Uma das doutrinas mais interessantes do budismo é a ideia do desapego material. Nesta, observa-se que tudo na vida é transitório e, por isso, apegarmo-nos às pessoas e bens causa-nos mais tristeza que felicidade.

De modo semelhante, esse raciocínio poderia ser aplicado às nossas ideias e opiniões.

Pelo fato de não termos acesso absoluto às verdades do universo, todos os nossos pontos de vista são limitados e, portanto, potencialmente errados. Não sendo perfeitas, nossas opiniões constantemente sofrem ataques do mundo real.

A reação natural de qualquer pessoa, quando seus pontos de vista são questionados, é a tentativa de protegê-lo. Deveríamos analisar os argumentos e evidências favoráveis e desfavoráveis às nossas opiniões e concluir, com imparcialidade, se elas são válidas ou não.

O que acontece na realidade para a quase totalidade das pessoas é bem diferente disso: Não avaliamos de maneira livre de preconceitos os argumentos contrários àquilo que acreditamos. Estes argumentos são recebidos por nós como errados à priori e, mesmo que estejam corretos, não competem de maneira igual contra os nossos argumentos preferidos.

Devemos procurar estar conscientes da qualidade real dos nossos argumentos. Quanto de nossos argumentos só se sustenta por estarmos apaixonados pela conclusão que eles conduzem?

Assim como um rapaz com sua namorada, não vemos defeitos em nosso objeto de paixão. Isso ocorre porque deliberadamente desligamos nosso raciocínio crítico quando estamos apaixonados. Assim, as imperfeições passam totalmente despercebidas.

O desapego absoluto às ideias não é algo que possamos atingir, afinal somos humanos. O melhor que podemos fazer é nos perguntar toda vez que nos observarmos lutando contra as evidências: Quem está mais errado, eu ou as evidências?

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19 Comments

    • Wallace
    • Posted 29 de agosto de 2010 at 11:33
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    O apego à ideias é dificil de controlar, e mesmo quando bem controlado e reprimido nunca desaparece de fato,mas, já controlado, diminui muito o desconforto de mudar…
    Existe no esoterismo o conceito de “campo da intenção”, no qual a pessoa é completamente desligada emocionalmente das opiniões. Duvido que alguém alguma vez o tenha atingido. Mas não deve ser dificil chegar perto….acaba compensando o suficiente, pois quanto mais ideias você deixar passar, maior será no final sua visão de mundo.

    • CIV
    • Posted 29 de agosto de 2010 at 20:22
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    Muito bom o texto Teixeira. Realmente, o processo de desapego as ideias é algo nem sempre fácil, mas é necessário para a compreenção da realidade.

    Ao meu ver, o desapego as ideias não se torna um problema quando temos por objetivo conhecer algo de fato, ou estar por dentro de um assunto. Nesse aspecto, se formos honestos e estivermos dispostos a aprender, a aceitação dos fatos é automática.

    Em algum ponto, inegavelmente, seja no aspecto da vivência ou de alguma preferência, temos nossos “dogmas emocionais” alimentando ideais ou crenças e essas por sua vez nos fazem hesitar ao abandoná-las, mesmo diante de fatos. Como nem sempre aceitar fatos é com o objetivo de aprendizado, aceitar algumas realidades pode ser algo intelectualmente desconcertante ou emocionalmente doloroso, e isso nos impede muitas vezes de trabalharmos imparcialmente.

    • tete
    • Posted 29 de agosto de 2010 at 22:53
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    O fato sempre será um ponto de vista.

    • amigodotete
    • Posted 30 de agosto de 2010 at 11:42
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    E o desapego às ideias já é uma ideia

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/09. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Bruno Teixeira
    • Posted 30 de agosto de 2010 at 11:54
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    Amigo do Tete,

    Ser desapegado das ideias não significa não ter ideias… Significa apenas estar pronto para mudar de ideia havendo bons motivos para isso.

    Mostre-me uma ideia imune a falhas e eu mudo de ideia com relação ao desapego.

