Pense nos seus dados pessoais. Pense no local onde nasceu, em sua nacionalidade, sua filiação; pense em seu nome. Se eu disser que meu nome é Jairo, estarei supostamente falando a verdade e terei meios de prová-la. Mas que tipo de verdade é esse?

Para que eu fale a verdade quando pronuncie meu nome, este precisa estar de acordo com o meu registro de nascimento e posteriores documentos. Mas como sei que os documentos dizem a verdade? Provavelmente porque são dotados de fé pública.

Certamente é uma verdade diferente daquela com a qual estamos acostumados a tratar quando falamos que a teoria da evolução é verdadeira, por exemplo. Talvez seja porque o fato da evolução é externo a nós e é reconhecível no mundo.

Mas e quanto a nossos nomes? Aquém da veracidade instrínseca, precisamos, isso sim, reconhecer a praticidade de os ter. Os nomes nos dão uma noção de identidade; eles nos fazem parecer únicos, por mais que outros tenham nomes parecidos ou até mesmo idênticos.

Também não devemos chegar ao outro extremo e declarar que os nomes são mentiras. Talvez “ficções” seja o melhor termo para o caso. É assim que tratamos o pseudônimo artístico ou o papel que um artista interpreta em uma representação.

De certa forma, até onde a analogia nos permite enxergar, é isso o que fazemos: interpretamos as ficções de nossas vidas. E o fazemos de forma tão impressionante que, para todos os efeitos, isso se torna a nossa verdade.

É algo tido por certo e quase nunca questionado, mas quando nos apercebemos da fragilidade de tais conceitos, podemos utilizá-los de acordo com sua utilidade. A verdade, então, entra em segundo plano e é razoavelmente estúpido questionar o porquê de tais coisas.

Tentando abranger a conclusão, podemos dizer que tudo o mais que jogamos no mundo segue o mesmo raciocínio. Os limites geográficos, por exemplo, são apenas linhas imaginárias que cercam aquela parte do território sujeita a outras ficções que conhecemos por leis.

As ficções não se tornam menos importantes por não partilharem da segurança de uma verdade. Pelo contrário, lutamos por elas tanto quanto lutaríamos por qualquer outro motivo idiota. Fazemos guerras em nome delas e louvamos a sua beleza, quando bem elaboradas.

Precisamos internalizar que o que entendemos comumente por verdade é apenas a nossa projeção sobre o mundo. E não devemos nos admirar quando ele não regurgitar o que esperamos de acordo com essa nossa estampa que teimamos em colar em sua superfície.

Mas não se enganem os relativistas: sabemos que as ficções são múltiplas, mas ainda acreditamos em uma verdade única, mesmo que muitos a considerem inacessível a nós. E para aqueles que acham que as ficções estão em pé de igualdade, basta lembrar-lhes que sempre haverá uma mais ou menos adequada, dependendo de nosso objetivo.

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9 Comments

    • Collingwood
    • Posted 13 de agosto de 2010 at 10:03
    • Permalink

    Para eu saber quem eu sou recorro à minha memória, como se eu narrasse em tempo real o meu passado – recortando momentos que considero importantes e excluindo outros “não importantes”, literalmente costurando uma trama
    -, porém, “narrar” pressupõe um narrador ou de um meio narrativo (ator, livro, filme, etc.) e também pressupõe a ausência dos eventos narrados.

    Tais eventos, no caso, o meu passado, estão presentes como ficções, mas ausentes como realidades.

    • BossGrave
    • Posted 13 de agosto de 2010 at 23:16
    • Permalink

    Jairo, Jairo… impressão minha ou vi um pseudo-ataque ao determinismo?

    O que você ignora sobre o passado não é relevante, mas que ele sempre influenciará seu futuro e o de todos é inevitável, queira ou não.

    • Collingwood
    • Posted 14 de agosto de 2010 at 11:31
    • Permalink

    Bossgrave, não sei se é questão de ignorar o passado, mas sim reconhece-lo como uma construção e não como uma determinação absoluta.

    O nosso passado esta em permamente transformação conforme olhamos para ele com sentimento diferente.

    É possível num dado momento minha infância ser maravilhosa e eu me sentir melhor por ter crescido de forma saudável, mas em outros momentos, em que por diversos motivos eu lembro de momentos que não foram agradáveis, posso definir aquilo que parecia ser maravilhoso como traumatizante, e ser afetado por esse trauma!

    (Há muitos psicólogos da Gestalt que trabalham nessa perspectiva)

    O passado vai definindo o que eu sou no agora, mas mesmo o passado só existe enquanto uma “trama” que eu crio cada vez que recorro à memória.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/07. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Jairo Moura
    • Posted 14 de agosto de 2010 at 12:01
    • Permalink

    Bossgrave,

    Em primeiro lugar, não cuidamos de nossas vidas com rigor científico.

    Em segundo lugar, as ficções são úteis aos nossos objetivos.

    Finalizando, o substrato das relações humanas é determinista. Estudamos todas as facetas de nossa existência com base em uma ou mais ciências.

    Não sei onde viu ataque a qualquer determinismo, até porque sequer os mencionei no texto.

    Minha única intenção foi a de mostrar os diferentes sentidos da palavra “verdade” e dar-lhes um nome mais apropriado para não desvirtuar o já existente e consensual.

    • Collingwood
    • Posted 14 de agosto de 2010 at 13:34
    • Permalink

    Jairon, conhece o Ortega y Gasset?

    Um ensaio dele, que gosto muito:

    http://www.confrariadovento.com/revista/numero24/ensaio01.htm

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/07. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Jairo Moura
    • Posted 14 de agosto de 2010 at 13:35
    • Permalink

    Não conheço. Obrigado pela recomendação. Mas escreva meu nome certo, por favor.

    • BossGrave
    • Posted 15 de agosto de 2010 at 19:43
    • Permalink

    Humm jairo, isso rende uma discussão e tanto.

    Determinismo no meu ver, é ter conhecimento de que o passado influencia seu futuro.

    Tanto, que pode determinar ele.

    Exemplo pratico seria uma pessoa que foi forçada a sair do nordeste e por motivos de miséria tentou a sorte em SP – Capital, mas quando desembarca do ônibus leva uma bala perdida na cara por causa de guerra no tráfico.

    Não há culpados diretos na morte do nordestino, foi uma fatal coincidência de fatores anteriores que culminaram na morte do pobre coitado.

    Eu ainda confundo o termo determinismo com fatalismo, não sei distinguir. Mas que as coisas simplesmente acontecerão, isso não tem como ninguém esquivar.

    • Collingwood
    • Posted 16 de agosto de 2010 at 8:33
    • Permalink

    Bossgrave, acho que você confundiu “ações” com memória. A memória organiza arbitrariamente as ações passadas, por exemplo, você organizou (de forma fatalista) a trajetória do nordestino até o encontro com a bala “perdida”, nesse caso, o uso do termo “bala perdida” é paradoxal, pois se você acha que o nordestino estava fadado a ser atingido por ela, ela, então, não era perdida.

    Há tantas variaveis, nesse aspecto, como por exemplo, se perguntar porque o sujeito que disparou a arma errou o tiro, e porque ele atirou naquele momento e não um segundo antes. Esse tipo de coisa esta fora de qualquer controle do homem.

    O que você faz é organizar esses acontecimentos caóticos num sistema que não apenas seja inteligivel, mas também lhe de a falsa sensação de que estamos no controle das coisas.

    (Jairo, você leu o ensaio do Ortega y Gasset?)

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/07. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Jairo Moura
    • Posted 16 de agosto de 2010 at 10:58
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    Li sim.