Há duas semanas, depois de muita discussão, protestos e polêmica, a Argentina entrou para o seleto grupo de países a permitir a união civil entre pessoas do mesmo sexo. A aprovação não foi nada fácil; afinal, foi necessário vencer o poderoso lobby da Igreja Católica.

O principal porta-voz da Igreja na Argentina, o cardeal Jorge Bergoglio, afirmou que o projeto aprovado é um “movimento do diabo para destruir o plano de Deus”.  Bergoglio, em seu desespero, é acompanhado do Papa Bento XVI que em outras ocasiões afirmara que o casamento gay é “uma ameaça à criação”.

O desespero da igreja não é sem motivo, a liberação do casamento gay é uma afronta a um dos dogmas centrais da Igreja: a ideia de que a família é composta por um homem e uma mulher. Mas mais do que isso, demonstra que cada vez mais a Igreja perde poder político devido à crescente secularização dos países ocidentais.

A Igreja que há seiscentos anos mandava soberana por quase toda a Europa; hoje, tem dificuldade em influenciar negativamente políticas favoráveis ao casamento homossexual, aborto e eutanásia em diversos países que outrora estiveram sob sua influência.

Outro inimigo, ainda mais implacável do que a secularização, é a invasão evangélica que, ano após ano, reduz o número de fiéis e, o pior: levando junto uma parte considerável do faturamento financeiro.

Por fim, o ataque que vem de dentro: as constantes denúncias de pedofilia. Ainda que o número de padres pedófilos seja mínimo, o impacto é grande na imagem de todos eles. Ainda mais danosa é a inação da Igreja em coibir e punir tal prática.

Que pai, depois de tantas denúncias, permitiria com tranqüilidade que seu filho continue frequentando a sacristia? O impacto dessa falta de confiança será sentido no futuro, já que as crianças que seriam doutrinadas hoje, deixarão de compor as massas católicas do futuro.

Hoje a Igreja é um impotente espectro do império que foi um dia. Porém, a decadência desta não significa que a religião de modo geral esteja perdendo importância.

Ao contrário desta tendência, as igrejas evangélicas continuam muito firmes na manutenção da religiosidade da população. Todos os dias, novos e maiores templos são abertos com o intuito de converter mais fiéis e arrecadar mais dinheiro. Esse crescimento desenfreado poderia representar um risco muito grande para a laicidade do Estado, porém, ao contrário da Igreja Católica, as igrejas evangélicas são descentralizadas e, por isso, não conseguem ser suficientemente organizadas para fazer frente a algumas minorias barulhentas.

Será que ainda estamos longe de viver em uma sociedade em que o respeito pelas minorias fala mais alto que o preconceito religioso? Quanto tempo ainda se passará até que políticas de interesse público tenham prioridade sobre aquelas que refletem apenas o interesse de alguns poucos líderes espirituais?

Com a decadência da religião organizada, o poder político dos líderes espirituais gradativamente desaparece, por esse motivo, talvez não seja um exagero ser otimista com as questões acima.

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12 Comments

    • vikernes
    • Posted 4 de agosto de 2010 at 9:33
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    Acho que a religião como ferramenta/dispositivo social já foi aposentada faz tempo porque parece uma piada quando hoje se dispõe de meios infinitamente mais maquiavélicos e sofisticados para estes mesmos fins.

    • Isaac Nogueira
    • Posted 4 de agosto de 2010 at 10:30
    • Permalink

    O fato de não aprovarmos (posicionando-me como evangélico) a união sexual entre pessoas do mesmo sexo NÃO implica aprovarmos a discriminação, ainda que alguns (ingenuamente ou mesmo propositadamente) o façam. Apenas reinvidicamos a liberdade de manifestar uma posição contrária. Manifestar posição contrária é diferente de “discriminar” e “hostilizar”. Repudiamos a discriminação. É fundamental o respeito pelas minorias e a quebra dos preconceitos (religioso, anti-religioso ou qualquer que seja).

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/08. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Bruno Teixeira
    • Posted 4 de agosto de 2010 at 11:22
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    Isaac,

    Enquanto a discordância permanecer no campo das ideias, não haveria qualquer problema. Porém, quando a discordância parte para a prática aí sim há discriminação.

