por Leonardo Bueno Postacchini

Saudações ao leitor. Com todas as discussões sempre esbarrando na definição do que é objetivo e subjetivo, eu decidi escrever meus pensamentos sobre o assunto. Por vezes eu já pedi a outros a definição dessas coisas, sabendo que a tarefa seria difícil, pois ela é fundamental para certas discussões e é o coração de certas correntes filosóficas.

Devo fazer primeiro uma nota aos incautos: as definições aqui são dadas de acordo com a minha visão autista da realidade e, portanto, não necessariamente encontrarão validações de dicionários. Este é um texto filosófico mas não científico e, portanto, tem seu próprio grau de divergência da realidade.

O intuito não é oferecer uma verdade e sim mostrar um ponto de vista e, como tal, deve ser considerado com o devido ceticismo e senso crítico.

Isso posto, vamos ao assunto: para que possamos entender os conceitos de subjetividade e objetividade precisaremos justamente colocar eles em prática; para entendermos o que é o subjetivo, precisaremos colocar ele como objeto de nossa análise, entender como ele surge em nossas mentes.

Quando nós, seres-humanos, olhamos para algo, apontamos nossos receptores fotossensíveis para uma fonte direta ou indireta de luz; essa luz estimula células em nossa retina que, em resposta, gera impulsos nervosos; esses impulsos são transmitidos ao nosso cérebro, que os organiza e lhes dá significado, primeiro como conceitos simples, como cor e intensidade; a partir destes, pela sua disposição, contexto atual e conhecimentos anteriores, nosso cérebro enriquece o modelo com significados derivados: “isto é uma luz de farol”, “aquilo uma mulher” e daí por diante.

Àquela fonte de luz para a qual apontamos nosso olhos chamamos de “objeto” de nossa observação, seja ela o farol, a mulher, ou apenas a paisagem. A rigor, qualquer coisa que seja o alvo de nossa atenção pode ser definida como o objeto de nossa atenção, seja apenas de forma mais concreta, como de fato olhando, ouvindo ou de alguma forma percebendo o objeto através de nossos sentidos, como numa linguagem mais abstrata algo que seja o alvo de nossos estudos; ou seja o objeto de estudo.

Do outro lado desse processo, está o modelo que criamos a respeito do estimulo, está o que entendemos da realidade, nossa interpretação, a construção subjetiva. Perceba que, nesse nosso modelo, o processo de coletar informações e transformá-la em conhecimento e ideias é o próprio objeto de nosso estudo e o texto aqui apresentado é a interpretação subjetiva do
processo de coleta de informações.

Fica assim faltando uma definição, que depende de uma melhor elaboração de nosso modelo. Durante o processo de coleta de informações e a sua subsequente transformação em conhecimento, temos a formação gradual de um modelo mais simples e rudimentar que vai se elaborando e ficando cada vez mais sofisticado.

Tomemos o exemplo da observação de uma colher: primeiro nosso cérebro precisa dividir a imagem, dar-lhe cor e intensidade; certas partes da luz recebida, por exemplo, vão ser classificadas como a cor prateada, talvez tenha a ela associado o atributo brilhante; a forma precisa ser reconhecida também. A partir daí o modelo vai ficando mais complexo, por associação com objetos parecidos o cérebro identifica quais usos podemos lhe dar. Talvez esse cérebro tenha armazenado nele outras informações mais antigas relacionadas ao conceito de colher, e essas informações serão ajuntadas ao modelo.

Dessa forma, o cérebro produz um gradiente de modelos, do mais rudimentar e mais próximo do objeto ao mais elaborado e abstrato que por vezes representa bem o objeto de observação e por vezes se afasta dele.

Dentro desse gradiente, a objetividade está em tentar deixar o modelo o mais próximo do rudimentar, do que é apenas sensorial e menos carregado de informações adicionadas por nossa interpretação, do que é, por assim dizer, constatado por nossos sentidos.

