Por que somos bons? Essa é uma pergunta muito interessante mesmo quando analisada de maneiras diferentes. Para alguns, a nossa bondade é tão absurda que só poderia ser obra de algo superior a nós. Para outros, a nossa bondade é tão benéfica que sem ela nós não seríamos muito melhores do que orangotangos. Falo do conceito de moralidade, o prezo pelo próximo e o compartilhamento do sofrimento alheio.
Alguns podem pensar: “Bons? Como assim, somos bons?”. Verdade, nem sempre somos bons, mas é a nossa capacidade de fazer o bem que chama a atenção, e não o contrário. Um ato de crueldade e desprezo é, por incrível que pareça, exceção. Acontece que são os atos maléficos que memorizamos, pois ser bom é o normal e não é digno de lembranças, a não ser que estejamos falando de atos de heroísmo, é claro. A nossa moralidade é tão presente em nossas vidas que sequer a percebemos, na maioria das vezes. Quando somos – e que fique claro que o uso da palavra “somos” se refere à humanidade de uma maneira geral – mesquinhos, trapaceiros e cruéis, estamos agindo em desacordo com o padrão. Muitas vezes, um ato de crueldade é muito mais uma questão de burrice do que propriamente maldade.
Mas de onde vem essa bondade? Por mais que o nosso mundo seja bem abastecido de mesquinhez, não há como negar que é uma questão bastante intrigante o fato de existirem pessoas boas. Como eu sou brasileiro e você, leitor, provavelmente também o é, falarei da hipótese mais aceita por essas bandas: a de que a nossa moral vem da bíblia.
Antes devo lembrar que a questão da moralidade é mais ampla do que a bíblia ou seus dez mandamentos. Existem muitas maneiras de se associar “moral” a uma deidade que dispensam a crença na bíblia como verdade absoluta. Para muitos, a existência de nossa moral prova de maneira cabal que existe um projetista. Mas serei mais específico neste texto, pois não quero me alongar muito. Os demais teístas que possuem uma crença mais sofisticada na relação entre moralidade e deus certamente ficarão insatisfeitos, mas continuarei falando sobre moralidade no meu próximo texto.
Então, vamos à bíblia! As famosas leis contidas em Êxodo 20:2-17. A bíblia da qual eu peguei os versículos é da versão Almeida Corrigida e Revisada Fiel, retirada do sítio “Bíblia Online”¹. A minha divisão corresponde a como os mandamentos são disponibilizados segundo a Igreja Católica. O que cada mandamento abrange depende da religião. Os mandamentos são ligeiramente diferentes entre o judaísmo e o cristianismo, assim como entre as denominações cristãs, como a igreja anglicana e a ortodoxa. Mas isso é irrelevante, discutirei as idéias contidas, independente de como estão ordenadas. Analisemos:
2. Eu sou o SENHOR teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão.
3. Não terás outros deuses diante de mim.
4. Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra.
5. Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam.
6. E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos.
É seguro dizer que isso não tem qualquer relação com moralidade. De fato, os primeiros mandamentos estavam muito mais relacionados a bajulações de deus do que à moral propriamente dita. Esse é o tipo de mandamento que é diametralmente oposto ao comportamento normalmente observado no Brasil. Começando pela própria igreja católica. Imagens de santos, por exemplo, constituem uma desobediência clara a esses versículos. Mas ninguém parece dar a mínima, e com um bom motivo. Realmente isso não faz a menor diferença. A maioria de nós não se sente mal só porque o seu vizinho possui a imagem de um santo na sua sala.
E quanto a adoração de outros deuses, temos os nossos orixás, os semi-deuses das religiões africanas. O “desrespeito” é tanto que, em alguns casos, Iemanjá e Virgem Maria se fundem em uma entidade só.
7. Não tomarás o nome do SENHOR teu Deus em vão; porque o SENHOR não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão.
“Só Deus sabe o quão desobedeci é esse mandamento”.
Bom. Nem preciso dizer que essa ordem, que por acaso foi bem clara e inclusive escrita sobre um bloco de pedra, é amplamente ignorada no nosso país. “Pelamordedeus” e “Tomara Deus que tudo dê certo” são expressões que saem de todas as bocas, todos os dias em diversas ocasiões.
8. Lembra-te do dia do sábado, para o santificar.
9. Seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra.
10. Mas o sétimo dia é o sábado do SENHOR teu Deus; não farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o teu estrangeiro, que está dentro das tuas portas.
