Monthly Archives: setembro 2010

Pesquisadores da Universidade de Waterloo, no Canadá, disponibilizaram recentemente resultados preliminares de um estudo no qual 2563 ateus, agnósticos, humanistas, livre-pensadores e céticos responderam a um questionário pela internet.

Uma das primeiras informações interessantes é que apenas 25% dos não-crentes se autointitulam como ateus. Talvez essa tendência ocorra pelo fato de que a palavra “ateu” remeta a um sentimento de preconceito largamente arraigado na sociedade. Algo como: “tudo bem não acreditar em Deus, mas ser ateu é demais”.

Aproximadamente 30% dos respondentes teve consolidado o pensamento não-crente entre 16 e 20 anos.

O estudo também verificou que ateus são fortemente antiteístas e antirreligiosos, reportando, inclusive, atitudes hostis para com a religião e espiritualidade. Por exemplo, mais de 90% dos ateus entrevistados concordam que a religião se opõe ao progresso e às mudanças sociais. Agnósticos, por outro lado, tendem a ser menos hostis, possuindo uma tendência maior a serem indiferentes e, em alguns casos, até simpáticos com a religiosidade.

Os pesquisadores separaram as questões morais em dois tipos: Valores Individualizantes (igualdade, justiça, bondade e autonomia pessoal) e Valores de Ligação e Pureza (lealdade, pureza e respeito pela autoridade e tradição). Os ateus possuem forte tendência a respeitar os valores individualizantes, porém uma forte tendência a rejeitar os valores de ligação e pureza.

Obviamente, houve uma forte correlação negativa entre o ateísmo e a crença em vida após a morte. Entretanto, o que surpreende neste estudo é o fato de que 1,4% dos ateus afirmaram possuir alguma crença em vida após a morte e em espíritos; mas ainda mais surpreendente é o fato de esse número chegar a 29,2% para os outros não-crentes.

Este estudo demonstra uma forte diferença no modo de pensar entre ateus, agnósticos e outros descrentes. Fica bastante evidente que os ateus são mais confiantes e sentem ter tido algum benefício com sua descrença. Segundo os autores, essa confiança e sentimento de ganho foram especialmente fortes entre ateus e podem refletir a aceitação de uma visão coerente de mundo, possivelmente uma com base científica.

Ao final, o estudo separa aqueles que se autodenominaram ateus, agnósticos e ateus-agnósticos, para descobrir que as atitudes dos ateus-agnósticos são intermediárias aos outros dois. Quando falamos de Atitudes Antirreligiosas e espiritualidade, os ateus-agnósticos situam-se mais próximos dos ateus. No quesito confiança em seu sistema de crença, os ateus-agnósticos ficam exatamente entre os que se declaram somente ateus ou somente agnósticos.

O estudo completo está disponível aqui.

De uma forma ou de outra, todos nós caímos no mito do absoluto. Na tentativa de facilitar o nosso aprendizado, desde pequenos somos influenciados a tomar aquilo que nos ensinam como verdade incontestável. De fato, muitas coisas são tão bem evidenciadas que podem ser consideradas, para todos os efeitos, incontestes.

Ninguém nos explica, entretanto, que tais coisas só fazem sentido dentro da caixa que usamos para delimitá-las. A matemática, por exemplo, funciona bem porque definimos claramente seus limites e suas funções. Assim também funcionam todas aquelas ciências que partem do método indutivo para formular suas teorias.

Condenar a linguagem por não abarcar toda a realidade é não enxergar o escopo de sua caia; em outras palavras, é como condenar um cachorro por ser menor que um elefante. Simplesmente não faz sentido. Nunca foi pretensão da linguagem explicar tudo. E o fato de nos sentirmos mal quando finalmente enfiamos na cabeça as suas limitações diz muito mais sobre o quão frustrados estamos por termos acreditado em coisa diferente.

