“Por que tantos tementes a deus?” Essa é uma pergunta muito boa. Nós, ateus, gostamos de debater sobre o assunto e expor nossas conclusões. Debatemos usando argumentos contra a existência de deus(es) e, principalmente, por que não é racionalmente aceitável acreditar em algum. Mas existe um fato que aparentemente derruba todas as nossas tentativas: existe uma boa quantidade de tementes a deus, deuses ou demais entidades sobrenaturais. Diante do fato de que a vasta maioria da humanidade acredita em deus ou deuses, nosso arsenal de argumentos parece quixotesco.

A resposta padrão de muitos ateus a essa questão é: os motivos racionais são poucos ou nenhum, mas os emocionais são muitos e são fortes. Eu me uso dessa resposta, pois realmente acho, depois de anos debatendo com teístas, que os motivos que levam à crença no sobrenatural são majoritariamente de caráter emocional. Uma boa porção deles insiste em dizer que não, possuem argumentos na ponta da língua, mas estão apenas querendo se enganar e, cedo ou tarde, acabam expressando que são, de fato, levados pela emoção.

Novamente, meu intuito não é rebater esses argumentos. Se algum teísta considerar que estou errado, sinta-se à vontade para postar seus argumentos nos comentários de nossos textos. Quero discutir o que seria essa tão falada motivação emocional. Ir além de simplesmente taxar a crença alheia como mera emoção e dar nome aos bois.

Bom, comecemos por um conceito muito desejado por nós: justiça. Queremos que os usurpadores paguem pelos seus atos e que os altruístas sejam recompensados. Tentamos fazer isso dentro de nossa sociedade com nossas próprias mãos, criando prisões e castigos para os primeiros, assim como honras e presentes para os últimos. Porém, reconhecemos nossas limitações e ansiamos por uma força promotora de justiça mais plena. Essa justiça tem que vir de algo maior que nós, mais poderoso e incorruptível. Esse “algo” normalmente é chamado de “Deus”.

Depois temos a curiosidade. A ambição citada no parágrafo anterior reflete uma característica marcante de nossa espécie, que é a vida em sociedade. O desejo de adquirir conhecimento amplo e seguro advém de outro aspecto nosso, que é a vontade de aprender. Dentro de uma sociedade majoritariamente cristã, é comum ouvir de muitos cristãos que o conteúdo da bíblia é uma verdade absoluta e que é tudo o que precisamos conhecer, que a sabedoria ali ensinada é mais profunda do que a mais brilhante eureca de um simples humano. Comicamente ouvimos muito frases do tipo: “no fim todos nós saberemos quem está certo”. É a crença de que, depois da morte, além da justiça feita teremos todas as respostas. Já falei um pouco sobre essa crença aqui (Porque não Acreditar, 5º parágrafo).

O terceiro desejo é a vontade de nunca deixar de existir. Em bom português: “o medo da morte”. Não me adentrarei nele, pois já dediquei três textos ao assunto (este, este e este). Só adianto que considero esse o desejo mais íntimo e o maior responsável pela crença no sobrenatural. Os três grandes desejos aqui comentados não são exclusividade de teístas. Ateus também os possuem. O que muda é que um deles aceita suas limitações e o outro abafa o fato com crenças sobrenaturais.

Portanto, como já devem ter percebido, podemos resumir esses três motivos como um desejo muito íntimo presente em todos nós. Uma fome muito grande por coisas que não vêm na quantidade que gostaríamos. Essa fome imensa que é a mãe de todas as fés. A justiça é rara, o conhecimento é pouco e a vida é curta. Essa fome se sacia acreditando que a justiça será feita, que todos os mistérios do mundo (ou ao menos os poucos que realmente interessam) podem ser desvendados e que a nossa existência não se finda com nossa morte. Essa crença poderia vir da maneira padronizada, através da lógica e da observação. O problema é que “lógica” e “observação” definitivamente não nos levam a concluir o que gostaríamos, então a nossa crença tem que vir do nada, é preciso ter fé. Tornamos uma dada limitação, que é a incapacidade de possuir um entendimento pleno sobre todas as coisas a nosso favor e colocamos os nossos anseios neste mar de ignorância que reconhecemos possuir. Nós, ateus, chamamos esse deus, que mora no incompreendido, de “deus-das-lacunas”. O que escapa nossa razão agora é algo sobrenatural e sacia a nossa fome. Ou pelo menos vai saciar, um dia quem sabe, basta ter fé e paciência…

Be Sociable, Share!

