Monthly Archives: abril 2011

O texto imediatamente anterior foi o ducentésimo deste espaço. Números redondos parecem nos causar espanto, mas nem por essa ilusão deixaremos de celebrar tal marco.

Grato a todos os leitores e àqueles que ajudaram a construir cada um desses duzentos relatos, dedicando seu tempo a algo que julgaram importante.

Jairo Moura.

A premissa não é tão inovadora: imaginemos um espelho. Olhamos diretamente para ele e vemos o nosso reflexo. Mexemos músculos de nossa face e a superfície repete exatamente os mesmos movimentos. Viramos de costas e voltamos rapidamente para ver se a imagem consegue suplantar nosso ceticismo e lá está novamente a figura idêntica a nós realizando tudo o que decidimos fazer em tempo real.

No entanto, ao terminarmos de nos arrumar, saímos do quarto e ficamos imaginando se o espelho ainda continua a refletir os objetos em seu ângulo de influência, mesmo quando não estamos lá. Voltamos ao quarto e checamos por nós mesmos, mas só sabemos quando olhamos diretamente e acabamos por ver nossa imagem também. Mas é aí que temos uma ideia:

Instalamos uma câmera de vigilância para testar a hipótese de que o espelho continua a funcionar quando não estamos lá, mas percebemos que a câmera funciona exatamente como nossos olhos: ela só consegue captar a imagem refletida quando ela mesma está apontada para o objeto e, assim, acaba por aparecer e frustrar nosso pequeno experimento.

Concluímos, então, que só podemos ter certeza de que o espelho reflete quando estamos observando o espelho refletir. Por mais estranho que pareça, é até onde podemos realmente comprovar. Se pedirmos para outra pessoa olhar, devemos confiar no testemunho dela, pois, se olharmos juntos para conferir, estaríamos outra vez burlando as regras de nossa imparcialidade.

O exemplo não para aí e pode ser estendido para árvores que caem na floresta e a dúvida sobre fazerem barulho ou não; como também para o nosso passado – como podemos provar que não implantaram memórias falsas? E, se podemos nos enganar com o nosso passado, por que não podemos estar enganados a respeito de todas as nossas sensações e de nossos pensamentos?

Esse tipo de raciocínio leva a algo chamado solipsismo. Trata-se da linha que culmina na constatação de que a única coisa que podemos comprovar por certo é que há um ser pensante, porque, certo ou errado em seus pensamentos, do simples fato de pensar segue-se que há um ser. Descartes [1] é talvez o mais famoso filósofo dessa conceituação, mas ela tem origens desde as religiões orientais e a filosofia grega, e a forma já fora explorada desde poetas, como Edgar Allan Poe [2] e Pedro Calderón de la Barca [3], até a ficção científica moderna, com sonhos indistinguíveis da vida real [4] ou com máquinas manipulando nossas mentes [5].

Mas qual o real apelo do solipsismo? Por que não parece haver contestação para ele? O solipsismo ataca diretamente uma de nossas falhas de percepção: a de que nosso cérebro interpreta apenas os dados obtidos através dos sentidos e que não é capaz de superar essa deficiência. Mesmo quando não medimos esforços empáticos para tentar pensar como outra pessoa, dificilmente conseguimos boa noção do que se trata até termos nós mesmos passado pela experiência.

É assim que se dá com o choque entre culturas: temos problemas para entender por que alguns comem carne de cachorro ou mesmo por que alguns rejeitam consumir carne de vaca. Mas a dificuldade também pode vir por fatores etários – o choque entre gerações – ou de gênero – o choque entre os sexos. É um rol meramente exemplificativo, mas dá conta do sentimento de incompreensão advindo da incapacidade natural para se imaginar no lugar do outro.

O solipsismo aponta para essa falha e, pelo fato de não sermos perfeitos, põe em xeque toda a nossa capacidade de conhecer. No entanto, tal apelo só teria efeito completo se nossa constituição fosse puramente racional, como a matemática. Dentro de suas regras, podemos pedir por respostas certas. Diante de nossos problemas diários, as operações matemáticas passam por ótimo porto seguro. Não é à toa que, em linguagem técnica, as ciências matemáticas sejam as únicas que ainda falam em prova.

