Monthly Archives: janeiro 2011

Repórter: Então, você alega ser clarividente, que pode prever o futuro?

Entrevistado: Exatamente, eu prevejo o futuro.

[Repórter estapeia o entrevistado]

Repórter: E isso aqui? Conseguiu prever? Como podem ver, não precisa de muito para desmistificar um charlatão.

Diálogo transcrito de um teste cético em uma versão humorística. Talvez não tão cômicas quanto as possíveis desculpas, caso fosse um teste verdadeiro. É assim com a maioria das alegações pseudocientíficas.

Kentaro Mori, editor do portal ceticismo aberto, é o coordenador nacional de uma demonstração que tentará fazer algo parecido contra as alegações da homeopatia. A campanha 10:23 teve início no Reino Unido e já tem a participação de mais de 10 países.

Os participantes do protesto tomarão caixas inteiras de remédios homeopáticos a fim de demonstrar sua ineficácia. Funcionassem realmente, as doses ingeridas seriam suficientes para matá-los por overdose.

Tudo acontecerá na manhã do dia 05 de fevereiro de 2011. O endereço oficial da campanha no Brasil é http://1023.haaan.com/. Aos interessados, busquem os meios hábeis de participar e, caso participem, mandem fotos para udmg@ateus.net para que as publiquemos.


Muitos dos esforços que mais conseguiram progredir em determinadas áreas dizem respeito à organização de um método capaz de resolver os problemas com os menores gastos de tempo e energia possíveis. Uma vez encontrado, um trabalho dispendioso e errático pode ser executado de maneira rápida e reprodutível. É assim com o método que Henry Ford implementou na indústria automobilística, só para citar um caso que mudou drasticamente o modo de produção.

Nas ciências, podemos destacar Aristóteles e seu método analítico e classificatório como o grande propulsor da biologia, por exemplo, bem como é de seu mérito a organização de uma gramática como a conhecemos e estudamos até hoje nas escolas. Mas é Descartes – junto com outros nomes como Bacon – quem nos dá a maior contribuição nesse sentido, pois seu método é, para todos os efeitos, uma forma de aprender a aprender.

Longe de qualquer coincidência, os princípios cartesianos são uma forte base para o método científico da forma como é atualmente concebido. Os passos de Descartes podem ser descritos em quatro conceitos: evidência, análise, síntese e recordação. Em resumo, devemos partir do fato, desmembrando-o em partes e vendo o que apresenta em comum sem negligenciar ou omitir qualquer informação.

Sabemos de nossas limitações e não é – como muitos fazem parecer – fraqueza admiti-las. Pelo contrário: é quando as abraçamos que podemos superá-las. Eis a função do método: retirar ao máximo as falhas de nossas avaliações pessoais e dar às nossas observações um caráter impessoal e despido, na medida do possível, de todos os mecanismos evolutivos que possuímos que são, muitas vezes, obstáculos para o conhecimento.

Ainda assim, é difícil dissociar ciência de cientista. No entanto, apontar erros do segundo grupo de modo algum invalida os méritos da instituição científica. Em primeiro lugar, porque é a mesma instituição que tem a função de desmascarar os erros provocados por seus membros – e não é com menor orgulho que o faz. Mesmo publicações periódicas indexadas podem ser ludibriadas por pessoas inescrupulosas, mas é usando o método que encontrarão as fraudes.

Ergo, a construção do método é uma tarefa empírico-filosófica de maior importância. É empírica porque precisa descrever e ser capaz de manipular os fenômenos observáveis da melhor forma possível – é sua raison d’être. E é filosófica porque, até onde lhe é permitida, é puramente especulativa – um produto de nosso pensamento abstrato. É, sem a menor das dúvidas, a criação da maior das ferramentas para satisfazermos a nossa propensão natural à curiosidade com o devido cuidado de selecionar as respostas mais satisfatórias e fiáveis.

E não é com menor admiração que estudos neurológicos começam a nos mostrar que o próprio cérebro trabalha de forma semelhante: nossa massa cinzenta não é somente responsável por processar informações de forma passiva, mas elabora hipóteses que serão testadas com os estímulos captados pelos sentidos. E a razão disso parece ser óbvia: realizar a tarefa com o menor dispêndio.

