Já foi dito aqui, muitas vezes, que um ateu não crê que deus não existe. Ou ao menos não que isso seja necessário para caracterizá-lo como ateu. Muitos não-ateus gostam de lembrar que os ateus também creem em alguma coisa, como se crer fosse uma atividade proibida ao grupo. Obviamente, nada impede um ateu de crer em algo que não seja um deus. Não falo aqui das crenças mais ordinárias, como acreditar que tem que estar no trabalho daqui a meia hora ou acreditar que o Brasil é banhado pelo oceano Atlântico. Darei um exemplo de uma crença muito comum entre nós, ateus, seguindo a definição mais restrita de “crença” com a qual denotamos a crença dos, vejam só, crentes.

A crença no livre-arbítrio. A crença no livre-arbítrio talvez não esteja no mesmo patamar da crença de que Jesus nasceu de uma virgem, mas está lado-a-lado com a crença na vida eterna. Não é uma crença tão ingênua quanto a virgindade de uma mãe; no entanto, com certeza é muito esperançosa. Eu acredito, ou tento acreditar, mas o meu lado cético – que está preocupado em acreditar no que é real – briga com o meu lado esperançoso – que procura acreditar no que agrada – e minha crença não fica muito definida. Óbvio que, quando me refiro a ateus, é apenas uma parcela que acredita em livre-arbítrio.

Fala-se de maneira muito leviana no livre-arbítrio, de maneira ainda mais leviana sobre “liberdade” (eu gostaria muito que os norte-americanos me explicassem que “liberdade” é aquela pela qual eles lutam; nunca entendi direito). Adianto que é um assunto “levemente pesado”, se me permitem a contradição. Já falei sobre morte, defendi que deuses não existem (ou que não é lógico acreditar neles, vale esclarecer), mas falar sobre liberdade é mais pesado. Esclarecendo, falo de “liberdade” nesse texto como sinônimo de livre-arbítrio, até porque, se o livre-arbítrio não existe, então não existe qualquer forma de liberdade. Pensar que não somos livres para escolher, para desejar, é mais incômodo do que pensar que deixaremos de existir ou que não há deus. Na verdade, perto do livre-arbítrio, questões como “deus” e “morte” parecem até brincadeira de criança.  Provavelmente não existe deus algum nos protegedo nem garantia de vida após a morte, mas  o que importa é que vivemos e que, acredita-se, ajudamos a construir um mundo melhor. Desacreditar no livre-arbítrio implica acreditar em uma existência pela qual somos meros espectadores, passivamente gostando ou odiando os eventos que se sucedem.

Pegarei um exemplo banal para ilustrar o problema. Imaginemos que você vai a uma loja e deve escolher uma entre duas camisetas. Uma delas é amarela e a outra é azul. Você escolhe a azul. Ponto. Então você sai pela rua com uma camiseta azul, satisfeito com ela, imaginando que sua escolha foi boa. Tudo muito tranquilo até agora. Então você se lembra que, dias atrás, alguém te disse que a cor azul estava na moda. Veja como isso desvaloriza a sua decisão! No fim, o que te levou a escolher a camiseta azul foi apenas uma sugestão fútil sobre tendências da moda. Você imediatamente se sente uma ovelha em seu rebanho, uma ovelha vestindo uma camiseta azul. Talvez quem te disse sobre a moda da cor azul estava se beneficiando com o estouro de vendas de camisetas azuis. Então, só para se rebelar, você decide que talvez seja melhor comprar uma camiseta amarela e dar um “não” às tendências da moda e um “sim” à livre-escolha. Mas daí você se lembra que existe algo chamado “psicologia reversa” e que talvez a intenção era justamente a de fazer você comprar uma camiseta amarela. Como um pato, você caiu e começa a pensar se um pato de camiseta amarela é tão melhor assim que uma ovelha de azul. De um modo ou de outro, a sua escolha foi determinada pela alegação de que a cor azul está na moda.

