Monthly Archives: outubro 2010

Pense no seu emprego. Pense em sua escola ou universidade. Pense em todas as tarefas que precisa realizar nessas instituições. Pense em quantas delas realiza com vontade e quantas outras realiza somente por obrigação. Pense no cansaço – físico e mental – que resulta de todo esse esforço. Agora pense que foi tudo em vão. Não é senão com desespero e com frustração que encaramos esse pensamento.

Nosso sofrimento precisa restar justificado ou então não teríamos motivos para aceitá-lo. Os casos que divergem desse padrão são geralmente considerados patologias. Essa justificação pode ser de ordem econômica ou de sanção de caráter punitivo, como a perda do emprego ou a reprovação escolar. Mesmo assim, não é certo dizer que realizamos essas tarefas sem determinado prazer, até porque escolhemos – até certo ponto – as que gostaríamos de realizar.

Pois bem: é mais ou menos assim que encaramos nossas vidas – como se tudo fizesse parte de um plano que nos faz cada vez melhores. Vivemos em um continuum de ações e atitudes que nos tornam quem somos, afinal. Nesse ínterim, construímos e destruímos identidades que nos descrevem e nos agarramos a ideias e a ideais que representam nossos anseios.

Refletindo sobre nossas posições, dificilmente encontraremos alguma que seja absolutamente inconteste – mas isso não significa que não as defenderemos com menor paixão. É muito mais fácil partir da conclusão e encontrar fatos que a corrobore do que permanecer neutro até ter informação suficiente para uma decisão equilibrada. Se não gosto de tal ou qual autor, dificilmente aceitarei seus argumentos e vice-versa.

Mas por que isso acontece? Basicamente, porque, por mais que tenhamos um ideal de perfeição que nunca será alcançado, valorizamos o esforço aplicado e nossa situação presente. Não é que estejamos errados… estamos, no máximo, “incompletos”. Partindo desse pensamento, a ideia de mudar de opinião sempre é desastrosa, pois tira o peso do momento atual e relativiza as ações. Afinal, se não posso me provar mais certo ou errado do que outrem, de que adianta toda a energia desperdiçada em ser quem sou?

Reconhecer a incompletude é, na verdade, uma virtude poderosa. Tomando por exemplo a ciência contemporânea, a ideia de falseabilidade intrínseca ao método é a sua maior força. O “sistema” científico pede a todo momento que lhe provem errado. E é a partir desse controle corretivo extremamente rígido que as falhas pontuais podem ser eliminadas. Para quem não entende o poder de tal atitude, a admissão não passa de fraqueza. Nessa visão vesga, se tudo pode ser provado errado é porque nada está certo.

O dogma da imutabilidade é o maior erro que podemos conceber na tão chamada “natureza humana”. Nossa incapacidade de perceber pequenas mudanças só é desafiada quando o intervalo de tempo entre as comparações é maior do que nossa memória consegue armazenar. Assim, ficamos surpresos com amigos que já não víamos há tempos, com o crescimento de uma zona urbana que não visitávamos desde há muito ou com a evolução histórica entre o surgimento e a versão atual de certa religião.

Tentamos, com todas as armas, sustentar que continuam a mesma coisa; afinal, as pessoas, as cidades e os credos não continuam sob o mesmo epíteto, sob a mesma alcunha?

Uma vez desmistificada a genealogia da verdade, resta admitir que ela não perde seu peso. Se digo que tenho duas pernas, posso questionar o que o numeral representa, bem como a que o substantivo se refere e, ainda, no que consiste a ação. Mas, sanadas todas essas dúvidas, dificilmente poderia negar a afirmação.

Admitindo condições normais, você, leitor, também possui duas pernas. E, claro, pode, por sua vez, passar por todas as indagações possíveis até concluir o raciocínio. Poderia dizer, então, que somos iguais, eu e você? É um belo questionamento que o senso comum deixa escapar.

Ora, a conclusão só faria sentido se o que se propõe comparar tiver relevância para o caso. Poderia dizer que tenho olhos e que sou igual, portanto, a tudo o que tiver olhos, não importando o quão diferentes sejam em número, tamanho, composição e capacidade. Em outras palavras, precisamos esvaziar alguns dos detalhes para abranger um número maior de unidades.