Em uma boa analogia, peguemos o sentido da visão: o nosso globo ocular possui um sistema complexo de lentes e músculos. O conjunto permite que a luz seja captada e transformada em impulsos elétricos direcionados até o cérebro, onde serão interpretados e cumprirão sua função: nos relacionar com o mundo e nos dar a possibilidade de interagir com ele.

Sabemos que não enxergamos todo o espectro da radiação eletromagnética. Nem por isso invalida-se o fato de que enxergamos uma boa faixa dela. É engraçado como tentamos inverter a ordem dos acontecimentos: enxergamos antes de explicar o funcionamento da visão e isso faz toda a diferença. Se estamos descontentes com as nossas limitações, estudamos e ampliamos nossa capacidade de captação de luz, como bem fazemos com microscópios ou telescópios.

Acontece algo parecido com a linguagem: sua genealogia é de difícil compreensão e estudo porque, convenhamos, quando desenvolvemos algum tipo de raciocínio crítico, já a temos por certa. Mesmo estudando a aquisição da linguagem em crianças não conseguimos conhecer mais do que o modo como elas aprendem, basicamente através da repetição daquilo que observam ao seu redor.

Agimos antes de pensarmos porque o neocórtex é um achado recente em nossa história evolutiva e, se dependêssemos somente dele para situações extremas, já teríamos deixado de existir. Que se lembrem disso os esquizofrênicos que teimam em jogar ideias de “verdade” no mundo, caindo aos prantos quando a natureza não corresponde aos seus anseios filosóficos.

Mas sejamos francos: nenhuma lacuna de comunicação da linguagem nos impede de comprar o pão quente da manhã na padaria da esquina. Da mesma forma, nenhum conhecimento deixa de ter sua parcela de validade por se basear em um sistema incompleto. Focar as críticas na falta de funcionalidade de algo que nunca foi alegado como perfeito é, além de um erro grosseiro, um apelo à falácia do espantalho.

Se isso é tudo o que os arautos do relativismo têm para oferecer, é simplesmente deprimente. Partem de uma premissa falsa, jogam ideias no mundo e se revoltam por não encontrá-las. Em mais um caso, esbanjam ceticismo para teses rivais e abraçam desesperadamente o absoluto que criam a partir dos pedaços de sua estima magoada.

Dentro de cada sistema, há um conhecimento mais adequado e negar uma afirmação tão óbvia é ignorar toda a praticidade que tal conhecimento proporciona. Confundir o conforto de uma situação com sua validade epistemológica parece ser o último recurso de quem deseja, de qualquer maneira possível, justificar comportamentos inadequados para os objetivos traçados.

Eis a herança maldita de todos esses séculos de filosofia: a natureza não mais responde como desejamos e nos resta chorar o luto pela morte da mãe idealizada.

por Edmundo E. Medeiros

Michel Foucault analisou profundamente a estreita relação entre poder e conhecimento. Concluiu que um não existe sem o outro e que a produção da verdade se dá, em última análise, dentro de relações de poder que funcionam como eficientes mecanismos de exclusão, constrangendo e condicionando a circulação da verdade em toda a rede de poder. Para Foucault, “não há relação de poder sem constituição correlata de um campo de saber, nem saber que não suponha e não constitua ao mesmo tempo relações de poder”.

Os discursos de verdade são produzidos, circulam e funcionam em múltiplas relações de poder que permeiam a sociedade numa estrutura microfísica: nela, Direito, poder e verdade se relacionam intimamente. Na própria estrutura burocrático-institucional do Estado sobejam exemplos dessa realidade, que pode ser observada nos mecanismos institucionais destinados à legitimação do chefe de Estado, nos discursos técnicos que fundamentam a aplicação da política econômica mais adequada (instigando ou inibindo políticas de intervenção), nos procedimentos legislativos de produção normativa, com todos os “cabos-de-força” travados entre múltiplos e antagônicos interesses, nas atividades judiciárias de julgamento, dentre outros exemplos que poderiam ser aqui citados indefinidamente.