Podemos supor que ninguém nunca te sugeriu nada e você comprou uma camiseta azul por achá-la mais bonita. Mas e por que você a acha mais bonita? Por que o azul te lembra a paz? Vai ver ele te lembra a paz pois é a cor de um céu limpo, ou porque lembra o mar, praia, férias. Nesse caso, a sua escolha não foi determinada por um interesseiro; foi determinada pela lembrança do mar e do céu que algum dia lhe represetaram paz. Fato é que ela não foi determinada por você e sim pelo que aconteceu em seu passado. Nossas escolhas não nascem espontaneamente no momento em que a realizamos; elas são consequências da carga de experiências que tivemos desde que nascemos.

Tudo fica muito mais leve quando falamos de camisetas e cores. Mas é claro que a questão se estende bem além disso. Aprendemos a ter orgulho de nossas escolhas, como a escolha da faculdade certa ou da esposa certa (ou do marido certo). Fazemos escolhas que consideramos erradas e ficamos imaginando como seríamos mais felizes se tivéssemos seguido um caminho diferente. Sem o livre-arbítrio, esses orgulhos e divagações são infundados. Como folhas boiando em um rio, onde nós somos as folhas e o rio é o meio em que vivemos, podemos ir parar em um lago limpo ou em um esgoto, mas não faz sentido se orgulhar por um ou se lamentar pelo outro. Uma existência sem deus ou sem vida eterna ainda é recheada de méritos, de glórias. Sem livre-arbítrio essas coisas se perdem. Termino o meu segundo texto sobre “morte” falando sobre a importância de deixar um bom legado. Digo naquele parágrafo que o legado é a eternidade concretizada pelos atos. Mas que coisa vazia seria se os seus atos não fossem escolhas suas e sim meras consequências inevitáveis. Darwin termina sua obra-prima dizendo “Há grandeza nessa visão da vida”, se referindo à crença de que todas as formas de vida surgiram de apenas uma, muito mais simples. E ele estava certo: há muita grandeza mesmo nessa visão da vida. Há grandeza na visão de um ateu também, não tenham dúvida, de uma vida sem deuses, uma vida que é bonita por si só. Existe igual grandeza em uma vida que tem um início e um fim, que deve ser aproveitada. Mas não, não há grandeza alguma sem livre-arbítrio.

Imaginem que hoje à noite uma pessoa vai bater na sua casa e lhe trazer uma notícia. Essa pessoa veio do futuro e viu tudo. Veio lhe dizer que a sua vida será medíocre e que você não chegou nem perto de realizar algum sonho seu. Pois bem, como não existe livre-arbítrio, a sua vida realmente será medíocre; quando confrontado com a opção de seguir uma via mais laboriosa e arriscada, você inevitavelmente negará em prol de uma mais confortável. Mas, se o livre-arbítrio existe, a mensagem dessa pessoa (muito importuna, por sinal) será apenas um incentivo para você ser um grande homem ou uma grande mulher. Isso demonstra de maneira mais clara o quão a descrença no livre-arbítrio é pior do que a descrença em deus ou na vida eterna. Tão pior que, pela primeira vez, eu espero sinceramente que alguém refute o meu texto com muita categoria, para que eu possa dormir tranquilo acreditando mais convictamente na liberdade de escolher.

Bom, para terminar, sem livre-arbítrio a vida é comparável a uma montanha russa. Na montanha russa, estamos presos em carrinhos que percorrem subidas e decidas. Como na nossa vida sem liberdade, as subidas e decidas não dependem de nossas escolhas e nossas emoções são determinadas em uma interação passiva na qual você apenas sente as consequências. Bom, termina o percurso da montanha russa, cheia de subidas, descidas, loopings e parafusos – todos eles lhe causaram uma gama de emoções diferentes. Medo, felicidade, alívio ou até mesmo enjoo. Não faria mesmo sentido se te descem parabéns por ter estado no ponto mais alto da montanha russa ou te consolassem por ter passado pelo mais baixo. Ninguém te perguntaria como você fez para dar todos aqueles loopings e ninguém dedicaria uma página na Wikipédia sobre “o parafuso que você deu naquela montanha russa”. Fazemos coisas semelhantes na vida real, como parabenizar e consolar, considerando os sucessos assim como os fracassos, e a analogia com a montanha russa mostra que essas atitudes não fazem tanto sentido assim. Mas talvez uma, e apenas uma pergunta seria relevante, tanto na vida como na montanha russa:

“O passeio estava bom?”

