Monthly Archives: novembro 2010

Quando se estuda a gênese religiosa do ponto de vista biológico, devemos entendê-la como um comportamento que tende a se espalhar ou desaparecer de acordo com a sua capacidade de dar benefícios aos indivíduos que têm o aparato necessário para o seu surgimento. Por mais diferentes que sejam as profissões da fé, conseguimos identificar aspectos que formam a base do modo de ser religioso, tais como a coesão de grupo, os rituais, a hierarquia, o culto a entidades, entre outros.

Não precisamos de muito para isso. Na verdade, a simples análise comparativa nos dá essas respostas. Mas não é tudo o que há para saber sobre o assunto. Historicamente, conseguimos traçar o surgimento e a evolução das religiões modernas, por exemplo, mas definitivamente não é o bastante para uma análise do surgimento do pensamento religioso.

Dessarte, cabe à biologia estabelecer quais mecanismos estabelecem a nossa propensão à religião, já que, com figuras divinas ou não, todas as civilizações estudadas do ponto de vista antropológico apresentaram tal ou qual forma de religiosidade.

Uma das teorias é a de que a religião surge como um produto selecionado pela evolução. Os que defendem tal hipótese sustentam suas afirmações na existência de um sistema cognitivo especializado na formação de representações ilusórias da imortalidade psicológica e de significados simbólicos. Tal sistema cognitivo teria sido selecionado devido às pressões sociais.

De certa forma, a religião organizada seria o produto parasita de tais mecanismos. Isso explicaria por que os dados culturais diferem tanto, mesmo partindo dos mesmos pressupostos biológicos. Temos, portanto, diferentes versões da vida após a morte, diferentes figuras – antropomórficas ou não – que representam o panteão, bem como formas diferentes de apaziguá-las.

De acordo com o entendimento, as crenças e os rituais religiosos servem como formas dispendiosas de comprometimento com o grupo. É uma forma de identificar os indivíduos que estão dispostos a sacrificar um pouco de sua quota e rechaçar aqueles aproveitadores que não contribuem para o bem do bando. Eles promoveriam, assim, a cooperação interna de acordo com uma seleção cultural de comportamento.

Essa cooperação se estende além do olhar vigilante dos outros membros do grupo quando há a crença de que um ser onisciente continua a vigiar-lhes mesmo quando estão sozinhos, dando-lhes recompensas ou punições a depender de seus atos. É uma ideia muito útil, principalmente quando o tamanho do grupo ou do espaço geográfico ocupado por ele aumenta para além do limite de monitoração de seus líderes.

por Cauê Beloni

É muito comum nos depararmos com frases como “deus me ajudou a vencer esse desafio” ou “deus me deu esse dom maravilhoso”. Tendo em vista tais afirmações, podemos cair na ideia de que, mesmo se deus não existir, o fator deus, ou seja, a ideia de que deus existe, é essencial à força de ação do indivíduo. Mas quais as outras possibilidades de impulsos para nossa força de ação?

Temos muitos exemplos de pessoas sem crença em deus que foram extremamente produtivas em seus trabalhos: Isaac Asimov escreveu mais de 400 livros, e também, não pela quantidade de trabalhos, mas pela quantidade de áreas em que se desenvolveu, temos Charlie Chaplin, que era ator, diretor, produtor, dançarino, roteirista e músico que participava em praticamente todas as etapas de seus filmes.

A proposição que coloco é que, se nos colocamos a desenvolver determinadas tarefas, fazemos visando benefícios futuros. Para alguns cientistas, a força de ação talvez seja ganhar o Nobel, ou para os artistas talvez seja ser publicamente reconhecido. Ambos os motivos seguem a linha da recompensa. Essa recompensa social deve estar ligada com a necessidade biológica de sobrevivência, uma economia natural que procura equilibrar ganho e despesas, a sociedade recompensará aqueles que geram informações e produtos úteis para o indivíduo que está recebendo a informação ou o produto. Uma obra de arte pode lhe ensinar que o ciúme é comum, mas que talvez o melhor seja tentar superá-lo, e que talvez agir da forma como foi ensinada pela obra de arte façam as suas chances de ter um relacionamento saudável maior. Portanto, até a ideia da existência de deus é desnecessária para a força de ação, tanto para os que crêem em deus como aos que não crêem, pois temos impulsos biológicos inconscientes para agir.

Se declarar conquistas como responsabilidade divina não passa de uma alegoria para  a força de ação, então, qual seria a razão para tais afirmações? Naturalmente se não fossem registrados benefícios por alegar responsabilidade divina em um trabalho, bem rápido esse hábito seria descartado. Julgo que aqueles que fazem tais afirmações não estão interessados em deus, tão menos ainda no céu, mas estão interessados inconscientemente nos benefícios reais, que vêm da Terra, benefícios que alcançam na demonstração de ser uma pessoa portadora da fé. O que é buscado não é deus, e sim quebrar a desconfiança e conquistar a confiança social. Enraizaram a ideia de que deus é bom e que quem o segue também é. Deus nunca foi o objetivo, ele foi sempre o meio para os objetivos humanos, ou seja, uma persuasão. Aquele que se destacou em um determinado trabalho, pode considerar melhor creditar o feito para deus, pois além de ter feito um bom trabalho, também se coloca como inofensivo ou até mesmo como um escolhido por deus para ter tais talentos. Assim, conquista a confiança e mantém distantes aqueles que podem desvalorizar seu feito; afinal, quem desvalorizaria um dom dado por deus?

Muitos não usam o mecanismo de ganhar a confiança através de deus, então, para estes o que lhes sobra é conquistar a confiança através de seu suor, entre outras formas, demonstrando ativamente por que devem ser considerados uma pessoa respeitável na sociedade. Por ser um sujeito produtivo e como colaborador do grupo em que vive, sem persuasões em nome deus. Destarte, também é recompensado com a confiança e admiração; porém, em sua medida justa e com alto dispêndio de suor. Consequentemente, assim como aqueles que exercitam seus músculos sem esquemas facilitadores de auto-enganação, se tornarão mais fortes.


(artigo recebido em 26 de agosto de 2010)

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