O poder, em múltiplas e incessantes relações, não para de “institucionalizar a busca da verdade, profissionaliza-a e a recompensa. No fundo, temos que produzir a verdade como temos que produzir riquezas, ou melhor, temos que produzir a verdade para poder produzir riquezas. Por outro lado, estamos submetidos à verdade também no sentido em que ela é lei e produz o discurso verdadeiro que decide, transmite e reproduz, ao menos em parte, efeitos de poder… Afinal, somos julgados, condenados, classificados, obrigados a desempenhar tarefas e destinados a um certo modo de viver ou morrer em função dos discursos verdadeiros que trazem consigo efeitos específicos de poder…, regras de direito, mecanismos de poder, efeitos de verdade, ou regras de poder e poder dos discursos verdadeiros…”[2].

O saber, portanto, é produzido nas cadeias de transmissão do poder para manter, transmitir e recriar o próprio poder. Essa indissociável relação com o saber é fruto da legitimidade que o poder necessariamente busca através da verdade. Fixar tal legitimidade é essencialmente o papel do Direito, que dilui o fato da dominação dentro do poder para fazer surgir, aí, os direitos legítimos da soberania e o dever legal da obediência.

O conhecimento, portanto, – esse mesmo produzido pelo, no e para o poder, que domina e é transmitido capilarmente – foi inventado, e aí a ideia de invenção, seguindo Nietzsche, contrapõe a de origem: dizer que o conhecimento foi inventado é dizer que ele não teve origem e que, portanto, não há no conhecimento uma adequação ao objeto, uma relação de assimilação, mas sim uma relação de dominação; é afastando-se do idealismo que Nietzsche associa o conhecimento à ideia de luta, dominação e poder. A verdade, então, é fabricada dentro de relações de luta e poder: não há como apreender sua constituição sem visualizar o embate travado na sua formação[3].

Não há uma essência do conhecimento ou condições universais para tal. O conhecimento está sempre relacionado a relações estratégicas e, exatamente por essa razão, sua natureza é parcial, oblíqua[4]; sua natureza é perspectiva porque há batalha e é desta luta que ele (conhecimento) exsurge. Tal ideia se contrapõe ao idealismo platônico, segundo o qual a verdade necessariamente se dissocia do poder político, que há antinomia entre saber e poder e que, se há o saber, ele necessariamente deve renunciar ao poder. É precisamente a ideia que contrapõe a verdade ao poder político que Nietzsche se propõe demolir ao evidenciar o poder por detrás de todo conhecimento e que, no fundo, o saber é tramado com o poder[5].

As condições políticas e econômicas nas quais se insere o sujeito, portanto, não são um véu que perturba a relação do sujeito com o conhecimento, mas sim aquilo através do que se constitui o sujeito de conhecimento, ou seja, só há verdade e sujeito de conhecimento a partir de condições políticas que são o próprio solo onde as relações entre ambos e os próprios domínios de saber se constituem[6].

Todo conhecimento, então, possui sua própria história, como qualquer outro objeto. Resulta daí que para apreendê-lo, em sua profundidade, isto é, em sua fabricação, é preciso aproximar-se mais da política que dos filósofos, e é somente nessas relações de luta e de poder – na maneira como os homens entre si se odeiam, lutam, procuram dominar uns aos outros e querem exercer, uns sobre os outros, relações de poder – que compreendemos em que consiste o conhecimento.

Referências:

[1] FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Petrópolis: Vozes, 1989. p. 30.

[2] FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. São Paulo: Edições Graal, 2004. p. 180.

[3] VEIGA NETO, Alfredo. Foucault & a Educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2003. p. 75.

[4] FOUCAULT, Michel. A Ordem do Discurso. São Paulo: Edições Loyola, 2003. p. 34.

[5] MACHADO, Roberto. Nietzsche e a Verdade. São Paulo: Graal, 2002. p. 96.

[6] FOUCAULT, Michel. A verdade e as formas jurídicas. Rio de Janeiro: Nau Editora, 2003. p. 27.