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27 Comments

    • Lightman
    • Posted 26 de fevereiro de 2011 at 12:10
    • Permalink

    Você disse:

    “Tão pior que, pela primeira vez, eu espero sinceramente que alguém refute o meu texto com muita categoria, para que eu possa dormir tranquilo acreditando mais convictamente na liberdade de escolher.”

    Dudu, eu costumo dizer que os céticos devem ser as únicas pessoas desse mundo que adorariam estar erradas e por ironia e capricho do destino não estão.

  1. …ou, pelo menos, não há evidências de que estejam.

    • CIV
    • Posted 27 de fevereiro de 2011 at 10:20
    • Permalink

    Tratando-se de liberdade, no que se refere aos tipos de opções aos quais possamos interagir e até mesmo prever dado nossas experiências, me parece muito claro nossa total ausência de liberdade. Somos claramente condicionados pelas influências do ambiente e por fatores biológicos e psicológicos.

    Nesses últimos anos, tive experiências terríveis com isso. Demarcando claramente, além de uma impotência para mudar a situação de forma eficaz. Se podemos entender as pessoas e fazer planejamentos em cima de consequências de suas escolhas e suas atitudes, fica claro que a estamos condicionando e sendo condicionados.

    Algo verdadeiramente aterrador que praticamente faz você acreditar que poderia ter mudado tudo, culpando a sí mesmo de poder ter outra atitude (coisa que não podia devido a motivos de minha personalidade), nos convoca uma culpa metafísica de que poderiamos ter conseguido o que queriamos, se não “fossemos nós mesmos naquela hora”. Como isso não significa nada além de uma expressão de um tipo de desejo humano, me é claro de que não haveria possibilidade do contrário, visto que, na medida em que temos experiência e capacidade para agirmos, agimos dentro de nosso modus operandi. Assim sendo, a intepretação da culpa nesse caso não passa de uma projeção de que “poderiamos ter agido de outra maneira”, no entanto, na prática, tal decisão não poderia ter sido tomada. Salvo se, em determinados instantes, não fossemos nós mesmos.

    O mais excruciante é saber o que devemos fazer, exatamente a opção mais clara para conseguirmos o que queremos, no entanto, algo acaba nos impedindo. Algo que, muito além das opções e dos fatos objetivos, diz respeito a nós, a algo em nós que não coaduna com a opção que sabemos que devemos tomar. Acusamos a nós mesmos de covardes por não querer arriscar e com isso permancener encarcerado em nossa zona de conforto, por outro lado, refletimos as possibilidades e vimos que, por mais que queremos, elas não estão a nosso favor e só temos a incerteza dos fatos caso queiramos arriscar. O previsível se mostra desvantajoso, e o desejo nos faz procurar alguma minúscula vantagem que seja para preseguirmos contra todas as evidências a fim de conseguirmos singelos momentos de agrado. Por mais que nosso emocional nos ofenda de covardes por causa do desejo mal cumprido, nossa razão nos diz que não valia a pena. Até equilibrarmos esse conflito e buscar ficar com os pés no chão novamente, reconhecendo nossa imaturidade em lidar com a situação de forma tranquila, somos importunados com a ideia de escolha. Conhecendo quem somos (ou o que costumamos fazer) analisamos os fatos e não vemos que de forma, na prática, poderiamos agir de forma diferente (embora racionalmente saibamos). E como a prática é o efetivo, racionalmente deixamos de nos culpar porque admitimos nossa falta de capacidade para escolher, mas, emocionalmente, lamentamos nossa covardia pois não tinhamos aptidão para fazer uma possibilidade que nos interessasse acontecer.