Em outros ramos, falamos apenas em evidências, que são elementos que usamos para confirmar nossas hipóteses. De certa forma, nunca alcançaremos evidências suficientes para provarmos em definitivo que nossas hipóteses são verdadeiras – e, mesmo que conseguíssemos, poderíamos usar do solipsismo para duvidar da validade delas. Com isso, quanto mais certeza queremos ter sobre determinado assunto, mais evidências devemos coletar e conferir se elas confirmam ou refutam nossa impressão.

O solipsismo – ou a dúvida absoluta – dá espaço, então, para a dúvida guiada. Devemos duvidar de qualquer proposição que não venha acompanhada de evidências proporcionais à alegação e estarmos sempre dispostos a abandonar aquelas para as quais as evidências apontam em direção contrária [6]. Eis a força e a fraqueza de tudo: podemos coletar um número grande de evidências confirmativas, mas apenas uma negativa é o bastante para que sua validade seja questionada.

É o máximo que conseguimos obter de nossos sistemas cognitivos limitados, mas tem se mostrado satisfatoriamente eficaz. O gosto pelo absoluto e o repúdio pelo incompleto parece ser uma lembrança de nossos cérebros primitivos que acabam por vacilar quando não há segurança que nos guie a determinado comportamento. O solipsismo é útil para que abandonemos certas crenças, mas fazer dele uma crença maior é votar pela inércia de dispensar avanços em prol de um conhecimento absoluto que muito provavelmente nunca teremos.

Notas:

[1] DESCARTES, René. Meditationes de prima philosophia, in qua Dei existentia et animæ immortalitas demonstratur. Original latim com traduções para o inglês e o francês disponível em: <http://www.wright.edu/cola/descartes/>. Acesso em 18 abr. 2011.

[2] POE, Edgar Allan. A dream within a dream. Poema disponível em <http://www.poemhunter.com/poem/a-dream-within-a-dream/>. Acesso em 18 abr. 2011. [em inglês]

[3] BARCA, Pedro Calderón de la. La vida es sueño. Peça completa disponível em <http://es.wikisource.org/wiki/La_vida_es_sue%C3%B1o>. Acesso em 18 abr. 2011. [em espanhol]

[4] Inception, dirigido por Christopher Nolan. Warner, 2010. IMDb: http://www.imdb.com/title/tt1375666/

[5] The Matrix, dirigido por Lana Wachowsky e Andy Wachowsky. Warner, 1999. IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0133093/

[6] RUSSELL, Bertrand. O valor do ceticismo. In: RUSSELL, Bertrand. Ensaios céticos. Trad. por Maria Motta. Porto Alegre: L&PM Editores, 2008. Original inglês disponível em <http://www.positiveatheism.org/hist/russell4.htm>. Acesso em 21 abr. 2011.

Na acepção que nos interessa neste texto, o vocábulo grego lógos (λόγος) significa a faculdade do homem de raciocinar [1]. E é exatamente nessa acepção que encontraremos o termo latino ratio [2]. A ambiguidade aparente do termo “razão”, em português, vem de outra forma de interpretar a ratio: além da inteligência ou do intelecto, pode significar também o próprio princípio de inteligibilidade, o que nos diferencia, em tese, dos outros animais.

O mundo exterior não é racional no primeiro sentido, porque, até onde sabemos, não podemos projetar intencionalidade no universo. Não há uma mens que raciocina por si. De acordo com todo o conhecimento coletado até agora, somos as únicas formas de vida conhecidas na vastidão que enxergamos lá fora. E, aqui dentro, o pensamento é um fenômeno que não existe sem o substrato cerebral, presente apenas em alguns tipos de animais com sistema nervoso central e mais reservado àqueles com capacidade superior de abstração. Se, ainda assim, nos separamos dos outros, é por nossa capacidade de expor tais pensamentos através da linguagem.

No entanto, dadas as regularidades das constantes da natureza e a nossa capacidade de abstrair padrões – às vezes até mesmo onde não existem –, é possível racionalizar a existência em todos os seus traços. Foi com esta ideia de razão que criamos a filosofia, que se expandiu para as mais diversas áreas, e mais recentemente a ciência, em sua acepção atual, que abarca praticamente todos os fenômenos conhecidos. As alegações recentes de impossibilidade de racionalização saíram do mundo externo, pois a abrangência científica já demarcou os pontos mais diversos que podemos imaginar. Ficamos, então, restritos a certos comportamentos humanos ou a certas manifestações que julgamos serem únicas de nossa espécie.

