Monthly Archives: agosto 2010

Tenho uma caixa de ferramentas. Dentro dela: alicates, chaves-de-fenda, porcas, parafusos e um canivete. Sim, tenho mesmo poucas ferramentas, apesar de possuir diversos tipos da mesma ferramenta.

Na condição de ser-humano, posso dizer que criei essas ferramentas. Elas ampliam meu poder de corte, furo, pressão e precisão. É para isso que existem as ferramentas: para ampliar nossas capacidades.

Todas as minhas ferramentas exigem manuseio. Sem mim, elas não são nada; sem elas, eu sou incapaz de muitas coisas. Mas elas não possuem direito de escolha. Outro dia utilizei meu alicate como martelo, e ele não reclamou.

Posso não ter domínio total sobre o uso dos meus instrumentos de trabalho (na verdade, o uso é esporádico). Porém, eles nunca fugiram de controle. Ficam lá, inertes, até que eu decida usá-los.

Assim, sei de tudo o que se passa com as ferramentas: onde estão, com quem estão (às vezes empresto), de onde vêm e para onde vão. Onipresença, onisciência… onipotência? Não. Talvez, sem elas, eu seja apenas mais uma espécie de macaco.

Ouvi falar que somos ferramentas de Deus. Concordo. Acho que, no final das contas, Deus é homem, o homem é macaco, e o macaco é Deus.

Uma das doutrinas mais interessantes do budismo é a ideia do desapego material. Nesta, observa-se que tudo na vida é transitório e, por isso, apegarmo-nos às pessoas e bens causa-nos mais tristeza que felicidade.

De modo semelhante, esse raciocínio poderia ser aplicado às nossas ideias e opiniões.

Pelo fato de não termos acesso absoluto às verdades do universo, todos os nossos pontos de vista são limitados e, portanto, potencialmente errados. Não sendo perfeitas, nossas opiniões constantemente sofrem ataques do mundo real.

A reação natural de qualquer pessoa, quando seus pontos de vista são questionados, é a tentativa de protegê-lo. Deveríamos analisar os argumentos e evidências favoráveis e desfavoráveis às nossas opiniões e concluir, com imparcialidade, se elas são válidas ou não.

O que acontece na realidade para a quase totalidade das pessoas é bem diferente disso: Não avaliamos de maneira livre de preconceitos os argumentos contrários àquilo que acreditamos. Estes argumentos são recebidos por nós como errados à priori e, mesmo que estejam corretos, não competem de maneira igual contra os nossos argumentos preferidos.

Devemos procurar estar conscientes da qualidade real dos nossos argumentos. Quanto de nossos argumentos só se sustenta por estarmos apaixonados pela conclusão que eles conduzem?

Assim como um rapaz com sua namorada, não vemos defeitos em nosso objeto de paixão. Isso ocorre porque deliberadamente desligamos nosso raciocínio crítico quando estamos apaixonados. Assim, as imperfeições passam totalmente despercebidas.

O desapego absoluto às ideias não é algo que possamos atingir, afinal somos humanos. O melhor que podemos fazer é nos perguntar toda vez que nos observarmos lutando contra as evidências: Quem está mais errado, eu ou as evidências?

Se uma coisa é prática não significa necessariamente que seja verdadeira. Teria muito trabalho com argumentações elegantes alguém que discordasse desse aforismo. Principalmente porque teria de recorrer a inúmeros silogismos para comprovar que mentiras não são práticas. Não precisamos ir muito longe para encontrar situações em que são a maneira mais conveniente de se comportar.

No entanto, vemos, a todo e qualquer momento, pessoas alegando veracidade em suas opiniões dada a praticidade que elas acarretam. Devemos nos lembrar que não temos em nós uma espécie de imperativo para a verdade, no sentido de sinceridade e honestidade. Pelo contrário, em todos os casos em que dizer algo que corresponde ao nosso pensamento é prejudicial, teremos sérias consequências físicas por estarmos traindo a nossa índole cretina naturalista.