    • Julio
    • Posted 27 de fevereiro de 2011 at 16:06
    • Permalink

    Resta saber o que voces definem por liberdade.Essa palavra possui sentidos diferentes em diferentes tradições intelectuais.Quando o Eduardo diz:
    ”eu gostaria muito que os norte-americanos me explicassem que “liberdade” é aquela pela qual eles lutam; nunca entendi direito”.
    Para os proponentes da ”liberdade” presente na constituição americana e na declaração de independencia dos EUA o termo liberdade é,como para todos os liberais,um conceito negativo.Para um liberal,o post do CIV aí em cima não faz nenhum sentido,pois dizer que somos condicionados pelo ambiente físico e pela nossa constituição biológica é para eles uma obviedade,e não uma restrição da liberdade.Vou exemplificar com uma situação bem esdruxula,o fato de não podermos sair voando até a lua não constitui para o liberalismo uma restrição a liberdade,pois sendo a liberdade um conceito negativo a mesma seria restringida apenas se houvesse alguma lei que proibisse tal coisa,aí sim haveria um cerceamento da nossa liberdade.Resumindo,o exemplo da camisa azul abordado nesse texto,não constitui para a visão ”negativa” da liberdade um cerceamento ou falta da mesma,isso seria considerado uma falta de liberdade se houvesse leis ou individuos dispostos,por qualquer motivo que seja,a impedir outrem de comprar a camisa azul.

    • Ahti
    • Posted 28 de fevereiro de 2011 at 11:23
    • Permalink

    Num universo material e determinístico não há espaço para escolhas livres, seja lá o que isso signifique. Nosso arbítrio não eh uma entidade que intervém na regularidade do mundo físico, tão somente o resultado do processamento dos dados que nos chegam através dos sentidos. O fato é que não entendemos como esses processos ocorrem objetivamente em nossos cérebros, só sentimos seus efeitos, e então lhes atribuímos qualquer explicação de natureza subjetiva, como “Escolhi o verde porque é mais bonito”.
    Mas é possível presumir que, dada uma determinada escolha que um indivíduo tenha feito, como por exemplo comprar um halls preto no posto, se pudéssemos voltar no tempo e inserir o indivíduo nas exatas circunstâncias em que se encontrava, o indivíduo faria exatamente a mesma escolha.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/07. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Ricardo Ramos
    • Posted 28 de fevereiro de 2011 at 13:50
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    O livre arbítrio de fato não existe, mas considero que este assunto deva ser tratado de maneira não absolutista (naquele que se ventila apenas os dois extremos, se existe ou se não existe). Eu não seria aviador, por exemplo, se não existisse o árduo trabalho preventivo contra acidentes aeronáuticos, que sem dúvida evita centenas de catastrofes aéreas todos os anos. Nossas ações podem não ser frutos do total “livre arbítrio”, mas influenciam profundamente nas causas deterministas, e isso, queiramos ou não, passa pelas nossas escolhas e decisões também. Como chegamos a essas escolhas e decisões vem de um longo processo evolutivo e da adaptação dos fatos e situações vividas.

    • CIV
    • Posted 28 de fevereiro de 2011 at 20:32
    • Permalink

    De fato Julio. Ao meu perceber, a liberdade em sentido amplo, diz respeito a possibilidade individual de podermos escolher entre uma ou mais opções, ou seja, termos arbítrio em nossa decisão, o que não ocorre. Mesmo que estejamos cientes e preparados para dedicirmos algo, mesmo que esse esteja em conforme nossos anseios, o fato é que somos escravos do ambiente e de nossa condição humana. Dizer que temos escolha não é exatamente um elogio, pois optar exatamente pelo que queremos e simplesmente cumprir algo que está fora ao nosso controle, simplesmente não podemos escolher. Qualquer tipo de controle que possamos dizer que temos não passa de uma gestão consciente do que queremos ou precisamos fazer, no caso, com o objetivo de viver.

