por Rafael Bittencourt Santos

Não é meu objetivo neste texto estabelecer princípios morais ou fazer uma profunda pesquisa sobre Ética. O que pretendo, na verdade, é propor-lhes uma área que tem se ocupado dos estudos morais e metafísicos há milênios e que é independente da religião. O motivo dessa pretensão é que tenho visto, no meu dia-a-dia, tanto por parte de religiosos quanto por parte de não religiosos, o esquecimento de que Ética não é um campo exclusivo da religião e de Deus.

A pergunta é clássica para aqueles que se declaram ateus: “de onde vem sua moral?” Os julgamentos de que ateus não têm base ética nem sentido para sua vida são muito difundidos porque para muitos – a massiva maioria[1] – a religião é a detentora das rédeas das nossas vidas. Até mesmo alguns que se declaram ateus – e isso me deixa atônito – dizem que não há bases morais fora da religião. Não discutirei, aqui, o modo de vida religioso. Basta identificá-lo como a vida regida pela fé. Pretendo apresentar e propor-lhes a filosofia, em toda a sua pluralidade. É fato que a filosofia se dedica à investigação no campo da Ética e da Metafísica por excelência. Contudo, ao contrário da investigação religiosa, se assim se pode chamar, a pesquisa filosófica se funda na razão.

Focando no ateísmo: quais as bases morais oferecidas pelo ateísmo? Nenhuma[2]. O ateísmo é apenas a posição contrária à teísta, a negação da crença divina e nada mais. Todavia, é certo que ateus têm senso moral e capacidade para fazer julgamentos. Porém, após rejeitar a vida religiosa, onde buscar o aprimoramento para a vida? Onde buscar a melhor forma de viver e ser? Na filosofia. É certo que a filosofia não é una, mas tão diversa quanto a religião. Várias linhas que se opõem e completam compõem as correntes filosóficas. Apesar disso, a filosofia cumpre um requisito que geralmente ateus procuram para firmar suas ideias: o desejo de ser racional e expulsar a fé.

Ainda assim, restariam questionamentos. Não seria esta apenas uma forma de trocar figurinhas? De certo ponto de vista, até pode ser visto apenas como uma troca de figurinhas. Contudo, uma “troca” semelhante à da alquimia pela química ou da astrologia pela astronomia. Na verdade, uma evolução. Digo que seria importante frisarmos o modo de vida filosófico porque traríamos as discussões para o campo da razão. O grande problema dos diálogos entre religiões e com religiões é o vínculo destas com a fé; com as crenças inquestionáveis e dogmas inabaláveis. Depois de puxado de volta para a filosofia o diálogo, mesmo que ela não esteja ainda una e acabada, poderíamos começar a construir um edifício mais seguro e ter, enfim, o sonhado debate sem objeções como “é o que minha fé diz”.

Eis minha proposta. Busquemos na filosofia as questões que muitos buscam nas religiões. Troquemos a Bíblia pela “Ética a Nicômaco”, de Aristóteles, ou “Os Deveres”, de Cícero. Àqueles que nos oferecerem o Novo Testamento, ofereçamos “Da Tranquilidade da Alma”, de Sêneca. Se nos perguntarem de onde vêm nossos julgamentos, digamos que da filosofia. Se nos perguntarem o que rege nossas vidas, digamos que a razão. E não apenas abracemos a filosofia, mas recriemos os círculos filosóficos, nos juntemos para discutir os assuntos e assumir posições, como fora feito numa época de luz.

Notas:

[1] Considero apenas o “mundo ocidental”. Sobre o Oriente, falta-me conhecimento.

[2] Creio que seja necessário uma melhor explicação de tal ponto, visto que pode gerar confusão. O ateísmo não pretende dar bases morais porque não é seu intuito. Seria como cobrar de alguém que está expondo a Teoria das Cordas a reflexão ética dada por ela. São coisas diferentes com intuitos diferentes.


(artigo recebido em 20 de agosto de 2010)

Nota: para participar como autor ad hoc, envie seu texto para udmg@ateus.net. O material ficará disponível a todos os membros titulares para peer review e estará sujeito a críticas e sugestões antes de ser publicado (em data que seguirá a ordem de recebimento dos materiais). Para maiores informações a respeito, faça aqui o download do ‘Guia de padronização’, em formato PDF.

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4 Comments

    • Posted 6 de setembro de 2010 at 2:11
    • Permalink

    Boa noite…

    Acredito que a pergunta aqui é: “a moral já nasce com a pessoa?”
    Essa pergunta nasceu de um pensamento remoto de como era o pensamento de uma pessoa antes da criação de uma religião e, se possível, imaginar uma sociedade livre de um indivíduo com mais conhecimento ditando o que é certo ou errado. Será que todos eles achavam normal matar o outro pelo simples prazer de sangue, roubar e estuprar? Será que todos tinham noção de cidadania?

    Acredito que, se não existisse a religião, existiria uma outra crença ou força julgadora que não os próprios homens ditando a ética e moral, pois mesmo que usemos a filosofia para guiar nossas idéias, utilizaríamos das opiniões de terceiros ou algo pré ditado a seguir.
    Era como as sociedades primitivas viviam: quem tem mais conhecimento e informação e sabe se utilizar desta para se destacar, dita as regras da sociedade em questão.

    Afinal, o que é a verdade absoluta? O que é realmente certo e errado puramente falando?

    Bom texto.

  1. expulsar a fé
    com a razão
    mas ainda assim
    precisamos ter fé em alguém
    porque não podemos nos reproduzir assexuadamente

    • Cauê
    • Posted 13 de setembro de 2010 at 14:00
    • Permalink

    Parabéns, ótimo texto.

    • Red Guy 32
    • Posted 17 de setembro de 2010 at 12:50
    • Permalink

    O livro “Ética a Nicomaco” deve ser o livro mais lido pelos cristãos, depois da Bíblia, é claro. Logo, o cristão não ignora a filosofia.

    E será que a moral filosófica é realmente mais eficiente do que a religiosa? Fica uma questão para reflexão.