11. Porque em seis dias fez o SENHOR os céus e a terra, o mar e tudo que neles há, e ao sétimo dia descansou; portanto abençoou o SENHOR o dia do sábado, e o santificou.
E lá vamos nós de novo. Mais um mandamento que não tem absolutamente nada a ver com moral. Com a exceção de algumas correntes do cristianismo, como os adventistas do sétimo dia, o grosso da população brasileira ignora esse mandamento.
12. Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o SENHOR teu Deus te dá.
Eis o primeiro mandamento que tem alguma coisa a ver com moral. É muito estranho a ordem destes mandamentos. O decálogo começa com leis referentes à adoração. Antes de falar sobre respeito aos pais, se fala para não fazer nada nos sábados, que não pode falar o nome de deus em vão. Primeiro, o orgulho de YHVH ou Javé, o deus abraâmico, para só depois o bem-estar da humanidade.
13. Não matarás.
Esse é o meu favorito. Me admiro que não seja o primeiro mandamento. Gosto da objetividade, do caráter utilitarista. Ninguém duvida que matar é errado, pelo menos na grande maioria dos casos. Mas por trás deste mandamento tão econômico em palavras e em subjetividade, residem algumas dezenas de contradições.
A primeira questão é: “Não matar o que?”. Esse é um problema, o homem mata muito para sobreviver. O mandamento se refere apenas aos seres humanos? Suponho eu que sim. Mas a contradição continua, principalmente porque esse mandamento encontra-se justamente no Antigo Testamento. O que não falta no AT são mortes, e então vem um mandamento dizendo que “não se deve matar?”
“Contradição” é o nome do problema.

"Na teoria ele é lindo" de Carlos Ruas
14. Não adulterarás.
Aqui vemos a marca da cultura. É errado adulterar na medida em que supomos uma fidelidade mútua conjugal. Mas como isto fica em culturas poligâmicas?
15. Não furtarás.
Um mandamento que se assemelha ao “não matarás”. Breve e objetivo. Não tenho muito o que comentar sobre ele. É por mandamentos como esses que muitas pessoas acreditam na moral como originada da bíblia.
16. Não dirás falso testemunho contra o teu próximo.
Não mentir. Outro mandamento importante. Só que a mentira não está no mesmo nível que o assassinato e o furto. Mentir, antes de ser um “pecado”, é uma arte. Todos mentem, o tempo todo. Mentir é uma ferramenta social, sem a mentira a sociedade ruiria. Temos os casos em que mentir é claramente errado, um atitude imunda, como mentir que o responsável pela janela quebrada não foi você, por exemplo.
17. Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo.
Eu amo esse mandamento. No catolicismo, na verdade temos dois mandamentos aí. “Cobiçar a mulher do próximo” é simplesmente hilário. Porque a bíblia não fala nada sobre “cobiçar o homem da próxima”? Eu tenho a minha resposta: a bíblia não foi feita para mulheres.
E o que temos depois? Servos, servas, bois e jumentos. Isso, para mim, é uma indicação clara de que a bíblia foi um livro escrito por homens hebreus há séculos atrás para homens hebreus dessa mesma época. Não digo que o mandamento deveria citar carros ou aparelhos eletrônicos, mas penso que seria muito mais interessante se ele fosse mais amplo.
É quase um passatempo ateu criticar o decálogo. Esperava-se muito mais de uma suposta ordem expressa provinda do próprio YHVH escrita em pedra. Dá para dizer tranquilamente que a nossa moral é muito mais ampla e sofisticada do que estes versículos. E então vem aquela famosa questão da família causa/efeito. A nossa moral assim o é por causa dos mandamentos ou os mandamentos são desta maneira porque temos a nossa moral? Eu não acho que seja uma questão muito difícil. Toda a vez que eu vejo esse trecho do AT eu vejo os limites culturais explícitos, vejo a obra de homens fervorosos, não de uma entidade detentora de toda a benevolência possível.
Podemos analisar cada mandamento sob a pergunta fundamental: “E se fosse comigo?”. É uma pergunta que não se aplica aos primeiros mandamentos, pois estes seriam um compromisso entre homem e deus. Mas faça a si mesmo os seguintes questionamentos:
“Gostaria que meus filhos me desonrassem?”
“Gostaria que me matassem, ou matassem alguém que eu amo?”
