por Edmundo E. Medeiros

Michel Foucault analisou profundamente a estreita relação entre poder e conhecimento. Concluiu que um não existe sem o outro e que a produção da verdade se dá, em última análise, dentro de relações de poder que funcionam como eficientes mecanismos de exclusão, constrangendo e condicionando a circulação da verdade em toda a rede de poder. Para Foucault, “não há relação de poder sem constituição correlata de um campo de saber, nem saber que não suponha e não constitua ao mesmo tempo relações de poder”.

Os discursos de verdade são produzidos, circulam e funcionam em múltiplas relações de poder que permeiam a sociedade numa estrutura microfísica: nela, Direito, poder e verdade se relacionam intimamente. Na própria estrutura burocrático-institucional do Estado sobejam exemplos dessa realidade, que pode ser observada nos mecanismos institucionais destinados à legitimação do chefe de Estado, nos discursos técnicos que fundamentam a aplicação da política econômica mais adequada (instigando ou inibindo políticas de intervenção), nos procedimentos legislativos de produção normativa, com todos os “cabos-de-força” travados entre múltiplos e antagônicos interesses, nas atividades judiciárias de julgamento, dentre outros exemplos que poderiam ser aqui citados indefinidamente.

O poder, em múltiplas e incessantes relações, não para de “institucionalizar a busca da verdade, profissionaliza-a e a recompensa. No fundo, temos que produzir a verdade como temos que produzir riquezas, ou melhor, temos que produzir a verdade para poder produzir riquezas. Por outro lado, estamos submetidos à verdade também no sentido em que ela é lei e produz o discurso verdadeiro que decide, transmite e reproduz, ao menos em parte, efeitos de poder… Afinal, somos julgados, condenados, classificados, obrigados a desempenhar tarefas e destinados a um certo modo de viver ou morrer em função dos discursos verdadeiros que trazem consigo efeitos específicos de poder…, regras de direito, mecanismos de poder, efeitos de verdade, ou regras de poder e poder dos discursos verdadeiros…”[2].

O saber, portanto, é produzido nas cadeias de transmissão do poder para manter, transmitir e recriar o próprio poder. Essa indissociável relação com o saber é fruto da legitimidade que o poder necessariamente busca através da verdade. Fixar tal legitimidade é essencialmente o papel do Direito, que dilui o fato da dominação dentro do poder para fazer surgir, aí, os direitos legítimos da soberania e o dever legal da obediência.

O conhecimento, portanto, – esse mesmo produzido pelo, no e para o poder, que domina e é transmitido capilarmente – foi inventado, e aí a ideia de invenção, seguindo Nietzsche, contrapõe a de origem: dizer que o conhecimento foi inventado é dizer que ele não teve origem e que, portanto, não há no conhecimento uma adequação ao objeto, uma relação de assimilação, mas sim uma relação de dominação; é afastando-se do idealismo que Nietzsche associa o conhecimento à ideia de luta, dominação e poder. A verdade, então, é fabricada dentro de relações de luta e poder: não há como apreender sua constituição sem visualizar o embate travado na sua formação[3].

Não há uma essência do conhecimento ou condições universais para tal. O conhecimento está sempre relacionado a relações estratégicas e, exatamente por essa razão, sua natureza é parcial, oblíqua[4]; sua natureza é perspectiva porque há batalha e é desta luta que ele (conhecimento) exsurge. Tal ideia se contrapõe ao idealismo platônico, segundo o qual a verdade necessariamente se dissocia do poder político, que há antinomia entre saber e poder e que, se há o saber, ele necessariamente deve renunciar ao poder. É precisamente a ideia que contrapõe a verdade ao poder político que Nietzsche se propõe demolir ao evidenciar o poder por detrás de todo conhecimento e que, no fundo, o saber é tramado com o poder[5].

As condições políticas e econômicas nas quais se insere o sujeito, portanto, não são um véu que perturba a relação do sujeito com o conhecimento, mas sim aquilo através do que se constitui o sujeito de conhecimento, ou seja, só há verdade e sujeito de conhecimento a partir de condições políticas que são o próprio solo onde as relações entre ambos e os próprios domínios de saber se constituem[6].

