por Isaias Puccinelli

Bacharel em letras e em ciência, doutor em medicina, poliglota (falava o alemão, o inglês, o italiano, o espanhol e o holandês), filósofo e autor de inúmeros trabalhos acadêmicos.Nada disso impediu que o senhor Dennizard Hippolyte Léon Rivail ficasse maravilhado pela comunicação com os espíritos.

Para quem não reconheceu, esse era o nome real de Allan Kardek, cidadão francês que estudou os fenômenos ditos sobrenaturais nos idos de 1854. Com formação científica isenta de questionamento e vivência no meio acadêmico, é de surpreender que esse homem tenha se apaixonado – sim, paixão – pelo objeto de seus estudos, a ponto de considerar como autêntico o “fenômeno das mesas e cadeiras girantes, que pulavam e corriam, e isso em tais condições que não era possível nenhuma dúvida” (SAUSSE, p.5).

Lendo sua biografia, fica muito difícil imaginar uma pessoa com o seu currículo caindo no misticismo da comunicação com espíritos, chegando até mesmo a escrever falácias em suas obras, como a encontrada no Livro dos Médiuns (comentários e grifos meus):

Façamos abstração, por um momento, de fatos que, para nós, tornam a coisa incontestável… Pedimos que os incrédulos nos provem, não por uma simples negação, porque sua opinião pessoal não pode instituir-se em lei, mas com razões peremptórias, que isto [a comunicação com espíritos] não seja possível” (KARDEK, p.30).

Não satisfeito em solicitar o abandono de fatos que vão contra sua nova ciência, ele prossegue (grifos meus):

“Colocamo-nos em seu terreno e, já que eles [os incrédulos] querem apreciar os fatos espíritas com o auxílio das leis da matéria… Provem por a mais b, sempre partindo do princípio da existência e da sobrevivência da alma…” (KARDEK, p. 30).

Isso demonstra a imparcialidade esperada pelo uso do método científico? Ou seria mais próximo de uma defesa apaixonada em prol da aceitação de uma “ciência” que apenas os místicos lutam para que seja aceita como verdade?

Não obstante a falta de provas da existência de espíritos, ele, na figura do responsável pelos estudos e pelas experiências a respeito do sobrenatural, ainda justifica que os incrédulos em sua teoria é que deveriam provar que a comunicação entre espíritos e humanos não ocorria e propôs nove questões para os céticos:

1º. Que o ser que pensa durante a vida não deve mais pensar durante a morte;

2º. Que, se ele pensa, não deve mais pensar naqueles que amou;

3º. Que, se pensa naqueles que amou, não deve mais querer se comunicar com eles;

4º. Que, se pode estar em toda a parte, não pode estar ao nosso lado;

5º. Que, se pode estar ao nosso lado, não pode comunicar-se conosco;

6º. Que, por seu invólucro fluídico, ele não pode agir sobre a matéria inerte;

7º. Que, se ele pode agir sobre a matéria inerte, não pode agir sobre um ser animado;

8º. Que, se pode agir sobre um ser animado, não pode dirigir sua mão para fazê-lo escrever;

9º. Que, podendo fazê-lo escrever, não pode responder as suas perguntas e transmitir-lhe o seu pensamento.

Notem que não quero entrar na discussão da doutrina espírita, muito menos provar que espíritos não existem – (isso me parece inviável, de qualquer forma) –. O que quero demonstrar é o abandono da crítica racional em troca de um pensamento místico desesperado, que parte de suposições nunca provadas e pede cinicamente uma prova contrária.

Essa mudança de 90º do modo de pensar do Sr. Rivail o transformou em Allan Kardek e levou muitas pessoas a falarem aos quatro cantos do mundo que o espiritismo era uma ciência. E ainda por cima uma ciência provada, testada e nunca derrubada (deve ser muito difícil mesmo derrubá-la, pois, segundo Allan Kardek, os espíritos não respondem quando são propostos testes…).

Parece que o Sr. Rivail foi ludibriado por pessoas de má-fé, que, vendo na figura deste homem da ciência uma oportunidade de ganhar prestígio, o enganaram. Tendo abandonado seus trabalhos verdadeiramente científicos em prol de um estudo sério sobre a existência de espíritos, abandonou por completo sua crítica imparcial, abraçando até à morte sua paixão mística (sem nunca ter provado nada).


Bibliografia

KARDEK, Allan. O livro dos espíritos. In: KARDEK, Allan. O caminho da verdade. São Paulo: Opus, [19–].

KARDEK, Allan. O livro dos médiuns. In: KARDEK, Allan. O caminho da verdade. São Paulo: Opus, [19–].

SAUSSE, Henri. Bibliografia de Allan Kardek. In: KARDEK, Allan. O caminho da verdade. São Paulo: Opus, [19–].


(artigo recebido em 26 de janeiro de 2011)

Nota: para participar como autor ad hoc, envie seu texto para udmg@ateus.net. O material ficará disponível a todos os membros titulares para peer review e estará sujeito a críticas e sugestões antes de ser publicado (em data que seguirá a ordem de recebimento dos materiais). Para maiores informações a respeito, faça aqui o download do ‘Guia de padronização’, em formato PDF.

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7 Comments

    • teste
    • Posted 13 de fevereiro de 2011 at 20:21
    • Permalink

    Não entendi absolutamente nada que o autor gostaria de passar. O que você quer mostrar é que Kardek foi enganado?

    • Ahti
    • Posted 14 de fevereiro de 2011 at 9:59
    • Permalink

    Não seria uma guinada de 180º? Anyway, bom texto. O senhor Kardec parece ter sido seduzido por sua propria teoria, pra mim isso mais parece uma sindrome de messias.

    • Ahti
    • Posted 14 de fevereiro de 2011 at 10:57
    • Permalink

    Aliás, que diabo de argumento seria esse?

    – 1º. Que o ser que pensa durante a vida não deve mais pensar durante a morte; –

    Talvez porque o pensamento seja função da operação da matéria organizada na forma de um cérebro

    • wolph
    • Posted 14 de fevereiro de 2011 at 14:42
    • Permalink

    Não vejo nada de espantoso uma pessoa intelitente do século XIX pensar ser possível todo esta fantasia de almas e reencarnações. Se existem cientistas renomados atualmente que o fazem!!!
    Talvez se não fossemos tão passionais…

    • Isaias Puccinelli
    • Posted 14 de fevereiro de 2011 at 19:35
    • Permalink

    Teste,

    A idéia era iniciar uma discussão sobre a fama do espiritismo ser considerada uma ciência (por seus adeptos), fama essa calcada no histórico científico de Allan Kardek.

    • Isaias Puccinelli
    • Posted 14 de fevereiro de 2011 at 19:39
    • Permalink

    Ahti,

    Você tem razão. Uma guinada de 180° seria mais apropriado.
    Realmente, as provas que ele pede são “um pouco” difíceis de se provar.

    • Isaias Puccinelli
    • Posted 14 de fevereiro de 2011 at 19:42
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    Wolph,

    Vale lembrar que nem todas pessoas, ainda mais cientistas, do século XIX acreditavam nessas fantasias, principalmente a ponto de largar a imparcialidade de seus estudos.
    Vide Darwin.