por Isaias Puccinelli

Acho que todos nós, que trabalhamos, estudamos ou desempenhamos alguma atividade na sociedade, em nosso dia-a-dia, já nos deparamos com pessoas que poderiam muito bem ser acusadas de ter dupla personalidade.

Eu, por exemplo, trabalho com o planejamento da produção de uma grande empresa e, para desempenhar as responsabilidades a que sou atribuído, devo ser cético e lidar com cálculos de demanda e capacidade produtiva de maneira imparcial, utilizando números.

Não há espaço para ideias que vão contra a razão, que contradizem os números. A análise deve representar de maneira mais próxima possível a realidade de determinada seção fabril.

Meus colegas de trabalho são pessoas esclarecidas, que pensam rápido, notáveis em suas funções e que aparentam não ter problema com o pensamento crítico e, além de tudo, são jovens.

À primeira vista, um ambiente perfeito para se discutir honestamente e criticamente os mais variados assuntos, certo? Errado.

Certa vez, nós discutimos sobre religião e fiquei abismado ao ver que as mesmas pessoas que aplicavam o pensamento crítico em suas atividades profissionais não o faziam em sua vida o pessoal.

Muitas dessas pessoas instruídas acreditam literalmente, por exemplo, na preservação do sábado para adoração a Deus, na existência terrena de Jesus, na vida eterna após a morte e nos demais dogmas disseminados pelas doutrinas cristãs.

Eu demorei um pouco para assimilar o que acontecia naquele momento. Como pessoas tão críticas no âmbito profissional poderiam ser tão crédulas no âmbito pessoal?

Como um engenheiro formado em uma universidade pública, considerado um dos futuros líderes pelos seus colegas de trabalho, pode acreditar que uma virgem deu à luz um Deus-Homem? Sem questionar. Sem pensar. Apenas aceitar isso como uma verdade absoluta?

Então por um momento pensei: será que existe algum mecanismo de autoproteção biológico que diz quando é bom pensar e quando não o é?

Porque não poderia ser apenas preguiça dessas pessoas de analisar criticamente as “verdades” que faziam parte de suas vidas.

Dessa maneira, durante minhas pesquisas, encontrei uma resposta relevante em uma obra de Freud, chamada “O futuro de uma ilusão”, a qual aponta uma hipótese, ou melhor, uma boa hipótese para essa questão.

Sendo breve, Freud passa a ideia de que o homem é pressionado pela cultura (Freud não desassocia cultura de civilização), devido à coerção que esta submete ao homem, ao trabalho e à renuncia aos impulsos (impulso é aqui tratado como algo que impele, coloca em movimento, muito parecido com desejo), causando a frustração e o sentimento de hostilidade à cultura (FREUD, p. 44).

Entretanto, abolir a cultura, na opinião de Freud, seria uma coisa insensata, uma vez que a vida em natureza seria muito mais difícil de suportar, devido aos danos que esta causa à humanidade.

Assim, tal para a humanidade como um todo, também para o indivíduo a vida é difícil de suportar (FREUD, p. 55), pois lhe é cobrada uma cota de privações pela cultura, outra porção de sofrimento lhe é causada pelas demais pessoas e a isso se acrescentam os danos que a natureza lhe inflige.

Dessa maneira, o homem exige consolo; o mundo e a vida devem ser despojados de seus pavores e a curiosidade humana ganhar uma resposta. E isso consiste em humanizar a natureza e daí surgem os deuses e com eles sua missão: afastar os pavores da natureza, reconciliar os homens com a crueldade do destino e recompensá-los pelas privações que passam.

Sendo as forças e os destinos impessoais substituídos por entes iguais àqueles que o homem conhece, ele respira aliviado, pois pode fazer súplicas, apaziguá-los, suborná-los ou roubar-lhes uma parte de seu poder através de tal influência.

Esse modelo infantil é usado para suportar a vida e por isso deve ser tão difícil para muitas pessoas utilizar o senso crítico que elas possuem – e que utilizam em seu dia-a-dia – naquilo que lhes facilita o viver.

E isso levanta uma outra questão: se as pessoas utilizam esse modelo infantil de representação do mundo, elas o fazem conscientemente?


Referência Bibliográfica

FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão. Porto Alegre: L&PM, 2010.


(artigo recebido em 23 de dezembro de 2010)

Nota: para participar como autor ad hoc, envie seu texto para udmg@ateus.net. O material ficará disponível a todos os membros titulares para peer review e estará sujeito a críticas e sugestões antes de ser publicado (em data que seguirá a ordem de recebimento dos materiais). Para maiores informações a respeito, faça aqui o download do ‘Guia de padronização’, em formato PDF.

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4 Comments

    • wolph
    • Posted 8 de janeiro de 2011 at 12:30
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    Mas, pelo que é exposto sobre irreligiosidade em países como a Suíça, com um alto índice de não religiosos, o que aparenta mesmo é a influencia do meio, especialmente da cultura que a pessoa se insere.

    • Isaias Puccinelli
    • Posted 9 de janeiro de 2011 at 1:19
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    Concordo, Wolph. O que procurei demonstrar é que o comportamento comumente adotado frente a acontecimentos “inexplicáveis”, é aquele voltado para o que é conhecido, que proporciona possibilidade de controle, como a humanização dos fenômenos naturais, por exemplo.
    No exemplo da Suiça, o meio sofreu alterações, muito provavelmente provindas do conhecimento científico.
    Este conhecimento acaba por adentrar na cultura e minimiza a necessidade da humanização de assuntos outrora desconhecidos.

    • BossGrave
    • Posted 3 de fevereiro de 2011 at 22:55
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    Excelente artigo, me pergunto sobre isso no meu trabalho esporadicamente.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/04. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Jairo Moura
    • Posted 15 de fevereiro de 2011 at 14:47
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