(artigo recebido em 26 de agosto de 2010)

Nota: para participar como autor ad hoc, envie seu texto para udmg@ateus.net. O material ficará disponível a todos os membros titulares para peer review e estará sujeito a críticas e sugestões antes de ser publicado (em data que seguirá a ordem de recebimento dos materiais). Para maiores informações a respeito, faça aqui o download do ‘Guia de padronização’, em formato PDF.

“Por que tantos tementes a deus?” Essa é uma pergunta muito boa. Nós, ateus, gostamos de debater sobre o assunto e expor nossas conclusões. Debatemos usando argumentos contra a existência de deus(es) e, principalmente, por que não é racionalmente aceitável acreditar em algum. Mas existe um fato que aparentemente derruba todas as nossas tentativas: existe uma boa quantidade de tementes a deus, deuses ou demais entidades sobrenaturais. Diante do fato de que a vasta maioria da humanidade acredita em deus ou deuses, nosso arsenal de argumentos parece quixotesco.

A resposta padrão de muitos ateus a essa questão é: os motivos racionais são poucos ou nenhum, mas os emocionais são muitos e são fortes. Eu me uso dessa resposta, pois realmente acho, depois de anos debatendo com teístas, que os motivos que levam à crença no sobrenatural são majoritariamente de caráter emocional. Uma boa porção deles insiste em dizer que não, possuem argumentos na ponta da língua, mas estão apenas querendo se enganar e, cedo ou tarde, acabam expressando que são, de fato, levados pela emoção.

Novamente, meu intuito não é rebater esses argumentos. Se algum teísta considerar que estou errado, sinta-se à vontade para postar seus argumentos nos comentários de nossos textos. Quero discutir o que seria essa tão falada motivação emocional. Ir além de simplesmente taxar a crença alheia como mera emoção e dar nome aos bois.

Bom, comecemos por um conceito muito desejado por nós: justiça. Queremos que os usurpadores paguem pelos seus atos e que os altruístas sejam recompensados. Tentamos fazer isso dentro de nossa sociedade com nossas próprias mãos, criando prisões e castigos para os primeiros, assim como honras e presentes para os últimos. Porém, reconhecemos nossas limitações e ansiamos por uma força promotora de justiça mais plena. Essa justiça tem que vir de algo maior que nós, mais poderoso e incorruptível. Esse “algo” normalmente é chamado de “Deus”.

Depois temos a curiosidade. A ambição citada no parágrafo anterior reflete uma característica marcante de nossa espécie, que é a vida em sociedade. O desejo de adquirir conhecimento amplo e seguro advém de outro aspecto nosso, que é a vontade de aprender. Dentro de uma sociedade majoritariamente cristã, é comum ouvir de muitos cristãos que o conteúdo da bíblia é uma verdade absoluta e que é tudo o que precisamos conhecer, que a sabedoria ali ensinada é mais profunda do que a mais brilhante eureca de um simples humano. Comicamente ouvimos muito frases do tipo: “no fim todos nós saberemos quem está certo”. É a crença de que, depois da morte, além da justiça feita teremos todas as respostas. Já falei um pouco sobre essa crença aqui (Porque não Acreditar, 5º parágrafo).

O terceiro desejo é a vontade de nunca deixar de existir. Em bom português: “o medo da morte”. Não me adentrarei nele, pois já dediquei três textos ao assunto (este, este e este). Só adianto que considero esse o desejo mais íntimo e o maior responsável pela crença no sobrenatural. Os três grandes desejos aqui comentados não são exclusividade de teístas. Ateus também os possuem. O que muda é que um deles aceita suas limitações e o outro abafa o fato com crenças sobrenaturais.