Assim, não adianta dizer que algo é mais ou menos verdadeiro pelo conforto que nos dá. Até porque, em quase todos os casos, o que nos dá conforto é aquilo que aprendemos que nos dá conforto. Em suma, as nossas formas mais comuns de apaziguamento mental são exatamente aquelas que nos ensinaram desde sempre. Talvez por limitação de remédios, ou ainda por realmente funcionarem, estatisticamente.

Só que não queremos acreditar por acreditar. Sabemos, bem no fundo, que a fé cega é tão fraca quanto fazem parecer os mais céticos. Queremos justificar nossas ações; não parecer um bando de idiotas arrebanhados em uma brincadeira de fazer o que um mestre manda. Eis todo o arcabouço basilar do nosso autoengano: a vontade de que algo seja verdadeiro e a falsa noção de causalidade.

A vontade faz com que partamos da conclusão para a sua justificação e a falsa noção de causalidade nos dá certezas superficiais, mas fortes o bastante para satisfazer o nosso intento: sentirmos conforto em continuar fazendo o que fazemos.

Aos pirrônicos, cabe a máxima de que, em última análise, nenhuma relação causal pode, em campo aberto, ser conclusivamente provada ou refutada. Esquecem-se de adicionar que uma relação observada diversas vezes consecutivas e independentes goza de uma presunção maior do que aquela que só aconteceu uma vez, mais passível de explicação por coincidência ou relação de temporalidade.

Esquecem-se principalmente quando adotam “verdades” do segundo tipo e detonam as do primeiro. Mas não atirai pedras pois fazeis o mesmo. Qual, então, a saída para uma espécie cujo conforto depende, necessariamente, de algumas – ou várias – mentiras, ficções ou ilusões? Aparentemente, nenhuma.

Não há nenhuma sanção externa a comportamentos hipócritas. Se a sociedade decide puni-los é para que a hipocrisia se mantenha em um nível controlado. Se, por outro lado, a sanção for moral, cabe ao dono da consciência pesada buscar meios para que seu senso de verdade e justiça corresponda a suas ações e sua busca por conhecimento. Em outras palavras, que a relação entre praticidade e correspondência real seja a maior possível.

por Edmundo E. Medeiros

Ainda nômade o homem “reconheceu” deus. O ser superior falava com voz de trovão e interpretá-la era especialidade rara, quase sempre delegada ao Pajé. O Pajé dizia, então, o tipo de sacrifício necessário à satisfação da divindade. Alguns sacrificavam mulheres, outros até crianças.

Na Bíblia o sacrifício é tema recorrente. Disse Deus a Abraão: “Toma agora teu filho; o teu único filho, Isaque, a quem amas; vai à terra de Moriá, e oferece-o ali em sacrifício sobre um dos montes que te hei de mostrar”. A conhecida história bíblica segue até que o pai, já empunhando o cutelo para imolar o filho, recebe ordem divina para substituir a criança por um carneiro. Depois deste episódio e exceção feita ao próprio filho, “entregue” aos mortais para servir de bode expiatório, Yaveh não mais exigiu sacrifício humano (Sodoma e Gomorra não foram propriamente sacrifícios), bastando-lhe o sangue de cordeiros.

As selvas tupiniquins ainda abrigam tribos que adoram o deus trovão. Candomblecistas e Umbandistas, por outro lado, oferecem às suas divindades galinhas, bodes, vegetais e minerais.

Apesar da proliferação de religiões, muitos humanos “reconhecem” deus sem se dizerem praticantes de nenhuma delas. Zezinho, funcionário de um grande abatedouro de aves, é um deles. Acorda todos os dias às 5 horas da manhã e segue para o trabalho, onde irá operar o equipamento que realiza a degola diária de milhares de frangos. Zezinho consome nuggets de frango com a mesma regularidade com que policiais norte-americanos devoram donuts.