“Seria agradável ver a sua esposa deitando com outro homem ou, para mulheres, o seu marido deitando com outra mulher?”
“É legal tirarem o que você conseguiu com o seu esforço?”
“Gosta que mintam para ti?”
“Confiaria em alguém que cobiça as suas coisas, inclusive o seu jumento?”
É a partir de perguntas como essas que julgamos o valor dos mandamentos. É com perguntas dessa natureza que colaboramos para uma relação mais agradável com nossos vizinhos. O que essas perguntas têm em comum é que elas se referem ao que nos afeta. Por trás destas perguntas se esconde um caráter egoísta. Paradoxalmente, é do egoísmo que nasce o respeito ao próximo. Esse assunto eu deixarei para a próximo, longe da pequeneza dos dez mandamentos.
¹ http://www.bibliaonline.com.br


28 Comments
cara, muito ruim! Já se foi o tempo que esse site era bom. Agora só tem repetição do que já foi dito! Vamo lá Cancian escreve algo original!
Prezado Eduardo,
Dessa vez não demorarei no meu comentário, pois ando muito atarefado. Mas não poderia deixar de apresentar minha objeção, ops., impressão sobre o texto.
Também não pretendo me demorar porque não quero “alugá-lo”, não é proposta deste site nem minha e muito menos sua.
Direto ao assunto: interpretação literal da Bíblia já “é osso”, mas interpretação literal e ateia… Perdoe a falta de tempo que não me permite estruturar melhor a argumentação, mas lá vai.
Sentido = Texto + Contexto!
Eduardo, a Bíblia, como texto religioso que é, tem níveis e níveis de significação. Nem sem por onde começar, mas vou tentar por aqui: falarei de dois personagens bíblicos que você provavelmente conhece bem: Paulo (Saulo de Tarso) e o cego de Betsaida (Mc 8, 22-26).`
Não se assuste, nem tema proselitismo algum, tentarei manter as ideias no campo estritamente filosófico, portanto, não é necessário fé alguma para acompanhar, assim espero, minha argumentação.
Saulo, nós sabemos, “converteu-se” com o que descreveu como um encontro pessoal com Jesus na estrada de Damasco (At 9, 1-9). Era um perseguidor de cristãos, uma luz “vinda do céu” o fez cair por terra e o deixou cego. Percebe? O encontro que mudou a vida dele o fez “cair do cavalo” e o deixou “cego”. Somente depois, ao ser “batizado” por Ananias, voltou a enxergar.
Uma pessoa que “caiu do cavalo” e que ficou “cega”, e que voltou a enxergar no convívio (“batismo”) com sua nova comunidade. Credo quia absurdum. Pense em um torcedor do flamengo, apaixonado, que de repente se torne apaixonado vascaíno. Agora multiplique por sei lá quanto… Fé não se compreende, se vive, e a vivência fornece a compreensão adequada (que reconheço não ser “suficiente” do ponto de vista estritamente lógico).
O livro do Saramago “Ensaio sobre a cegueira”, sempre me faz lembrar da conversão de Saulo de Tarso. O “contato” com Deus o deixou cego e prostrado, e ele só voltou a enxergar ao ser acolhido por outros que a ele ofertaram a oportunidade de experimentar as “consequências desse contato.
Já o cego de Betsaida foi curado por Jesus não sem algum custo. Foi preciso levá-lo “para fora da aldeia” (desinstalá-lo, portanto) e pôr “saliva nos olhos”, ou seja, hálito, pneuma… Espírito… na forma de ver a vida.
Para ele, o contato com o Sagrado restaurou a visão, veja só!
Assim é a compreensão bíblica: há níveis e níveis. A letra em si é morta, os significados não se prendem a ela. De Deus e das coisas Dele só dá para falar em Parábolas, de modo que é suicídio intelectual tentar uma abordagem direta.
Por falar em abordagem direta, vi aí no site o texto sobre o “dragão imaginário” de Carl Sagan, mas a argumentação, com todo respeito, é tão simplória que chega a ser tosca. Não me entenda mal, gosto do que ele produziu em vida, inclusive acho sua postura pessoal parecida com a dele (ceticismo adogmático). Mas quem esperar Deus “cuspir fogo pelas ventas” para admitir que Ele existe, e para procurá-Lo vai passar por essa vida “in albis”, sem se relacionar de forma alguma com o Mistério que nos cerca.
