Pense no seu emprego. Pense em sua escola ou universidade. Pense em todas as tarefas que precisa realizar nessas instituições. Pense em quantas delas realiza com vontade e quantas outras realiza somente por obrigação. Pense no cansaço – físico e mental – que resulta de todo esse esforço. Agora pense que foi tudo em vão. Não é senão com desespero e com frustração que encaramos esse pensamento.

Nosso sofrimento precisa restar justificado ou então não teríamos motivos para aceitá-lo. Os casos que divergem desse padrão são geralmente considerados patologias. Essa justificação pode ser de ordem econômica ou de sanção de caráter punitivo, como a perda do emprego ou a reprovação escolar. Mesmo assim, não é certo dizer que realizamos essas tarefas sem determinado prazer, até porque escolhemos – até certo ponto – as que gostaríamos de realizar.

Pois bem: é mais ou menos assim que encaramos nossas vidas – como se tudo fizesse parte de um plano que nos faz cada vez melhores. Vivemos em um continuum de ações e atitudes que nos tornam quem somos, afinal. Nesse ínterim, construímos e destruímos identidades que nos descrevem e nos agarramos a ideias e a ideais que representam nossos anseios.

Refletindo sobre nossas posições, dificilmente encontraremos alguma que seja absolutamente inconteste – mas isso não significa que não as defenderemos com menor paixão. É muito mais fácil partir da conclusão e encontrar fatos que a corrobore do que permanecer neutro até ter informação suficiente para uma decisão equilibrada. Se não gosto de tal ou qual autor, dificilmente aceitarei seus argumentos e vice-versa.

Mas por que isso acontece? Basicamente, porque, por mais que tenhamos um ideal de perfeição que nunca será alcançado, valorizamos o esforço aplicado e nossa situação presente. Não é que estejamos errados… estamos, no máximo, “incompletos”. Partindo desse pensamento, a ideia de mudar de opinião sempre é desastrosa, pois tira o peso do momento atual e relativiza as ações. Afinal, se não posso me provar mais certo ou errado do que outrem, de que adianta toda a energia desperdiçada em ser quem sou?

Reconhecer a incompletude é, na verdade, uma virtude poderosa. Tomando por exemplo a ciência contemporânea, a ideia de falseabilidade intrínseca ao método é a sua maior força. O “sistema” científico pede a todo momento que lhe provem errado. E é a partir desse controle corretivo extremamente rígido que as falhas pontuais podem ser eliminadas. Para quem não entende o poder de tal atitude, a admissão não passa de fraqueza. Nessa visão vesga, se tudo pode ser provado errado é porque nada está certo.

O dogma da imutabilidade é o maior erro que podemos conceber na tão chamada “natureza humana”. Nossa incapacidade de perceber pequenas mudanças só é desafiada quando o intervalo de tempo entre as comparações é maior do que nossa memória consegue armazenar. Assim, ficamos surpresos com amigos que já não víamos há tempos, com o crescimento de uma zona urbana que não visitávamos desde há muito ou com a evolução histórica entre o surgimento e a versão atual de certa religião.

Tentamos, com todas as armas, sustentar que continuam a mesma coisa; afinal, as pessoas, as cidades e os credos não continuam sob o mesmo epíteto, sob a mesma alcunha?

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9 Comments

    • .
    • Posted 28 de outubro de 2010 at 10:00
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    texto impecável, só não concordo em relação à cidade.

  1. Ótimo texto, Jairo.

    Havia pensado a mesma coisa, mas não consegui justificar, até agora, tão bem quanto mostrou.

    A maioria dos textos daqui têm esta serventia a mim, expor na forma de melhor compreensão minhas próprias reflexões.

    • Carla Marques
    • Posted 28 de outubro de 2010 at 10:50
    • Permalink

    Olá,

    bom texto,

    O que o autor acha sobre a diferença entre a emergencia de uma dada religião e suas transformações contemporâneas? Estou certo em achar que há um certo valor depreciativo nisso?

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/05. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Jairo Moura
    • Posted 28 de outubro de 2010 at 11:00
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    Carla,

    as transformações são absolutamente naturais, mas enxergadas de modo ruim pelas próprias religiões porque a maioria se apoia na tradição.

    Mas veja como é estranho, por exemplo, que o papa atual defenda os ideais milenares da igreja católica, tais como o sacramento do casamento entre pessoas de gêneros diferentes e o uso do sexo somente para procriação.

    Se há qualquer juízo de depreciação de minha parte, é com relação a esse tipo de incoerência.

    Jairo Moura.

    • Carla Marques
    • Posted 28 de outubro de 2010 at 14:23
    • Permalink

    Jairo, concordo e acho seus argumentos muito bem colocados.

    Mas, tome cuidado ao dizer que são absolutamente naturais, de naturais elas não tem nada, pois são transformações sociais e culturais, porém, é só a minha opinião, o que não tira nenhum ponto do mérito da exposição dos seus argumentos.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/05. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Jairo Moura
    • Posted 28 de outubro de 2010 at 15:03
    • Permalink

    Carla, fui vítima da polissemia. Não quis dizer que acontecem de acordo com leis naturais, mas que acontecem de forma natural. No mais, são sim obras de nossos embates e diálogos.

    Grato pelos elogios,

    Jairo Moura.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/05. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Jairo Moura
    • Posted 28 de outubro de 2010 at 22:22
    • Permalink

    Troll aos leões:

    187-11-7-214.dsl.telesp.net.br

    189-46-100-200.dsl.telesp.net.br

    Divirtam-se.

    • Edmundo E. Medeiros
    • Posted 29 de outubro de 2010 at 14:13
    • Permalink

    Excelente texto Jairo!

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/05. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Jairo Moura
    • Posted 7 de novembro de 2010 at 8:42
    • Permalink

    189-18-104-30.dsl.telesp.net.br


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