Portanto, como já devem ter percebido, podemos resumir esses três motivos como um desejo muito íntimo presente em todos nós. Uma fome muito grande por coisas que não vêm na quantidade que gostaríamos. Essa fome imensa que é a mãe de todas as fés. A justiça é rara, o conhecimento é pouco e a vida é curta. Essa fome se sacia acreditando que a justiça será feita, que todos os mistérios do mundo (ou ao menos os poucos que realmente interessam) podem ser desvendados e que a nossa existência não se finda com nossa morte. Essa crença poderia vir da maneira padronizada, através da lógica e da observação. O problema é que “lógica” e “observação” definitivamente não nos levam a concluir o que gostaríamos, então a nossa crença tem que vir do nada, é preciso ter fé. Tornamos uma dada limitação, que é a incapacidade de possuir um entendimento pleno sobre todas as coisas a nosso favor e colocamos os nossos anseios neste mar de ignorância que reconhecemos possuir. Nós, ateus, chamamos esse deus, que mora no incompreendido, de “deus-das-lacunas”. O que escapa nossa razão agora é algo sobrenatural e sacia a nossa fome. Ou pelo menos vai saciar, um dia quem sabe, basta ter fé e paciência…

Para não confundirmos nosso interlocutor, geralmente usamos – ou tentamos usar – as palavras da forma mais clara possível. A menos que seja nossa intenção, evitamos quaisquer ambiguidades que possam prejudicar a nossa comunicação. É particularmente mais fácil quando a conversa é instantânea e há um mecanismo de correção para eventuais falhas. No entanto, a experiência de escrever um texto exemplifica bem a dificuldade em comunicar com total eficiência.

As leis, de forma geral, são extremamente dependentes da linguagem usada. Uma vírgula fora do lugar muda o sentido de forma tal que o objetivo inicial se torna a exceção, de acordo com a redação. Os códigos penais – para citar o exemplo mais drástico – precisam de verbos diferentes para cada crime previsto. Assim, eles pretendem abarcar cada fato fundamental da realidade com uma denominação específica.

Tentemos, num exemplo hipotético, alargar essa ideia. Imaginemos que o universo esteja completamente parado, como em uma fotografia, e agora teremos a missão de dar um nome diferente a todo e qualquer fenômeno que conseguirmos distinguir, não importando a escala de tamanho nem as ordens aparentes de repetição.

Comecemos com algo simples: há aproximadamente seis bilhões de seres-humanos em nosso planeta e, a princípio, podemos nos referir a eles simplesmente como “seres-humanos”. Mas lembremos que nossa missão é similar àquela do legislador penal, então, precisamos dar uma denominação única e inconfundível a todos. Uma boa ideia seria usar números de série, que começariam do zero e iriam até o último indivíduo vivo, no momento de nossa foto.

O trabalho já parece hercúleo, mas ainda temos que ver as partes que constituem esses indivíduos. Para demonstrar a dificuldade que teríamos ao aumentar o nível de exigência classificatória, somente uma molécula de DNA possui aproximadamente três bilhões de pares de bases. E lembremos que toda essa análise diz respeito somente a um indivíduo, enquanto nossa missão se extende a todo o universo.

Esqueçamos as dificuldades iniciais e partamos para o fim de nossa jornada: conseguimos, finalmente, elaborar um número de série para tudo o que nos propusemos a fazer, desde a escala macroscópica dos buracos negros até além do comprimento de Planck. Teríamos orgulho de nossa empresa e ficaríamos felizes com o trabalho bem feito. Logo depois, a fotografia mover-se-ia por um intervalo de tempo não maior que um femtossegundo e teríamos de refazer tudo outra vez, pois nosso nível de exigência é tão alto que uma simples mudança na menor partícula possível acarreta uma diferenciação digna de ser contemplada.

Como uma conclusão bastante plausível, podemos simplesmente dizer que a linguagem não toca a realidade. É apenas uma maneira que encontramos de nos relacionar com o mundo ao qual pertencemos. É, talvez, a maior das ficções que guiam nossa existência e sem ela não teríamos alcançado o menor grau de nossa sociedade atual. Parece óbvio concluir, mas a linguagem não é o mundo.