A Bíblia relata essa busca. Foi escrita por centenas de pessoas, ao longo de pelo menos 1000 anos, e traduzida, retraduzida, compilada e recompilada, mas chegou até nós para dar testemunho da caminhada humana na busca pelo Sentido.
Em resumo, não dá para interpretar um texto de 3.000 anos do jeito que você fez…
Hugo
Você escreveu um monte de coisa, sobre como interpretar a bíblia e tal.
Bom, eu vou te dizer qual a minha maneira de interpretar a bíblia: como uma compilação de livros antigos dos povos hebraicos. Uma importante peça arqueológica.
Mas seria muito interessante se você nos desse a sua própria interpretação dos 10 mandamentos.
Eduardo, muito bom o texto, e objetivo. Richard Dawkins em “Deus um Delírio” faz uma abordagem do tema mais profundamente, num dos capítulos do referido livro, que eu não lembro no momento.É interessante dizer que no “meio comum”, quando dizemos que somos ateus, se retruca ingenuamente: “Ah então, você pode matar uma pessoa sem remorso!”. A verdade é que não precisamos de religião pra sermos bons ou ruins!
Ah, em tempo: sou fã desse site.
abraços
Galvão
Eduardo,
Sei não, mas acho que vou declinar o convite.
Confesso que tive que me conter um pouco diante da superficialidade um tanto agressiva de suas análises(pois ironia e “bom humor” quase sempre é bom, mas não quando demonstram desprezo ou chacota para com as convicções alheias)
Vou debitar isso na conta de sua juventude e no que presumo ser uma disposição de sempre escrever o que pensa, não importa o quê.
Há ateus profundamente conhecedores da Bíblia, e sugiro que, caso conheça e confie em algum, procure dialogar com ele ou ela. Criticar o decálogo com esse nível de argumentação, até meu filho de 7 anos consegue, e faz tempo…
E se você quiser conhecer um pouco mais sobre a história do povo israelita e sobre o processo de formação das Escrituras, existem muitos bons livros sobre o assunto, tanto confessionais como científicos, e posso lhe indicar alguns.
A questão que você propõe é a da moralidade, e de seu fundamento, não? A esse respeito, vou me permitir fazer uma citação de um belo trecho de Marcelo Gleiser, físico e notório ateu:
“Espero que, uma vez que fique claro quão rara é a Terra, quão rara é a vida complexa, quão precária é a nossa existência num planeta flutuando em meio a um Universo hostil e indiferente, um número cada vez maior de pessoas abracem a causa pela sobrevivência. Precisamos de uma nova moralidade, dirigida à preservação da vida. Talvez, um dia, nossa missão seja espalhá-la pelo Universo afora. Mas no momento, para cada um de nós, o trabalho começa aqui mesmo, nas nossas casas, com nossas famílias e amigos, nas nossas comunidades e escolas.” (Criação Imperfeita, p. 338).
O chamamento de Gleiser é pungente e nos leva a concordar com ele. O que ele quer é “uma nova moralidade”, nisso é semelhante a Moisés, 30 séculos atrás.
No entanto, uma enorme diferença: ele não diz o porquê de “precisarmos” de uma nova moralidade, e porque é melhor preservar do que não preservar, ou conservar a vida do que eliminá-la. Ou por que razão a “vida é preciosa”.
De onde ele tirou tudo isso?
Veja, ele é um físico cujas equações não fecham. As de Moisés fechavam: assim era porque Deus assim queria. A moral para ele era sagrada.
A reverência que Gleiser demonstra sem saber de onde nem porque, cada crente deste mundo pode experimentar, com muito maior júbilo, pois não sofre com o vazio que decorre de nossa busca pelo sentido.
A palavra chave não é “contradição”, portanto, mas “sentido”. A moral ateia existe, claro, e bons ateus (como péssimos também) podem ser encontrados sem grande esforço. Mas a moral carece de um embasamento para além das meras convicções pessoais. Além do que, precisa responder às angústias mais profundas da humanidade.
P.S. Meu diálogo com você, e com os ateus em geral, visa muito mais ao desenvolvimento da tolerância e da compreensão mútua do que propriamente à troca de ideias, até porque fé não é questão de ideia.
Portanto, nossa discussão, caso prospere, não passará da questão da existência ou não de Deus, e das consequências imediatas dessa questão, como a da moralidade e seu fundamento.