    A liberdade no sentido de restrição de uma ação, determinada por alguma legislação ou algum costume moral, configura exatamente uma imposição de uma lei. Uma liberdade legislativa, no caso. Nesse sentido sim é possível termos liberdade e agir livremente, dentro de uma imposição que antes regia comportamentos.

    • Carlos
    • Posted 2 de março de 2011 at 14:39
    • Permalink

    Na sociedade pós-moderna em que mesmo quando parecemos ter escolhas estamos, no máximo, escolhendo “fantoches” é muito simples pensar que não temos escolha nenhuma.

    Além disso, o comentário do Julio é certeiro, qual liberdade esta se referindo? Há uma miriade de sentidos que o conceito de liberdade pode ganhar, sendo os “arquétipos” mais comuns os conceitos de Liberdade dos Liberais e dos Românticos delineado no século XVIII e XIX. Há, além desses conceitos, outra miriade de ramificações, faltou o autor nos situar em que tradição intelectual ele se coloca, ou esta querendo nos empurrar um conceito de liberdade absoluto?

    Somos limitados por fatores biológicos e psicológicos? Mas o homem não voa? O homem não pula de cabeça e mergulha quilometros no mar? Neste caso, qual limitação biológica atuou sobre ele?

    O homem não nasceu para voar, mas voa, não nasceu para mergulhar nas profundezas, mas mergulha, até que ponto as limitações biológicas podem significar obstáculos intransponíveis?

    Mesmos nas escolhas que envolvam mentalidades coletivas, não haveria algo de irredutível? Por exemplo, será que a camiseta azul tem o mesmo significado para mim e para você?

    Partindo do pressuposto que a cor azul é uma convenção social e que a convenções sociais são definidas e redefinidas constantemente a resposta é não.

    • pi
    • Posted 3 de março de 2011 at 14:56
    • Permalink

    É garoto, você continua filosofando. Se tudo é preconcebido, como será o último dia. Se o amanhã estiver descrito, o depois de manhã também estará, e assim por diante.

    ao mesmo tempo que todo o futuro deve estar descrito, isso é impossível, na medida em que não se pode descrever infinitamente coisas pré-concebidas. se eu escrevo um livro, terá uma última página. mas o futuro existe..

    para resolver a questão – como deve se lembrar das charges – ou vivemos em um mundo cíclico (mas ainda assim deveria haver um começo), ou existe deus, ou seja, algo mágico que altere nossos cérebros e suas decisões, que indefina o futuro e torne-o menos absurdo.

    • Alexandre
    • Posted 5 de março de 2011 at 0:42
    • Permalink

    Você diz que se pauta pelo que é real, como saber que o que você acredita é real?

    E mais, como atestar que o que você julga ireal é mesmo ireal?

    • Alexandre
    • Posted 5 de março de 2011 at 0:47
    • Permalink

    O livre-arbitrio existe, e isso é evidente, e o determinismo também existe. Os dois se completam.

    Crer na ausência de livre arbítrio é crer que somo autômatos, e todos os crimes devem ser perdoados, todos os absurdos devem ser desconsiderados e é aniquilar com o pensamento.

    Não há nenhuma lógica existir apenas o determinismo.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/07. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Eduardo Bitencourt
    • Posted 5 de março de 2011 at 1:16
    • Permalink

    “Crer na ausência de livre arbítrio é crer que somo autômatos,”
    Sim.

    “… e todos os crimes devem ser perdoados,”
    Não. Mais sobre isso no próximo texto

    “… todos os absurdos devem ser desconsiderados e é aniquilar com o pensamento.”
    Não sei o que você quer dizer com “absurdo”. Talvez o comportamento de alguém que nos pareça absurdo, acho que foi isso o que quis dizer.
    E não, de maneira alguma é aniquilar o pensamento.