Notadamente, as áreas que mais tentam livrar-se do cunho da racionalidade são as religiosas ou as artísticas. Note-se que o pretenso destaque do escopo da ciência só se realiza se tomarmos por base aquele grupo de ciências naturais que costumamos simplesmente designar “ciências”, como a física, a química e a biologia. Por mais que elas também estudem constituições do ser-humano, entende-se que a sua abordagem é meramente mecânica, como quando estudamos as funções e o funcionamento de nossos sistemas, desde o digestivo e o respiratório, até o nervoso e o reprodutivo.

Em termos filosóficos, sempre tivemos autores que tentaram racionalizar a arte e a religião. Aristóteles escreveu vários tomos sobre o primeiro termo e a própria palavra grega para “arte” significa simplesmente “técnica” (τέχνη). Os títulos latinos para suas obras são ainda mais interessantes, como Ars rhetorica (τέχνη ρητορική) ou Ars poetica (περὶ ποιητικῆς), e nos revelam um sentido para o vocábulo “arte” que usamos hoje em dia, de forma mais displicente: quando um indivíduo demonstra notável destreza em seu campo de atuação, dizemos que é um artista, dizendo, na verdade, que simplesmente possui técnica apurada e criatividade avantajada, como no caso de jogadores de futebol ou praticantes de xadrez, mas também de bons funcionários ou administradores.

Sobre a religião, vários autores se aventuraram a discorrer sobre seus fundamentos, bem como tentaram usar a racionalidade filosófica para justificar a (in)existência de deus(es). Desde os aforismos de Epicuro, até os teólogos medievais Agostinho e Tomás de Aquino, culminando nos extensos escritos de Hume sobre a religião. E, ainda depois disso, com Voltaire, Leibniz e Espinosa. Filosoficamente falando, religião e arte, conclui-se, não estão fora do escopo da razão, pois são objetos tratados por vários ramos, desde a teologia até a estética, não importando a provável naturalidade de tais traços.

A ciência também lida com os dois construtos humanos. E muitas vezes aplica o método científico strictu sensu para tal. Partindo de manifestações sociais, os sociólogos clássicos da escola francesa já estudavam os costumes religiosos, enquanto se expandiam para além das fronteiras europeias – surgiu assim a figura do bon sauvage, tão famosa na literatura da época [3]. Para mais perto de nosso tempo, tivemos a expansão para as civilizações dos arquipélagos do Oceano Pacífico, com mais estudos sobre os nativos e o acompanhamento de uma religião que nascia dali: o caixismo ou o culto à carga [4]. Em nosso país, até hoje antropólogos visitam tribos isoladas e que, não raro, nunca tiveram contato com o “homem branco”. De seus estudos, saem vários tratados interessantes, como a série de relatos sobre a tribo dos Pirahãs [5].

E vamos ainda mais longe, quando tratamos dos traços universais que temos codificados em nosso DNA. A psicologia evolutiva trabalha de forma complementar às disciplinas sócio-filosóficas, como no caso da estética evolutiva [6][7]. O objetivo de tal disciplina é tentar enxergar as vantagens evolutivas dos mecanismos que nos permitem explorar a arte e a religião como formas culturais. Os estudos mais aceitos em comunidades especializadas dão conta da arte como produto acidental, pois é um uso diferente e novo para características isoladas que desempenhavam funções nobres para a nossa sobrevivência, como o reconhecimento de padrões na natureza, e para a seleção sexual, como os conceitos de beleza e agradabilidade [8].

Mesmo que se alegue que isso tudo não é realmente fazer arte ou participar de uma religião, a racionalidade não fica de fora da práxis. Nas artes, é inegável que entendemos melhor a música e a harmonia musical de um ponto de vista físico – com relação aos comprimentos de ondas das notas musicais – e matemático – com a noção de proporção entre as notas que, desde os gregos, nos dão escalas belas e agradáveis. A escala pentatônica, por exemplo, em suas várias modalidades surge com os estudos de Pitágoras sobre as divisões melódicas [9].

Saindo da música, a ideia de harmonia também contaminou a poesia, e basta citar a estrutura poética mais conhecida – o soneto. É a junção de dois quartetos e dois tercetos, com sílabas poéticas bem definidas e uma estrutura de rima variável, a depender do autor. Sua fórmula nada mais é do que a racionalização de um compasso musical que soa bem aos nossos ouvidos, ou seja, a teorização de algo que temos em nossa programação inata. Em ainda outras palavras: a justificação racional para a beleza percebida por nossos sentidos [10].

