por Edmundo E. Medeiros

Ainda nômade o homem “reconheceu” deus. O ser superior falava com voz de trovão e interpretá-la era especialidade rara, quase sempre delegada ao Pajé. O Pajé dizia, então, o tipo de sacrifício necessário à satisfação da divindade. Alguns sacrificavam mulheres, outros até crianças.

Na Bíblia o sacrifício é tema recorrente. Disse Deus a Abraão: “Toma agora teu filho; o teu único filho, Isaque, a quem amas; vai à terra de Moriá, e oferece-o ali em sacrifício sobre um dos montes que te hei de mostrar”. A conhecida história bíblica segue até que o pai, já empunhando o cutelo para imolar o filho, recebe ordem divina para substituir a criança por um carneiro. Depois deste episódio e exceção feita ao próprio filho, “entregue” aos mortais para servir de bode expiatório, Yaveh não mais exigiu sacrifício humano (Sodoma e Gomorra não foram propriamente sacrifícios), bastando-lhe o sangue de cordeiros.

As selvas tupiniquins ainda abrigam tribos que adoram o deus trovão. Candomblecistas e Umbandistas, por outro lado, oferecem às suas divindades galinhas, bodes, vegetais e minerais.

Apesar da proliferação de religiões, muitos humanos “reconhecem” deus sem se dizerem praticantes de nenhuma delas. Zezinho, funcionário de um grande abatedouro de aves, é um deles. Acorda todos os dias às 5 horas da manhã e segue para o trabalho, onde irá operar o equipamento que realiza a degola diária de milhares de frangos. Zezinho consome nuggets de frango com a mesma regularidade com que policiais norte-americanos devoram donuts.

O equipamento que opera funciona praticamente sozinho e com precisão cirúrgica. Zezinho observa, durante horas, os animais sendo pendurados numa esteira suspensa que os conduz às navalhas circulares. Zás! Fim da vida para os frangos que seguem pendurados para o caldeirão fervente que facilitará a extração das penas.

Certa manhã Zezinho tropeçou numa oferenda deixada na esquina da sua rua. Olhou para o pobre frango degolado em troca de algum benefício reclamado pelo devoto de um Orixá qualquer e se lembrou das implacáveis navalhas do equipamento que em poucos minutos operaria.

– Benefícios pela degola de um mísero frango?! (Indagou Zezinho).

Cogitou, então, quantos benefícios poderia obter se oferecesse todos os frangos que matava diariamente para a tal divindade, antes da degola na navalha circular.

– Bobeira! Faltaria o ritual… (logo concluiu).

Zezinho, no entanto, nunca mais olhou para as pequenas aves da mesma forma. Milhares de degolas se passaram até Zezinho, certo dia, indagar acerca da alma dos “bichinhos”. Concluiu, depois de algum tempo, que os frangos não poderiam ter alma.

– Para onde iriam tantas almas? Somente seres inteligentes podem ter alma!

Zezinho abandonou o hábito de consumir nuggets. As reflexões fizeram-no se interessar pelos programas do Animal Planet. Percebeu, ao assisti-los, que outros seres vivos também são inteligentes. Golfinhos e macacos, por exemplo, têm um nível de inteligência inferior ao humano; no entanto, inegavelmente, têm inteligência; ao menos a necessária para, por exemplo, tripularem uma nave até o espaço, como já ocorrera com o macaco Albert II, em 1949.

– Será, então, o nível de inteligência animal que determina o “direito” a um deus? Haveria um deus macaco ou golfinho convivendo no além com Alá ou Jesus Cristo? Como seria o inferno destes animais? Macacos e golfinhos têm regras morais? (…)

As questões foram aparecendo mais rápido que as respostas. E as implacáveis navalhas circulares… Zás!… Zás!… Zás!

– Eureka! Esses animais, com ou sem inteligência, não têm espírito! Não podem tê-lo! Não têm um deus! Não têm um inferno para pagarem seus pecados: sem regras morais, não pecam!

Finalmente paz! Zezinho pode, agora, trabalhar tranquilo! Os nuggets voltaram ao cardápio! Animal Planet tornou-se rotina, todas as noites, antes de dormir.

Animal Planet apresentou, recentemente, uma nova série de documentários chamada “Evolução”. Zezinho, pela primeira vez, compreendeu com clareza a teoria darwiniana. Concluiu que…

– Antes de Homo sapiens éramos macacos… Antes de macacos, éramos peixes!