    “Não há nenhuma lógica existir apenas o determinismo.”
    Nada do que você disse defende alguma lógica pró-livre arbítrio. Existe, sim, pensamento desejoso.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/07. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Eduardo Bitencourt
    • Posted 5 de março de 2011 at 1:21
    • Permalink

    Ao pessoal que pergunta a qual liberdade estou me referindo, tenho a impressão de que deixei bem claro no próprio texto:

    “Esclarecendo, falo de ‘liberdade’ nesse texto como sinônimo de livre-arbítrio, até porque, se o livre-arbítrio não existe, então não existe qualquer forma de liberdade.” (terceiro parágrafo, linhas 6 e 7).

    A conclusão que eu chego, caso não tenha ficado claro, é que toda e qualquer ideia de liberdade é apenas uma ilusão ou conceito superficial demais.
    Um assunto que eu não abordei no texto, porque todo o assunto em torno do livre-arbítrio é muito amplo, é sobre a aleatoriedade.

    • wolph
    • Posted 5 de março de 2011 at 12:50
    • Permalink

    Sem dúvida, não há espaço para dúvidas sobre o tipo de liberdade que o Eduardo se referiu, como não há necessidade de filosofar sobre a “realidade” metafísica.
    O que mais me espanta é o caráter emocional que interfere nesta percepção evidente da ausencia de um livre-arbítrio.
    Não há como negar que o passeio tem altos e baixos e é inevitavel nossas reações passionais, que muitas vezes nos aborrecem, e aliado a isso tudo temos o sentimento de impotencia.
    Contudo é algo até agora evidente e que diria intransitivo. A menos que se descubra algo revolucionário e paradigmático, somos obrigados a viver assim. Porque não reforçar os sentimentos efermeros de realização, empatia e altruísmo, ao invés dos de impotencia, inércia e sei lá mais o que?

    • CIV
    • Posted 6 de março de 2011 at 20:57
    • Permalink

    “O que mais me espanta é o caráter emocional que interfere nesta percepção evidente da ausencia de um livre-arbítrio.”

    Sim Wolph, é algo que, por mais que reflitamos e conheçamos a nós mesmos, há certos comportamentos que possamos ter, forçados pelo ambiente, dos quais pareçam estranhos a nós mesmos, embora estejamos cientes de seus porquês. Da mesma forma que aprendemos vivendo e vamos interagindo as infliências que vamos adquirindo do ambiente, algumas circunstâncias nos forçam a agir de uma forma da qual, ao menos na prática, pouco esperávamos de nós mesmos. Podendo nos tornar legítimos defensores de mentiras para se proteger, ao invés de ser racional e encarar possíveis consequências indejesadas, porém, invitáveis, por medo. Vejo isso apenas como uma relutância humana, que deixa a razão de lado em prol do medo da realidade. Como se fosse fazer diferença pois da realidade ninguém escapa. Nessas horas que me fica muito claro como o desespero e a uma “crença” podem caminhar juntas. Quando todo o nosso interesse está perdido, queremos mesmo que a razão se dane, mas sabemos que precisamos dela, só que ela nos leva a um caminho tortuoso, pelo qual não conseguimos aceitar, porém era inescapável.

    “Não há como negar que o passeio tem altos e baixos e é inevitavel nossas reações passionais, que muitas vezes nos aborrecem, e aliado a isso tudo temos o sentimento de impotencia.”

    Sem dúvida. Nessas horas que são testadas em campo a nossa maturidade com a perda. Se nos doi perder, significa que não tivemos maturidade para aceitar a perda, e que nossa emoção era superior a razão. Nossas emoções nos condicionam, mas elas também precisam ser educadas para nos possibilitar a encarar as coisas com mais realismo.

