Author Archives: T. H. Abrahão

Thiago Henrique Abrahão tem 25 anos e mora em São José do Rio Preto-SP. Cursou Filosofia na Unicamp e, atualmente, estuda Letras-Francês na Unesp-Rio Preto. É autor de A herança do silêncio (contos), Uni)vers.o.s. (poemas) e Litterae Bellerophontis (filosofia); no momento, trabalha na escrita e organização de um glossário filosófico. Contribui, como autor convidado, com a Revista de Literatura “Terceira Margem”, dentre outros projetos (acadêmicos ou virtuais).

Nas linhas a seguir, proporemos (mais) um agravo contra o modo de pensar religioso. Para tanto, tematizaremos nosso discurso a partir do conceito de Deus ex machina (em tradução literal, “Deus surgido da máquina”). A expressão latina advém do grego clássico (ἀπὸ μηχανῆς θεός), tendo sua origem no teatro helênico. Referia-se a um artificial, improvável, imprevisto elemento cênico, evento ou personagem inserido repentinamente em uma peça a fim de resolver o emaranhado da trama teatral.

No teatro grego, sobretudo nas tragédias de Eurípedes, havia muitas peças que, ao invés de serem concluídas com eventos humanamente possíveis, reais, concluíam-se com o surgimento de um deus que descia ao local da encenação por meio de um dispositivo rústico, parecido com uma grua. Esse deus, então, conectava todas as pontas soltas da história, explicando um ou outro acontecimento, de maneira que tal intromissão inesperada tinha o intuito de garantir o nexo da peça. Atualmente, aplica-se a expressão para apontar o desenvolvimento de uma história na qual não se leva em consideração sua coerência interna, sendo, pois, inverossímil o suficiente para que o autor termine-a com uma circunstância improvável — ainda que, na ficção, mais tolerável.

Tendo-se em mente os traços histórico-culturais acima, voltemos agora ao nosso século. Se nos for permitida uma comparação, podemos dizer que, no universo religioso, há uma atmosfera teatral que não fica atrás das mais notáveis tragicomédias gregas: há um roteiro (a Bíblia), personagens (os anhos), enredo (a vida), riso (a adoração), pranto (o desencanto), atores (os seres humanos), palco (o mundo) e encenação (o meio social). Paralelamente a esse fato, não é de se admirar que ainda hoje temos a conservação do artifício Deus ex machina a resolver dificuldades lógicas aparentemente insolúveis: quando diante de uma lacuna abismal, o que espera o crente a não ser a manifestação de seu deus, emaranhado no cordame que o desce até a ribalta para que conecte os pontos e traga nexo à estória de sua existência?

Nas querelas entre irreligiosos e religiosos, de modo mais — ou menos — previsível, muito do que se debate não passa de discussão inócua, ação de zigue-zagues retóricos em que, pela via do discurso, os advogados de Deus espalham suas caganitas argumentativas. Curiosamente, conclusões são alcançadas; conclusões que não têm o desejo de serem logicamente válidas, mas sim a pretensão de durar, para o bem — como acredita — ou para o mal — como ocorre. Os crentes e seus ataques especulativos são, pois, uma espécie de páreo de caramujos às voltas com o defeito da alienação; são portadores de uma doença crônica que espalha suas chagas pelo ar, disseminando raciocínios que, conquanto incoerentes, sempre seduzem os anêmicos; são, para resumir, arautos da fé que inevitavelmente empregam, nas discussões, a má-fé (uma expressão que poderíamos considerar como redundante).

DIAZ, Daniel Martin. Deus ex machina. Óleo sobre madeira. s/d.

Se atualmente resgata-se a artificialidade dessa espécie de desfecho explicativo absurdo — útil às artes cênicas, mas leviano nas artes reais —; se dificilmente podemos evitar que empreguem tal intervenção; se, diante da realidade, não nos é possível refutar a tese freudiana de que é impraticável ao homem viver apartado de sua crença, pois “a ilusão é estrutural e ineliminável”1, ao menos façamos o que nos é possível e rebatizemos o conceito com a denominação de Deus ex illusione (“Deus surgido da ilusão”), a fim de evidenciarmos com maior precisão a índole de seu uso por aqueles que não sabem ser outra coisa senão marionetes.

Esperamos, no entanto, que não contem com nossos aplausos.

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Notas

  1. FREUD, Sigmund. “Conferência XXXV: A questão de uma Weltanschauung”. In: Obras Completas. V. XXII. Rio de Janeiro: Imago, 1977.

Não é de se admirar que conflitos são inevitáveis quando existe algum tipo de escassez, seja ela de recursos naturais, de recursos humanos ou a falta de pura e simples sensatez (o que evidencia um atributo preocupante da atualidade: tudo pode ser pretexto para se iniciar um achaque — incluindo-se, aqui, as desculpas mais simplórias —). É o caso dos conflitos atuais que, por todo o mundo, fazem com que inocentes sejam alvos de insurreições que não se permitem mitigar. São verdadeiras disputas religiosas (que se iniciam como batalhas intestinas — e intestinais —) como as insurgências islâmicas no Magrebe, na Nigéria, nas Filipinas, no Oriente Médio, como a violência declarada entre xiitas e sunitas no Paquistão, como as agitações muçulmanas no sul da Tailândia1; 2.

