por Cauê Beloni

É muito comum nos depararmos com frases como “deus me ajudou a vencer esse desafio” ou “deus me deu esse dom maravilhoso”. Tendo em vista tais afirmações, podemos cair na ideia de que, mesmo se deus não existir, o fator deus, ou seja, a ideia de que deus existe, é essencial à força de ação do indivíduo. Mas quais as outras possibilidades de impulsos para nossa força de ação?

Temos muitos exemplos de pessoas sem crença em deus que foram extremamente produtivas em seus trabalhos: Isaac Asimov escreveu mais de 400 livros, e também, não pela quantidade de trabalhos, mas pela quantidade de áreas em que se desenvolveu, temos Charlie Chaplin, que era ator, diretor, produtor, dançarino, roteirista e músico que participava em praticamente todas as etapas de seus filmes.

A proposição que coloco é que, se nos colocamos a desenvolver determinadas tarefas, fazemos visando benefícios futuros. Para alguns cientistas, a força de ação talvez seja ganhar o Nobel, ou para os artistas talvez seja ser publicamente reconhecido. Ambos os motivos seguem a linha da recompensa. Essa recompensa social deve estar ligada com a necessidade biológica de sobrevivência, uma economia natural que procura equilibrar ganho e despesas, a sociedade recompensará aqueles que geram informações e produtos úteis para o indivíduo que está recebendo a informação ou o produto. Uma obra de arte pode lhe ensinar que o ciúme é comum, mas que talvez o melhor seja tentar superá-lo, e que talvez agir da forma como foi ensinada pela obra de arte façam as suas chances de ter um relacionamento saudável maior. Portanto, até a ideia da existência de deus é desnecessária para a força de ação, tanto para os que crêem em deus como aos que não crêem, pois temos impulsos biológicos inconscientes para agir.

Se declarar conquistas como responsabilidade divina não passa de uma alegoria para  a força de ação, então, qual seria a razão para tais afirmações? Naturalmente se não fossem registrados benefícios por alegar responsabilidade divina em um trabalho, bem rápido esse hábito seria descartado. Julgo que aqueles que fazem tais afirmações não estão interessados em deus, tão menos ainda no céu, mas estão interessados inconscientemente nos benefícios reais, que vêm da Terra, benefícios que alcançam na demonstração de ser uma pessoa portadora da fé. O que é buscado não é deus, e sim quebrar a desconfiança e conquistar a confiança social. Enraizaram a ideia de que deus é bom e que quem o segue também é. Deus nunca foi o objetivo, ele foi sempre o meio para os objetivos humanos, ou seja, uma persuasão. Aquele que se destacou em um determinado trabalho, pode considerar melhor creditar o feito para deus, pois além de ter feito um bom trabalho, também se coloca como inofensivo ou até mesmo como um escolhido por deus para ter tais talentos. Assim, conquista a confiança e mantém distantes aqueles que podem desvalorizar seu feito; afinal, quem desvalorizaria um dom dado por deus?

Muitos não usam o mecanismo de ganhar a confiança através de deus, então, para estes o que lhes sobra é conquistar a confiança através de seu suor, entre outras formas, demonstrando ativamente por que devem ser considerados uma pessoa respeitável na sociedade. Por ser um sujeito produtivo e como colaborador do grupo em que vive, sem persuasões em nome deus. Destarte, também é recompensado com a confiança e admiração; porém, em sua medida justa e com alto dispêndio de suor. Consequentemente, assim como aqueles que exercitam seus músculos sem esquemas facilitadores de auto-enganação, se tornarão mais fortes.


(artigo recebido em 26 de agosto de 2010)

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11 Comments

    • Collingwood
    • Posted 9 de novembro de 2010 at 15:44
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    Bom texto Beloni, lembro que discutimos algo assim no fórum, ou não?

  1. Sim Collingwood, a ideia nasceu com a discussão no fórum, e a considerei importante demais pra ser esquecida nos posts.

    • CIV
    • Posted 9 de novembro de 2010 at 22:49
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    Gostei do texto Beloni.