    “Contudo é algo até agora evidente e que diria intransitivo. A menos que se descubra algo revolucionário e paradigmático, somos obrigados a viver assim. Porque não reforçar os sentimentos efermeros de realização, empatia e altruísmo, ao invés dos de impotencia, inércia e sei lá mais o que?”

    Tem razão Wolph. Gostando ou não, temos como mecanismos de aprendizagem natural nossas emoções. As prazerosas para serem repetidas e as dolorosas a serem evitadas, claro tudo isso com ponderação e experiência. Não temos valor intrínseco como seres vivos, mas atribuimos valor a nós mesmos pois, no jogo da vida, isso é algo benéfico e útil.

    Infelizmente, o desenvolvimento da personalidade do ser humano é algo contínuo, complexo, e injusto. Apensar de vivermos dentro de um intrincado sistema de vivência, tanto moral quanto emocional, podemos desenvolver constâncias de sentimentos diferentes uns dos outros, o que interfere em nosso bem-estar. Um psicopata (Transtorno de Personalidade Anti-Social), já nasce com sua tendência e com seus padrões emocionais, e a vivência só o faz por em prática o que o mesmo sente, diferentemente de uma pessoa com personalidade totalmente oposta. Desgraçadamente, isso existe e não é uma doença ou mesmo uma anormalidade, é um jeito de ser. Por mais que saibamos de benefícios para viver em sociedade, alheio a reflexões, a realidade da convivência humama em sua condição mais natural, a educação que recebemos, pessoas possuem tendências e padrões diferentes de sentir a realidade.

    • sorel
    • Posted 7 de março de 2011 at 13:47
    • Permalink

    falar em livre arbitrio já é partir de uma concepção especifica de liberdade, não vamos cair em ingenuidade filosófica amigos. Depois de Nietzsche, não há mais espaço para isso.

    • sorel
    • Posted 8 de março de 2011 at 0:04
    • Permalink

    Outra dúvida, se somos meros produtos do meio no qual estamos inseridos porque não somos, como todos os outros, crentes?

    Ou, a própria corrente secular não seria ela um produto do meio teológico no qual ela floresceu?

    Se não, porque não?

    • CIV
    • Posted 8 de março de 2011 at 16:02
    • Permalink

    “Outra dúvida, se somos meros produtos do meio no qual estamos inseridos porque não somos, como todos os outros, crentes?”

    Por vários fatores. Experiências, reflexões, visões de mundo, críticas, tendências emocionais… Um ambiente não é o fator único para modelar o que somos. É certo que ele é o mediador de nossas experiências e aprendizado, no entanto, já nascemos condenados a seguir um tipo de padrão que o ambiente apenas coordenará esse tipo desenvolvimento.

    • sorel
    • Posted 8 de março de 2011 at 17:36
    • Permalink

    Ou seja, chegamos numa contradição insolúvel, pois, na opinião de vocês o meio só nos condiciona quando isso significa a confirmação do “nosso” catecismo?

    • CIV
    • Posted 8 de março de 2011 at 18:22
    • Permalink

    Não vejo contradição. Nascemos predispostos a certas condutas e padrões. O ambiente e suas inúmeras variáveis nos condicionam de qualquer modo, seja para validar uma interpretação religiosa as nossas experiências, através do viés emocional a qual estamos mais predispostos e também advindo da crença das pessoas que convivemos.

    • sorel
    • Posted 9 de março de 2011 at 17:14
    • Permalink

    De qualquer forma CIV, esta concepção de que o meio nos condiciona (o que concordo) desarma muito da arrogancia advinda de ateus como Dawkins, pois o movimento secular floresceu num meio teológico e há muito do segundo inserido nas entranhas do primeiro, como atesta autores como Gould, por exemplo.

    • wolph
    • Posted 10 de março de 2011 at 16:34
    • Permalink

    CIV,

    Muito obrigado pelas respostas. Concordo contigo, menos em casos como os serial killers, por exemplo, que voce há de convir que são exceções e portanto não é uma questão de certo/errado, mas de trabalharmos para evitar isso, seja em PESQUISAS CIENTIFICAS, seja em ações juridicas, etc.