    Digamos que João não gosta de gays. Não há como recriminá-lo, afinal, essa é apenas a sua opinião. Digamos então que João, por não gostar de gays, decida proibir a entrada deles em seu Bar. Você não concorda que isso seja discriminação? Dar apoio à decisão discriminatória de João também não seria?

    Qualquer pessoa que apoia a proibição do casamento homossexual está discriminando.

    O maior problema, em minha opinião, é a tendência que os líderes religiosos têm em proibir coisas até mesmo para aqueles que não seguem suas religiões. Que eles impeçam que casais católicos gays se casem na igreja. Mas tentar impedir que um casal ateu gay se case no cartório é inadmissível.

    • Bruno Guida
    • Posted 4 de agosto de 2010 at 11:28
    • Permalink

    Bem, desde quando criminalizar opiniões seria algo positivo.
    A verdadeira liberdade consiste em respeitar opiniões diversas… respeitar não aceitar…
    Se eu só tenho que dizer sim… isso não é liberdade é escravidão…
    Só existe liberdade se eu for capaz de dizer sim e não para qualquer coisa que EU QUEIRA…

    Se um usuário de crack gosta da sua droga e quer se acabar com ela… nada do eu penso ou disser vai dissuadí-lo daquilo.
    Uma coisa seria eu tratar com respeito esta pessoa…
    Mas não obstante eu ter que aceitar que o crack e o vício dele e todas as mazelas que decorrem disso sejam “normais e aceitáveis”
    PARA A MINHA VIDA e para MINHA LIBERDADE

    Respeitá-lo sim… como serhumano… como gente e não como um animal…
    Mas aceitar esse tipo de prática não dá… mas não dá para minha vida…
    Se outros querem isso, então usem de suas liberdades sem tolher a minha…
    Se tem gente que comete crime atentando contra a vida de alguem que quer isso é outra questão… crime é crime e devem ser condenáveis…
    Mas daí criminalizar o simples fato de eu ter uma opinião… essa é a pior das ditaduras que jamais houve na face da terra…
    nem as piores heresias religiosas sejam elas quais forem, mas principalmente as catolicas e evangélicas…
    nem as ditaduras comunistas, nazistas ou facistas…
    nem os impérios babilônico, persa, grego ou romano…
    foram capazes de uma ditadura terrivel com esta que em breve será implantada não só no Brasil mas no mundo… onde não teremos direito de pensar e ter opinião…
    A ditadura da mordaça homossexual fará suas milhares de vítimas…

    Assim há que diferenciar o que é respeito e o que é aceitável… existem um coletivo mas também existem um individual…
    A Opinião é individual, ninguém pode me tirar este direito… mesmo que eu queira ter uma opinião má…
    Minha opinião sobre as coisas é o que eu defino como aceitável para minha vida e não para a vida dos outros
    O Respeito é e deve ser coletivo… devo respeitar todos até o mais terrível dos assassinos… mas aceitá-lo com seus atos… NÃO!

    Se se deve tolher os pensamentos, porque também não tornar inaceitá-vel quando uma pessoa pensa em matar a outra, ou criminalizar quem faz apologia às drogas
    porque poderei ser proibido de ter opinião contra o homossexualismo
    mas um viciado pode ter opinião a favor da droga e do seu vício… que eu saiba as drogas são uma das piores pragas deste tempo em que vivemos

    Não creio que leis a favor do homossexualismo tenha a real intenção de se propor justiça alguma muito menos respeito algum aos homossexuais
    O jogo político por de trás dessas manobras, ainda vai explodir sobre nossas cabeças… o pior é que as pessoas estão amando isso…
    A prova disso é como nenhum militante desse tipo de justiça se atreve a levantar contra uma nação islâmica…
    Já viu alguém do Greenpeace por lá? ou propondo o Aborto? ou Propondo o Feminismo?… muito menos propondo o homossexualismo!
    Ai vem um punhado de pseudo-intelectuais, pseudo-políticos afirmando que respeitam a liberdade deles ou isso é problema deles… a me poupe desta mentira!

    Está certo quando das manobras de engando e hipocrisia deste tipo de religioso cristão… e quanto mal eles causaram… mas um fato, que ignorou, é que existe uma quantidade enorme de cristãos que não estão debaxio do Catolicismo Romano, nem Evangélico
    ou qualquer outra ordem com o nome de cristã.
    Não há, nunca houve, nem haverá jamais lei que será capaz de mudar a opinião sobre qualquer coisa firmada na doutrina judaico-cristã destes cristãos,
    Tavlvez consigam de cristãos institucionais(católico, evangélico…), porque eles estão mais suscetíveis a onda do mundo…

    Esse foi inclusive o maior problema do Império Romano quando tentou eliminar os cristãos da face da terra… nada os fazia se render! Nem mesmo a morte!