A primeira impressão que nos surge é a de que, das três etapas de desenvolvimento de uma sociedade (selvageria, barbárie e civilização), a última dificilmente é alcançada; e quando a ela se chega, nela não se permanece. Não é de se espantar que “o homem está sempre em estado selvagem. O que são os perigos da floresta e da pradaria comparados aos choques e conflitos diários do mundo civilizado? Enlace sua vítima no bulevar ou trespasse sua presa em florestas desconhecidas, não é ele o mais perfeito predador?”3. E, para nosso caso, tal predação resume-se a uma desculpa tão anêmica quanto as ideias que a fundamentam: aos islâmicos, se o todo-poderoso Alá está em todos os lugares e é o alicerce de tudo, a nós, contudo, tal ubiquidade não é um de Seus atributos: é, sobretudo, uma característica da ignorância de seus seguidores. Mas muitos conflitos deflagrados por muçulmanos radicais não ocorrem por acaso; tenhamos, de antemão, o fato de que uma das mais importantes fontes de conflito é a religião4, sendo a violência uma de suas partes integrantes5; por conseguinte, corrobora-se a ideia de que “todas as religiões são, em seu mais profundo nível, sistemas de crueldades”6.

Crueldades, atrocidades, truculências apontadas nos bastidores das guerras religiosas que, por sua persistência, trazem a impressão de que não são travadas para serem ganhas, mas para serem conservadas — como se o sangue inimigo, sempre a escorrer, fortificasse a idolatria e dela retirasse alento. Para sermos estatísticos notemos que, “segundo estimativas de um acadêmico, em todos os momentos do período de 1950–96, os conflitos religiosos constituíram 33–47% de todos os conflitos”7. Ainda que tais subversões preencham várias linhas dos anais da História, tais conflitos não estão tão distantes de nosso tempo e de nosso espaço; se tomarmos por base o século XXI, observaremos que “o conflito no Afeganistão, na Caxemira, no Sri Lanka e em um número de Estados do Oriente Médio, ligado com o aumento do extremismo religioso, reforçou a visão de que há uma estreita e forte ligação entre a religião e o conflito. O conflito religioso não é, naturalmente, exclusivo à atualidade, mas existiu em várias formas na maior parte da História conhecida”8.

Não é por acaso que o Islamismo — e, ouse-se dizer, o Cristianismo, o Judaísmo e outras sandices similares — configura-se como obstáculo para o crescimento individual, social, científico e cultural dos povos, eternizando modelos enlatados de compreensão da realidade, perpetuando conveniências atrasadas, frases feitas, respostas prontas e idiotias doentias; isso tudo, saliente-se, a partir de uma distorção emocional conhecida como “fé”, sentimento de rebanhos alucinados que se submetem, com genuflexão mas sem reflexão, a um cão pastor que os controle — e dele imitando o rosnar. Tanto assim que não se pode deixar de confirmar que, merecedoramente, os seguidores das principais religiões monoteístas do mundo foram (e ainda são) ligados à violência radical9. O Islã, mais precisamente, “aceita o uso da violência para defender a fé em uma doutrina de guerras justas, a última etapa do jihad (que deve ser traduzida como esforço da fé, não como guerra sagrada)”10. Um esforço ameaçador, diga-se, que faz dos infiéis vítimas de homens-bomba, esta espécie de possíveis impassíveis que dificilmente bradarão, a plenos pulmões, Debelatum est! — não enquanto a religião islâmica entender a intolerância como um modo de suprir sua fraqueza teórica; nesse caso, o único grito que será ouvido será um estrondoso Allah Akbar! Mas talvez seja possível entender (sarcasticamente) essa problemática ao notar que, em linhas gerais, para um católico o Paraíso é um encontro de parentes em um clube de campo, mas para um islâmico é uma despedida de solteiro em um bordel repleto de virgens. E, como se nota pelos jornais, a tentação é grande.

Seja como for, tal esforço da fé significa, nas palavras de um islâmico, “opor-se à [sic] tudo quanto desagrada a Allah; e sob ponto [sic] de vista exógeno, ele (Jihad) significa combater o kurf – a incredubilidade[sic]/descrença com as palavras [com base no conhecimento da religião Islâmica] e acções”11. “Combater”, palavra da qual nem os próprios islâmicos estão protegidos, haja vista “o primeiro significado de jihad: a batalha não deve ser travada apenas contra os incrédulos, mas também contra os próprios muçulmanos, para anunciar ao mundo o selo da profecia e alcançar o Estado islâmico mundial”12. Visto isso, temos um cenário lamentável em que, quanto mais a humanidade progride, mais “a repressão cala fundo na alma dos que experimentam a secularização como agressiva e distorce sua visão religiosa, fazendo-a violenta e intolerante”13. Podemos, destarte, salientar o que se segue: “O que assistimos hoje? A um fundamentalismo sem fundamento. O que torna isso perigoso? Ninguém mostrar nada de fundamental”14.

Do que vimos até aqui, em um apanhado de estudos e dados preocupantes, podemos compreender a gravidade da situação. Um panorama que — se mudar — não mudará tão cedo; um quadro social em que a religião islâmica torna-se a cada dia uma desculpa mais forte e menos coerente para o assassínio de cidadãos inocentes, porque “infiéis”. Nesse ínterim, o que podemos aceitar a princípio é que “uma religião que coage a consciência não tem direito a ser tolerada”15. (Mas não deve haver preocupação quanto a isso: mesmo contrários que somos e contrariados que estamos, não nos explodiremos em lugares públicos para reafirmarmos nossas ideias.)

