Ao invés de enxergar a religião como uma adaptação selecionada pela evolução, a corrente que a define como um produto acidental se baseia em dois principais argumentos: em primeiro lugar, a própria definição de “religião” como um conjunto homogêneo é vaga e carece de linhas divisórias claras. É um indício muito forte contra a afirmação de que os componentes do que hoje se conhece como religião surgiram em um mesmo ponto da história evolutiva.

Em segundo lugar, mesmo conceitos como os de deuses ou os de vida eterna – claramente religiosos – não gozam de mecanismos cognitivos próprios. De fato, o mesmo mecanismo que permite inferir sobre a personalidade de deus(es) nos dá a oportunidade de projetar características em agentes corpóreos, como os indivíduos que convivem conosco.

Em outras palavras, nossa capacidade de empatia, de pensar no que os outros estão pensando, de nos colocarmos em seu lugar, é simplesmente estendida a agentes não-corpóreos, como, por exemplo, pessoas já mortas, personagens fictícios ou agentes sobrenaturais.

Isso dá conta do ponto de vista cognitivo, mas aqueles que atacam a visão da religião como produto acidental argumentam que, na verdade, a religião teria sido selecionada por sua contribuição para as relações sociais dentro de um grupo. No entanto, mais uma vez, não há nenhum mecanismo especializado que seja exclusivo do que se entende por comportamento religioso.

Dentre os principais mecanismos de cooperação, poderíamos citar o monitoramento da reputação, os sinais e os dispositivos de comprometimento, a psicologia de coalizão, a forte reciprocidade dentro do grupo, os sinais étnicos e os sentimentos morais. Por mais que vários deles estejam presentes na religião, é consenso que todos evoluíram independentemente de crenças sobrenaturais e que operam de forma idêntica em quem não partilha delas, como é o caso de crianças que ainda não receberam doutrinamento religioso.

A explicação mais plausível é a de que tais mecanismos foram selecionados primariamente para resolver problemas morais mais gerais a fim de facilitar a interação social e que somente depois foram aproveitados em atividades religiosas. A religião seria, então, uma forma eficiente e particularmente pouco dispendiosa de organizá-los ao redor de um culto comunal, gerando uma falsa conclusão de que a moralidade é impossível fora de seu círculo.

Quod erat demonstrandum, os mecanismos dos quais a religião se aproveita não são exclusivos a ela, nem foram selecionadas por causa dela. Os julgamentos morais são independentes da crença religiosa e não há nenhum indício de que tenha sido selecionada pelos meios evolutivos biológicos, senão culturais e, como tal, deve ser estudada pela memética e pela antropologia.

Referência:

PYYSIÄINEN, Ikka; HAUSER, Marc. The origins of religion: evolved adaptation or by-product? Disponível em <http://www.wjh.harvard.edu/~mnkylab/publications/recent/EvolReligion.pdf>. Acesso em 30 nov. 2010. [em inglês]

Das origens da religião I: adaptação da evolução

Da função atual da religião

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6 Comments

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/06. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Jairo Moura
    • Posted 16 de dezembro de 2010 at 21:04
    • Permalink

    95.143.193.145 / 95.143.193.145

    • anônimo
    • Posted 21 de dezembro de 2010 at 20:26
    • Permalink

    não sei daonde você tirou a estupida conclusão que a religião tem como imoral viver fora deste culto comunal que você cita.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/06. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Jairo Moura
    • Posted 21 de dezembro de 2010 at 22:03
    • Permalink

    anônimo,

    O texto dá todas as fontes necessárias pra saber de onde saíram as conclusões “estúpidas”.

    No mais, pegando a bíblia, há passagens que incitam ódio às tribos rivais que cultuam deus(es) diferentes ou àqueles que não aceitam a o evangelho. No corão também há passagens de ordem de morte aos infiéis. É o bastante para concluir que, ao menos essas, a “imoralidade” dos outros é punida.

    • collingwood
    • Posted 22 de dezembro de 2010 at 9:14
    • Permalink

    Infelizmente há em qualquer religião – não somente “a religião” tradicional – este “pingo” de ódio ao diferente…

    • wolph
    • Posted 8 de janeiro de 2011 at 12:07
    • Permalink

    Infeliz mesmo é esta relativização de que só por ser diferente deva ser respeitado sempre.

  1. A religião nada mais é do que uma muleta psíquica que muitas pessoas acham que precisam para viver.
    Como disse o sábio Carl Sagan em O Mundo Assombrado por Demônios: religião nada mais é do que o medo da morte.
    Parabéns pelo ótimo site.
    Até mais.


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  1. […] This post was mentioned on Twitter by Cauê Beloni, André Cancian. André Cancian said: [garagem] Das origens da religião II: produto acidental, de Jairo Moura http://bit.ly/eIUKiF […]

  2. By » Da racionalidade Um deus em minha Garagem on 06 abr 2011 at 6:12 pm

    […] mesmo espaço: MOURA, Jairo. Das origens da religião II: produto acidental. Disponível em <http://deusnagaragem.ateus.net/2010/12/15/1808/&gt;. Acesso em 03 abr. […]