Quando se estuda a gênese religiosa do ponto de vista biológico, devemos entendê-la como um comportamento que tende a se espalhar ou desaparecer de acordo com a sua capacidade de dar benefícios aos indivíduos que têm o aparato necessário para o seu surgimento. Por mais diferentes que sejam as profissões da fé, conseguimos identificar aspectos que formam a base do modo de ser religioso, tais como a coesão de grupo, os rituais, a hierarquia, o culto a entidades, entre outros.

Não precisamos de muito para isso. Na verdade, a simples análise comparativa nos dá essas respostas. Mas não é tudo o que há para saber sobre o assunto. Historicamente, conseguimos traçar o surgimento e a evolução das religiões modernas, por exemplo, mas definitivamente não é o bastante para uma análise do surgimento do pensamento religioso.

Dessarte, cabe à biologia estabelecer quais mecanismos estabelecem a nossa propensão à religião, já que, com figuras divinas ou não, todas as civilizações estudadas do ponto de vista antropológico apresentaram tal ou qual forma de religiosidade.

Uma das teorias é a de que a religião surge como um produto selecionado pela evolução. Os que defendem tal hipótese sustentam suas afirmações na existência de um sistema cognitivo especializado na formação de representações ilusórias da imortalidade psicológica e de significados simbólicos. Tal sistema cognitivo teria sido selecionado devido às pressões sociais.

De certa forma, a religião organizada seria o produto parasita de tais mecanismos. Isso explicaria por que os dados culturais diferem tanto, mesmo partindo dos mesmos pressupostos biológicos. Temos, portanto, diferentes versões da vida após a morte, diferentes figuras – antropomórficas ou não – que representam o panteão, bem como formas diferentes de apaziguá-las.

De acordo com o entendimento, as crenças e os rituais religiosos servem como formas dispendiosas de comprometimento com o grupo. É uma forma de identificar os indivíduos que estão dispostos a sacrificar um pouco de sua quota e rechaçar aqueles aproveitadores que não contribuem para o bem do bando. Eles promoveriam, assim, a cooperação interna de acordo com uma seleção cultural de comportamento.

Essa cooperação se estende além do olhar vigilante dos outros membros do grupo quando há a crença de que um ser onisciente continua a vigiar-lhes mesmo quando estão sozinhos, dando-lhes recompensas ou punições a depender de seus atos. É uma ideia muito útil, principalmente quando o tamanho do grupo ou do espaço geográfico ocupado por ele aumenta para além do limite de monitoração de seus líderes.

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12 Comments

    • Collingwood
    • Posted 29 de novembro de 2010 at 10:59
    • Permalink

    Jairo,

    concordo com a sua afirmação acerca de alguns elementos básicos da estrutura da religião: “coesão de grupo, os rituais, a hierarquia, o culto a entidades, entre outros.”

    No entanto, não seria o caso de você perceber que estes elementos estão presentes em praticamente todos os aspectos da sociedade?

    Vejamos, no futebol há os elementos em menor ou maior medida de “coesão de grupo”, “rituais”, “culto a entidades”.

    Na academia, igualmente, encontramos: “coesão de grupos”, que se agrupam em torno de vertentes, escolas, etc., “rituais” tais como defesa de banca, “hierarquia” e numa certa medida “culto à entidades”.

    Ou seja, se você pensar na religião por este meio chegaremos á conclusão que a religião jamais irá desaparecer, pois é uma estrutura básica de funcionamento da maioria das instituições e agrupamentos humanos.

  1. Collingwood,
    O comportamento de rebanho não é exclusivo da religião, porém, todo o comportamento de rebanho não é religioso.

    Nós também somos animais de rebanho nas escolas, filas do banco ou gritando gol… ao menos eu me sinto como um.

    Não somos capazes de eliminar o instinto de rebanho, mas somos capazes de eliminar um de seus filhos: religião.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/04. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Jairo Moura
    • Posted 29 de novembro de 2010 at 11:44
    • Permalink

    Collingwood,

    Há diferença entre “religião” — geralmente chamada “organizada” — e pensamento religioso.

    Concordo com você, se disser que não podemos nos livrar do pensamento religioso, mas podemos muito bem nos livrarmos da religião organizada.

    Jairo Moura.