    De fato, a inspiração que grande parte dos seres humanos buscam é Deus e, por motivos claros, a interpretação da existência desse ser é suficientemente vaga e bem adaptada as necessidades de quem assim necessite, independetemente de religião ou inteligência. Tal processo serve como fonte de ação, motivando a pessoa a viver em função de sua crença, coisa que, certamente, é algo bem valioso, no entanto, não deixa de ser falso por isso. A falsidade, no que se refere a inspiração, está ligada a legitimidade da afirmação, mas não quanto ao seu efeito inspirador.

    • Collingwood
    • Posted 10 de novembro de 2010 at 10:17
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    Segundo a definição de um pensador chamado Kolakowski, a religião é a manifestação/declaração da insuficiencia humana, ou seja, a religião morerrá junto com a humanidade e não antes dela.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/08. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Ricardo Ramos
    • Posted 12 de novembro de 2010 at 10:02
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    Colling, considerando as palavras desse pensador, os céticos ateus podem ser considerados o que então? Humanos já suficientes ou aberrações da natureza???

    Sim, porque pelo que entendi ele deixa a entender que não há meios da humanidade existir sem a religião. Portanto retomo a pergunta: para pensadores que defendem esse tipo de ideia (super valorização da religião e a afirmação de que é impossível viver sem ela), os ateus são o que afinal??

    • rubens
    • Posted 13 de novembro de 2010 at 13:33
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    Ricardo,

    Pressupostos absolutos são sempre incomodos para os que gostam mais das analises cotidianas e menos idealistas(como nós).
    Imagine voce o que importa teorizar alegando indubitavelmente que a religião morrerá com a humanidade se há a possibilidade de não acontecer, explicado somente através de suposições metafisicas?

    Eu chamaria de “pescar sem anzol”

    • Collingwood
    • Posted 16 de novembro de 2010 at 14:08
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    Ricardo,

    talvez ele queira dizer que os ateus se livraram dessa muletinha chamada Deus, mas a religiosidade não se da somente naquilo que pensamos ser a religião tradicional, talvez existe religiosidade até mesmo na leitura de Darwin, assim, ao inves de Deus ser a causa de tudo a TE seja a causa de tudo, aquilo que explica tudo e por isso mesmo conforta.

    • GUSTAVO ROCHA
    • Posted 22 de novembro de 2010 at 21:17
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    Se existisse outro planeta terra 2, onde todos os ateus hoje no planeta terra , migrasse para o terra 2 e vivesse em harmonia, avançando como sociedade através da busca do conhecimento, onde todos acreditássemos em nós mesmos e em nossas capacidades , até mesmo respeitando nossos limites e compreendendo nosso lugar no universo! esse seria um simples exemplo da diferença dos ateus e dos que acreditam em Deus e nas pessoas que falam em nome desse ser FOLCLORICO e formaram impérios com essas pessoas desprovias de inteligência , atrapalhando a raça humana de evoluir em todos os sentidos, no principal o racional.

    • Collingwood
    • Posted 23 de novembro de 2010 at 12:22
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    Gustavo Rocha, sua concepção de “progresso” fundamentado em valores racionais e cientificista também é Folclórico, do século XIX, para ser exato.

    Desde que todo o avanço técnológico do século XIX desembocou na invenção da metralhadora, bombardeio e bomba atomica, os que defendiam o que você alegou acima enfiaram a cabeça na terra e não sairam de lá nunca mais…

    • david bennet
    • Posted 2 de dezembro de 2010 at 0:16
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    Ja notamos que só se usa a palavra deus, nas coisas positivas, ou voce ja viu alguem falar que não vai fazer algo ..se deus quizer Ex: amanhã não vou trabalhar, faltarei. Ninguem fala se deus quiser…!!Não vou pagar fulano…cade o se deus quiser !!! Vou ao baixo meretrício…onde esta o se deus quiser? O religioso só usa esse termo, nas coisas que ele não tem certeza, que poderá cumprir.
    Ja as coisas negativas , ele tem certeza que fará, sem interferência divina.

    • David Bennet
    • Posted 17 de dezembro de 2010 at 21:25
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    O homem a princípio credita a este ser denominado de deus por alguém e um passado remoto, suas glórias e conquistas. Sendo que na derrota, covardemente culpa a oposição , digo lucifer ou algo que o valha, pelo seu fracasso . Esquece este parasita humano, que pelas leis divina que acredita, fora lhe dado o livre arbítrio para os acertos e erros , sem com isto te-los que creditar a alguem, sua vitória ou derrota.


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