Monthly Archives: março 2011

Há uma crescente leva de publicações de cunho ateu nas mais diversas mídias. O que antes estava reduzido a filósofos esporádicos e era encarado como motivo de vergonha ou receio, agora parece estar na boca de qualquer um disposto a falar. Por mais que alguns reclamem falta de legitimidade para o ato, não deve ser o caso. A hipótese deus(es) diz respeito a todos nós, direta ou indiretamente.

Como tal, foi tratada pelos mais diversos campos do conhecimento. Como fundamento metafísico, sob a filosofia e a teologia; sob o fundamento social, temos a sociologia e a antropologia. De certa forma, não importa a abordagem, pois sempre partimos da análise da justificativa da crença do homem, caso a hipótese da existência seja verdadeira ou falsa; ou da análise de seu comportamento, caso creia ou não na hipótese.

Colocando a questão dessa forma, a factualidade de deus(es) fica em plano secundário e passamos a estudar tópicos que dizem ou podem dizer respeito às nossas vidas práticas. É assim que a interferência religiosa nas mais diversas áreas legitima qualquer um de nós, especialistas ou leigos, a manifestar suas opiniões. Nesse sentido, alegar insuficiência acadêmica ou intelectual para que se critique a hipótese divina é apenas uma forma de calar bocas.

Mas deveríamos mesmo nos calar? Talvez. Mas se – e somente se – houvesse tratamento mútuo por parte dos religiosos. Ora, se não temos o direito de falar contra algo para o qual não vemos evidências, também não deveria haver o direito de professá-lo. Hegemonia e números absolutos não servem como pretexto para calar as minorias e todo o nosso ordenamento jurídico caminha na proteção formal dos hipossuficientes substanciais.

Uma coisa é certa: se o problema é realmente a falta de escrutínio por parte das críticas ateias, que sejam mostrados exatamente os pontos falhos da argumentação. Era de se esperar que quem estivesse certo não se furtasse a oportunidade de mostrar conclusivamente o equívoco da tese contrária, mas o que vemos é simplesmente uma reação emocional, comparável a quem teve a honra ofendida – não a intelectualidade e a racionalidade.

Ainda mais interessante: a maior parte das críticas ateias diz respeito a duas características principais – a falta de evidências para a hipótese divina e a deturpação e a exploração da fé alheia em troca de benefícios político-financeiros para as instituições religiosas. São os dois pilares que sustentam, entre outras coisas, a dominação e o sequestro da moral e dos comportamentos individuais e sociais, o acobertamento a crimes cometidos por eclesiásticos e associados, o enriquecimento ilícito e a isenção de impostos que o propicia, a mutilação genital e a punição severa e desproporcional a delitos de menor importância, como o adultério e a apostasia.

Diante da exposição de tantos fatos, é possível reconhecer algumas reações arquetípicas, mas a principal delas é o ataque gratuito às fontes de críticas. É uma forma de autodefesa através do recrudescimento contra aqueles que simplesmente fizeram circular a informação. Fosse falsa ou difamatória, as vias judiciais seriam muito mais adequadas para resolver o litígio, mas raramente o fazem, em uma declaração tácita de veracidade do que é levantado.

Sem entrar no mérito da justiça ou da eficácia das normas, a verdade é que temos direitos inalienáveis dos quais não deveríamos abrir mão. Um deles é a liberdade de expressão, garantida constitucionalmente contra qualquer ato de uma maioria ensandecida e ditatorial, que busca calar opiniões em contrário. Dessarte, não será uma pessoa ou um grupo delas que farão com que escrevamos ou deixemos de escrever sobre o que nos agrada ou incomoda.

Em momento algum se questiona o direito de se crer no que quiser, mas sim a razoabilidade e a justificação das crenças. A discussão aberta deveria ser encorajada e não cerceada. Devíamos expor os diferentes lados e deixar que a escolha fosse feita por seus méritos e não por sua imposição. Devíamos entender, finalmente, que o direito de crer não é a obrigação de crer e que há, em contrapartida, o direito de não crer e de explicar-se por quê.