O equipamento que opera funciona praticamente sozinho e com precisão cirúrgica. Zezinho observa, durante horas, os animais sendo pendurados numa esteira suspensa que os conduz às navalhas circulares. Zás! Fim da vida para os frangos que seguem pendurados para o caldeirão fervente que facilitará a extração das penas.

Certa manhã Zezinho tropeçou numa oferenda deixada na esquina da sua rua. Olhou para o pobre frango degolado em troca de algum benefício reclamado pelo devoto de um Orixá qualquer e se lembrou das implacáveis navalhas do equipamento que em poucos minutos operaria.

– Benefícios pela degola de um mísero frango?! (Indagou Zezinho).

Cogitou, então, quantos benefícios poderia obter se oferecesse todos os frangos que matava diariamente para a tal divindade, antes da degola na navalha circular.

– Bobeira! Faltaria o ritual… (logo concluiu).

Zezinho, no entanto, nunca mais olhou para as pequenas aves da mesma forma. Milhares de degolas se passaram até Zezinho, certo dia, indagar acerca da alma dos “bichinhos”. Concluiu, depois de algum tempo, que os frangos não poderiam ter alma.

– Para onde iriam tantas almas? Somente seres inteligentes podem ter alma!

Zezinho abandonou o hábito de consumir nuggets. As reflexões fizeram-no se interessar pelos programas do Animal Planet. Percebeu, ao assisti-los, que outros seres vivos também são inteligentes. Golfinhos e macacos, por exemplo, têm um nível de inteligência inferior ao humano; no entanto, inegavelmente, têm inteligência; ao menos a necessária para, por exemplo, tripularem uma nave até o espaço, como já ocorrera com o macaco Albert II, em 1949.

– Será, então, o nível de inteligência animal que determina o “direito” a um deus? Haveria um deus macaco ou golfinho convivendo no além com Alá ou Jesus Cristo? Como seria o inferno destes animais? Macacos e golfinhos têm regras morais? (…)

As questões foram aparecendo mais rápido que as respostas. E as implacáveis navalhas circulares… Zás!… Zás!… Zás!

– Eureka! Esses animais, com ou sem inteligência, não têm espírito! Não podem tê-lo! Não têm um deus! Não têm um inferno para pagarem seus pecados: sem regras morais, não pecam!

Finalmente paz! Zezinho pode, agora, trabalhar tranquilo! Os nuggets voltaram ao cardápio! Animal Planet tornou-se rotina, todas as noites, antes de dormir.

Animal Planet apresentou, recentemente, uma nova série de documentários chamada “Evolução”. Zezinho, pela primeira vez, compreendeu com clareza a teoria darwiniana. Concluiu que…

– Antes de Homo sapiens éramos macacos… Antes de macacos, éramos peixes!

Foi-se então, mais uma vez, a paz de Zezinho! Se peixes e macacos não têm um deus e um espírito, por que humanos, que já foram macacos, os teriam?

– Fé! Foi preciso fé no deus trovão! Fé em Yaveh! Fé em Alá! Fé em Orixás e Caboclos! Sem fé não se pode “enxergar” deus.

Zezinho encontrou, finalmente, a resposta para todas as questões! O “sentido” da vida! Percebeu que peixes, frangos e macacos não têm deus porque lhes falta fé! Não conseguem “enxergar” deus porque não têm fé. Inteligência, neste aspecto, é irrelevante ou pouco determinante.

A existência, finalmente, tem um sentido claro para Zezinho e o motor que faz tudo funcionar atende pelo nome de fé! Esta vida, o post mortem, nosso espírito, deus… Bastava ignorar o “detalhe” de que milhares de anos precederam a consciência e a fé do Homo sapiens para que tudo, finalmente, se “encaixasse”!