Há algum problema nisso? Teoricamente, nenhum. A menos que seja uma manobra consciente com fins de manipular o interlocutor. Acontece em boa parte do discurso político e, principalmente, no discurso ecumênico.

Mesmo dentro do cristianismo, há uma miríade de seitas e subdivisões de credos e confissões. Dogmas de certa interpretação não coadunam com os de outras, na maioria dos casos. Como a maioria dos ensinamentos é autocontraditória, é impossível alegar que todos estejam certos. O máximo que podemos afirmar é que só um deles é fundamentado no que se possa chamar de verdade, mas é quase certo que nenhum passe no teste de realidade que empreendemos para outras coisas.

Resta-lhes, então, esvaziar os detalhes. Afinal, todos não louvam o mesmo deus? Se consideramos “deus” como a noção de um ser superior para o qual devemos obediência e/ou adoração, quase todas as religiões conhecidas seriam idênticas entre si. Não preciso apontar as discrepâncias dessa noção com o que pode ser observado: diferem desde vestes e rituais típicos até comportamentos sociais e sanções para apóstatas.

Esse esvaziamento parece ser a etapa final de um relacionamento emocional. Tal como nossos amados, cujos detalhes ignoramos quando estamos apaixonados, a ideia vaga só se sustenta enquanto não se pede por detalhes. Uma simples pergunta aberta seria capaz de dividir os fieis nas mais diversas vertentes interpretativas.

Tomemos por exemplo os dogmas católicos. Dificilmente encontraremos alguém que os cumpra todos – não só pela dificuldade atual, mas pela total ignorância quanto a eles. Encontraremos, isso sim, fieis que escolhem aqueles que desejam seguir, baseados, principalmente, na capacidade de conciliação com a vida quotidiana. Voltando às nossas definições, tais pessoas não poderiam ser consideradas católicas, strictu sensu. Se assim afirmam no censo demográfico, é porque foram batizadas durante a infância e tendem a visitar igrejas em datas culturais.

Por nosso condicionamento, dificilmente razão e emoção se encontram. Em geral, separamos bem as duas esferas e desligamos uma sempre que a outra está em ação. Assim, não importa o quanto demonstremos a tal ou qual pessoa o quanto sua crença – não necessariamente religiosa – precisa ignorar detalhes para se sustentar, pois haverá sempre uma zona de (des)conforto que dará legitimidade ao forte apelo emocional.

Ignorar detalhes é uma forma econômica de levar a vida – não há dúvidas quanto a isso. É uma maneira simples e eficiente de encarar modelos artificiais impostos de fora para dentro e, ao mesmo tempo, ter noção de identidade para um grupo que precisa partilhar determinadas ideias.

Por que, então, investir tempo em um texto assim? Porque a maturidade consiste em estar consciente das limitações do condicionamento a que fomos submetidos e racionalmente investir em atitudes que visem a mudar o que não mais nos serve, o que se mostrou prejudicial e inadequado para o nosso projeto de vida. E, acima de tudo, porque não há simplesmente a inocência de quem segue tal condicionamento: há, no polo ativo, sempre alguém disposto a se aproveitar da ingenuidade e da ignorância alheia.

por Leonardo Bueno Postacchini

Saudações ao leitor. Com todas as discussões sempre esbarrando na definição do que é objetivo e subjetivo, eu decidi escrever meus pensamentos sobre o assunto. Por vezes eu já pedi a outros a definição dessas coisas, sabendo que a tarefa seria difícil, pois ela é fundamental para certas discussões e é o coração de certas correntes filosóficas.

Devo fazer primeiro uma nota aos incautos: as definições aqui são dadas de acordo com a minha visão autista da realidade e, portanto, não necessariamente encontrarão validações de dicionários. Este é um texto filosófico mas não científico e, portanto, tem seu próprio grau de divergência da realidade.

O intuito não é oferecer uma verdade e sim mostrar um ponto de vista e, como tal, deve ser considerado com o devido ceticismo e senso crítico.

Isso posto, vamos ao assunto: para que possamos entender os conceitos de subjetividade e objetividade precisaremos justamente colocar eles em prática; para entendermos o que é o subjetivo, precisaremos colocar ele como objeto de nossa análise, entender como ele surge em nossas mentes.