No entanto, podemos ver que a nossa compreensão é sempre dependente do modelo criado por nosso cérebro; mesmo conceitos extremamente simples como o “amarelo” que enxergamos, não o nome da cor mas a cor em si, já é uma abstração, uma invenção de nosso cérebro na sua luta para compreender o mundo e poder reagir a ele de forma satisfatória.

Sendo assim, verificamos que não há como criar uma dicotomia entre o que é subjetivo e o que é objetivo; mesmo a visão mais objetiva ainda é dependente do que nosso cérebro interpreta dos impulsos sensoriais e, portanto, é subjetiva; não há como estabelecer um ponto claro de divisão e não há contraposição entre os conceitos, ou seja, eles não são opostos, da mesma forma que os valores de 1 a 10 não são o oposto dos números inteiros positivos.

O que eu tento mostrar com isso é que a divisão entre objetivo e subjetivo é pobre para determinar o que é real ou não, ou que ideias são válidas ou não, a começar pelo fato de que a separação entre os dois não existe; além do mais, existem elaborações complexas, e portanto mais subjetivas, que têm sucesso em representar o que encontramos na realidade.

Nas próximas partes deste artigo, eu vou retomar esse modelo e expandi-lo, tratando dos conceitos de realidade consensual, convergência e divergência de modelos e como essas coisas se relacionam com a ciência e a forma científica de analisar o mundo.


(artigo recebido em 31 de agosto de 2010)

Nota: para participar como autor ad hoc, envie seu texto para udmg@ateus.net. O material ficará disponível a todos os membros titulares para peer review e estará sujeito a críticas e sugestões antes de ser publicado (em data que seguirá a ordem de recebimento dos materiais). Para maiores informações a respeito, faça aqui o download do ‘Guia de padronização’, em formato PDF.

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8 Comments

    • Collingwood
    • Posted 8 de outubro de 2010 at 8:36
    • Permalink

    Olá Leonardo, parabens pelo texto achei muito bem construído e sem definições absolutas, muito bom mesmo.

    Há uma obra do Isaiah Berlin, que ele trata as concepções do que é realidade historicamente falando, o nome do livro é “o sentido da realidade”, muito interessante para as suas reflexões.

  1. Como um computador, a mente recebe cada pontinho de luz. Qual sera o tamanho da menor informacao que um neuronio pode guardar…

    • CIV
    • Posted 9 de outubro de 2010 at 19:07
    • Permalink

    “Sendo assim, verificamos que não há como criar uma dicotomia entre o que é subjetivo e o que é objetivo; mesmo a visão mais objetiva ainda é dependente do que nosso cérebro interpreta dos impulsos sensoriais e, portanto, é subjetiva; não há como estabelecer um ponto claro de divisão e não há contraposição entre os conceitos, ou seja, eles não são opostos, da mesma forma que os valores de 1 a 10 não são o oposto dos números inteiros positivos.”

    Como já dito diversas vezes, o que se chassifica como “subjetividade” existe “dentro” da objetividade. Existe na simples condição de ser produto da conciência de alguém e, como tal, dependente do mesmo. Não sei o que o autor interpretaria como “visão mais objetiva” sendo que, se absolutamente todos o nosso contato com a realidade passa por um filtro subjetivo. Se o mesmo se propós a ler as discuções e esclarecimentos a respeito do tema, verá que, a própria classificação de “objetividade” e “subjetividade” é simplesmente mais um critério abstração criado por nós mesmos. De maneira que, sim, não existe, objetivamente, dicotoma entre ambos os termos, pela mesma razão que não existe qualquer uma outra. Essas próprias distinções, que são subjetivas, só existem como formas de entendimento humano e tão somente para isso. Seus significados, evidentemente, estão associados com referências para podermos fazer distinções. No entanto, tais distinções são ideativas e obviamente não se espera encontrar tais como condições objetivas, como se fossem algo como a escuridão e a luz. O entendimento de objetividade diz respeito a tudo o que existe alheio a consciência, ou seja, o significado, que não é sinônimo de realidade, faz uma abrangência de entendimento geral que é exatamente alvo de toda e qualquer tentativa de entendimento já realizada. A subjeitivade, restringindo-se ao que se passa na cabeça de um indivíduo, refere-se a suas crenças, conhecimento/entendimento, ideais etc… Tais que, em condição de projeção, não existem.