5 Comments

    • Antonio
    • Posted 27 de outubro de 2010 at 13:23
    • Permalink

    Qual a diferença entre acreditar na existência de um deus e acreditar na existência de Papai Noel, por exemplo? Não é tudo fantasia, obra do lúdico e do emocional das pessoas? Para mim, é.

    • Hugo
    • Posted 4 de novembro de 2010 at 9:13
    • Permalink

    Diga aí Eduardo,

    Andei meio ocupado, mas aí vai minha contribuição ao debate, reposicionando-me, nesse site, na bancada de oposição:

    A mãe de todas as fés é a razão, como já disse G. K. Chesterton, para quem o ateísmo é o menor buraco em que uma pessoa consegue enfiar a cabeça…

    A cada dia eu me convenço mais que essa discussão sobre “crer ou não crer” é uma causa perdida para os não-crentes. O determinismo, ou mecanicismo, ou causalismo, ou materialismo ou o que seja, espreme quem o defende num canto de parede e tome bordoada.

    O canto da parede é a necessidade de explicar tudo. Ou explica ou rechaça de plano. Os crentes não precisam disso. Se há causalidade no mundo, sem problemas, é parte do Projeto e não ameaça a cota de mistério. Os crentes não se sentem ameaçados pela causalidade, pela evolução ou pelas leis da natureza, simplesmente deduzem que Deus assim o quis. E os milagres, ou fatos inexplicáveis ou inexplicados, como queira, continuam possíveis.

    Já o determinista diz: não há nem pode haver milagres – e tome pancada vindo de tantos e tantos testemunhos e das próprias limitações da ciência, tão útil mas sujeita às limitações inescapáveis que tão bem conhecemos. O pobre determinista se vê a toda hora diante do que não tem explicação e só lhe resta objetar: não tem explicação ainda, na crença de que um dia terá…

    O ateu na verdade procura dar conta dos fatos, de todos eles, mas isso não é difícil. Qualquer maluco faz isso (aliás a lógica de um maluco costuma ser ferrenha). Sabemos da lógica que basta que a argumentação se feche em um círculo. Mas a pergunta é: a realidade cabe dentro desse círculo? Deve ser extenuante duvidar sistematicamente de tudo o que não pode ser “racionalmente explicado”, ainda mais quando nada pode, no fim das contas, ser racionalmente explicado: o porquê das coisas, de qualquer coisa, não encontra explicação alguma fora de Deus.

    Claro que por “dar conta dos fatos” não digo explicá-los, mas digo rechaçar o que não puder ser “racionalmente explicado”. E tome acaso para cá, acaso para lá… Bem, estou para erguer um altar para esse tal de deus acaso… Afinal, qual as chances de existirmos e de dialogarmos, mas “o acaso” nos concedeu isso, e tudo o mais. Bacana, esse acaso parece ser digno de louvor.

    Às vezes tenho vontade de escrever sobre os dogmas de fé dos que “não crêem”, para desmascará-los como os que mais crêem, nas crenças mais absurdas. Talvez um pouco de suspeita quanto às próprias suspeitas se faça salutar para que possam observar o buraco em que enfiaram suas cabeças, e assim ganhar um pouco mais de perspectiva, não?

    Aliás, os ateus acreditam em cada uma: acreditam que a gravidade é uma lei, veja só! Se é lei, quem legislou? Tudo o que sabemos é que até hoje os objetos “caíram para baixo”, e que de um ovo de galinha nascerá um pinto, ou ainda que um pássaro bate as asas e voa, mas um homem bate os braços e não sai do chão. Tudo isso decorre de nossas observações, é puramente indutivo, é dogmático.

    Agora, aquelas perguntas que todos nós descobrimos lá pelos 3 anos de idade, essas remanescem sem respostas, e os deterministas, coitados, nem desconfiam que a falta de resposta corresponde à Resposta que satisfaz nossas inquietações mais profundas.

    Portanto, a “mãe de todas as fés” nada mais é que um imperativo da razão – embora a razão seja no final pura questão de fé (em nossos sentidos, nas relações causais que formamos, nas “leis” da natureza etc.).