    Abraços

    • Sodom
    • Posted 30 de agosto de 2010 at 14:00
    • Permalink

    amigodotete

    Ser desapegado a uma ideia é uma idéia sim. Mas o texto não está falando para você não ter ideias.

    • amigodotete
    • Posted 30 de agosto de 2010 at 14:31
    • Permalink

    Entendi Teixeira, mas estão eu posso estar aberto à me apegar às ideias?

    • gustavo do anjos
    • Posted 30 de agosto de 2010 at 16:13
    • Permalink

    Já começo discordando do início do texto. Não acho esse “ensinamento” budista algo interessante. “apegarmo-nos às pessoas e bens causa-nos mais tristeza que felicidade”. Coisa mais maluca. Baseado em que uma pessoa diz isso? Eu sou super apegado a pessoas e a coisas. E daí? Sou feliz. Como apenas temos essa vida, melhor mesmo é se apegar as coisa e pessoas agora, pq depois não haverá mais tempo nem chance nem transição para tal.

    • hades
    • Posted 30 de agosto de 2010 at 16:28
    • Permalink

    Eu interpretei o texto do Teixeira relacionando-o com às mulheres, e faz sentido, se quando estamos começando a nos relacionar com uma boa pessoa, normalmente ao passar do tempo, nos deixamos levar pelo sentimentalismo e quando nos damos conta, já estamos apaixonado. Sendo assim, quando esse relacionamento acaba inesperadamente, o sofrimento interior será maior do que a felicidade que sentimos durante todo o tempo do relacionamento. Dessa forma promovermos o desapego sentimental logicamente aliviará um sofrimento posterior. Muitos se referem à esse desapego,como “a morte do ego”. Li muito sobre o assunto e com certeza extraí vários ensinamentos úteis, que hoje em dia me ajudam em muito no que eu faço.
    Excelente texto!

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/09. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Bruno Teixeira
    • Posted 30 de agosto de 2010 at 16:28
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    Gustavo,

    Existe uma diferença grande entre vc apreciar e vc se apegar às pessoas e bens.

    A tristeza causada pelo apego, ocorre quando nós perdemos aquilo que pelo qual somos apegados.

    Da mesma forma, você pode apreciar determinada ideia porém vc deve estar preparado para abrir mão dela.

    Sugiro a leitura do link abaixo pois explica essa ideia dentro do Budismo.
    http://www.berzinarchives.com/web/pt/archives/approaching_buddhism/introduction/basic_question_detachment_nonviolence_compassion.html

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/09. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Bruno Teixeira
    • Posted 30 de agosto de 2010 at 17:14
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    Hades,
    Acho que é bem por aí, porém, incluiria em seu raciocínio que ser desapegado não significa apreciar menos algo, alguém ou uma ideia. Vc continua apreciando e tendo prazer, porém, vc encara a perda como algo natural.

    Amigodotete,
    É como eu disse: mostre-me uma ideia imune a falhas… E eu estarei pronto a me apegar a ela.

    • hades
    • Posted 30 de agosto de 2010 at 19:17
    • Permalink

    É isso aí Bruno,

    se queremos ser livres, parar de sofrer pelo que temos e pelo que não temos, devemos abrigar um único desejo: o de nos transformar. Assim, quando alguém ou algo tem de sair de nossa vida, não alimentamos a ilusão da perda. O sofrimento vem da fixação a algo ou a alguém. O apego embaça o que deveria estar claro: por trás de uma pretensa perda está o ensinamento de que algo melhor para nosso crescimento precisa entrar. Se não abrirmos mão do velho, como pode haver espaço para o novo?

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/09. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Bruno Teixeira
    • Posted 31 de agosto de 2010 at 9:41
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    Hades,

    Vc descreveu muito bem o que os budistas querem dizer.

