Monthly Archives: agosto 2010

Há duas semanas, depois de muita discussão, protestos e polêmica, a Argentina entrou para o seleto grupo de países a permitir a união civil entre pessoas do mesmo sexo. A aprovação não foi nada fácil; afinal, foi necessário vencer o poderoso lobby da Igreja Católica.

O principal porta-voz da Igreja na Argentina, o cardeal Jorge Bergoglio, afirmou que o projeto aprovado é um “movimento do diabo para destruir o plano de Deus”.  Bergoglio, em seu desespero, é acompanhado do Papa Bento XVI que em outras ocasiões afirmara que o casamento gay é “uma ameaça à criação”.

O desespero da igreja não é sem motivo, a liberação do casamento gay é uma afronta a um dos dogmas centrais da Igreja: a ideia de que a família é composta por um homem e uma mulher. Mas mais do que isso, demonstra que cada vez mais a Igreja perde poder político devido à crescente secularização dos países ocidentais.

A Igreja que há seiscentos anos mandava soberana por quase toda a Europa; hoje, tem dificuldade em influenciar negativamente políticas favoráveis ao casamento homossexual, aborto e eutanásia em diversos países que outrora estiveram sob sua influência.

Outro inimigo, ainda mais implacável do que a secularização, é a invasão evangélica que, ano após ano, reduz o número de fiéis e, o pior: levando junto uma parte considerável do faturamento financeiro.

Por fim, o ataque que vem de dentro: as constantes denúncias de pedofilia. Ainda que o número de padres pedófilos seja mínimo, o impacto é grande na imagem de todos eles. Ainda mais danosa é a inação da Igreja em coibir e punir tal prática.

Que pai, depois de tantas denúncias, permitiria com tranqüilidade que seu filho continue frequentando a sacristia? O impacto dessa falta de confiança será sentido no futuro, já que as crianças que seriam doutrinadas hoje, deixarão de compor as massas católicas do futuro.

Hoje a Igreja é um impotente espectro do império que foi um dia. Porém, a decadência desta não significa que a religião de modo geral esteja perdendo importância.

Ao contrário desta tendência, as igrejas evangélicas continuam muito firmes na manutenção da religiosidade da população. Todos os dias, novos e maiores templos são abertos com o intuito de converter mais fiéis e arrecadar mais dinheiro. Esse crescimento desenfreado poderia representar um risco muito grande para a laicidade do Estado, porém, ao contrário da Igreja Católica, as igrejas evangélicas são descentralizadas e, por isso, não conseguem ser suficientemente organizadas para fazer frente a algumas minorias barulhentas.

Será que ainda estamos longe de viver em uma sociedade em que o respeito pelas minorias fala mais alto que o preconceito religioso? Quanto tempo ainda se passará até que políticas de interesse público tenham prioridade sobre aquelas que refletem apenas o interesse de alguns poucos líderes espirituais?

Com a decadência da religião organizada, o poder político dos líderes espirituais gradativamente desaparece, por esse motivo, talvez não seja um exagero ser otimista com as questões acima.

Conseguimos separar com boa precisão as coisas que nos são externas daquelas que botamos no mundo. Mesmo que tudo o que façamos seja apenas transformar a matéria que não pertence diretamente a nosso corpo, sabemos que nossas ideias nem sempre condizem com a realidade.

Todo o nosso maquinário instrumental de pensamento foi construído e moldado para a nossa sobrevivência e reprodução. A verdade, então, passa a ser secundária. Não são poucos os exemplos em que contar uma mentira – ou uma inverdade, caso prefiram eufemismos – não só é aceitável, como também é desejável ou recomendável.

Assim, é certo afirmar que todos temos uma noção individual das coisas e que partilhamos aquilo que é comumente aceito onde vivemos. No entanto, no trato com outras pessoas, tendemos a externalizar nossas opiniões como se fossem verdades para todos. É por isso que gastamos tanto tempo e energia em debates, em disputas erísticas, em discussões de botequins, entre várias outras ocasiões.

Apesar da prática, é uma das tarefas mais árduas que podemos empreender. Ao enunciar uma verdade “humana”, por assim dizer, precisamos ter cuidado para não incorrermos em falácias, bem como precisamos dar coerência interna às ideias para que sejam sustentadas quando atacadas – e, certamente, o serão. Em última instância, devemos também cuidar para que não sejam construídas de forma tal que não encontrem respaldo no mundo.

Teoricamente, é tudo muito belo. Chegar a uma verdade por esses meios é o ápice do raciocínio de nossa espécie. Tão elevada é a conclusão que poucas são as coisas que podemos dizer terem sido concebidas pelo método. O problema é que, em nossas vidas, não podemos dispor somente de coisas tão seguras. Então partimos para o terreno do convencimento puro e simples.

E é exatamente nesse terreno que encontramos as verdades pretensas. Elas simplesmente se recobrem de um manto aparente de realidade, mas não resistem a uma análise mais profunda. Se ainda existem em nosso meio, é porque analisar a quantidade de informações que recebemos de forma isenta e honesta demanda mais tempo do que temos à disposição.

Há, contudo, formas mais úteis de filtrar os erros honestos e práticos daqueles escandalosos e inescrupulosos. A principal delas é fugir dos apelos emocionais. O arauto dessas verdades quer tocar o interlocutor no seu sistema mais primitivo de escolha: o do parecer estar certo.

Para tal empresa, não medirá esforços em usar do pathos para realizar seus objetivos. Está ele errado por isso? Obviamente não. Existisse algum reajuste cósmico que punisse coisas desse tipo, suas bocas seriam grampeadas e seus dedos seriam amputados ao nascerem. Mesmo sabendo do embuste, não podemos proibir – ou mesmo coibir – esse tipo de persuasão porque seria proibir a própria atividade humana de comunicação.

Se nos irritamos e nos revoltamos, é muito provavelmente porque não estamos ganhando coisa alguma com isso ou, muito pior!, talvez sejamos prejudicados pelas ações que nos atingem. Caso tenha retorcido o estômago e já esteja pronto para dizer que estou mentindo, lembre-se de como é fácil concordar com algo que nos agrada e de como é difícil pesar os argumentos contrários à nossa vontade.

É assim que funciona o jogo político e também o viés da propaganda. Cabe a nós identificarmos os mecanismos de dominação e escaparmos do controle mais danoso. Assim como cabe também a nós entendermos que consumimos produtos e votamos em políticos não por sua utilidade, mas por razões alheias à pretensa verdade que eles carregam em si.