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/05. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Eduardo Bitencourt
    • Posted 7 de fevereiro de 2011 at 22:34
    • Permalink

    Opa Hugo, tudo bem?
    Desculpe o atraso da resposta.

    Pois bem, o que você escreveu é algo que eu já li – várias vezes.

    Sendo breve, acho que deveria ler alguns outros textos do blog.

    Alguns pontos de sua argumentação que quero salientar:

    1. “O canto da parede é a necessidade de explicar tudo.”
    Ateus não querem dar resposta a tudo. Essa sua frase denuncia que você deve realmente ler alguns outros textos, pois a definição de ateu foi feita ad nauseum aqui no blog.
    O que ateus normalmente não gostam é de apelar para deus como uma explicação para tudo. Para ateus como eu, a maneira certa de trabalhar o desconhecido é admitir ignorancia.

    2. “Bacana, esse acaso parece ser digno de louvor.”
    Você lida com o acaso da maneira com que muitas pessoas também ingenuamente lidam. Incluo ateus na lista. Sobre essa questão em especial (questão muito interessante, por sinal) dedicarei um texto inteiro, ok? Assim teremos um espaço melhor para debater sobre o assunto.

    3. “Aliás, os ateus acreditam em cada uma: acreditam que a gravidade é uma lei, veja só! Se é lei, quem legislou?”
    Aqui é mais um otimo exemplo de frase que eu li dezenas de vezes. A velha pergunta: “quem legislou a lei da gravidade?”. Bom, isso é uma questão meramente semântica. Para uma pedra caindo tem que ter uma lei criada por um legislador? Essa é a logica simplória e antropomorfisada que impera no cotidiano. Não se engane, quando digo “antropomorfizada” nao quero dizer que seu deus é um velho barbudo, falo da velho conceito de causa e efeito onde a causa é proporcianada por algum ser de maneira deliberada.
    “Lei” foi uma definição que demos a um fato observado varias vezes e que tem firme influência sobre um conjunto de fenômenos semelhantes. Como o fato da pedra cair quando abandonada de uma certa altura e o fato da Terra estar presa no campo gravitacional do Sol. Cria-se uma teoria, uma explicação para o fenômeno que gira em torno de uma lei, a lei gravitacional.
    Algumas definiçoes de “lei”, segundo o Michaelis:
    “~lei
    lei
    sf (lat lege) 1 Preceito emanado da autoridade soberana. 2 Prescrição do poder legislativo. 3 Regra ou norma de vida. 4 Relação constante e necessária entre fenômenos ou entre causas e efeitos. 5 Obrigação imposta.”

    Repare como a primeira e a segunda definição entram na sua interpretação de “lei” e como a quarta, em particular, define bem o que os cientistas envolvidos queriam dizer com “lei” quanto as postularam.

    • Hugo
    • Posted 21 de fevereiro de 2011 at 4:36
    • Permalink

    Você fala em argumentos repetidos ad nauseam, mas eu diria falácias, circularidades que de tanto tolher quem se prende a elas provocam náuseas…
    Vai adiante o resumo de tudo o que o ateísmo, esse pseudorraciobalismo, quer propor:
    1. Só pode existir o que pode ser comprovado.
    2. Deus não pode ser comprovado.
    3. Deus não existe.

    Do ponto de vista lógico, o raciocínio e valido. Afinal a conclusão decorre das premissas. Mas bem sabemos que a lógica nada nos diz acerca da veracidade, é uma mera ferramenta.
    O problema todo não esta na conclusão, que aliás é religiosa no mais alto grau. Os grandes místicos das grandes religiões de todas as épocas sempre disseram que Deus não existe, querendo apenas ressaltar que a existência é um rótulo que não O alcança.
    O problema todo está na primeira premissa, que de tão nefasta ao espírito humano, chega a ser repulsiva. Além de ser indemonstrável, bem sabemos – basta lembrarmos de Karl Pope.
    Viver com base na redução de todas as coisas às demandas mais primitivas da razão humana, isso é que me parece um fechamento, uma amputação intelectual, um antropomorfismo…

    • Hugo
    • Posted 21 de fevereiro de 2011 at 4:42
    • Permalink

    Debitem os erros de ortografia na conta do teclado do iPad…