– Nada faria sentido sem fé! Seríamos como peixes ou macacos, que nascem sem um destino claro, vivem e morrem. Sem um deus e um espírito não seríamos nada além de animais com um bocado de inteligência a mais que macacos e golfinhos! Apenas “estaríamos”, sem nada antes ou depois. O post mortem seria apenas o pó, no cemitério. A vida humana teria tanto sentido quanto a vida de um macaco, de um golfinho ou de um frango (Zás!).

Zezinho decidiu ter fé! Em Thor, Yaveh, Alá, Jesus Cristo ou Orixás? Bem… Essa questão é menos importante… Zezinho precisa, apenas, ter fé!


(artigo recebido em 10 de agosto de 2010)

Nota: para participar como autor ad hoc, envie seu texto para udmg@ateus.net. O material ficará disponível a todos os membros titulares para peer review e estará sujeito a críticas e sugestões antes de ser publicado (em data que seguirá a ordem de recebimento dos materiais). Para maiores informações a respeito, faça aqui o download do ‘Guia de padronização’, em formato PDF.

Pense nos seus dados pessoais. Pense no local onde nasceu, em sua nacionalidade, sua filiação; pense em seu nome. Se eu disser que meu nome é Jairo, estarei supostamente falando a verdade e terei meios de prová-la. Mas que tipo de verdade é esse?

Para que eu fale a verdade quando pronuncie meu nome, este precisa estar de acordo com o meu registro de nascimento e posteriores documentos. Mas como sei que os documentos dizem a verdade? Provavelmente porque são dotados de fé pública.

Certamente é uma verdade diferente daquela com a qual estamos acostumados a tratar quando falamos que a teoria da evolução é verdadeira, por exemplo. Talvez seja porque o fato da evolução é externo a nós e é reconhecível no mundo.

Mas e quanto a nossos nomes? Aquém da veracidade instrínseca, precisamos, isso sim, reconhecer a praticidade de os ter. Os nomes nos dão uma noção de identidade; eles nos fazem parecer únicos, por mais que outros tenham nomes parecidos ou até mesmo idênticos.

Também não devemos chegar ao outro extremo e declarar que os nomes são mentiras. Talvez “ficções” seja o melhor termo para o caso. É assim que tratamos o pseudônimo artístico ou o papel que um artista interpreta em uma representação.

De certa forma, até onde a analogia nos permite enxergar, é isso o que fazemos: interpretamos as ficções de nossas vidas. E o fazemos de forma tão impressionante que, para todos os efeitos, isso se torna a nossa verdade.

É algo tido por certo e quase nunca questionado, mas quando nos apercebemos da fragilidade de tais conceitos, podemos utilizá-los de acordo com sua utilidade. A verdade, então, entra em segundo plano e é razoavelmente estúpido questionar o porquê de tais coisas.

Tentando abranger a conclusão, podemos dizer que tudo o mais que jogamos no mundo segue o mesmo raciocínio. Os limites geográficos, por exemplo, são apenas linhas imaginárias que cercam aquela parte do território sujeita a outras ficções que conhecemos por leis.

As ficções não se tornam menos importantes por não partilharem da segurança de uma verdade. Pelo contrário, lutamos por elas tanto quanto lutaríamos por qualquer outro motivo idiota. Fazemos guerras em nome delas e louvamos a sua beleza, quando bem elaboradas.

Precisamos internalizar que o que entendemos comumente por verdade é apenas a nossa projeção sobre o mundo. E não devemos nos admirar quando ele não regurgitar o que esperamos de acordo com essa nossa estampa que teimamos em colar em sua superfície.

Mas não se enganem os relativistas: sabemos que as ficções são múltiplas, mas ainda acreditamos em uma verdade única, mesmo que muitos a considerem inacessível a nós. E para aqueles que acham que as ficções estão em pé de igualdade, basta lembrar-lhes que sempre haverá uma mais ou menos adequada, dependendo de nosso objetivo.

Não acreditamos em deus pois não existe evidência alguma de que esse mesmo exista.