    Sorel,
    Não, não existe arrogancia nos dizeres de RD por que um movimento secular floresceu em um teológico. Isto é um reducionismo ilusório.
    O movimento secular surge ante a necessidade social de organização, movida pelas injustiças e outras diferenças, advindas das relações de poder e subjugação nas sociedades, aliadas a percepção de pessoas que pensaram e/ou lutaram contra isso.
    E deus nunca ajudou ninguém. Como é dificil perceber que deus não ajuda m@@@@ nenhuma, mas faz parte da formação de nossas sociedades, por isso de sua importancia?
    O meio condiciona mas há muitas variáveis nas pessoas para que isso seja algo tão simples como “porque todos não somos crentes”.

    • CIV
    • Posted 12 de março de 2011 at 14:08
    • Permalink

    “Muito obrigado pelas respostas. Concordo contigo, menos em casos como os serial killers, por exemplo, que voce há de convir que são exceções e portanto não é uma questão de certo/errado, mas de trabalharmos para evitar isso, seja em PESQUISAS CIENTIFICAS, seja em ações juridicas, etc. ”

    Nem sequer questionaria certo e errado Wolph, por serem conceitos nossos eo mais prático que podemos maximizar desses conceitos são suas traduções entre “vantajoso” e “desvantajoso” a um fim individual ou coletivo. No caso de psicopatas (o que não são necessariamente serial killers), a questão é que existe uma predisposição a um padrão de sentimentos e emoções. Como precisamos de estimulos para fazer algo, ou deixar de fazer (já que a racionalidade sucede nossa biologia), esses padrões desajustados aliado a experiência do indivíduo, infringem diretamente em seu modo de agir que, desgraçadamente para ele e para os demais, não poderia ser diferente.

    Ao vermos alguns padrões em alguns transtornos caracterizados pela psiquiatria é declaradamente algo que está fora do controle do indivíduo, não havendo o que fazer:

    Uma listagem da Wikipédia sobre transtornos de personalidade:

    http://pt.wikipedia.org/wiki/Transtorno_de_personalidade

    • Einstein
    • Posted 15 de março de 2011 at 20:02
    • Permalink

    CIV

    quando você diz que o conceito de certo ou errado são conceitos humanos você esta afirmando que o certo e o errado são relativos?

    • CIV
    • Posted 16 de março de 2011 at 20:48
    • Permalink

    Sim.

    • Luiz
    • Posted 3 de abril de 2011 at 7:50
    • Permalink

    Eduardo Bitencourt

    Para o poeta não existe nada que não seja divino, não no sentido e aver um deus ditador impondo regras e castigos, não é isto, ele está tão feliz por estar presente na existência, que vive pura e simplesmente sem questionamentos, vive com intensidade as coisas mais simples da vida, em tudo ve um motivo para um poema, você vai dizer que ele é um lunático alienado, alienado é quem não tem nem a capacidade e nen o dom de ser feliz. O conceito de livre arbítrio é muito mais abrangente, liberdade esta na cabeça, como diz a musica, se você tem medo então não existe liberdade , porque é escravo dos seus medos

    • Eu
    • Posted 5 de maio de 2011 at 13:43
    • Permalink

    Para mim o livre-arbítrio definitivamente não é concebível. Toda e qualquer decisão que um ser vivo toma é sustentado por uma seré de conseqências anteriores, as quais em algum nomento nos são cognoscíveis, e, em muitos casos, não o são. A ilusão da nossa “liberdade” esta aí: é a ignorância da Realidade que nos faz libertos. A ciência ainda não explicou exatamente o “porquê” de muitos comportamentos de nossas vidas. É nesse vazio que muitos colocam deus, moral, liberdade, etc. Para estes, o Vazio é Real. Ledo engano…

    Abraços