Foi-se então, mais uma vez, a paz de Zezinho! Se peixes e macacos não têm um deus e um espírito, por que humanos, que já foram macacos, os teriam?

– Fé! Foi preciso fé no deus trovão! Fé em Yaveh! Fé em Alá! Fé em Orixás e Caboclos! Sem fé não se pode “enxergar” deus.

Zezinho encontrou, finalmente, a resposta para todas as questões! O “sentido” da vida! Percebeu que peixes, frangos e macacos não têm deus porque lhes falta fé! Não conseguem “enxergar” deus porque não têm fé. Inteligência, neste aspecto, é irrelevante ou pouco determinante.

A existência, finalmente, tem um sentido claro para Zezinho e o motor que faz tudo funcionar atende pelo nome de fé! Esta vida, o post mortem, nosso espírito, deus… Bastava ignorar o “detalhe” de que milhares de anos precederam a consciência e a fé do Homo sapiens para que tudo, finalmente, se “encaixasse”!

– Nada faria sentido sem fé! Seríamos como peixes ou macacos, que nascem sem um destino claro, vivem e morrem. Sem um deus e um espírito não seríamos nada além de animais com um bocado de inteligência a mais que macacos e golfinhos! Apenas “estaríamos”, sem nada antes ou depois. O post mortem seria apenas o pó, no cemitério. A vida humana teria tanto sentido quanto a vida de um macaco, de um golfinho ou de um frango (Zás!).

Zezinho decidiu ter fé! Em Thor, Yaveh, Alá, Jesus Cristo ou Orixás? Bem… Essa questão é menos importante… Zezinho precisa, apenas, ter fé!


(artigo recebido em 10 de agosto de 2010)

Nota: para participar como autor ad hoc, envie seu texto para udmg@ateus.net. O material ficará disponível a todos os membros titulares para peer review e estará sujeito a críticas e sugestões antes de ser publicado (em data que seguirá a ordem de recebimento dos materiais). Para maiores informações a respeito, faça aqui o download do ‘Guia de padronização’, em formato PDF.

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16 Comments

  1. Edmundo, uma delícia esse artigo, muito bem escrito. É esse tipo de texto que eu gosto de ler pro meu filho. Gostei demais.

    • Adis
    • Posted 23 de agosto de 2010 at 9:16
    • Permalink

    excelente abordagem ! muito sensato ter fé sem
    relacioná-la a um deus, pois são coisas totalmente distintas..

    • Zezão
    • Posted 23 de agosto de 2010 at 12:53
    • Permalink

    Faltou concluir ou está além da minha capacidade de compreensão? O texto não leva a lugar algum, se Zezinho descobriu que a existência de Deus esta relacionada à fé, e daí?

    Albert II pilotou uma nave espacial, você tem certeza disso? Ele recebia e passava as coordenadas para Houston, ou a nave já tinha um percurso pré-determinado e ele seria apenas um experimento?

    Houston I have a problem – Macaco Albert II

    • Adis
    • Posted 23 de agosto de 2010 at 13:39
    • Permalink

    para um bom entendedor……..

    • Edmundo E. Medeiros
    • Posted 23 de agosto de 2010 at 17:43
    • Permalink

    Prezado Zezão,
    Com certeza o macaco Albert II TRIPULOU uma nave enviada ao espaço e é apenas isso que eu digo no texto.
    Tudo o que eu gostaria de falar sobre o “(SEM) sentido da vida” aparece no penúltimo parágrafo.
    Tudo o que pessoas de fé gostariam de ouvir sobre o “sentido da vida” aparece no último parágrafo.
    Abraço,
    Edmundo E. Medeiros

    • Hórus
    • Posted 23 de agosto de 2010 at 20:00
    • Permalink

    “se Zezinho descobriu que a existência de Deus esta relacionada à fé, e daí?”
    E daí que isso lhe dá `sossego`, se faz sentido ou não, para ele não importa. O “Zás!” (que além de significar a galinha sendo degolada representa “raciocínio circular”) dá um caráter irônico à fala de zezinho e reafirma isso
    A visão dos que não têm fé e encaram racionalmente a existência é exposta no penúltimo parágrafo, como o Eduardo disse, basta lê-lo sem o elemento da fé e tirá-lo do futuro do pretérito.
    Texto bastante inteligente.

