Monthly Archives: dezembro 2010

É uma época do ano em que a religião está em mais alta evidência. Por consequência, é também a época do ano em que os fieis entram em maior questionamento sobre sua crença. Alguns saem com a fé abalada; outros, fortalecida; outros tantos, sequer pensam a fundo sobre o assunto.

Para o cristianismo, é a época de celebrar o nascimento de Cristo, figura emblemática que até hoje divide opiniões sobre sua historicidade. Sabemos, no entanto, que a data não é mencionada algures nem alhures e que foi incorporada na tradição cristã através dos ritos pagãos de celebração solar, no hemisfério norte.

De uma forma ou de outra, tudo isso é irrelevante. Os maiores questionamentos pouco têm a ver com os dogmas específicos de tal ou qual religião. Principalmente porque eles, com o avanço científico, se tornaram mais simbólicos e mitológicos do que a maior parte dos religiosos se permite admitir.

Os maiores questionamentos ainda dizem respeito às nossas origens e ao nosso destino, depois da nossa passagem de tempo neste mundo que conhecemos. O fato de persistirem já seria suficiente para derrubar qualquer alegação de que a religião nos dá respostas satisfatórias para nossas preocupações existenciais.

A verdade é que temos uma resposta muito bem evidenciada: chegamos até aqui por meio da seleção natural e partilhamos com os outros seres-vivos toda a nossa história biológico-evolutiva. Depois que morrermos, também teremos o mesmo fim que terão nossos soci malorum: a inevitável decomposição e a reincorporação no ciclo do carbono.

Por que, então, protelamos as questões? Em parte, porque as respostas científicas massageiam pouco ou quase nada nosso senso de importância cósmica. Ou seria simples coincidência que tenhamos um paraíso à espera e o resto dos seres não? Aos advogados de nosso mérito, resta-lhes escolher características como consciência, raciocínio ou reflexão para justificar nossa posição central em um plano superior.

Não sei quanto às outras pessoas, mas suspeito que sejamos nós a escolher quais características devem contar para a seleção divina de seres; e suspeito mais ainda que as características eleitas para o concurso sejam exatamente aquelas que apresentamos com maior proeminência. E não me digam que a escolha veio de uma força maior, a menos que me apresentem o que vos legitima a falar em nome de deus(es) mudos e incomunicáveis.

No fundo, somos produtos em ambas as visões de mundo – não importa se científica ou religiosa. Se preferimos ser uma criação divina, isso diz mais sobre nossa vontade de valorização do que sobre nossa vontade de entender.

por Isaias Puccinelli

Acho que todos nós, que trabalhamos, estudamos ou desempenhamos alguma atividade na sociedade, em nosso dia-a-dia, já nos deparamos com pessoas que poderiam muito bem ser acusadas de ter dupla personalidade.

Eu, por exemplo, trabalho com o planejamento da produção de uma grande empresa e, para desempenhar as responsabilidades a que sou atribuído, devo ser cético e lidar com cálculos de demanda e capacidade produtiva de maneira imparcial, utilizando números.

Não há espaço para ideias que vão contra a razão, que contradizem os números. A análise deve representar de maneira mais próxima possível a realidade de determinada seção fabril.

Meus colegas de trabalho são pessoas esclarecidas, que pensam rápido, notáveis em suas funções e que aparentam não ter problema com o pensamento crítico e, além de tudo, são jovens.

À primeira vista, um ambiente perfeito para se discutir honestamente e criticamente os mais variados assuntos, certo? Errado.

Certa vez, nós discutimos sobre religião e fiquei abismado ao ver que as mesmas pessoas que aplicavam o pensamento crítico em suas atividades profissionais não o faziam em sua vida o pessoal.

Muitas dessas pessoas instruídas acreditam literalmente, por exemplo, na preservação do sábado para adoração a Deus, na existência terrena de Jesus, na vida eterna após a morte e nos demais dogmas disseminados pelas doutrinas cristãs.

Eu demorei um pouco para assimilar o que acontecia naquele momento. Como pessoas tão críticas no âmbito profissional poderiam ser tão crédulas no âmbito pessoal?