Simplesmente porque fora disso ainda não me convenci de que o ateísmo tenha algo a oferecer…
Hugo, realmente o ateismo não tem nada para a oferecer, mas ainda assim é melhor que a religião que apenas acha que tem algo a oferecer.
não acredito em deus simplesmente por quetão de bom senso.. é óbvio que essa baboseira toda nunca existiu, isso ta e todo lugar, pra quem quer ver.. desde que nascemos sempre temos histórias colocadas em nossa cabeça (bixo papão, coelhinho da páscoa, papai noel, chupa-cabras) e a existência de deus é só mais uma entre essas.
Nao julgaras as escrituras dos vossos impositores, pois eles controlam o que deves seguir para teu proprio bem, decidido se eh realmente bom por conclusoes baseadas nestes pensamentos escritos que podemos ler.
Hugo,
Devemos reconhecer que a sua crítica não vale nada.
Você diz que minha interpretação é superficial, que minha crítica não é melhor do que a de seu filho de 7 anos, que eu devo conhecer melhor a história dos israelitas. Mas… e o meu texto? Aonde a minha interpretação é equivocada? Eu peço para você colocar a sua interpretação do decálogo, você nega. Um bom conhecedor da bíblia poderia ajudar muito mais do que você está fazendo. Pegue ao menos um mandamento, um deles. Eu só quero saber aonde eu errei, quando eu fui superficial, é isso que eu gostaria que você escrevesse.
Quanto ao resto da moralidade, este é só o primeiro texto. Minha ideia inicial era dividir o assunto em 3. O primeiro seria este texto, o segundo seria a relação moral com um suposto projetista, e o terceiro seria a explicação utilitarista da moral.
Vocês têm que ter mais paciência. É um assunto extenso para ser tomado em um texto só.
Os dez mandamentos são uma grande mentira. Nossa moral não vem da religião. Se ela não vem da religião, muito menos vem dos dez mandamentos. E agora vou exemplificar isto.
Tomemos por exemplo o mandamento Não Matarás. Muito bonito, ele dá a entender que toda a vida é sagrada e que não devemos retirá-la de nenhum ser humano.
O que quase ninguém sabe é que tal mandamento proíbe o assassinato de judeus. Judeus não podem matar judeus. Filisteus, como Golias, estão liberados para o abate. Cananeus também. Aliás, todos os provenientes das outras cinco tribos também podem ser mortos sem remorso algum pelos judeus. Tome, por exemplo, a passagem encontrada em Números 31, 15-18:
E Moisés disse-lhes: Deixastes viver todas as mulheres?
Eis que estas foram as que, por conselho de Balaão, deram ocasião aos filhos de Israel de transgredir contra o SENHOR no caso de Peor; por isso houve aquela praga entre a congregação do SENHOR.
Agora, pois, matai todo o homem entre as crianças, e matai toda a mulher que conheceu algum homem, deitando-se com ele.
Porém, todas as meninas que não conheceram algum homem, deitando-se com ele, deixai-as viver para vós.
Em resumo: matem tudo e a todos, exceto as mulheres virgens. Delas nós vamos nos aproveitar.
Eu gosto de citar George Carlin, comediante americano falecido há um ano e pouco, também não acreditava nos dez mandamentos. Em uma de suas mais famosas esquetes, ele diz o que realmente pensa destas leis:
A religião convenceu mesmo as pessoas de que existe um homem invisível – que mora no céu – que observa tudo o que você faz, a cada minuto de cada dia. E o homem invisível tem uma lista especial com dez coisas que ele não quer que você faça. E, se você fizer alguma destas dez coisas, ele tem um lugar especial, cheio de fogo e fumaça, e de tortura e angústia, para onde vai mandá-lo, para que você sofra e queime e sufoque e grite e chore para todo o sempre, até o fim dos tempos… Mas Ele ama você!
Faz sentido, não? Outro fato interessante é que nem Jesus honrava pai e mãe:
Portanto, qualquer que me confessar diante dos homens, eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus.
Mas qualquer que me negar diante dos homens, eu o negarei também diante de meu Pai, que está nos céus.
Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada;
Porque eu vim pôr em dissensão o homem contra seu pai, e a filha contra sua mãe, e a nora contra sua sogra;
E assim os inimigos do homem serão os seus familiares.
Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim.
E quem não toma a sua cruz, e não segue após mim, não é digno de mim.
Trecho retirado de Mateus 10, 32-38.
Destaque especial para a parte
Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada;
Mensagem um pouco raivosa para um hippie fracassado, não?