    A razão sendo tomada pela consciência desses pontos, só o que faz é evitar que caiamos em buracos ilusórios, que não signifiquem nada. Tal como pensar que, se formos bons, um Deus irá nos recompensar.

    Apensar dos motivos de tanta insistência infrutífera e, até onde percebo, dezarazoada, para “refutar” algo que não oferece qualquer escapatória como condição (como se tentassemos argumentar contra a realidade para não ficarmos bêbados após altas doses de vodka), os indivíduos que se propõe a isso parecem não perceberem que os resultados de suas próprias análises não oferecem nada claro contra o simples ponto de não podermos fazer absolutamente nada para mudar a condição básica da realidade em prol de elucubrações orgulhosas. Como tal conceituação nada mais é do que um pensamento, parecem não perceberem que estão empenhando seu tempo a brincar com palavras.

    • rubens
    • Posted 18 de outubro de 2010 at 13:40
    • Permalink

    Esta necessidade de impetrar á “realidade” um carater intangível por passar por crivos subjetivos, ou seja, um processo evolutivo que nos adaptou a este universo e permitiu a interação sensitiva com o mesmo, me pareceria somene lúdico, não fosse as implicações epistemologicas. Vivemos no espaço vazio, muito mais que a matéria, mas nunca caimos em um buraco, apesar de ser imprescindível para o universo. Ficar elocubrando motivos para justificar que o espaço vazio e a materia nãsão inseparáveis é somente uma constatação, nada mais.

    • CIV
    • Posted 19 de outubro de 2010 at 0:12
    • Permalink

    “Esta necessidade de impetrar á “realidade” um carater intangível por passar por crivos subjetivos, ou seja, um processo evolutivo que nos adaptou a este universo e permitiu a interação sensitiva com o mesmo, me pareceria somene lúdico, não fosse as implicações epistemologicas.”

    São implicações epistemológicas, interpretativas e sensitivas Rubens. A questão é que sempre acessaremos o que entendemos como objetividade sob um filtro subjetivos, em outras palavras, o mundo só pode ser interpretado, nunca conhecido efetivamente, mas não por ser inacessível, como você supós, mas por sequer haver o que se conhecer dele.

    Toda interpretação que fazemos é dar um sentido lógico a uma ocorrência. Tal processo é uma sistematização (independente de ter correspondência com o que afirma)de entendimento, e não o conhecimento conhecida desse último. Não precisamos nos preocupar com isso pois, em nada isso nos impede de entendermos a realidade acessível. Esse é um ponto basicamente reflexivo que não tem relevância alguma na vida prática, apenas nos serve de esclarecimento sobre nossa condição. Nessa esfera, lidamos muito bem com o que podemos absorver da realidade, chamando esse conteúdo de conhecimento. Todo o conhecimento que temos é de sistematizações de possibilidades que constuímos via percepção de padrões e relações causais. Nesse processo, podemos dizer que memorizamos constantes e essas são o nosso efetivo “conhecimento”.

    O que pode confundir nesse raciocínio, é que, estamos afirmando algo objetivo (uma ocorrência que seja), e, se é assim, por que não podemos afirmar o conhecimento? Por dedução da consequência, diria que porque não tivemos efetiva apreenção da realidade envolta da ocorrência. De maneira que apenas abstraimos o entendimento de alguma consequência e o memorizamos. Sendo assim, não tivemos conhecimento objetivo pois tal passou por um filtro de entendimento. Mesmo tratando-se de afirmar uma possibilidade, essa é uma abstração de nosso cérebro (como forma de possibilitar entendimento), e não a “coisa em sí”.