Por fim, e por esses — e outros — motivos, seria de bom-tom que os sectários de Alá pensassem duas vezes antes de iniciarem seus pronunciamentos com o célebre “Em Nome de Allah, Clemente e Misericordioso” (grifos nossos). Haveria algo de sarcasmo nessa epígrafe? Os fatos16 e as estatísticas dizem que sim.

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Notas

  1. The decade in international conflict. Global security. Stockholm International Peace Research Institute, Ploughshar, US State department. 2009.
  2. JONGMAN, A. J. World conflict and human rights map. PIOOM – Interdisciplinary Research Programme on Causes of Human Rights Violations. 2001/2002.
  3. BAUDELAIRE, Charles. Fusées – Mon coeur mis à nu. Paris: Gallimard, 1986. Apud BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire – um lírico no auge do capitalismo. Trad. de Hemerson Alves Baptista e Jose Carlos Martins Barbosa. São Paulo: Brasiliense, 2004. p. 220.
  4. One of the most important sources of conflict has been identified as violence carried out on the basis of culture, ethnicity and religion […].” [NEIL J. “Islam, conflict and terrorism”. In: Sipri yearbook. 2006. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.sipri.org/yearbook/2006/02/02C>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
  5. “[…] violence is an integral part of religion”. JUERGENSMEYER, M. “Sacrifice and cosmic war”. Terrorism and political violence. Vol. 3. Número 3. 1991. Apud NEIL J. “Islam, conflict and terrorism”. In: Sipri yearbook. 2006. p. 124-125. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.sipri.org/yearbook/2006/02/02C>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
  6. “[…] alle Religionen sind auf dem untersten Grunde Systeme von Grausamkeiten […]”. NIETZSCHE, F. W. Zur Genealogie der Moral. In: ______. Sämtliche Werke – Kritische Studienausgabe. Vol. 5. Giorgio Colli e Mazzino Montinari (orgs.). Berlim: De Gruyter, 1988.
  7. According to one scholar’s estimates, throughout the 46-year period 1950–96 religious conflicts constituted 33–47 per cent of all conflicts”. NEIL J. “Islam, conflict and terrorism”. In: Sipri yearbook. 2006. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.sipri.org/yearbook/2006/02/02C>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
  8. Conflict in Afghanistan, Kashmir, Sri Lanka and a number of states in the Middle East, coupled with the rise of religious extremism, has reinforced the view that there is a close and strengthening linkage between religion and conflict. Religious conflict is not, of course, exclusive to the present day but has existed in various forms for much of known history”. NEIL J. “Islam, conflict and terrorism”. In: Sipri yearbook. 2006. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.sipri.org/yearbook/2006/02/02C>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
  9. “[…] adherents of all the world’s major religions — Buddhism, Christianity, Hinduism, Islam, Judaism and Sikhism — have been linked to extremist violence”. NEIL J. “Islam, conflict and terrorism”. In: Sipri yearbook. 2006. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.sipri.org/yearbook/2006/02/02C>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
  10. “[…] accepts use of violence to defend the faith in a doctrine of just wars, the ultimate stage of jihad (which should be translated as exertion for the faith, not as holy war)”. GALTUNG, Johan. Religions, hard and soft. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.aril.org/galtung.htm>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
  11. WAHHAB, Mohammad Ben Abdul. Os três princípios básicos do Islão e suas evidências. Trad. De Mohammad Mbiavanga Fernando. 2003. Disponível na Internet (para download) via WWW. URL: <http://www.islamismo.org/tresprincipiosbasicos.doc>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
  12. “[…] el primer sentido del yihad: el combate no se debe librar simplemente contra los infieles sino también contra los propios musulmanes, para anunciar al mundo entero el sello de la profecía y realizar el Estado islámico mundial”. ÉTIENNE, Bruno. El islamismo radical. Madrid: Siglo veintiuno de España Editores, 1996, p. 173. Disponível (parcialmente) na Internet via WWW. URL: <http://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&lr=&id=eUUSkG7gU08C&oi=fnd&pg=PA1&dq=islamismo&ots=Y2FAUdRVNh&sig=kbdicUK2ShM0jLZJ5uy21-HvDDc#v=onepage&q=&f=false>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
  13. ARMSTRONG, Karen. Em nome de Deus – o fundamentalismo no Judaísmo, no Cristianismo e no Islamismo. Trad. de Hildegard Feist. São Paulo: Cia. das Letras, 2008, p. 406. Disponível (parcialmente) na Internet via WWW. URL: <http://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&lr=&id=DwDosH8b0xwC&oi=fnd&pg=PA9&dq=islamismo&ots=N001fJdr_w&sig=ek8rJf4FsHtT8i-b5azkfSuiZZQ#v=onepage&q=islamismo&f=false>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
  14. ABRAHÃO, T. H. Litterae Bellerophontis. São José do Rio Preto, 2008, p. 169.
  15. BAYLE, Pierre. Philosophical commentary on these words of Jesus Christ, Compel Them to Come in. Trad. de A. Godman Tannenbaum. Nova York: Peter Lang, 1987, p. 147. Apud FORST, Rainer. “Os limites da tolerância”. In: Novos Estudos – CEBRAP. Número 84, pp. 15–29. Julho de 2009. Trad. de Mauro Victoria Soares. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0101-33002009000200002&script=sci_arttext&tlng=in>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
  16. Religious conflicts – A collection of news and information related to Religious Conflicts published by Tribune Company sources. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.chicagotribune.com/topic/unrest-conflicts-war/civil-unrest/religious-conflicts/16003004.topic>.