No fundo, qualquer tipo de linguagem se baseia num valor axiológico arbitrário que só tem sentido a posteriori. É uma aproximação grosseira que só funciona quando dois ou mais indivíduos concordam sobre as regras de uso. Toda a nossa lógica é baseada na relação desses valores arbitrários. Se ela funciona, é porque desistimos dos estudos zetéticos que permeiam o porquê dessa valoração e partimos para a dogmática do que precisa ser feito de maneira prática.

por Rafael Bittencourt Santos

Não é meu objetivo neste texto estabelecer princípios morais ou fazer uma profunda pesquisa sobre Ética. O que pretendo, na verdade, é propor-lhes uma área que tem se ocupado dos estudos morais e metafísicos há milênios e que é independente da religião. O motivo dessa pretensão é que tenho visto, no meu dia-a-dia, tanto por parte de religiosos quanto por parte de não religiosos, o esquecimento de que Ética não é um campo exclusivo da religião e de Deus.

A pergunta é clássica para aqueles que se declaram ateus: “de onde vem sua moral?” Os julgamentos de que ateus não têm base ética nem sentido para sua vida são muito difundidos porque para muitos – a massiva maioria[1] – a religião é a detentora das rédeas das nossas vidas. Até mesmo alguns que se declaram ateus – e isso me deixa atônito – dizem que não há bases morais fora da religião. Não discutirei, aqui, o modo de vida religioso. Basta identificá-lo como a vida regida pela fé. Pretendo apresentar e propor-lhes a filosofia, em toda a sua pluralidade. É fato que a filosofia se dedica à investigação no campo da Ética e da Metafísica por excelência. Contudo, ao contrário da investigação religiosa, se assim se pode chamar, a pesquisa filosófica se funda na razão.

Focando no ateísmo: quais as bases morais oferecidas pelo ateísmo? Nenhuma[2]. O ateísmo é apenas a posição contrária à teísta, a negação da crença divina e nada mais. Todavia, é certo que ateus têm senso moral e capacidade para fazer julgamentos. Porém, após rejeitar a vida religiosa, onde buscar o aprimoramento para a vida? Onde buscar a melhor forma de viver e ser? Na filosofia. É certo que a filosofia não é una, mas tão diversa quanto a religião. Várias linhas que se opõem e completam compõem as correntes filosóficas. Apesar disso, a filosofia cumpre um requisito que geralmente ateus procuram para firmar suas ideias: o desejo de ser racional e expulsar a fé.

Ainda assim, restariam questionamentos. Não seria esta apenas uma forma de trocar figurinhas? De certo ponto de vista, até pode ser visto apenas como uma troca de figurinhas. Contudo, uma “troca” semelhante à da alquimia pela química ou da astrologia pela astronomia. Na verdade, uma evolução. Digo que seria importante frisarmos o modo de vida filosófico porque traríamos as discussões para o campo da razão. O grande problema dos diálogos entre religiões e com religiões é o vínculo destas com a fé; com as crenças inquestionáveis e dogmas inabaláveis. Depois de puxado de volta para a filosofia o diálogo, mesmo que ela não esteja ainda una e acabada, poderíamos começar a construir um edifício mais seguro e ter, enfim, o sonhado debate sem objeções como “é o que minha fé diz”.

Eis minha proposta. Busquemos na filosofia as questões que muitos buscam nas religiões. Troquemos a Bíblia pela “Ética a Nicômaco”, de Aristóteles, ou “Os Deveres”, de Cícero. Àqueles que nos oferecerem o Novo Testamento, ofereçamos “Da Tranquilidade da Alma”, de Sêneca. Se nos perguntarem de onde vêm nossos julgamentos, digamos que da filosofia. Se nos perguntarem o que rege nossas vidas, digamos que a razão. E não apenas abracemos a filosofia, mas recriemos os círculos filosóficos, nos juntemos para discutir os assuntos e assumir posições, como fora feito numa época de luz.

Notas:

[1] Considero apenas o “mundo ocidental”. Sobre o Oriente, falta-me conhecimento.