A Bíblia, como sempre, nos presenteando com suas mentiras…
Ou melhor, com suas histórias que devem ser interpretadas.
Mas se eu devo escolher o QUE interpretar e COMO interpretar, qual a diferença entre jogar tudo isto fora, não acreditando em nada, e simplesmente criar minhas próprias regras?
A meu ver, nã existe nenhuma diferença. Aliás, é exatamente isto o que teólogos e padres fazem. Dizem no QUE devemos acreditar e COMO acreditar.
“Mas eles têm mais experiência”, alguém pode dizer.
Sim, eles podem até ter. Mas a partir do momento em que se usa uma obra como justificativa para si mesma, as coisas não fazem sentido. Ou tu acredita na Bíblia como um todo ou não acredita em nada. Escolher o que se deve acreditar é muito conveniente. Assim, até o Mein Kampf vira um livro de cabeceira. É como naquelas clássicas provas para a existência de Deus, das quais traduzo algumas:
1. Argumento transcendental
(a) Se a razão existe, então Deus existe
(b) A razão existe
(c) Logo, Deus existe
2. Argumento cosmológico
(a) Se eu digo que algo deve ter uma causa, este algo tem uma causa
(b) Eu digo que o universo deve ter uma causa
(c) Então, o universo tem uma causa
(d) Logo, Deus existe
3.
(a) Eu defino Deus como X
(b) Como eu posso conceber X, X deve existir
(c) Logo, Deus existe
4.
(a) Eu posso conceber um Deus perfeito
(b) Uma das qualidades da perfeição é a existência
(c) Logo, Deus existe
Religiosos, assim como as provas acima, adoram argumentos circulares. Não se pode usar a conclusã como premissa para provar um argumento.
Mas talvez isto seja muito difícil de entender. Afinal, um povo que lê o mesmo livro há 2000 anos, sem uma única atualização, não deve ter lá muita intimidade com a lógica.
Eduardo,
Já que você quer fazer comentários bíblicos, sugiro que comece por Mt 7, 6.
No mais, vou aguardar o momento certo para tornar a me pronunciar. Neste site só me interessa a discussão de questões filosóficas, e reconheço, meu propósito deliberado é o de desmistificar (ops!) as “convicções” ateias, fraquinhas que só o tal do dragão na garagem do Carl Sagan…
Hugo, desmistificar as convicções ateias? Hummm, sei não, é bom você tirar umas férias antes, porque meu amigo, religião é incompatível com ciência! Você vai ter que refutar as “Origens das Espécies”, só pra começar… outra, você criticar o “sectarismo”(*) do Eduardo como se ateísmo fosse uma região, uma filosofia, algo dogmático, é um pouco de sinismo da sua parte, não é mesmo?
(*)com outras palavras, é claro.
Galvão,
Usei o termo “convicção” entre aspas, porque sei que o ateísmo se baseia na suspeita, na dúvida enquanto ponto de partida e “meio de vida”. O Eduardo me ajudou nesse entendimento, inclusive, e agradeço a ele por isso.
E concordo em termos contigo quanto à religião ser “incompatível” com ciência, mas ambas têm seus lugares na humanidade. Os cristãos costumam dizer, são as duas asas que nos elevam…
O dogmatismo é próprio da fé, por isso que não entro na discussão de interpretação bíblica aqui. Não aprouveria a ninguém, concorda?
Hugo,
Pelo que eu li, o versículo assim o diz:
“6. Não deis aos cães as coisas santas, nem deiteis aos porcos as vossas pérolas, não aconteça que as pisem com os pés e, voltando-se, vos despedacem.”
O que se deve interpretar disso?
Que você não pode nos brindar com a sua genial interpretação do decálogo porque isso seria “jogar pérola aos porcos”?
Eduardo, interprete como quiser. Sugiro que o faça literalmente… :)
Eduardo,
Falando sério agora, é claro que o motivo de não adentrar na discussão bíblica é meus argumentos derivariam da fé, portanto, não teriam relevância alguma para você.
Vou aguardar seus próximos textos, quem sabe nos engajemos em outra discussão, mas apenas no campo “filosófico”.
Não se ofenda com o fato de eu achar seu texto infantilizado, ok? Lembre-se, estamos separados por barreiras intransponíveis…
Hugo
Do jeito que eu interpretei, li como uma das coisas mais imbecis escritas na bíblia.