Fala-se muito em “religião organizada” quando se apontam os males causados pelo pensamento religioso. É como se todos fossem inocentes isoladamente, mas a nova entidade formada pelos indivíduos herdasse um pouco do mal inerente de cada um e se transformasse em um novo ser, dotado da capacidade de cometer as maiores atrocidades imagináveis em nome da fé.

Apesar da popularidade, algumas perguntas restam inevitavelmente sem resposta. O que se poderia chamar de “religião organizada” hoje? Pensamos na Igreja Católica e nas grandes protestantes; mas e as igrejas que surgem diariamente – aproveitando-se de nossa legislação flexível e da isenção de contribuições – se encaixam? Os cultos domésticos, que não precisam de um eclesiástico ordenado, se encaixam? Os rituais de despacho de algumas religiões afrobrasileiras se encaixam?

Creio que a resposta para cada questão variará de acordo com o gosto de quem as responde. Assim, o termo “religião organizada” padece de terrível atecnia e de plurissignificação. Quem usa do termo procura somente algum espantalho vagamente definido para atacar. Não foram poucas as vezes em que ouvi cristãos vangloriando-se por seguirem somente a Jesus, e não a igrejas; ou ateus dizendo que respeitam o comportamento individual, mas são contra a tal “religião organizada”.

“As igrejas são feitas por homens”, dizem. “Sigo algo muito maior”, batem no peito e bradam orgulho. Mas podem mesmo se valer do espantalho como bode expiatório? Pelo que vemos acontecer, não. Em primeiro lugar, porque podem ser tão fanáticos quanto qualquer beato de igreja. Em segundo, porque, mesmo moderados, não aceitam deixar de lado a denominação cristã. Se eufemismos valem como conforto emocional, vale dizer que não têm muito valor numa discussão sobre as consequências das ações.

Crenças em seres sobrenaturais organizadas em culto crescem como mato nas sociedades, mesmo nas atuais. E um local apropriado serve não só como centro de oração, mas principalmente como ponto de socialização. Os rituais induzem estados vendidos que supostamente só podem ser comprados ali e é por isso que a maioria, mesmo postulando deuses pessoalmente montados, ainda segue casas oficiais de culto, mesmo sem fidelidade a quaisquer delas.

Dessa forma, a famosa “religião organizada” não é bem assim tão culpada por seus atos se o fiel continua seguindo os seus preceitos, dentro ou fora das paredes. De certa forma, serão tão culpados pelo que as “religiões organizadas” fazem quanto o somos pelas ações dos nossos políticos eleitos. Mesmo que não os tenhamos colocado diretamente no poder, é nosso dever fiscalizá-los na sua gestão de nossa boa-fé.

Fingimos aceitar que o mal do país é gerado pela má atuação dos governantes simplesmente para nos sentirmos aliviados de culpa. Se realmente acreditássemos que eles são os responsáveis, dificilmente ficariam no poder por tanto tempo. Sairiam por revolta – expressa ou tácita, nas próximas eleições. Da mesma forma, não acreditamos que o papa ou outro grande líder religioso seja responsável pelas atrocidades que os fieis deixam acontecer.

Quisessem, poderiam bradar suas verdades reveladas a quem os escutasse. Aqueles que o fazem em pequenas praças públicas são vistos apenas como excêntricos e ignorados pela maior parte da população. É o mesmo com quem não segue uma grande denominação religiosa: vemos somente um velho de cabelos brancos, envolto por um vestido longo e cheio de adornos, pendurado em uma janela bem arquitetada, falando besteiras com um sorriso amarelo em sua face.

É o que aquelas pessoas comovidas que o escutam na praça abaixo fazem que importa. São elas que dão suporte ao velho retrógrado. Somos nós que damos audiência às suas palavras caducas. Que levamos a sério sua retórica de púlpito. Que nos fazemos cordeiros em seu rebanho. Queremos que acabe? Comecemos por não expiarmos a culpa em um bode, pois é uma tradição cristã que há muito deixamos racionalmente de seguir: não há uma “religião organizada” a quem combater, mas uma mea culpa, pessoal e intransferível, que deve ser retratada.