    • Collingwood
    • Posted 29 de novembro de 2010 at 12:55
    • Permalink

    Entendi, o problema é a religião organizada, que eu identifico como essas igrejas pentecostais que vendem milagres como churros.

    Agora coloco uma questão, que ao meu ver é interessante: na questão da “arte” a crença é fundamental para entender porquê um certo artista é valorizado, exemplo: se alguém lê numa revista especializada que uma determinada obra é uma obra de arte então ele acredita que aquela obra é uma obra de arte.

    Eu pergunto, coletivizando esta dúvida, esta crença de que “se dizem que algo é bom então é bom” seria também uma religião?

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/04. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Jairo Moura
    • Posted 29 de novembro de 2010 at 13:02
    • Permalink

    Collingwood,

    temos uma propensão inata a seguir autoridades. Precisamos delas, na maioria das vezes, para a própria proteção.

    Sobre as autoridades intelectuais, nem sempre temos o tempo ou a disposição para refletir sobre tudo o que nos chega e acabamos por adotá-las também.

    Não acho que isso seja uma religião, mas definitivamente segue alguns traços de pensamento religioso, chegando até a histeria na defesa da opinião.

    Jairo Moura.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/04. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Jairo Moura
    • Posted 1 de dezembro de 2010 at 8:38
    • Permalink

    201-95-127-216.dsl.telesp.net.br

    • Collingwood
    • Posted 1 de dezembro de 2010 at 10:42
    • Permalink

    Jairo,

    Até que ponto o motivo pelo qual seguimos a autoridade não é o mesmo pelo qual algumas pessoas acreditam em Deus?

    Será que um dia conseguiremos nos livrar-mos desta “muleta”, definido por você como “traços de pensamento religioso”??

    • Collingwood
    • Posted 1 de dezembro de 2010 at 10:43
    • Permalink

    só complementando: a minha pergunta se da num campo hipotético mesmo, apenas indagações e especulações…

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/04. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Jairo Moura
    • Posted 1 de dezembro de 2010 at 10:48
    • Permalink

    Collingwood,

    No próprio texto, há uma passagem que fala sobre como a crença em deus(es) aproveita características básicas relacionadas a outras coisas.

    Livrar-se da crença em seres antropomórficos, por exemplo, é mais fácil do que se pensa. Há um número crescente de ateus ou, no mínimo, irreligiosos. E um número maior ainda de deístas, que abstraíram a ideia de divindade até tirar dela todas as características pelas quais ficaram conhecidas.

    Em opinião pessoal, acredito que uma das formas de abandonar a “muleta”, como você chamou, é entender como ela aparece. Ter uma boa explicação quase sempre tira o caráter místico de qualquer crença.

    Jairo Moura.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/04. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Jairo Moura
    • Posted 13 de dezembro de 2010 at 20:00
    • Permalink

    201-42-166-153.dsl.telesp.net.br

  2. Jairo,
    Conforme disse lá no Divina Magia, a origem das religiões resulta de nossa inconformidade com a finitude da vida. Umberto Eco no seu livro (Em Que Creem os Que Não Creem) identifica essa primeira angústia do homem, quando nos tornamos Homo sapiens sapiens e fomos compelidos a ser um animal religioso, como forma de suportar o medo da morte.
    Gostaria de mencionar ainda a questão da posição dos ateus na sociedade. Assim como todas minorias buscam se afirmar, os ateus também sentem necessidade de expor sua condição. Quem é mais numeroso na sociedade, os ateus ou os homossexuais? Suponho que existam nas mesmas proporções. E no entanto os homossexuais, quando em sua passeata colocam um milhão de pessoas na avenida, ninguém tem coragem de criticá-los abertamente. Da mesma forma, como se pode criticar os ateus por quererem o reconhecimento de seu pensamento? Só mesmo a intolerância herdada das doutrinas religiosas o fazem. Nesse sentido, é legítimo que a ATEA por exemplo faça a divulglação de seu pensamento através de publlicidade em ônibus urbanos.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/04. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Jairo Moura
    • Posted 17 de dezembro de 2010 at 12:30
    • Permalink

    Assis Utsch,

    essa é uma visão quase “psicanalista” da questão. Não me interesso muito por ela, para falar a verdade — pela dificuldade em observar e pela diversidade de credos religiosos, que incluem também aqueles que não professam vida após a morte. O texto trata das origens biológicas da religião.

    Jairo Moura.


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