Monthly Archives: julho 2010

Não há nada que possamos construir que dure para sempre. Uma máxima rasteira, é claro, mas não menos real por isso. O fato de termos um cérebro e um sistema cognitivo de raciocínio é só uma maneira de nos relacionarmos com o mundo, interpretando os dados sensoriais obtidos para maximizar as funções de sobrevivência individual. Podemos nos enganar facilmente, desde que isso signifique vantagem na luta pela vida.

Um bom exemplo é o de uma pintura. Peguemos uma obra extremamente perfeccionista em seus detalhes e analisemos o que ela nos mostra. De longe, vemos todas as pessoas, as paisagens, os objetos e tudo o mais bem definidos. Ao nos aproximarmos, ao invés de observarmos nuanças mais específicas, vemos tão-somente a textura da tela e da tinta, no que parecem ser pequenos borrões sem sentido.

E não poderia ser diferente. Não temos a capacidade de emular todos os detalhes da natureza. Só em nosso corpo são trilhões de células que deveríamos refazer, uma a uma, em uma simples fotografia. Convenhamos: todo esse trabalho resultaria em nada além de um prazer indelével por parte do artista, mas com pouca ou nenhuma aplicação prática.

Assim são as nossas teorias do comportamento humano. Fortes à distância, mas fracas nos detalhes. Elas servem bem no que tange o mundo prático, mas falham inevitavelmente nos detalhes. E só precisamos que alguém as olhe mais de perto para perceber a falta de coesão entre as partes. São esses os destruidores, os filósofos da destruição.

Eis o bônus do ceticismo em sua maior glória. Eis a razão de um ateu destruir qualquer argumento religioso em favor de deus(es). Ora, são simples ideias jogadas no mundo; não retiradas dele. Assim, não importa quantos detalhes se criem para uma determinada divindade, é um trabalho extremamente fácil desmontá-la e percebê-la como uma criação humana.

Na filosofia, nomes como Schopenhauer, Nietzsche, Sartre e Cioran foram grandes destruidores de mitos criados por nós e espalhados como verdades. A moral, os deuses, a essência humana… todos foram sistematicamente destruídos. Mas por que nos agarramos tanto a esses conceitos, como se fossem verdade? Simplesmente porque precisamos justificar nossas ações racionalmente.

Dessa feita, esperar-se-ia que uma justificação racional antecedesse a ação, mas, no entanto, ela sempre a segue. São sempre explicações ad hoc para comportamentos pré-programados. Como só buscamos uma desculpa para continuarmos fazendo o que fazemos, adoramos os construtores e não atentamos para as falhas em seus edifícios, só porque queremos viver neles. E, então, passamos a odiar os destruidores porque nos tiram das ilusões de nossas casas e nos mostram que sempre vivemos na rua.

Quando revelamos sermos ateus para alguém de fé, é comum que questionem com expressões de indignação: “como assim, você não acredita em nada?!”. De fato, me falta a fé no sobrenatural e no inexplicável, e para a maioria de nós, é preferível a dúvida do que uma certeza fabricada e sem fundamento. Mas será mesmo que podemos dizer que não acreditamos em nada?

Para isso, me permiti pegar de empréstimo o título outrora utilizado por Bertrand Russell, que sabiamente dizia:

“Eu acredito que quando morrer, irei apodrecer e nada do meu ego sobreviverá. Mas me recuso a tremer de terror diante da minha aniquilação. A felicidade não é menos felicidade porque deve chegar a um fim, nem o pensamento e o amor perdem seu valor porque não são eternos. (…) Se não temessemos a morte, creio que a ideia de imortalidade jamais houvesse surgido. O medo é a base do dogma religioso, assim como de muitas outras coisas na vida humana.”¹

A existência, por si só, traz consigo uma carga de improbabilidade que a torna quase sagrada, sem que seja preciso criarmos fantasias acerca de seres sobrenaturais e universos fantástico post mortem. Como questionava Douglas Adams, “não é o bastante ver que um jardim é bonito sem ter que acreditar também que há fadas escondidas nele?”

Entretanto, a ausência de crença em deus não nos torna diferentes enquanto espécie humana. Nossos erros e acertos são similares. É bem verdade que temos uma postura diferente quanto à busca pelo conhecimento, em contraste com a entrega devota a respostas incoerentes, mas via de regra só se reconhece um ateu quando este expõe a sua descrença. Respiramos, comemos, amamos, desejamos… tudo na mesma intensidade.

Acredita-se que o ateu está condenado à punição de deus (seja ele qual for), por não acreditar. Me parece ser característica elementar dos deuses o egocentrismo ranzinza. Pouco importa se você foi um bom sujeito. Não acredita em deus? Está condenado!

Recentemente meu Estado, Pernambuco, foi atingido por uma terrível enchente que destruiu boa parte dos municípios interioranos. O Brasil inteiro se envolveu em uma bonita campanha para arrecadar doações para as vítimas. Os moradores do meu prédio também ajudaram a arrecadar tais mantimentos, e para sensibilizar ainda mais os seus vizinhos, criaram o slogan “aquele que oferece de bom coração, recebe em dobro de Deus”.

É ai que eu acho que reside a maior diferença entre ateus e religiosos. É preciso que seja ofertada uma recompensa divina para convencer uns aos outros a ajudar seus irmãos necessitados? É nisso que eu acredito. Acredito na ética como forma de estabelecer equilíbrio na sociedade; acredito que um ajudando o outro, estabelece-se uma harmonia e, quando você precisar, saberá que terá com quem contar.

Por fim, terminarei este meu texto com uma citação. Não de um grande filósofo ou cientista, mas de poetas e músicos canadenses da banda Rush, que resumem o meu pensamento:

Eu não tenho fé na fé
Eu não acredito na crença
Você pode me chamar de infiel.
Mas ainda me agarro à esperança
E acredito no amor
Isso é fé suficiente para mim.²

1. RUSSELL, Bertrand. No que acredito. LP&M. São Paulo, 2008.

2. I don’t have faith in faith/I don’t believe in belief/You can call me faithless/I still cling to hope/And I believe in love/And that’s faith enough for me.