Observou-se menor atividade neural quando o estímulo visual pertence a um contexto previsível. Em outras palavras: o cérebro tenta antecipar o estímulo sensorial para operar com maior economia. Para entendermos com um exemplo: o cérebro cria a hipótese de encontrarmos a nossa televisão onde sempre esteve na sala-de-estar e terá menor atividade pela sua confirmação se comparado ao resultado inesperado de vermos um objeto diferente – ou mesmo a falta de um objeto – em seu lugar.

De modo algum existe a alegação de que a ciência é perfeita ou imune a críticas. Seu método pode ser melhorado? Por princípio, tudo pode. Os limites parecem ser aqueles que emergem das propriedades definidas no objetivo – e os da ciência dizem respeito ao que é passível de observação e reprodução controlada. Parece pouco, mas dificilmente encontraremos fenômenos realmente importante que estejam fora de seu escopo.


Referências:

ALINK, Arjen. SCHWIEDRZIK, Caspar M. et al. Stimulus Predicability Reduces Responses in Primary Visual Cortex. The Journal of Neuroscience, Washington, 2960, pp. 2960-2966, fevereiro de 2010. Disponível em: <http://www.jneurosci.org/cgi/reprint/30/8/2960.pdf>. Acesso em 10 jan. 2011. [em inglês]

ARISTÓTELES. Metafísica. Disponível em: <http://remacle.org/bloodwolf/philosophes/Aristote/tablemetaphysique.htm>. Acesso em 10 jan. 2010. [original grego com tradução para francês]

BACON, Francis. Novum organum. Disponível em: <http://temqueler.files.wordpress.com/2009/12/francis-bacon-novum-organum.pdf&gt;. Acesso em 10 jan. 2011. Do original latim Novum organum scientiarum (1620), disponível em <http://ia700402.us.archive.org/5/items/1762novumorganum00baco/1762novumorganum00baco.pdf>. Acesso em 10 jan. 2010.

DESCARTES, René. Discurso do método. São Paulo: Martins Fontes, 2009. 4. ed. Também disponível em: <http://ateus.net/artigos/filosofia/discurso-do-metodo/>. Acesso em 10 jan. 2011. Do original francês Discours de la méthode (1637), disponível em <http://s3.amazonaws.com/manybooks_pdfLRG/descarte1384613846-8pdfLRG.pdf>. Acesso em 10 jan. 2010.

LAKATOS, Imre. Ciência e pseudociência. Disponível em: <http://ateus.net/artigos/ceticismo/ciencia-e-pseudociencia/>. Acesso em 10 jan. 2011.

POPPER, Karl. Como a ciência evolui. Disponível em: <http://ateus.net/artigos/filosofia/como-a-ciencia-evolui/>. Acesso em 10 jan. 2011.

Por conta de um aplicativo que nos retorna todos os saites que colocam ligações até aqui, recebi a notícia de que o Portal Diante do Trono usara uma das imagens de nossos arquivos – a saber, Darwin com um dedo na boca em sinal de silêncio – para ilustrar uma série de textos sobre a temática evolução vs. criação.

Visitei o portal e fiquei surpreso por não haver indicação da fonte. Usei, então, os comentários da postagem para pedir os devidos créditos e me dispus a colocar ligações para a série neste espaço. Ofereci também a oportunidade para que usassem quaisquer dos nossos vários textos que abordam o assunto.

À espera de uma resposta, qual não foi minha surpresa ao notar que, não só não fui devidamente respondido, mas também meu comentário fora apagado sem violar quaisquer das regras expressas.

Dessa forma, ao invés de dar aos leitores a chance de ler textos não apologéticos sobre o assunto, percebo que a intenção não era que eles pudessem “consultar, opinar e formar suas próprias conclusões sobre um tema muito polêmico, mas ao mesmo tempo importante”, mas tão-somente selecionar fontes que corroborem a conclusão inicial.

Para ilustrar, vejamos o primeiro comentário, que foi editado para retirar a formatação em caixa alta:

“É muito bom defendermos a palavra de Deus. Sou formada em história e nunca deixei que essas falsas teorias me afastassem do amor de Jesus. Quando dou aula para meus alunos, procuro fazer com que eles parem e pensem sobre suas próprias origens, e, assim a maioria acabam aceitando que fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Deus seja louvado!!!
Kelly Linhares”.

Em tempo: nossa imagem continua exposta no portal sem os devidos créditos.