Quando nós, seres-humanos, olhamos para algo, apontamos nossos receptores fotossensíveis para uma fonte direta ou indireta de luz; essa luz estimula células em nossa retina que, em resposta, gera impulsos nervosos; esses impulsos são transmitidos ao nosso cérebro, que os organiza e lhes dá significado, primeiro como conceitos simples, como cor e intensidade; a partir destes, pela sua disposição, contexto atual e conhecimentos anteriores, nosso cérebro enriquece o modelo com significados derivados: “isto é uma luz de farol”, “aquilo uma mulher” e daí por diante.

Àquela fonte de luz para a qual apontamos nosso olhos chamamos de “objeto” de nossa observação, seja ela o farol, a mulher, ou apenas a paisagem. A rigor, qualquer coisa que seja o alvo de nossa atenção pode ser definida como o objeto de nossa atenção, seja apenas de forma mais concreta, como de fato olhando, ouvindo ou de alguma forma percebendo o objeto através de nossos sentidos, como numa linguagem mais abstrata algo que seja o alvo de nossos estudos; ou seja o objeto de estudo.

Do outro lado desse processo, está o modelo que criamos a respeito do estimulo, está o que entendemos da realidade, nossa interpretação, a construção subjetiva. Perceba que, nesse nosso modelo, o processo de coletar informações e transformá-la em conhecimento e ideias é o próprio objeto de nosso estudo e o texto aqui apresentado é a interpretação subjetiva do
processo de coleta de informações.

Fica assim faltando uma definição, que depende de uma melhor elaboração de nosso modelo. Durante o processo de coleta de informações e a sua subsequente transformação em conhecimento, temos a formação gradual de um modelo mais simples e rudimentar que vai se elaborando e ficando cada vez mais sofisticado.

Tomemos o exemplo da observação de uma colher: primeiro nosso cérebro precisa dividir a imagem, dar-lhe cor e intensidade; certas partes da luz recebida, por exemplo, vão ser classificadas como a cor prateada, talvez tenha a ela associado o atributo brilhante; a forma precisa ser reconhecida também. A partir daí o modelo vai ficando mais complexo, por associação com objetos parecidos o cérebro identifica quais usos podemos lhe dar. Talvez esse cérebro tenha armazenado nele outras informações mais antigas relacionadas ao conceito de colher, e essas informações serão ajuntadas ao modelo.

Dessa forma, o cérebro produz um gradiente de modelos, do mais rudimentar e mais próximo do objeto ao mais elaborado e abstrato que por vezes representa bem o objeto de observação e por vezes se afasta dele.

Dentro desse gradiente, a objetividade está em tentar deixar o modelo o mais próximo do rudimentar, do que é apenas sensorial e menos carregado de informações adicionadas por nossa interpretação, do que é, por assim dizer, constatado por nossos sentidos.

No entanto, podemos ver que a nossa compreensão é sempre dependente do modelo criado por nosso cérebro; mesmo conceitos extremamente simples como o “amarelo” que enxergamos, não o nome da cor mas a cor em si, já é uma abstração, uma invenção de nosso cérebro na sua luta para compreender o mundo e poder reagir a ele de forma satisfatória.

Sendo assim, verificamos que não há como criar uma dicotomia entre o que é subjetivo e o que é objetivo; mesmo a visão mais objetiva ainda é dependente do que nosso cérebro interpreta dos impulsos sensoriais e, portanto, é subjetiva; não há como estabelecer um ponto claro de divisão e não há contraposição entre os conceitos, ou seja, eles não são opostos, da mesma forma que os valores de 1 a 10 não são o oposto dos números inteiros positivos.

O que eu tento mostrar com isso é que a divisão entre objetivo e subjetivo é pobre para determinar o que é real ou não, ou que ideias são válidas ou não, a começar pelo fato de que a separação entre os dois não existe; além do mais, existem elaborações complexas, e portanto mais subjetivas, que têm sucesso em representar o que encontramos na realidade.

Nas próximas partes deste artigo, eu vou retomar esse modelo e expandi-lo, tratando dos conceitos de realidade consensual, convergência e divergência de modelos e como essas coisas se relacionam com a ciência e a forma científica de analisar o mundo.


(artigo recebido em 31 de agosto de 2010)

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