Leituras recomendadas



Materiais multimídia disponíveis na Web

Por acaso imaginaste
Que eu iria execrar esta vida,
Fugir para o ermo
Por alguns dos meus sonhos
Se haverem frustrado?

Aqui me tens, e homens farei
Segundo minha imagem,
Uma raça de, a mim, iguais
A padecer, a chorar,
A gozar, a sofrer
E nunca a ti se render
Como eu![1]


Dentre deuses, heróis, erínias, gigantes e outros, Hesíodo, em sua Teogonia[2], relata o nascimento e a vida de Prometeu, um titã que roubara o fogo do Olimpo a fim de presentear os homens. Castigado por Zeus, foi acorrentado a um penedo para que um abutre bicasse continuamente o seu fígado. Esse mito poderia servir para alertar os beberrões sobre as consequências do álcool, mas sua motivação é outra: mostrar os efeitos advindos da subversão por não reverenciar os deuses. Fato é — ou melhor, mito — que Prometeu dispôs-se a fazer homens segundo sua própria imagem, de maneira que não precisassem, como ele, idolatrar os habitantes do Olimpo. A captura do fogo seria, pode-se dizer, algo como a busca do conhecimento.

BABUREN, Dirck van. Prometeu sendo acorrentado por Vulcano. Óleo sobre tela, 202×184 cm. Amsterdam: Rijksmuseum, 1623.

Não somos os primeiros, contudo, a resgatar a alegoria: como Goethe (que em 1774 escreveu um poema do qual os versos finais nos servem de epígrafe), outros autores escreveram a respeito da figura que representa, grosso modo, a ambição humana por conhecimento. Evidencia-se, pois, a problemática da rebeldia contra os deuses, tema que se interpõe até hoje no seio da humanidade — desde que civilizada. Vale dizer que Francis Bacon, já no fim do século XIV, afirmara que tudo o que podia ser feito pela elevação do espírito já tinha sido consumado pelos gregos e romanos; pouco (ou quase nada) restaria às gerações posteriores a não ser dedicar-se ao aprofundamento das obras já escritas. E aqui estamos nós, mito de Prometeu em mãos e alguma dose de atualidade.

Mas o que seria, nesse ínterim, a “vergonha prometeica”? Seria, em resumo, um sentimento que se apropria do ser humano quando este se defronta com a humilhante qualidade das coisas que ele mesmo concebeu — máquinas, instrumentos variados, computadores, novas tecnologias em geral. Tal comiseração, apontada por Günther Anders [3], surge de uma “[…] assincronia diariamente crescente do ser humano com o mundo de seus produtos”[4], de um desnível que resulta em uma perspectiva a partir da qual os homens se veem insignificantes diante de suas próprias criações. Obviamente Anders referia-se aos produtos tecnológicos concebidos pela civilização; mas não poderíamos nós, diante de tal conceito, apontar a ideia de deus como também um produto criado pelos homens e, do mesmo modo, capaz de nos fazer menores, bagatelas ontológicas, insignificâncias bípedes?

Ao que parece a humanidade gosta, por natureza, de se humilhar. E para tal cria meios pelos quais permite-se constantemente se deparar com o abatimento; diante dos frutos de sua obstinação, sejam eles ábacos, catedrais, debulhadoras, foguetes espaciais, supercomputadores ou mesmo deuses, tudo é espelho para que os homens se reflitam desprezíveis. Afinal, nossos fracos braços não são tecnologia capaz de colher, em um dia, vastos hectares de soja; nossas pernas não são tecnologia adequada para alcançarmos grandes velocidades; nosso cérebro não é tecnologia de ponta capaz de realizar, como os supercomputadores, trilhões de operações de ponto flutuante por segundo — ou, como o deus cristão, capaz de nos fazer ubíquos, oniscientes e onipoderosos. Ademais, como declarou Michael Löwy, “Deus está inextricavelmente associado ao processo de culpabilização universal”[5].

Dessa feita, infelizmente se descobre (muito tarde, vale dizer) que ideias metafisicamente excêntricas não nos podem curar os medos, as culpas e os males que a todo custo tencionamos ignorar — pelo contrário, os agravam. Um exemplo é o temor da morte (que nada mais é do que sequela do temor que se tem da própria vida), posto que “[…] os deuses não podem libertar os homens do medo, pois são as vozes petrificadas do medo que eles trazem como nome”[6]. Daí o embaraço em ser homem: suposto soberano em seu trono (no máximo, de porcelana), limitado à sua restrita realidade, atado a seus sonhos de grandeza e a tremer com os medos que o fustigam.

Novas e velhas técnicas, tecnologias, paradigmas, ideias; limitação humana; vergonha prometeica. O que poderíamos disso concluir? Dentre outras coisas (que ficam a critério do leitor), o que se segue: ironias à parte, a ideia de deus nunca poderá operar com a mesma excelência de uma cafeteira elétrica.