    Porém, quando você fala sobre conhecimento é necessário estar atento que nem todo novo conhecimento é mais correto que um antigo, além disso, só temos como ter certeza disso avaliando-os (o novo e o velho) de maneira imparcial. E a melhor maneira de ser imparcial é sendo desapegado.

  1. Muito bom, Teixeira.

  2. Tudo tem muito sentido.

  3. O erro está aonde entramos num ciclo de extrema violência contra nossas mentes, o que ocorre menos nesse século.

    • Posted 5 de setembro de 2010 at 4:24
    • Permalink

    Não sei se esta é a melhor hora para escrever, mas gostaria de deixar a minha opinião sobre o assunto, por mais prolixo que seja o resultado final…

    Achei interessante o Hades ter utilizado o comparativo do texto com uma mulher, porém também acredito ser complicado juntar algo emocional com o racional. Para nos desapegar de alguém que ainda gostamos e nos deixou, precisamos primeiro, se formos pensar no desapego, levá-lo para o lado esquerdo do cérebro, isto é, pensar no sentimento de uma forma racional para que possamos “encarar a perda como algo natural” como disse o Bruno (lembrando que é uma mulher que vos fala, isso se torna bastante complicado e eu admiro muito quem consegue fazer isso de forma plena). Acredito que pensar no desapego de uma idéia seja mais coerente nesse momento, pois existem comprovações por fatos e não por experiências sentimentais individuais (e portanto questionáveis).

    Outro ponto é que eu discordo do Bruno quando ele diz que “não vemos defeitos em nosso objeto de paixão” e “as imperfeições passam totalmente despercebidas”. Acredito que no fundo percebemos esses defeitos, mas aprendemos a conviver com essas “rachaduras”. E voltando ao parágrafo anterior, se é possível racionalizar o sentimento, podemos portanto ver esses defeitos e nos desapegar daquilo que não nos presta mais? No final convivemos com imperfeições que não nos são tão agressivas. O “não gostar” é muito diferente do “não suportar”. E por isso pode ser que o desapego emocional seja mais complicado de ser aplicado. Abrir mão do velho, nesse caso, se torna mais duro no sentido de sentir que o velho não mais nos completa ou nos é verdade e mesmo assim continuar insistindo nela ao invés de se abrir a novas verdades inescapáveis.

    Finalmente, lendo sobre o desapego Budista, será que quando eles citam que “se eu conseguir a comida que eu gosto, ótimo. Mas se a não conseguir, tudo bem. Não é o fim do mundo” não é de alguma forma um pensamento conformista? Acredito que reescrevendo a frase como “analisando a comida nova acredito ser melhor que a outra se tornando uma nova verdade”, uma maneira mais coercitiva de mostrar o desapego à uma idéia inicial.

    Enfim, concordo com o Hades, excelente texto!

    • Renata
    • Posted 17 de setembro de 2010 at 13:46
    • Permalink

    Bruno,

    concordo contigo até a medula, mas como conseguir de fato por em prática isso ?

    Eu, que sou uma pessoa mais emocional que racional por natureza, tento não ter esse apego todo, mas escorrego a cada instante e lá estou eu: APEGADÍSSIMA, com tudo.

    • Alex
    • Posted 18 de setembro de 2010 at 10:42
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    Muito bom texto, o subscrevo em quase sua totalidade.

    Apenas no final, se fosse meu texto, faria uma modificação.

    Extamente quando diz:”O melhor que podemos fazer é nos perguntar toda vez que nos observarmos lutando contra as evidências: Quem está mais errado, eu ou as evidências?”

    Eu faria uma modificação na pergunta para: Temos a possibilidade de estarmo errados?

    Inclusive sobre o que você escreveu, e sobre o que eu acabei de escrever. hehehe

    E pararia por ai, porque uma evidência para mim, porde não ser uma evidência para você, e vice-versa

    Mas parabenizo por colocar sempre na 1ª pessoa do plural: “nós”.

    Parabenizo ainda mais se o texto não ser endereçado apenas para religiosos, me desculpe por dizer isso se a itenção era realmente para todos.


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