[2] Creio que seja necessário uma melhor explicação de tal ponto, visto que pode gerar confusão. O ateísmo não pretende dar bases morais porque não é seu intuito. Seria como cobrar de alguém que está expondo a Teoria das Cordas a reflexão ética dada por ela. São coisas diferentes com intuitos diferentes.


(artigo recebido em 20 de agosto de 2010)

Nota: para participar como autor ad hoc, envie seu texto para udmg@ateus.net. O material ficará disponível a todos os membros titulares para peer review e estará sujeito a críticas e sugestões antes de ser publicado (em data que seguirá a ordem de recebimento dos materiais). Para maiores informações a respeito, faça aqui o download do ‘Guia de padronização’, em formato PDF.

Durante todo o dia, bilhões acordam, trabalham, almoçam, se entretêm e dormem. Desses bilhões, alguns milhões morrem e outros nascem. Mas sempre temos uma quantidade enorme de gente, muitas delas estão confinadas em áreas relativamente pequenas as quais denominamos “cidades”. Acontecem crimes, crueldades, mortes estúpidas, mas o grreosso da população sobrevive ilesa a mais um dia e continua vivendo normalmente. Tudo parece funcionar em sintonia. Poderia ser diferente. Durante o dia, esses bilhões poderiam acordar, matar seus semelhantes, roubar o que desejassem e ir dormir. O número de mortos seria muito maior, com certeza, e a qualidade de vida de todos decresceria abruptamente.

Existe uma harmonia tênue, que permite o bem estar e a sobrevivência da maioria. A hipótese mais aceita, pelo menos aqui no Brasil, é a de que existe um “coordenador”. Algo além das pessoas monitora suas atividades e faz com que elas não se destruam em uma massa caótica. Outros diriam que não existe um “coordenador”, mas sim um “criador” que já nos fez dessa maneira, com um senso de moral embutido capaz de minimizar a desordem e maximizar o bem estar. Para estas pessoas, algo externo a humanidade tem que existir caso contrário a moralidade, que seria algo maior e que transcenderia as aspirações egoístas de cada um, não existiria. Da mesma maneira que um rebanho não se conduz ordenadamente sem um devido pastor.

A ideia é: sem esse “coordenador/criador”, sem esse “pastor”, a ordem dá lugar ao caos. Todo o ateu que já conversou abertamente sobre sua descrença ouviu certas perguntas. Uma particularmente muito idiota é: “se não existe deus, o que te impede de sair matando por aí?”. Alguém que faz essa pergunta só pode estar em duas categorias possíveis. Ou é um psicótico, cujo único motivo para não iniciar uma chacina é o seu medo por uma entidade sobrenatural. Ou, como imagino eu ser o caso da grande maioria, a pessoa em questão simplesmente não parou para pensar no problema devidamente. Alguns religiosos perceberam a ingenuidade e, conhecendo o comportamento não-genocida de algum ateu, alegam que a descrença em deus não impede a ação deste sobre nosso senso de moral. Realmente, se existe um deus e ele é o responsável pela nossa moral, a crença ou descrença faria pouca ou nenhuma diferença.

A hipótese de um agente coordenador se baseia em certas premissas. Uma delas é a de que a natureza não construiria por si só um comportamento no qual alguns se sacrificariam pelo bem alheio. Outra premissa é a de que motivações egoístas não podem dar origem ao altruísmo. Partindo dessas premissas conclui-se que a moral vem de fora e não de raízes naturais, como através da evolução, por exemplo.

Vamos analisar primeiramente a segunda premissa. Segundo certos teístas, nada impede um ateu de dar início a uma matança. Bom, esse seria o exemplo extremo de desvio moral. Comecemos com a pergunta: O que eu ganho matando pessoas? Sim, porque deve existir alguma recompensa muito boa reservada para os assassinos em séries, visto que é preciso um castigo eterno para impedir que isso aconteça. Eu desconheço tal recompensa. Por outro lado, o que eu perco matando pessoas? Bom, comecemos pela prisão, que não deve ser nenhum resort, principalmente se você for um genocida. Mas ignoremos a ação da polícia, suponhamos que não há polícia alguma e que você more em um vilarejo isolado. Mais uma vez, você despertará a ira dos habitantes que irão se vingar de ti. Agora imaginemos que você tenha aniquilado todos do vilarejo, neste caso, que bela babaquice o senhor fez. Para que serve um vilarejo deserto, sem ninguém para trabalhar, sem ninguém para você conviver? Convenhamos, os casos em que a matança traria benefícios mesmo para o mais egoísta dos psicopatas são, no máximo, muito raros.