A ideia completamente arrogante de que você possui um conhecimento tão extraordinário que as outras pessoas não são dignas de compartilhá-lo.
Toda a boa ideia que não é ensinada é um desperdicio de genialidade, na minha opinião.
Eu imagino se os grandes gênios não tivessem publicado suas teorias por considerar o resto do mundo porco demais para as suas pérolas. Duvido que estaríamos conversando por este meio, só para começar.
Dizer que seus interlocutores não são dignos de suas ideias é uma crença completamente infantil.
A minha interpretação do versículo, no entanto, não é tão crítica assim. Eu sei muito bem como é ter que ensinar evolução apontando evidências e artigos científicos para um criacionista fanático. Mas no caso dos criacionistas eles não querem aprender. Eu estou aberto a explicações e novas interpretações, por isso eu acho que o versículo não se aplica ao caso.
Claro. É quase certo que você não tem nenhuma interpretação “perola” para o decálogo. Eu já debato há um bom tempo para reconhecer um blefe quando eu leio um.
Eduardo,
Tomei um susto com seu último post.
Que é isso, rapaz…
Não chamei ninguém de “porco”, que história é essa? E nem acho que minha opinião seja uma “pérola”.
Você acabou fazendo a interpretação literal, até desse versículo?
De todo modo, é até bom que você pense que estou blefando, pelo menos essa insistência para por aqui.
Um abraço,
Hugo
Hugo,
Lendo os seus posts, a impressão que eu tenho é a de que você se ofendeu com o meu texto não porque eu ridicularizei os mandamentos. Eu não inventei muito, analisei o decálogo tal qual como ele se encontra. Talvez você tenha enxergado o quão insatisfatórios são os mandamentos.
O que me leva a pensar assim são as suas críticas. “O texto é superficial e agressivo”, mas para alguém achar “superficial e agressivo” é porque consegue ver as coisas de uma maneira mais profunda. Eis que a tal “maneira mais profunda” de ver os mandamentos até agora não foi postada. Nem um mandamento sequer.
E depois cita um versículo bíblico o qual é difícil correlacionar com a conversa. Quando eu interpreto o versículo mais uma vez você vem e diz que fui agressivo, mas e cade a sua interpretação. Neca.
Tente ser mais objetivo nos seus posts caso a sua intenção realmente seja a de colaborar com um debate construtivo.
Qual a sua interpretação do versículo citado?
P.S.: Uma interpretação literal seria alguém de fato dando uma pérola para um suíno. Isso é que significa “ser literal”.
Hugo, nos dê sua interpretação, mesmo que se baseie em fé. Até agora você só reclamou.
Conheci a pouco tempo este espaço, e desde esse dia venho acompanhando algumas discussões por aqui. Não me considero um crente, embora um dia já fosse com muito fervor. Bom, interessa-me neste espaço a discussão e tentarei ser objetivo. O Hugo nos posts anteriores advertiu muito quanto à interpretação superficial da Bíblia, realmente tenho que concordar com você. Tenho a impressão de que essa advertência sua, ou conselho, seja no intuito de manter a qualidade da discussão. Pois bem, de antemão, já lhes digo não falarei da bíblia pelo viés da fé. Você em um post anterior citou a passagem da conversão de Paulo de Tarso (At 9, 1-9), e nos ajudou a interpretar. Primeiramente, sabe-se que o Novo testamento foi escrito em Grego (e sabe-se que a língua de um povo estar muito impregnada de seu modus vivendi). Quando citam AT 9, 1-9, a maioria se esquece de um texto muito mais antigo que esse: A alegoria da Caverna de Platão escrita na obra A República. Os elementos podem ser outros, mas a moral é a mesma: “os olhos se desvendam e o indivíduo passa a contemplar a verdade”! no caso de Paulto de Tarso, a verdade era o Cristo. Quanto ao trecho de AT 9, 1-9 parece ser consenso dos exegetas bíblicos atribuir a sua autoria a Lucas, o médico, mesmo autor do Evangelho Segundo São Lucas. Preocupando-me com a qualidade da discussão, também quero lembrar que por mais que entraram neste consenso, outra ala de exegetas bíblicos atribuem a autoria dos textos bíblicos do NT e do AT, principalmente os Evangelhos, a toda uma comunidade, ou seja, um grupo de pessoas que foram escrevendo os textos em época diferente(não é a toa as contradições e divergências de alguns textos). Bom isso já dá para perceber, que não se tem consenso para as interpretações, tudo parece depender da linha exegética e hermenêutica que se adota.