    • Zezão
    • Posted 23 de agosto de 2010 at 20:36
    • Permalink

    O fato de não ter fé é por si só uma fé, uma pena que vocês são como o próprio zezinho em busca dos “zás”

    No fim todos os homens buscaram sistemas que se “encaixasse” na suas existências, qualquer coisa além disso é o abismo.

    O fisicismo (exemplo) em ultima instância é uma “fé” metafisica.

    Para dizer que o “animal planet” é a verdade é necessário uma “fé”…

    zás
    zás
    zás

    • Zezão
    • Posted 23 de agosto de 2010 at 20:38
    • Permalink

    Há, queria dar meus parabens para o autor do texto por ter descoberto que a existência de deus se da pela fé. Isso ira revolucionar a teologia, e agora Albert II?

    “Houston, I have a problem” – Albert II

    LOL

    • Zezão
    • Posted 23 de agosto de 2010 at 20:44
    • Permalink

    Outra coisa:

    Eu seria injusto se não dissesse que o texto esta bem construído e fluido, mas ainda acho que o “resultado” do texto esta pobre (a descoberta do zezinho é obvia para quem normalmente le esse blog), porém, é apenas um ponto de vista.

    Abraços

    • Hórus
    • Posted 23 de agosto de 2010 at 21:45
    • Permalink

    Zezão, vc deve tá confundindo fé com “não ter certezas” ou com “crença”. Conhecimento é crença, claro, pois se acredita nele, entretanto ele é fundamentado em evidências (referindo-me ao conhecimento científico). Claro que isso nao lhe isenta de erros, mas fornece motivos (racionais) para se crer nele. O evolucionismo, por exemplo, possui várias evidências ao seu favor, e neste sentido é que fica difícil duvidar da evoluçao como fator, apesar de que a teoria que a explica possa conter alguns erros ou estar incompleta. Com a fé é diferente, porque ela existe justamente por nao haver motivos racionais para a crença, mas o crente muitas vezes faz disso justamente uma virtude, porque ele acredita fazer parte do “livre-arbítrio”(de modo que deus nao força ninguém a crer nele).
    Sobre o texto, concordo que ele nao traz nenhuma conclusao inovadora e que tudo que ele diz de certa forma já foi dito mesmo aqui, mas eu o achei inteligente pela forma como abordou o tema.

    • Zezão
    • Posted 24 de agosto de 2010 at 8:52
    • Permalink

    Ok, Hórus, concordo que o texto é um texto gostoso de ler, mas não vai além disso, uma criança o acharia entediante, por exemplo, ou seja: ele só serve para pentear o ego dos próprios leitores deste blog, que na leitura do mesmo encontram a confirmação de suas certezas (certezas são fé).

    Sobre a diferença entre fé e evidência: a não ser que você mesmo tenha feito as verificações empíricas das evidencias do evolucionismo, você simplesmente crê que elas são mais confiáveis que as evidencias das pessoas de “fé”.

    • Pedro A.
    • Posted 24 de agosto de 2010 at 9:32
    • Permalink

    Gostei do texto! Trata uma idéia polêmica e complexa de forma satírica e inteligente, respeitando as limitações de espaço do blog, que impõe textos curtos!

    Zezão, pelo que percebi você não tinha entendido a mensagem simples do texto (parece que essa é a proposta) no seu primeiro post… Depois disso percebeu o que todos entenderam e teve que defender posição… rs, rs!

    Não leia Orwel… Você irá odiar os diálogos de porcos e galinhas… rs, rs…

    Parabéns ao autor!

    • Zezão
    • Posted 24 de agosto de 2010 at 12:56
    • Permalink

    Pedro, o que não entendi é justamente a conclusão simplista do texto.

    Já li 1984, Revolução dos Bixos, why i write, lear, tolstoy and the fool, the moon under water… Quais outros você indica?

    • Zezão
    • Posted 24 de agosto de 2010 at 12:57
    • Permalink

    perdão: revolução dos bichos

    • Dani Colorada
    • Posted 24 de agosto de 2010 at 13:37
    • Permalink

    Muito legal! Ateísmo com um toque de humor!
    Vou recomendar a leitura para um monte de Zezinhos…
    Gostei do site

    • marconds
    • Posted 31 de agosto de 2010 at 15:08
    • Permalink

    Gostei da idéia que o texto quer passar. Se alguém se der ao raciocínio lógico, provavelmente se dará conta de que deuses são convenções da mente humana.


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