    Porque sempre soubemos como tratar a diferença entre opinião, respeito e o que é aceitável ou não.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/08. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Bruno Teixeira
    • Posted 4 de agosto de 2010 at 11:51
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    Bruno Guida,

    Um usuário de crack representa um risco para a sociedade no momento em que começa a roubar e/ou matar para sustentar seu vício.

    Um assassino representa um risco a sociedade por ser, afinal, um assassino.

    Qual o risco para a sociedade no caso de um gay se casando com outro?

    No mais concordo que leis que criminalizam ideias são exageradas e altamente ineficientes.

    • Ge
    • Posted 5 de agosto de 2010 at 11:25
    • Permalink

    Bruno, um gay ou a união de um com o outro certamente não representa risco algum para a sociedade,…
    me responda, você já foi em uma parada gay? bom pelo menos as que eu já tive o desprazer de estar representam alguns riscos éticos e morais, pois quando se unem tornam-se mais depravados e cometem em via publica atos sexuais ou abusos para com os não gays, o que não se torna muito recomendável visto que pelo horário que elas acontecem ainda existe a permanência de crianças que ocasionalmente passam no local, isso causa um grande desconforto.
    ai que eu te digo se em poucos e com os direitos constitucionais eles são assim imagine futuramente.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/08. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Daniel Quintão
    • Posted 5 de agosto de 2010 at 13:12
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    Ge, se você se assustou com o que acontece nas paradas gays, tente presenciar o carnaval, uma “festa” comemorada no mês de fevereiro.
    Tem homem se “atracando” com mulher pra tudo o que é lado! Homens e mulheres transando em público, ou dando uns amassos mais “calientes” pra quase todo canto que se olha.
    Também acontece muito o tal “beijo forçado”. Tem gente que fala que “no carnaval ninguém é de ninguém”, e com razão. Pouca gente pula carnaval por causa do funk ou do axé. O negócio é sair pra se mostrar, zoar, ficar ou funfar!
    Mas bizarrice de hetero não tem problema. Algo só é amoral quando é “anormal”, não é mesmo?

    • Ge
    • Posted 5 de agosto de 2010 at 13:38
    • Permalink

    Não mencionei sobre carnaval porque o assunto abordado estava sendo homossexualismo, mas o carnaval é tão podre quanto a parada gay, Nunca tive e nem tenho vontade de presencial um evento desse tipo, o que devia ser alguns dias de alegria e festejo torna-se situação caótica e preocupante, o numero de acidentes disparam, consumo de Drogas, bebidas alcoólicas e outros entorpecentes aumentam, sem contar os roubos freqüentes. Mas o retorno financeiro disso tudo compensa muito para os detentores das decisões políticas.
    Todos esses contratempos unem-se para formar o câncer pungente da sociedade.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/08. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Daniel Quintão
    • Posted 5 de agosto de 2010 at 15:09
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    Concordo, Ge. E penso quase da mesma forma. Isso mostra, porém, que as atitudes que você apontou anteriormente não são exclusividade dos homossexuais, mas de toda uma sociedade.

  1. Na invasão evangélica vemos uma maneira de manter um equilíbrio nas forças religiosas.

    Já casamento gay pode ser um problemão.

    • Wolph
    • Posted 9 de agosto de 2010 at 10:26
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    Penso ser hipócrita um evangélico alegar que não discrimina, uma vez que para ele não só os gays, mas os ateus, os islamicos, etc. Vão para o inferno, ser torturado eternamente.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/08. O diretório pai possui permissão de escrita?
      RicardoRamos
    • Posted 9 de agosto de 2010 at 13:54
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    Acontece, meu caro Rubens, que para eles isso não é discriminação, mas uma VERDADE. Uma VERDADE incontestável. O tal usuário de nome “Incendiário” do fórum cristão declara certas coisas lá no espaço deles que fazem muçulmanos radicias parecerem meninos do jardim da infância.

    Loucura? Também acho. Mas venho batendo nessa tecla há anos…

    Os neos cristãos me fizeram rever o conceito de liberdade irrestrita religiosa.


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