Como um engenheiro formado em uma universidade pública, considerado um dos futuros líderes pelos seus colegas de trabalho, pode acreditar que uma virgem deu à luz um Deus-Homem? Sem questionar. Sem pensar. Apenas aceitar isso como uma verdade absoluta?

Então por um momento pensei: será que existe algum mecanismo de autoproteção biológico que diz quando é bom pensar e quando não o é?

Porque não poderia ser apenas preguiça dessas pessoas de analisar criticamente as “verdades” que faziam parte de suas vidas.

Dessa maneira, durante minhas pesquisas, encontrei uma resposta relevante em uma obra de Freud, chamada “O futuro de uma ilusão”, a qual aponta uma hipótese, ou melhor, uma boa hipótese para essa questão.

Sendo breve, Freud passa a ideia de que o homem é pressionado pela cultura (Freud não desassocia cultura de civilização), devido à coerção que esta submete ao homem, ao trabalho e à renuncia aos impulsos (impulso é aqui tratado como algo que impele, coloca em movimento, muito parecido com desejo), causando a frustração e o sentimento de hostilidade à cultura (FREUD, p. 44).

Entretanto, abolir a cultura, na opinião de Freud, seria uma coisa insensata, uma vez que a vida em natureza seria muito mais difícil de suportar, devido aos danos que esta causa à humanidade.

Assim, tal para a humanidade como um todo, também para o indivíduo a vida é difícil de suportar (FREUD, p. 55), pois lhe é cobrada uma cota de privações pela cultura, outra porção de sofrimento lhe é causada pelas demais pessoas e a isso se acrescentam os danos que a natureza lhe inflige.

Dessa maneira, o homem exige consolo; o mundo e a vida devem ser despojados de seus pavores e a curiosidade humana ganhar uma resposta. E isso consiste em humanizar a natureza e daí surgem os deuses e com eles sua missão: afastar os pavores da natureza, reconciliar os homens com a crueldade do destino e recompensá-los pelas privações que passam.

Sendo as forças e os destinos impessoais substituídos por entes iguais àqueles que o homem conhece, ele respira aliviado, pois pode fazer súplicas, apaziguá-los, suborná-los ou roubar-lhes uma parte de seu poder através de tal influência.

Esse modelo infantil é usado para suportar a vida e por isso deve ser tão difícil para muitas pessoas utilizar o senso crítico que elas possuem – e que utilizam em seu dia-a-dia – naquilo que lhes facilita o viver.

E isso levanta uma outra questão: se as pessoas utilizam esse modelo infantil de representação do mundo, elas o fazem conscientemente?


Referência Bibliográfica

FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão. Porto Alegre: L&PM, 2010.


(artigo recebido em 23 de dezembro de 2010)

Nota: para participar como autor ad hoc, envie seu texto para udmg@ateus.net. O material ficará disponível a todos os membros titulares para peer review e estará sujeito a críticas e sugestões antes de ser publicado (em data que seguirá a ordem de recebimento dos materiais). Para maiores informações a respeito, faça aqui o download do ‘Guia de padronização’, em formato PDF.

Ao invés de enxergar a religião como uma adaptação selecionada pela evolução, a corrente que a define como um produto acidental se baseia em dois principais argumentos: em primeiro lugar, a própria definição de “religião” como um conjunto homogêneo é vaga e carece de linhas divisórias claras. É um indício muito forte contra a afirmação de que os componentes do que hoje se conhece como religião surgiram em um mesmo ponto da história evolutiva.

Em segundo lugar, mesmo conceitos como os de deuses ou os de vida eterna – claramente religiosos – não gozam de mecanismos cognitivos próprios. De fato, o mesmo mecanismo que permite inferir sobre a personalidade de deus(es) nos dá a oportunidade de projetar características em agentes corpóreos, como os indivíduos que convivem conosco.

Em outras palavras, nossa capacidade de empatia, de pensar no que os outros estão pensando, de nos colocarmos em seu lugar, é simplesmente estendida a agentes não-corpóreos, como, por exemplo, pessoas já mortas, personagens fictícios ou agentes sobrenaturais.