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Notas

  1. GOETHE, Johann Wolfgang von. “Prometheus”. Goethe’s Werke: Vollständige Ausgabe letzter Hand. II. J. G. Cotta’sche Buchhandlung: Stuttgart/Tübingen, 1827, p. 7778.
  2. HESÍODO. Teogonia. 700 a.e.c. (o texto, no original, pode ser encontrado no site do Perseus Digital Library.)
  3. ANDERS, Günther. Die Antiquiertheit des Menschen. Band I: Über die Seele im Zeitalter der zweiten industriellen Revolution. München: C. H. Beck, 1956.
  4. MARCONDES FILHO, Ciro. O espelho e a máscara. São Paulo: Discurso Editorial, 2002, p. 133.
  5. LÖWY, Michael. “O capitalismo como religião”. In: Folha de São Paulo, Caderno Mais!, domingo, 18 de setembro de 2005. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://antivalor2.vilabol.uol.com.br/textos/frankfurt/lowy05.html>. Acesso em 04 de fevereiro de 2010.
  6. ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. Dialektik der Aufklärung: Filosophische Fragmente. Gesammelte Schriften Adorno 3. Frankfurt am main: Suhrkamp, 1997.

Ridendo castigat mores. A máxima latina, que significa “rindo castigam-se os costumes”, foi adotada por, dentre outros, Jean-Baptiste Poquelin (vulgo Molière) e Gil Vicente, dramaturgos que faziam de suas peças ocasiões para evidenciar à plateia traços caricatos e criticáveis da sociedade. Seguindo com esse adágio — mas com uma pequena mudança para Ridendo castigat fidem, ou “rindo castiga-se a fé” —, esbocemos alguns comentários um tanto quanto (im)pertinentes. Afinal, se o que as religiões nos divulgam é geralmente um conjunto de ideias estapafúrdias e risíveis, é justo que também tenhamos a chance de fazer o mesmo. Não que tenhamos a mesma fértil imaginação daqueles que pregam palavras supostamente sacras, imbuídas de ideias genuinamente caricatas; não, não temos imaginação suficiente. Mas ao menos temos a sinceridade a nosso lado, e uma boa dose de sarcasmo.

Seja como for, reza a lenda que somos uma espécie sapiens, excessivamente sapiens. Aparentemente. Uma espécie que cobiça desvendar a verdade, seja lá o que a palavra signifique de fato; uma espécie que se diz especial porque talvez ainda não tenha descoberto a importância soberana dos micróbios — tão ou mais relevantes ao mundo do que nós — como a bactéria Propionibacter shermani, douta na arte da produção do queijo suíço (que, aqui, é uma bela metáfora para qualquer dogma religioso: saboroso, mas cheio de furos). Talvez o pior veneno ao homem seja a sua própria ideia de que seja o auge da cadeia evolutiva; embora tenha alguma razão, o pedantismo que disso advém o degenera.

E em sua busca incessante por verdades, por respostas, por serenidade, diante de um espelho deformado esgota-se em desculpas e pretextos os mais aberrantes. Os olhos da razão, se enxergassem, certamente notariam algo próximo dO Grito de Edvard Munch. Enoja, nesse sentido, as tentativas (ou tentações?) de decifrar o homem, o mundo, o cosmos a partir de nossas próprias fantasias; fazendo coro a Henry Miller, podemos dizer que “talvez não se descubra o segredo do universo num cu, mas seria muito mais interessante que o estudo de seu próprio umbigo”[1]. É a razão, pois, a grande culpada por eventualmente ir ao toalete; em sua ausência, quão humanos podemos ser… Ah!, a razão, esta que Martin Luther (o teólogo, não o King) chamava carinhosamente de Fraw Klüglin die kluge Rur — ou, em bom português, “dona sabida, a sábia puta”[2].

Fato é que enquanto trouxermos, dentro do crânio, o circo (de horrores?) que é nosso cérebro, nada haverá para fazer que não seja assistir ao espetáculo. O que é urgente, no caso, não é sabermos se há vida inteligente em outros cantos do universo; necessário é descobrir, primeiramente, se há vida inteligente aqui, nesta caricatura de astro. Depois, ora pois, partamos para outras questões também relevantes. Por exemplo, a de saber se há ou não há deus, ou deuses, ou deusas; a propósito, visto que existem n divindades no mundo, sejam elas “vivas”, extintas ou em vias de, é de se presumir que os crentes praticam em demasia o método da tentativa e erro. Um dia, quem sabe, acertam. Um dia… Pois agora o que se observa são mentes paradas que, por raramente terem ideias plausíveis, se fossem computadores estariam com o cérebro no screen-saver; se fossem televisores, no stand-by.

O interessante, nisso, é ainda hoje encontrarmos homens já formados, mulheres já maduras, pessoas que, já crescidas, ainda acreditam na salvação; e ainda troçam das crianças que esperam, em dezembro, a visita do bom velhinho. O que se torna difícil de compreender é que tais pessoas, quando crescem, abrem mão de Noel, mas não de Deus. Poderíamos imaginar que o espírito natalino seria como o sarampo ou a catapora: se já se teve quando criança, não se volta a contrair; e, no melhor dos casos, poderíamos idealizar que o mesmo ocorresse com a ideia de Deus. Mas, como se nota, esta não é uma simples catapora; é, antes, um vírus semelhante ao da gripe, que sofre mutações para se adaptar às circunstâncias.