As palavras de Jesus de Nazaré em tantos trechos são tão “socráticas-platônicas” que puramente cristãs, como muitos pensam. Concordo com o texto de Eduardo (não quero questionar os elementos argumentativos que ele se dispôs), a nossa moral não é oriunda do decálogo mosaico e não acredito que o decálogo, em última análise seja oriundo dos desígnios divinos, acredito que seja uma convenção que determinado grupo, levando em conta seu contexto e sua cultura, formularam para manter uma boa convivência e no final, liderado por homem (Moises, que um dia também matou um homem) decidiram CRER que isso tudo era do agrado de Javé. Assim como Judite que decepou a cabeça de Holofernes, Tamar que se deitou com o sogro, e claro o “Povo de Deus” exilado na Babilônia (587 a.c) que bradou: ‘ Ó devastadora capital da Babilônia, feliz de quem lhe devolver o mal que você fez para nós! Feliz quem agarrar e esmagar seus nenês contra o rochedo!’ (Salmo 137/138 Bíblia edição Pastoral). Embora seja muito ampla e complexa, acho que no ocidente a modelo de moralidade e ética (se assim posso dizer) se firmou nas bases platônicas, nas quais o Cristianismo também parece ter se firmado.
Muito interessante o seu post, Willian.
Assim como você, eu não acho que o decálogo seja a base de nossa moral, mas que o mesmo tenha advindo de uma base bem mais antiga e sólida.
O meu conhecimento sobre história é o de um leigo curioso. Mas me parece muito sensato sugerir que a base de nossa ética seja platônica.
Na verdade, eu acho que as verdadeiras bases de nossa ética são evolutivas. Algo ainda mais basal e antigo, muito mais, do que os filósofos helenicos. Só que era uma ética em outro nível, frágil, quase puramente instintiva.
A minha última reflexão dentro do Cristianismo foi sobre os dez mandamentos , inclusive o ‘Não Matarás’.
E eu ia falar sobre ele citando um versículo de 1 João onde fala que aquele que diz que odeia o seur irmão é Homicida e enfatizar que quem odeia o irmão já estava descumprindo a lei.
Minha primeira reflexão depois do cristianismo foi sobre o mesmo mandamento, Nao Matarás e vendo que o Velho Testamento foi construído quase que por cima de derramamento de sangue e algumas vezes por motivos banais, tais como: Alguem tentou lhe fazer desacreditar? Seu pai? Sua mãe? Seu irmão?
Hum!!
Pegue uma pedra e enfia na nele, depois vai jogando pedras até ele morrer.
Só nesse versísculo em Deuteronomio 13.06-10 (se não me engano) vemos duas contradições.
A primeira: O fato de matar
A segunda: Desonrar pai e mãe
(porque fala que mesmo que seja seus pais voce pode matar)
E sabe a conclusão que eu tive?
Em nome de deuses, nesse caso Deus e religião tudo vale e até se viram do túmulo para encontrar respostas para dizer que nao é uma contradição.
Senhores…!! – Moisés , com todo aquele povo no caminho da tal terra prometida (não sei por quem), tinha que responder , como lider que era , as diversas questões levantadas por eles. E tinha que mante-los sob o seu jugo de uma forma ou de outra , então surgiu-lhe a brilhante idéia do decagono (10 mandamentos) que regeria o seu povo , através de leis intmidatórias , colocando-as sob a vontade desse senhor incógnito, denominado deus, que nós sabemos è ausente ,,impotente portanto , inexistente……!
gostei o que vc falou sobre deus…mais tenho uma pergunta para vc? cumpre com os mandamentos da bíbliá…
David
Moisés existiu?
A PARTE QUE VOCE COLOCA QUE E SE FOSSE COMIGO “Seria agradável ver a sua esposa deitando com outro homem ou, para mulheres, o seu marido deitando com outra mulher?” EU E A MAIORIA NAO GOSTARIAMOS DISSO MAS TEM UNS CARAS QUE VAO ADORAR ISSO, E ELES SAO CASADOS E ADORAM TROCA DE CASAL, DIZEM QUE MELHORA A RELAÇÃO. HEHEHE
Fala para esse Hugo, que se ele tem fé na Bíblia, eu tenho fé na historia do chapeuzinho vermelho e do Lobo Mal. Quer discutir minha fé?
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