grande brilho da filosofia foi perdido com o fim das escolas helenísticas – platônicos, aristotélicos, estoicos e epicuristas, além das correntes cínicas e céticas – quando ela deixou de ser um modo de viver para tornar-se apenas discussão e interpretação de textos. Se observarmos o que era a filosofia nos tempos de Platão e Epicuro, veremos a busca pelo bem-viver. Veremos homens que não apenas estudavam, mas praticavam. Havia certa diferença entre “filosofia” e “discurso filosófico”.

No entanto, depois do término desse período de esplendor, a filosofia tornou-se apenas ferramenta. Foi, assim, abusada e deturpada. Argumentos filosóficos eram usados para defender cristãos e defender muçulmanos. A filosofia servia a religiosos e laicos. Aparentemente, ela se tornara uma prostituta do saber onde qualquer um ia buscar inspiração para defender qualquer tese que tivesse.

É interessante notar, também, que a filosofia é a única área em que seus estudantes podem “gostar” de teorias. Não é raro escutarmos alguém dizer que não “gosta” muito do determinismo, ou que prefere as tendências do pragmatismo. Contudo, soaria estranho se alguém falasse que não é um fã da Teoria da Relatividade ou não fosse simpático às consequências da Lei da Gravidade. E então a questão: será mesmo a filosofia, agora que não tem mais em seu baralho a ciência, uma disciplina digna de ser dita “acadêmica”? Não seria ela tão digna de foro público quanto a teologia?

Tais questionamentos podem soar estranhos, mas merecem atenção. A filosofia parece, cada vez mais, uma “testa de ferro” que se aventura onde a ciência ainda não está madura o suficiente. E, cada vez mais, perde seu espaço. Numa tentativa de sobrevivência, a filosofia como atividade acadêmica tem se voltado para suportar as bases da ciência, mesmo que ainda não haja consenso sobre questões milenares de epistemologia. A sobrevivência de relativistas, por exemplo, é um fato que denota a fragilidade da argumentação filosófica, visto que tal corrente é duramente atingida desde Platão. Hoje, a filosofia se foca nas bases da ciência – em justificar seu método, dizem alguns – mas devemos lembrar que há algum tempo ela estava nas bases da teologia, serva utilizada por religiosos para justificarem suas crenças de modo “racional”.

Dessa maneira, proponho, humildemente, uma mudança no modo de ver a filosofia. Vê-la, como há bastante tempo, como uma atividade prática e um modo de vida. Não como um conjunto de conhecimentos acadêmicos, pois ela não os tem. Não há como ensinar “filosofia”, e isso é fato. Há como repassar e interpretar textos filosóficos, e lê-los como se fossem literatura. Considerá-los como os que estudam Dom Quixote de La Mancha ou Dom Casmurro. Todavia, interpretar textos não é filosofia nem filosofar. Devemos começar a entender filosofar como aprender a viver.

De que importa isso? Qual a utilidade de tal mudança? Seria uma mudança de ordem bastante prática, o que não tem sido o forte ultimamente da atividade filosófica, geralmente enclausurada nos altos círculos acadêmicos. Atualmente, há grande dificuldade de as pessoas enxergarem a moral como independente da religião – o que causa grande transtorno a ateus com estereótipos preconceituosos, diga-se de passagem. Mas isso não ocorre simplesmente por que as pessoas são ensinadas que a moral vem de Deus ou da Bíblia. Muitas vezes as pessoas reconhecem que seus preceitos éticos não vêm dessas fontes, e muitas trocam de religião justamente porque uma não combina com seu “sistema” ético e a outra está mais de acordo. Se é assim, então por que há tanto transtorno com o fato de ateus não terem nenhuma espécie de crença religiosa, esteja ela ligada a uma instituição ou seja ela independente?

Suspeito que “religião” tenha se tornado, claro que não com as mesmas bases, a filosofia de outrora. As pessoas vivem sua religião. Praticam-na. Reúnem-se para discuti-la. Religião se tornou mais que crença ou fé; tornou-se o viver. E quando escrevo que a filosofia deva retornar às suas raízes, não digo que a filosofia deva se tornar religião (mesmo que, muitas vezes, o comportamento dos filósofos seja muito parecido com o dos religiosos). Digo que ela deve se tornar de novo a busca pelo bem-viver. Seja ele as virtudes, o prazer, o conhecimento ou a busca do ideal de bem.

Por fim, tomando a filosofia como um modo de vida baseado na razão, em contraposição à religião, que se baseia na fé, muito seria ganho. Teríamos, depois de suplantado o terreno da fé, um debate racional, finalmente. Talvez seja a hora de ateus e agnósticos responderem, quando perguntados se têm alguma religião, que, ao invés disso, têm uma filosofia.


(artigo recebido em 21 de julho de 2010)

Nota: para participar como autor ad hoc, envie seu texto para udmg@ateus.net. O material ficará disponível a todos os membros titulares para peer review e estará sujeito a críticas e sugestões antes de ser publicado (em data que seguirá a ordem de recebimento dos materiais). Para maiores informações a respeito, faça aqui o download do ‘Guia de padronização’, em formato PDF.