Mas deus — ou Deus, como preferir —, sentimos muito por informar, não existe. E há uma boa prova para isso: se Ele existisse, se existisse e se fosse realmente bom e piedoso, haveria arquitetado um mundo com ar condicionado. E nós, assim como Nietzsche, só acreditaríamos em um deus que soubesse dançar — de preferência um tango argentino. É-nos impraticável, considerados esses critérios, acreditar na existência de deus; em qualquer um dos milhares que já passaram pela mente humana. Ainda que a Teologia — essa espécie de coitus interruptus pela qual (ou com o qual) nunca se chega verdadeiramente a uma verdade — venha tentando há séculos explicar a validade de sua hipótese (que só existe enquanto mentira), não podemos digerir o eixo-badeixo que é tal conceito. Não vivemos em Cucolândia das Nuvens; de lá, na verdade, emigramos. Talvez seja por isso que nossos critérios para chegar à verdade — ou a algo próximo disso — sejam bastante diferentes do critério empregado pela religião (algo como “par ou ímpar” ou congênere). Afinal, não é porque somos pessoas normais, naturais, humanas, comuns, que devemos ser lugares-comuns.

Desse modo, a nós as ingênuas fantasias semianalfabetas perdem seu efeito quando notamos que possuímos miolo — que de fato é mole, mas não o é conotativamente. Nossa postura é outra, não aquela seguida por muitos — que consiste no ato de segurar, com uma mão, um grosso e pesado livro que não entendem (ainda que tenham passado a vida inteira a estudá-lo), e com a outra a segurar outro livro, um de páginas em branco que é, afinal, sua cabeça. Não, definitivamente não somos de tal espécie — ainda que sejamos, como eles supostamente o são, sapiens. Não somos daqueles que dão graças quando recebem uma bênção, mas ignoram seu deus quando não carecem de auxílio. É por esse motivo em particular, e por outros mais, que a ideia de deus acaba por se assemelhar ao papel higiênico: só nos lembramos de sua existência quando dele, em desespero, precisamos.

Mas paremos por aqui, pois muito já se escreveu a troco de nada. E se as carolas e os beatos nos condenarem por termos, nestas linhas, trazido alguns sorridentes gracejos, seria interessante que pensassem melhor (perdoe-se a contradição) — pois, ora, caros religiosos, foram vocês que começaram…

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Notas

  1. MILLER, Henry. Opus pistorum. New York: Grove Press, 1941.
  2. LUTHER, Martin. Apud NIETZSCHE, Friedrich. Zur Genealogie der Moral; eine Streitschrift. Frankfurt: Inseln Verlag, 1984.

Diz a primeira lei de Newton: “Todo corpo permanece em seu estado de repouso ou de movimento uniforme em linha reta, a não ser que seja compelido a mudar aquele estado por causa de forças sobre ele aplicadas”[1]. Sim, sabemos que é uma lei da Física, mas curiosamente — e, vale dizer, metaforicamente — percebe-se a validade parcial dessa lei no que concerne ao pensamento: não mudamos nossas opiniões sem que haja, e aja em nós, um argumento com força suficiente para delas nos livrar. No entanto, ainda que ao religioso não faltem argumentos manifestos de sua miséria intelectual, a inércia de sua situação permanece. Nesse caso, outra força se apresenta: a fé. E esta, não é segredo, subjuga qualquer outra energia psíquica.

Não podemos, é claro, fazer com que o religioso saia de seu estado inercial porque simplesmente esfregamos em sua face razões para tal: é dele que deve partir o alento para a mudança. E se não aceitar, diante da comodidade que traz sua condição, nada podemos fazer a não ser virar-lhe as costas. Resta-nos, ainda assim, prosseguir com a maculação das inverdades que imperaram e imperam no seio da sociedade, talvez para fazermos nossa parte e ficarmos descansados quanto a isso. O que podemos dizer, para o caso, é a História nos narra acidentes de percurso, desastres que poderiam ser evitados não fosse a vontade humana, quiçá masoquista, de almejá-los. Mas, no que diz respeito ao mundo contemporâneo, “que tudo ‘continue assim’, isto é a catástrofe”[2]. E por sermos convivas de um mesmo tempo e de um mesmo espaço, não podemos ficar indiferentes a situações de calamidade que têm como protagonista aquele que mata e se mata, que se faz conivente quanto a tudo o que o rodeia.

Esse tal Homo religiosus, trazido a lume por Alister Hardy, esse ser no qual a vaidade e o equívoco se confundem, é mestre na arte de provar a existência não de Deus, mas da gritante “inércia das mentalidades” assinalada por Michel Foucault. Para tal espécime, o pensamento tornou-se simples bric-à-brac; a dúvida, mausoléu por se esquecer; seus pe(n)sares, feito Maria Madalena, surgem como rameiras vendidas para os abastados mendigos que são seus neurônios. Entretanto, seus pensamentos não são apenas suas rameiras, à moda de Diderot; são mais do que isso: tornaram-se autênticas amantes.

Mas não podemos lhes atirar toda a culpa, pois não são somente eles os responsáveis pela conjuntura da civilização atual; são, na verdade, apenas o fim de uma cadeia de eventos que se intensificou com a ampliação, nos últimos séculos, do conhecimento humano. “A enxurrada de informações precisas e diversões assépticas”, como apontou Theodor Adorno na primeira metade do século XX, “desperta e idiotiza as pessoas ao mesmo tempo”[3]; portanto, é útil — para não dizer imprescindível — que saibamos separar ideias de idéias. E isso, vale dizer, faz efeito apenas quando usamos nossa sensatez — nossa, não de outrem.