O mesmo pode-se dizer para a arquitetura, para a escultura e para a pintura. Esta última, aliás, desenvolveu-se de forma surpreendente quando os artistas ocidentais – notadamente a partir do Renascimento – passaram a aplicar avançados cálculos matemáticos para as proporções humanas. O famoso estudo do homem vitruviano de Leonardo da Vinci é pura e simplesmente a aplicação da proporção que o arquiteto e engenheiro romano Marco Vitrúvio Polião prescrevera para o corpo humano, já no séc. I a.C., e seguia os princípios arquiteturais de utilidade (utilitas), beleza (venustas) e solidez (firmitas) [11].

Quod erat demonstrandum, não só temos ótimas bases empíricas para decidirmos sobre as opções disponíveis, como também dispomos de grande arsenal racionalista para que nenhuma de nossas escolhas fique à mercê de arbitrariedades. Conforme avançamos e nos aprofundamos nas questões que sempre nos levaram ao autoconhecimento, resta pouco ou nenhum espaço para obscuridades. No fundo, não deixa de ser irracional – não no sentido de não usar a razão, mas de ser contra o que ela demostrou ser mais verdadeiro – que se alegue lacuna onde já não existe mais.

No mais, parece permanecer, a favor da crença em deus(es), o adágio latino geralmente atribuído a Tertuliano [12], que dá conta da crença no sentido mais peculiar para “fé”: o depósito de confiança em algo que se demonstra injustificável por quaisquer outros meios; a crença em algo para o qual não se tem a menor das evidências. Ficamos, enfim, com o poético mas tragicômico credo quia absurdum.

 

Notas:

[1] GOBRY, Ivan. Vocabulário grego da filosofia. Tradução de Ivone C. Benedetti. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

[2] FONTANIER, Jean-Michel. Vocabulário latino da filosofia. Tradução de Álvaro Cabral. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

[3] Página da Wikipédia sobre a idealização: <http://fr.wikipedia.org/wiki/Bon_sauvage>. Acesso em 03 abr. 2011. [em francês]

[4] Sobre o assunto, há um bom texto neste mesmo espaço: TEIXEIRA, Bruno. O início das religiões: o culto à carga. Disponível em: <http://deusnagaragem.ateus.net/2010/05/21/culto-a-carga/>. Acesso em 03 abr. 2011.

[5] Página da Wikipédia sobre o povo Pirahã: <http://en.wikipedia.org/wiki/Pirah%C3%A3_people>. Acesso em 03 abr. 2011. [em inglês]

[6] DE SMEDT, Johan. Toward an Integrative Approach of Cognitive Neuroscientific and Evolutionary Psychological Studies of Art. Disponível em <http://www.epjournal.net/filestore/EP08695719.pdf>. Acesso em 03 abr. 2011. [em inglês]

[7] DUTTON, Denis. Aesthetics and Evolutionary Psychology. Disponível em <http://www.denisdutton.com/aesthetics_&_evolutionary_psychology.htm>. Acesso em 03 abr. 2011. [em inglês]

[8] Sobre a religião como produto acidental, há outro texto neste mesmo espaço: MOURA, Jairo. Das origens da religião II: produto acidental. Disponível em <http://deusnagaragem.ateus.net/2010/12/15/1808/>. Acesso em 03 abr. 2011.

[9] Bobby McFerrin demonstrando que todos temos a escala pentatônica em nossa programação cerebral: <http://www.youtube.com/watch?v=ne6tB2KiZuk>. Acesso em 03 abr. 2011. [em inglês]

[10] Em português, Augusto dos Anjos tem, sem dúvidas, alguns dos mais belos sonetos. Para referência, “Versos Íntimos” é um ótimo exemplo. Há uma versão disponível em <http://www.releituras.com/aanjos_versos.asp>. Acesso em 03 abr. 2011.

[11] Página da Wikipédia sobre Marco Vitrúvio Polião: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Vitr%C3%BAvio>. Acesso em 03 abr. 2011.

[12] Página da Wikipédia sobre a discussão referente ao adágio: <http://en.wikipedia.org/wiki/Credo_quia_absurdum>. Acesso em 03 abr. 2011. [em inglês]