Essa posição parece ser muito radical para muitas pessoas que não perceberam o cerne da questão pois, como dita a velha frase: “a ausência de evidência não é evidência da ausência”. O tal “cerne” da questão eu discutirei no texto, assim como porque não acreditar em deuses é a coisa mais sensata a se fazer enquanto não existe uma evidência sequer mostrando o contrário. Lembrando que eu não abordarei as supostas “evidências” a respeito do assunto porque é assunto demais para um texto só, fora que estou familiarizado o suficiente com uma boa quantidade dessas “evidências” e precisaria ler/ouvir algo muito diferente para ficar realmente surpreso. Para entender essa questão, irei começar pela rota menos óbvia: supor que deus exista. Claro, vamos ter que pegar um deus em específico, pegarei o abraâmico por estar mais familiarizado com este.

Deus existe, ele realmente criou a terra como está descrito no Gênesis, veio a Terra como Jesus e fez um monte de coisas. Façamos esse exercício mental. O que impede que ele exista? Bom, se foi ele quem criou homens e mulheres (do barro e de uma costela, respectivamente), então pode muito facilmente ter determinado suas limitações. Limitações como não ter a capacidade lógica o suficiente para entender as Suas motivações. Da mesma maneira que uma formiga não tem capacidade lógica para entender sobre buracos-negros, por exemplo. Então, esses humanos poderiam ter evoluído tecnologicamente, ter avançado na filosofia e na cultura, mas mesmo assim ainda seriam limitados. Todas as evidências empíricas possíveis e a mais brilhante lógica do mundo não seria o suficiente para revelar a verdade, que seria a de que Deus existe e foi ele quem os criou. Deus veria todos ali, pessoas crendo nele, outras crendo noutros deuses, e ainda umas que seriam atéias. Somente aquelas pessoas seletas, cristãs, estariam corretas. Não pela lógica ou pela observação, mas puramente porque resolveram acreditar em algo. Resolveram acreditar em Cristo, que por acaso foi uma vez que Deus veio dar uma banda no seu planeta favorito para consertar as próprias mancadas.

Conseguiram ver o erro? Para muitos teístas, o que eu escrevi agora expressa direitinho a lógica por trás de suas crenças. Na verdade, boa parte deles, partindo da premissa de que a minha suposição é muito mais do que suposição, acaba vendo os ateus como “tolos”. Afinal, Deus existe e todos aqueles ateus, escarafunchados na “lógica” e no “empirismo”, são incapazes de acertar a verdadeira resposta. Existe um problema muito grande nessa questão.

O problema é, em um palavra: critério. Crença é uma questão de critério. Não se trata apenas de estar certo em um determinado assunto e ignorar qual foi o meio pelo qual se obteve a respectiva conclusão. Eu dei o exemplo do deus abraâmico e, para muitas pessoas, isso parece corresponder com a realidade. Mas reparem que, se eu substituir a palavra “Deus” por um outra qualquer, digamos, “Sauron”, a suposta “lógica” do parágrafo não decresce nenhum pouco. Alguns poderiam dizer que eles não sentem por Sauron o que sentem por Deus, mas e porque o próprio criador do universo deveria se importar com isso? Se a própria lógica foi abandonada pelo deus da bíblia, o que impede Sauron de abandonar as emoções? E se não fosse Sauron, se fosse uma mega corporação de gnomos invisíveis eu sigo dizendo que a “lógica” não diminuiria nem um pouquinho.

Precisamos de critério pois existe um fato muito indignante: Nunca seremos capazes de contemplar a realidade em toda a sua plenitude. Tudo o que sentimos é um interpretação da realidade e, como tal, sujeita a defeitos. Como o nosso acesso à realidade é apenas parcial, resta sermos criteriosos. Engraçado como muitos crentes costumam dizer “no final, veremos quem está certo”, na crença de que algum dia a “Verdade” será revelada. Essa crença decerto lhes dá mais tranqüilidade para fazerem suas apostas de fé. Mas é claro, não existe absolutamente nada que garanta ou mesmo indique que qualquer verdade será revelada só para saciar a nossa curiosidade.