Se uma possível função do passado for a de nos aterrorizar, talvez a fim de não revisitarmos o que um dia fomos, é pertinente que aprendamos com rapidez a não repetir o que as ru(s)gas da História nos mostram; esta, sendo a grande desmancha-prazeres de nossas expectativas, se de fato nos serve para distinguir o hoje do ontem e, a partir dessa verificação, determinar possibilidades originais de transformar a atual situação humana [4], deveria ser melhor compreendida. Está nos anais, nas bibliotecas, nos sítios arqueológicos, nos museus espalhados pelo mundo grande parte de nossa história enquanto espécie, enquanto civilização; o que de todo passado podemos concluir é que, dentre outras coisas, um homem, quando livre, pode tudo — inclusive não pensar. E como já vimos esse tipo de liberdade em excesso… Resta, pois, impedir o repeteco.

Com isso, evidencia-se diariamente o mirmidão a se atolar na alienação sua de cada dia. Debater problemas racionais não é sua seara; o ânus da prova, o ônus da troça, estes lhe são íntimos. Note-se: o que não percebe é a fragilidade de seus argumentos, fracos demais porque são embasados em uma subjetividade maltrapilha; em argumentos “sagrados” que, validade vencida, pouco ou nada sustentam, provam, querem dizer; em falácias que, ingênuo, não percebe serem apenas falácias; em esfíngicos mistérios que, alheio, não compreende se tratarem de evidentes ironias. Disso conclui-se que o adágio Diga-me qual é teu ídolo e te direi quem és serve bem para separar os homens em duas espécies de pervertidos: os que acreditam nas verdades divinas e os que acreditam nas verdades humanas. Destarte, resta escolher o que abraçar, a partir das engrenagens enferrujadas do pensamento de cada um.

Mas, e repetindo, não nos esqueçamos: que tudo ‘continue assim’, isto é a catástrofe.

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Notas

  1. Corpus omne perseverare in statu suo quiescendi vel movendi uniformiter in directum, nisi quatenus a viribus impressis cogitur statum illum mutare”. NEWTON, Isaac. Philosophiae Naturalis Principia Mathematica. 1687. Apud LYRE, Holger. “Metaphysik im „Handumdrehen“: Kant und Earman, Parität und moderne Raumauffassung”. In: Philosophia naturalis, Vol. 49, Número 1, p. 5. 2005. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.uni-bonn.de/~lyre/paper/kanthand.pdf>. Acesso em 28 de dezembro de 2009).
  2. BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire, um lírico no auge do capitalismo. Obras escolhidas III. Trad. José Carlos Martins Barbosa e Hemerson Alves Baptista. 2ª Ed. São Paulo: Brasiliense, 1991, p. 174.
  3. ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos. 2ª Ed. Trad. Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Zahar, 1985. p. 15.
  4. FOUCAULT, Michel. “Nietzsche, a genealogia e a História”. In: ______. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 1978, p. 27.

A conversação só é fecunda entre os espíritos dedicados a consolidar a própria perplexidade.

Emil Michel Cioran

A nós, que exercemos o ofício da demolição, da implosão, da crise, da ruína, não nos compete apenas o uso de dinamite e marreta. Eis somente o primeiro passo. Nas palavras de Walter Benjamin, “só quem é capaz de aniquilar é capaz de criticar”; mas criticar, aniquilar um pensamento, só tem sustentação caso objetivar o desejo de uma reconquista: após abaixo o edifício, é nossa, sobretudo, a responsabilidade para erguer nova estrutura. Com isso, e diante do “desencanto universal” assinalado por Jürgen Habermas — mas pertencente a todos nós, pragmaticamente —, o que podemos fazer enquanto homens do conhecimento?

Em Hiroxima, um dos raros prédios que permaneceram de pé após a explosão da bomba atômica.

Em Hiroxima, um dos raros prédios que permaneceram de pé após a explosão da bomba atômica.

Destruir é virtualmente ordinário, banal; mas prosseguir, realizar o após, reconstruir o já demolido não é tarefa simples. Tampouco prescindível, posto que não podemos viver, enquanto animais racionais, sem respostas, imersos no vazio que nós mesmos arquitetamos. A razão, por conseguinte, tem o poder de agir e reagir, aniquilar e reconstruir; se por um lado nos deu a possibilidade de dividir o átomo, por outro nos legou a capacidade de arrasar com eventuais hiroximas. É, pois, a verdadeira fênix a renascer de seus próprios restos — e com eles se matar.

Nesse sentido, vale dizer que “a ciência moderna […] foi bem longe ao ‘provar’ que o homem partilha todos os demais atributos com alguma espécie do reino animal — com exceção feita ao dote suplementar da razão que o torna um animal mais perigoso. É o uso da razão que nos torna perigosamente ‘irracionais’ […]”[1]. Para não nos perdermos em discussões que, ao menos por ora, não nos interessam, tenhamos em mente o ponto-chave que aqui nos compete: a crítica, oriunda da razão, diz respeito a todos aqueles que almejam refutar ou amparar um pensamento. Ao ateu, que para ser tal necessita aniquilar a ideia “deus”, concomitantemente germina a obrigação de trazer nova interpretação, nova explicação à existência, ao homem, a tudo o que ficou sem embasamento após a supressão da garantia metafísica — agora colapsada — que outrora abonou sentido ao mundo.