Todo conhecimento, então, possui sua própria história, como qualquer outro objeto. Resulta daí que para apreendê-lo, em sua profundidade, isto é, em sua fabricação, é preciso aproximar-se mais da política que dos filósofos, e é somente nessas relações de luta e de poder – na maneira como os homens entre si se odeiam, lutam, procuram dominar uns aos outros e querem exercer, uns sobre os outros, relações de poder – que compreendemos em que consiste o conhecimento.

Referências:

[1] FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Petrópolis: Vozes, 1989. p. 30.

[2] FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. São Paulo: Edições Graal, 2004. p. 180.

[3] VEIGA NETO, Alfredo. Foucault & a Educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2003. p. 75.

[4] FOUCAULT, Michel. A Ordem do Discurso. São Paulo: Edições Loyola, 2003. p. 34.

[5] MACHADO, Roberto. Nietzsche e a Verdade. São Paulo: Graal, 2002. p. 96.

[6] FOUCAULT, Michel. A verdade e as formas jurídicas. Rio de Janeiro: Nau Editora, 2003. p. 27.


(artigo recebido em 26 de agosto de 2010)

Nota: para participar como autor ad hoc, envie seu texto para udmg@ateus.net. O material ficará disponível a todos os membros titulares para peer review e estará sujeito a críticas e sugestões antes de ser publicado (em data que seguirá a ordem de recebimento dos materiais). Para maiores informações a respeito, faça aqui o download do ‘Guia de padronização’, em formato PDF.

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7 Comments

    • Collingwood
    • Posted 22 de setembro de 2010 at 11:23
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    Olá, belo texto, aprendi lendo-o. Gostaria apenas de lembrar, que as concepções presente neste texto confrontam-se, por vezes, com a própria ideia que foi idealizada no site ateus.net como um todo.

    Menos do que questionar as verdades o ateus.net, por vezes, professa uma verdade, aquela que a ciência, no caso, prega.

    Vemos constantemente pessoas que compartilham de uma verdade atacando outras com o argumento de que as “outras” compartilham uma falsa verdade.

    Porém, a partir do dialogo presente neste texto percebemos que a problematização da “verdade” se faz necessário, pois as coisas não são dadas de forma pacifica, como muitos aqui parecem acreditar.

    Um brinde à problematização da “verdade”.

    • Collingwood
    • Posted 22 de setembro de 2010 at 11:25
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    Mais uma coisa, é muito gratificante ver que o Ateus.net abriu espaço para este discurso (que não vemos, por exemplo, na sessão artigos do site).

    Só faltou o nome do autor né?

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/10. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Eduardo Bitencourt
    • Posted 22 de setembro de 2010 at 12:07
    • Permalink

    Edmundo E. Medeiros,

    O nome do autor sempre está escrito no canto superior direito do texto.

    • Collingwood
    • Posted 22 de setembro de 2010 at 12:41
    • Permalink

    Ok Eduardo, falta de atenção da minha parte.

  1. Collingwood. A verdade mesmo inventada, como propõe Foucault, ainda existe e pode ser exaltada, seja a científica ou a filosófica. O modo como você colocou parece que quer calar os profetizadores da verdade, o que considero um erro, pois mesmo a verdade sendo uma questão de perspectiva, ainda deve ser dita e defendida, como fatual/real ou não. A única verdade que eu condeno é a absoluta, a que não se submete a avaliações.

    • Collingwood
    • Posted 22 de setembro de 2010 at 18:03
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    Tem razão Beloni, as “verdades” temporárias e consciente desta perenidade são bem vindas.

    Abraços

    • Antonio Porto
    • Posted 11 de outubro de 2010 at 11:49
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    A invenção da verdade é uma mentira.
    Ou se é verdade ou não.
    Verdade e mentira caminham juntas, na religião, na ciência, na vida comum, em qualquer lugar.


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