Monthly Archives: maio 2011

Quando surgiu a ideia de um periódico relativo ao mundo do ateísmo, os participantes do Fórum Ateus.net que organizaram o projeto discutiam o grau de independência que ele deveria ter no que diz respeito ao Portal. Não seria somente mais um braço, como os outros existentes, mas um espaço diferente, com características próprias. Em resumo, não seria algo do Ateus.net, mas algo que envolvia participantes do Ateus.net.

No entanto, de uma forma ou de outra, essa implicação era inevitável, pois toda a logística depende do Portal – desde o domínio de internet até o fórum de discussões editoriais. O que realmente diferenciava os dois era a independência intelectual, pois, aqui, não existia hierarquia, mas igualdade de voz entre os participantes. Depois de decidida a linha a ser seguida, foi ela que se transformou em norte para as decisões e ela permaneceu soberana por todo esse tempo, independentemente de quem estivesse no corpo de editoração.

Por motivos quaisquer, fui o último a permanecer ativo. E acredito que, por mais que exista, hoje em dia, maior número de publicações de cunho ateísta, não poderíamos deixar que este espaço fosse perdido. Não será difícil encontrar blogs sobre o assunto, mas não somos apenas mais um. Tivemos mais de duzentas publicações autorais que prezaram pela qualidade e pela relevância das informações. Todos os textos foram cuidadosamente selecionados e plenamente discutidos e melhorados, na medida do possível.

Portanto, não deixa de ser com tristeza que venho anunciar o encerramento por tempo indefinido das atividades da revista eletrônica Um Deus na Minha Garagem. É certamente o fim de um ciclo, mas não será a morte, e sim a reciclagem do que se mostrou satisfatório: a partir de junho, surgirá uma revista que passará a integrar o corpo editorial do Portal Ateus.net.

Em respeito à história e à imagem deste espaço, todas as publicações ficarão aqui disponíveis, tais como estão. Nenhum texto será modificado ou reaproveitado de qualquer forma na nova revista. A linha editorial será diferente e o corpo será composto por André Cancian e por mim, Jairo Moura, com a possibilidade de textos estrangeiros, meticulosamente selecionados.

Contatos:

André Cancian: cancian@ateus.net

Jairo Moura: jairo@ateus.net

Quando dizemos que o mundo físico, externo a nós, existe, independentemente de nós, queremos dizer que ele existiu antes do advento do ser-humano e continuará a existir, se um dia viermos a perecer. Por mais que nós não possamos comprovar essa alegação pessoalmente, parece bem provável que ela seja verdadeira.

Nossa criatividade é impressionante e, para o bem ou para o mal, podemos aventar várias explicações para o que observamos ou simplesmente vivenciamos. Essas explicações podem ser úteis nas mais diversas formas, desde que supram a nossa necessidade de entender ou de sentir conforto e segurança.

No entanto, elas só serão úteis se acreditarmos em alguns pressupostos: 1) que a verdade objetiva, isto é, independente de nós, de alguma forma existe; 2) que podemos, senão alcançá-la, chegar perto dela; 3) que temos um método razoavelmente eficiente para isso.

Se o pressuposto 1) for falso, nossa busca pela verdade não é apenas infrutífera, mas também não teremos nenhum padrão para julgar sua veracidade; se 2) for falso, teremos um padrão para julgar, mas será apenas o de nossa infinita falha e esta crença não restará justificada; se 3) for falso, em princípio, só precisamos criar um método que supra nossa necessidade.

De toda forma, se a hipótese solipsista estiver certa, e se formos realmente somente o ser pensante em um mundo falso, aparente, ainda precisaremos de uma forma de conviver neste mundo, de interagir com ele; falso ou não, parece ser o único que temos, a menos que se alegue ser preciso morrer nele para atingir um mundo novo, real – uma espécie de paraíso.

Como se questionam até mesmo os dados empíricos, não há senão a Navalha de Occam para dirimir a discussão. Trata-se de um princípio valioso na averiguação de hipóteses concorrentes. Dessa forma, ao decidir sobre uma colisão delas, devemos seguir a mais simples, por uma questão de elegância e por exigir menos variáveis, quanto mais questionáveis forem.

Na impossibilidade de termos um referencial externo a nós mesmos, ficamos com a) nosso conhecimento sofre limitações biológicas, bem explicadas por conta de nosso processo evolutivo, mas temos certo acesso à verdade; ou b) não temos acesso nenhum à verdade e toda essa ilusão é criada por algo que não conhecemos sem sabermos com qual propósito.

Até que tenhamos boas razões para largar a hipótese mais parcimoniosa, é de bom tom que não o façamos; se só conseguimos enxergar os fenômenos, que entendamos que eles apontam para a coisa-em-si, por mais inacessível que se a julgue. E tenhamos em mente, principalmente, que o fato de existir algo para o qual se aponte coincide com a nossa versão de mundo objetivo.

Independentemente de buscarmos algum sentido específico de verdade, devemos ter em mente o que realmente buscamos. Falsidades podem ser reconfortantes, mas, se não queremos nos enganar, resta-nos passar por uma espécie de auto-adestramento para que os nossos métodos pessoais conduzam aos nossos objetivos pessoais. Fora de nós, o êxito logrado por outros métodos consiste exatamente em extirpar essas discrepâncias intersubjetivas, em busca de conhecimento que, na medida do possível, independa de nós.

O que importa, afinal, é entender que essa verdade objetiva é uma meta, e que os nossos mecanismos subjetivos de produção de verdade são meios de tentar alcançá-la. A verdade subjetiva – em suas mais diversas formas –, torna-se, ao invés de uma entidade metafísica inquestionável, a construção de ferramentas para encontrar as melhores formas de caminhar até ela.

Resta agora diferenciar essa realidade objetiva do mundo das ideias, conforme Platão o descreveu. Para ele, tal mundo também se contrapunha à deficiência dos sentidos – ao mundo sensorial –, mas a sua solução não era descartar o ser-humano, e sim encontrar, a partir dele, formas eternas e imutáveis, possíveis por ser o homem dotado de uma alma.

O mundo objetivo, por outro lado, existe independentemente do ser-humano, por mais que nós sejamos a única forma conhecida de contemplá-lo e de atestar-lhe a existência. Não é imutável e não possui formas eternas. Em nossa cabeça, o mundo objetivo é o esforço mental para representar a realidade sem a interferência de cérebros programados para executar funções específicas.

 

Leituras recomendadas:

HARRIS, Sam. We are lost in thought. Disponível em <http://www.edge.org/q2011/q11_12.html#harriss>. Acesso em 07 maio 2011.

PLATÃO. Timeu. Disponível em <http://en.wikisource.org/wiki/Timaeus>. Acesso em 07 maio 2011. [em inglês]

SAGAN, Carl. Admiração e ceticismo. Disponível em: <http://ateus.net/artigos/ceticismo/admiracao-e-ceticismo/>. Acesso em 07 maio 2011.

______. Podemos conhecer o universo? Reflexões sobre um grão de sal. In: O cérebro de broca. Lisboa: Gradiva, 1987.