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6 Comments

    • Cauê
    • Posted 28 de julho de 2010 at 11:41
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    Gostei bastante do texto. Essa mudança da filosofia é vista nas universidades, principalmente as novas, que tem a grade de filosofia com foco na ciência. Eu penso que a filosofia é o nosso modus operandi em relação à vida.

    • Collingwood
    • Posted 2 de agosto de 2010 at 13:19
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    Humildemente eu gostaria de dizer que o autor deste texto padece de um conhecimento minimo acerca da filosofia contemporânea.

    A filosofia se sustenta naquilo que é normalmente chamado de tradição – ou campo epistemológico, que impede que qualquer filósofo fale o que quiser, pois toda sua escrita se inscreve nesta tradição. Ela permite que ele se movimente, não arbitrariamente, mas em conceitos já pensados e trabalhados.

    Inclusive, para esse texto ter valor precisaria de um conhecimento minimo do gigantesco campo epistemológico das variadas vertentes filosoficas contemporaneas para empreender uma critica minimamente aceitavel. Não da para criticar algo por criticar é necessário argumentar e demonstrar.

    Por exemplo, não há qualquer argumento válido para usar o relativismo como um sinal de fraqueza da própria filosofia.

    O relativismo, pelo contrário, foi justamente o caminho pelo qual a filosofia escapuliu de algo que poderiamos até mesmo chamar de dogma religioso. Que, por incrivel que pareça, é muito bem representado pela ideia de Verdade presente em Platão.

    Hoje a filosofia academica pode ser denominada como história da filosofia, um amigo meu, estudante de filosofia, costumava falar que à filosofia cabia a discussão da ética, que serve muito bem (ou não) à ciência.

    • Antônio Zanotti
    • Posted 2 de agosto de 2010 at 19:53
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    Ótimo texto.

    Não conheço absolutamente nada sobre filosofia. E mesmo com o comentário acima concordo com o autor do post.

    Finalmente alguém começa a filosofar novamente.

    Isso que vc deu uma volta pra dizer que religião é uma merda e se sustenta na fé pra mim levou anos pra cair a ficha.

    Gostei da sua sugestão vou começar a criar e viver a minha filosofia de vida.

    Ao meu ver a religião indepedente de qual teria sentido se ela parasse de inventar sentido a vida, universo… porque já deu pra notar que não somos capazes de entender isso. E começasse a se deter no ensinamento de valores amor, respeito, honestidade… ou seja filosofar.

    A diferença de uma joaninha para um homem é que ela não tem noção do que não sabe, enquanto que o homem sabe que não sabe – pelo menos eu acho que deveria.

    Ótimo texto novamente parabéns.

  1. De fato, a ciência engoliu tudo, principalmente a Biologia e as ciências exatas. O campo de pesquisa que restou para a Filosofia é reavaliar os métodos científicos (que cada área também pode fazer sozinha), lembrar a ciência que ela é raciocínio lógico e tentar descobrir, propor, inventar. O resto é dizer como bem viver mesmo, tipo biscoito chinês.

    Na verdade, falamos da Filosofia como matéria: o estudo do homem procurando a verdade. A ciência nada mais é do que a própria Filosofia diluída em pequenas ilhas de especializações — cada vez menores e mais especializadas. A Filosofia matéria não é mais tão útil como antes, já que os seus “guetos” fazem o trabalho pesado.

    De qualquer forma, acho que não é possível descartar a Filosofia como se fosse uma cultura alternativa, a menos que você esteja propondo o materialismo e o raciocínio lógico da ciência como a “verdade”: o que deixa de ser científico.

    A Filosofia nos mostra que somos apenas seres humanos que pensam e manipulam a massa ao seu redor. Tanto ser homem quanto quebrar pedras não significa que sabemos a verdade sobre a existência. Será que o Universo é racional? Será que ele tem fim? Começo? Temporal ou espacial? Você já foi lá?…

    Não é porque você não acredita em nada além do homem e da massa que passa a ser a verdade. Nesse caso, você está propondo a sua opinião por sobre as possibilidades. Ideológico, desonesto e estúpido, a meu ver. De fato, o Ateísmo é uma igreja invertida: não tem nenhum senso crítico real nem honestidade.

    Uma pessoa honesta deve reconhecer que a Filosofia é o último grau de conhecimento humano, o leme, o ponteiro. A Filosofia coloca o homem no seu lugar, enquanto as suas zonas periféricas muitas vezes vendem “verdades” sobre assuntos que ela não faz a menor idéia, muito menos pode provar. Vai provar o que? Nem sabe o que é (verbo ser)…

    E por favor, não venha me dizer que a sua lupa de luxo (microscópio) mostra alguma verdade…

    • Collingwood
    • Posted 11 de agosto de 2010 at 11:05
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    Jefferson,

    você poderia ao menos ter a educação de explicar em que parte do seu texto eu deveria assinar, pois estou em plena concordância.

  2. Sinceramente, eu acredito que a filosofia não pode ser descartada como disse Jefferson. Sem ela, o homem seria apenas uma poeira.
    A ciência mudou muita coisa sim, e para melhor, mas a filosofia foi capaz de analisar todos os impactos científicos e mostrar ao homem que ele deve ir mais ou menos rápido.