Em uma última analogia, imaginem europeus em pleno século XIII. Suponhamos que, um cidadão português tenha concluído, acertadamente que existe todo um continente para o oeste e que devem ser realizadas expedições para lá. A nobreza portuguesa, interessada na conclusão do informante, resolve perguntar como ele chegou a ela. Perguntam se ele realizou expedições para aqueles mares, se ele viu embarcações surgirem de lá. Eis que ele diz ter descoberto o suposto continente por ter fé em sua existência. Apresentado desta maneira, alguém pode achar que seria sábio por parte da nobreza seguir o palpite louco do cidadão e ter gasto fortunas com expedições. Acontece que eu estou usando um exemplo muito específico. Aqueles mares eram desconhecidos e fora do alcance lógico dos portugueses. Seria, no fim das contas, insensato mandar naus para lá mesmo que esse caso em particular alavancasse o progresso de Portugal. Isso porque, da mesma maneira que seguiram um palpite certeiro, poderiam seguir uma miríade de palpites muito mais desastrosos e, portanto, colapsariam.

E é por isso que a questão não gira em torno do “porque deus não existe” mas sim “porque não deve se acreditar nele”. E não se deve acreditar por simples honestidade intelectual. É você sendo verdadeiro com os seus conhecimentos, sem dar chutes afobados na pretensão de estar certo.

Sensacionalismo pouco é bobagem. Desde o dia 27 de julho, ateus de todo o Brasil tem demonstrado sua indignação em relação aos comentários maldosos do apresentador José Luiz Datena, no programa Brasil Urgente.

Já faz uma semana que ocorreu a difamação, e muitos sites ateístas (e ateus avulsos)  já expuseram suas opiniões a respeito do sujeito em questão. Foram tantas as reclamações no twitter, youtube, blogs e afins, que nem consegui ler ou ouvir a todos. Uma verdadeira sanguia desatada de ateus!

Na verdade, ler ou assistir a tantas reclamações faz-me sentir como se, a todo tempo, eu esteja passando pela experiência de déjà vu.

Há cerca de duas semanas, fui convidado a participar da LiHS (Liga Humanista Secular). A princípio achei a idéia de participar de uma “liga” algo equivalente a associar-me a um partido, ou seguir uma religião (mais tarde percebi até que fui grosseiro demais em minha recusa). Porém, após as asneiras vomitadas pelo Datena, percebi que aflorou em minha uma vontade ainda mais forte de me unir a algum grupo ateísta, assim como tantos outros ateus também tiveram essa vontade. Cheguei a cogitar a possibilidade de afiliar-me realmente à LiHS.

Refletindo a respeito disso, percebi que sempre que algo nos ameaça, ou a nossas ideologias, tendemos a procurar um grupo, talvez pelo velho instinto de preservação (óbvio que em grupo nos sentimos mais protegidos). É nessas horas, quando muitos se mobilizam em prol de um único objetivo (no caso, repudiar as calúnias sofridas), que descobrimos a força que há em qualquer grupo, seja ele grande ou pequeno.

É hora de aproveitarmos o calor do momento e sairmos de vez do armário. Fazer valer os direitos e deveres constantes na Constituição Brasileira. Pseudo-heróis como o Datena distorcem as leis a seu favor, argumentando que também tem o direito de expressar suas opiniões; porém arrotar preconceitos e calúnias não é direito constitucional; é apenas uma forma de se fazer admirar às custas da ignorância do outro.

A mente do povão já virou sopa, e imbecis como o Datena preferem engrossar o caldo de preconceito, alienação e religião do que fazer com que percebam que o paladar pode sentir mais do que o gosto dessa lavagem que lhe empurram.

PS.: CALA A BOCA, DATENA!


Nota: – Texto redigido a pedido de alguns dos nossos leitores, via e-mail e MSN. Grato a todos pela participação.