Isso dá conta do ponto de vista cognitivo, mas aqueles que atacam a visão da religião como produto acidental argumentam que, na verdade, a religião teria sido selecionada por sua contribuição para as relações sociais dentro de um grupo. No entanto, mais uma vez, não há nenhum mecanismo especializado que seja exclusivo do que se entende por comportamento religioso.

Dentre os principais mecanismos de cooperação, poderíamos citar o monitoramento da reputação, os sinais e os dispositivos de comprometimento, a psicologia de coalizão, a forte reciprocidade dentro do grupo, os sinais étnicos e os sentimentos morais. Por mais que vários deles estejam presentes na religião, é consenso que todos evoluíram independentemente de crenças sobrenaturais e que operam de forma idêntica em quem não partilha delas, como é o caso de crianças que ainda não receberam doutrinamento religioso.

A explicação mais plausível é a de que tais mecanismos foram selecionados primariamente para resolver problemas morais mais gerais a fim de facilitar a interação social e que somente depois foram aproveitados em atividades religiosas. A religião seria, então, uma forma eficiente e particularmente pouco dispendiosa de organizá-los ao redor de um culto comunal, gerando uma falsa conclusão de que a moralidade é impossível fora de seu círculo.

Quod erat demonstrandum, os mecanismos dos quais a religião se aproveita não são exclusivos a ela, nem foram selecionadas por causa dela. Os julgamentos morais são independentes da crença religiosa e não há nenhum indício de que tenha sido selecionada pelos meios evolutivos biológicos, senão culturais e, como tal, deve ser estudada pela memética e pela antropologia.

Referência:

PYYSIÄINEN, Ikka; HAUSER, Marc. The origins of religion: evolved adaptation or by-product? Disponível em <http://www.wjh.harvard.edu/~mnkylab/publications/recent/EvolReligion.pdf>. Acesso em 30 nov. 2010. [em inglês]

Das origens da religião I: adaptação da evolução

Da função atual da religião

Hoje, 13 de dezembro de 2010, a revista eletrônica Um Deus na Minha Garagem completa um ano de existência. Gostaria de agradecer pessoalmente aos diversos visitantes diários que nos brindam com um pouco de seu tempo para reflexão e análise; bem como a André Cancian, pelo suporte técnico e o apoio editorial; e a todos os outros autores que passaram por aqui, quer efetivos ou pontuais.

Sobre números, temos uma média de visitas de mais ou menos duzentos internautas por dia. O número pode parecer modesto, mas é significativo se considerarmos o tipo de produto que oferecemos: textos reflexivos sobre uma temática que muitos não desejam abordar, sob um ponto de vista ainda mais malquisto pela sociedade.

Comparando os nossos gráficos com os nossos objetivos, podemos dizer que esse primeiro ano de vida foi bastante produtivo e bem sucedido. Mantemos a qualidade das publicações, ampliamos o nosso escopo acadêmico e abrimos espaço para que autores fora de nosso círculo fixo publicassem suas ideias também.

No entanto, por diversas razões, os autores originários e os que os substituíram acabaram se desligando da publicação.

Assim, para não deixar ruir o projeto, estamos recrutando novos usuários do portal Ateus.net para fazer parte do quadro editorial.

Os interessados devem enviar um texto-piloto para udmg@ateus.net em documento de texto editável (preferencialmente Microsoft Word) nos mesmos moldes de nossa regulamentação para os autores ad hoc.

Junto com o texto, enviem também uma breve descrição do autor, que deverá incluir dados pessoais, acadêmicos e profissionais relevantes, bem como um link para a conta de usuário do Portal. Podem abrir uma gratuitamente, caso não a tenham.

Os interessados deverão dar conta da periodicidade exigida na grade mensal de publicações – que atualmente é de dois textos por mês, aproximadamente – e serão completamente responsáveis pelo conteúdo de seus textos, desde que obedeçam às premissas editoriais básicas.

Serão escolhidos os que melhor se adequarem à política interna da revista, até o limite disponível de vagas, sem qualquer obrigação de preenchimento, caso o número seja menor.

Atenciosamente,

Jairo Moura.
Equipe editorial UDMG.