Em um caso menos extremo, pensemos em um aleijado que derrubou a sua muleta debaixo do banco de uma praça. O que você ganha ajudando-o? Em termos estritamente egoístas, nada. Só que, não sei quanto a vocês, mas eu não acho uma boa visão a de um aleijado se entortando todo para tentar pegar sua própria muleta. É por isso que a maioria aqui, caso visse alguém nesta situação, pegaria a muleta para o aleijado. Sob outro ponto de vista, o que você perde ajudando-o? Quase nada, um pouquinho de tempo e um pouquinho de energia, quantidades irrisórias. Isso explica porque a maioria de nós se sente mais compelido a ajudar um aleijado do que sair matando por aí.

Podemos concluir que existe sempre um motivo egoísta por trás do altruísmo. Uma mente simplória pode interpretar isso de uma forma bem mais asquerosa do que deveria ser. Quando falo em motivos egoístas por trás de atitudes nobres eu não falo de segundas intenções, chantagens ou exploração. Falo da própria satisfação pessoal. Nem que essa satisfação consista em não ver um aleijado apanhando para pegar a sua muleta debaixo do banco. Mas a questão continua em aberto: porque nos sentimos satisfeitos com isso, mesmo que minimamente? Resposta evolucionista padrão: porque é adaptativo.


Imagem de Messier 92, um aglomerado globular. - por Achut Reddy/Flynn Haase/NOAO/AURA/NSF


Sobre os benefícios adaptativos no altruísmo, existe uma discussão muito grande sobre o assunto. Eu mesmo falo um pouco sobre isso neste texto. Existe um padrão observável de organização na natureza. A tendência é que os corpos mais caóticos se aniquilem, e os menos se perpetuem. Isso vai muito além da sociedade humana. Um exemplo são os aglomerados estelares. Nestes aglomerados podem existir até um milhão de estrelas. Acontece que essas estrelas não são estáticas, elas possuem órbitas, muitas vezes fortemente elípticas, e nenhuma delas se choca com a outra. A situação é análoga, poderíamos sugerir algo externo ao aglomerado que projetou as órbitas com tanta precisão que o choque entre elas é raro ou inexistente. Deve-se salientar que o que enxergamos nem sempre foi assim. Esses aglomerados normalmente são muito antigos – principalmente os globulares – e muitas das estrelas que lá estavam originalmente foram destruídas através do choque, sobrando apenas aquelas cuja órbita não interrompia a órbita alheia. O que fica após alguns milhões de anos de choques e explosões é um sistema harmônico que dá a ilusão de ter sido projetado.

Mas porque prefiro a abordagem naturalista perante a sobrenatural? Existem alguns pontos incoerentes na crença de um coordenador/criador. A primeira está na imperfeição do mecanismo, que ainda assim permite sofrimento e exploração. Isso é um problema apenas se o coordenador/criador em questão é considerado perfeito. É o deus normalmente presente nas grandes religiões abraâmicas. Nem vale a pena se ater nesse ponto, pois Epicuro já fez isso muito antes e muito melhor do que eu poderia fazer. Mas o maior problema é o mesmíssimo problema que a hipótese teísta encontra em diversas áreas: “explica-se” um mistério apelando para um mistério maior ainda. Poderíamos explicar a moral através de um suposto criador, mas como explicaríamos o criador? A curiosidade teísta para quando deus entra. Novamente, o que temos não é uma “explicação”, mas sim uma lacuna na qual deus coube com conforto.