    Ilustrando um cenário, com o intuíto de focando a nossa abstração, queremos montar um armário. Temos instruções de como montá-lo e o que precisamos fazer para tal. Esse entendimento irá fazer correspondência com a realidade e estamos manipulando possibilidades. Nessa condição, abstraímos o que podemos fazer e o que, de fato, é possível, mas isso em sí não é nada. Diria que seria simplesmente um algo em potêncial, mas tal, como um algo em sí, não existe, não havendo um o que se conhecer e afirmar. Nossas sensações e percepções da realidade são representações e interpretações dentro de como estamos desenvolvidos como forma de sobrevivência. Nossa forma de contato com a realidade é totalmente subjetiva, mas isso não significa que a objetividade está oculta ou inacessível. Significa que sequer há o que se compreender da mesma pois, na condição de interpretador, se reduz simplesmente a uma representação. Não podemos compreender a realidade pois não há um o que se compreender.

    Tudo o que nos referimos é com base em abstrações, delimitando o que queremos saber do que fazemos para obter esse entendimento.

    Para ficar mais claro ainda, gosto de comparar esse pensamento com uma linguagem de programação. Temos parâmetros para expressar o que queremos desenvolver, mas essas atribuições não se referem a nada em sí. Foram definidas com fins de facilitar um trabalho.

    Ilustrando esse processo, seria como pensar que uma linguagem de programação é um código com significado intrínseco a um comando.

    Em sí, não há esses significados e parâmetros. Eles são apenas mais processos em ocorrência, como todos os demais existentes, apenas carentes de significado intrínseco sendo a representação de algo.

    Pessoalmente, diria serem apenas possibilidades passíveis de realização, tal como todas as nossas abstrações da realidade.

    “Vivemos no espaço vazio, muito mais que a matéria, mas nunca caimos em um buraco, apesar de ser imprescindível para o universo. Ficar elocubrando motivos para justificar que o espaço vazio e a materia nãsão inseparáveis é somente uma constatação, nada mais.”

    O “buraco” ao qual me referi Rubens foi apenas simbólico. Como, no caso de crenças infundadas, sempre que estivermos dispostos e tivermos coragem para as desconsiderar, evitaremos, no mínimo, prejuízos maiores. Como disse, por exemplo, ser bom e acreditar que um Deus irá nos recompensar por isso. Ora, temos em mente que isso não iria acontecer, pois não temos motivos, evidêncdias ou parâmetros para acreditar em Deuses, logo, sairemos, de alguma forma, no lucro ao estarmos dispostos a desconsiderar esses fatores quando estivermos lidando com a realidade, coisa que, apensar de racionalmente ser simples de dizer, nem sempre é emocionalmente fácil. No caso, acreditarmos em Deus nos faz ter um desejo de algo que só existe em nossas mentes, e não efetivamente. Essas projeções só nos são úteis como formas de motivação (se assim as quisermos empregar), mas acabam sendo mais danosas do que benéficas, visto que projetamos resultados que nunca iremos colher de fato. E isso todo agnóstico ou ateu racionalmente esclarecido está ciente.

    • Caes
    • Posted 19 de outubro de 2010 at 8:59
    • Permalink

    E da-lhe kant neles…kkk

    • Caes
    • Posted 19 de outubro de 2010 at 9:00
    • Permalink

    Ou melhor ta “kant” essa discussão ein!

    • Rubens
    • Posted 22 de outubro de 2010 at 16:32
    • Permalink

    CIV,

    Pois então, não é necessária toda as explicações anteriores para chegarmos ao seu último e conclusivo paragráfo.
    Até entendo “necessidade” que fala, e imputo também a estas abstrações que a filosofia aborda, da qual a religião é uma paródia. Estas discussões, quando centradas na epistemologia são quase um convite ao suicídio, de tão melaconlicas e narcóticas. Seria como um fisico expermintal ter que trabalhar com 2 dimensões!!!

    E dá-lhe quem não sabe, fica quieto!


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