Ademais, igualmente válido é àquele que nos nega, nos critica, nos pré-julga, nos enfrenta e nos pré-conceitua, trazer a lume a superação daquilo que critica (ou teme?). É muito simples desconsiderar um pensamento, porém extremamente difícil se torna apresentar considerações que o coloquem abaixo. O arranha-céu do livre-pensamento não desaba com fracos abalos: antes, é preciso destruir os pilares que o sustentam. Curioso, nesse caso, é que tais pilares só poderiam ser implodidos com o mesmo material que os constitui, a saber, a razão, o pensamento lógico, a lucidez, o bom senso.

Do contrário, diante de diatribes ingenuamente severas — sequelas, sobretudo, da ação dita racional de verdadeiras pocilgas mentais —, não podemos fazer mais do que insistir no fato de serem genuínas caganifâncias. Aqueles que insistem em resumir suas críticas a um balaio de lugares-comuns, de receitas que prescindem de ponderação crítica e consistência teórica, nada mais merecem que nosso mais franco ignorar. Nossa sorte é que seus promotores sempre estão dispostos a dar a outra face; e nós, o outro punho (dos muitos) da razão.

Que nos critiquem, é o que ansiamos. Que, como a eles fazemos, apontem em nosso discurso falhas, falácias, contradições. Mas que o façam direito, sem apelos à subjetividade, sem as típicas tolices que insistem em dar como esclarecimento — visto que ao lado dos juízos críticos repousa o imperativo de sobrepujar, não de evitar, o que se ataca. Para abreviar: ante o direito da crítica, o dever da superação.

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Notas

  1. ARENDT, Hannah. Macht und Gewalt. München: Piper, 1970.

Nosso tempo, esta atualidade, não se diferencia muito do que sempre foram as épocas em que a humanidade viveu. Seus traços divergentes, quando existiram, foram motivados pelas invenções tecnológicas e pelo conhecimento acumulado; mas em se tratando do homem, instintual como é, protagonista — e, ao mesmo tempo, antagonista — dos períodos históricos, arriscamo-nos a dizer que nada mudou: sua capacidade de perverter o mundo e a si mesmo tem, ainda, a potência para o impensável. No tocante ao conhecimento científico, se de fato suas descobertas não expulsaram completamente as alucinações humanas — pois apenas a recalcaram, como diria Sigmund Freud —, pode-se disso extrair o motivo de ainda observarmos toda sorte de crentes que, no passado e no presente, são também credores de nossa mais honesta comiseração.

É certo que com toda a reunião de informações de que dispomos, com toda nossa — da humanidade — bagagem cultural, não chegamos ao ápice do conhecimento, mas ao menos já estamos em elevada altura. E (não é preciso ter escalado o Everest para saber), em grandes altitudes o ar é rarefeito. Nosso hoje, pois, se entrega ao sabor das consequências do pensamento humano que, se por um lado trouxe tantas realizações e possibilidades, por outro preparou nossa própria dificuldade em respirar. Palavras como “desespero”, “náusea”, “angústia”, “abismo”, entraram para o vocabulário dos homens quando se notaram diante do espelho de sua própria razão. Mas esse é o preço a se pagar por pensar demais; e antes de criticarmos nosso reflexo e nossas reflexões saibamos que, com eles, também podemos sair desse estado de “aflição”. Isso tudo pode servir para corroborarmos Freud, mas, sobretudo, serve-nos ainda mais para que nos preocupemos com o sempre possível retorno dessa espécie de zumbi que se denomina Ilusão.

puzzlepieceIlusão que, talvez por ser um hiato mal ocultado — ou mesmo impossível de ser negado —, ainda nos incomoda porque, por mais que pensemos, não conseguimos extinguir a chaga. (Mesmo Nêmesis, personificação que punia os deuses gregos — e, por que não?, um poético sinônimo para “razão” —, não se daria ao trabalho de entrar em combate tão desleal contra um exército numeroso de tolos movidos a ressentimento: as armas da razão não os atingem.) Como salientou Jacques Lacan, “o sujeito humano está especialmente exposto […] a este tipo de vertigem que aparece e experimenta a necessidade de afastá-lo, a necessidade de fazer algo que o transcenda”[1].

Junte-se a isso o fato de que “[…] o conhecimento moderno não proporciona uma acumulação de certezas, e, sim, a proliferação de incertezas”[2] e teremos, cedo ou tarde, queira-se ou não, pese muito ou pese pouco, a necessidade gritante de nos render à gravidade das evidências: somos nautas em um cosmos que não existe para satisfazer nosso ego e nossas interrogações mais insuportáveis. O vazio que fica carece de medula; e somos, nesse e em muitos outros casos, muito semelhantes à natureza: temos, também, horror vacui[3]. Isso não significa, no entanto, que devemos nos render à possibilidade sorridente e gratuita de enchermos as lacunas de nossas investigações com lama e lodo. Se a violência extremamente agressiva com a qual somos açoitados é a arma imponente de uma realidade caracterizada por, queiramos ou não, ter exatamente nisso sua raison d’être, se a natureza não existe para nos acariciar, não é por isso que devemos recorrer à facilidade das respostas enlatadas — que podem, sem dúvida, ser um paliativo para a inquietação, mas que de modo algum podem ser consideradas respostas.

Preocupa, nesse ínterim, saber que diante de pessoas fracas o bastante para abraçar tais resoluções há a necessidade freudiana de preencher nosso vazio com algo que, sobretudo, nos coloque sobre o pedestal. O delírio coletivo está ali, grátis; basta aceitá-lo. Para isso, basta um pretexto. Para tal, basta um trauma. E, por fim, para isso basta simplesmente existir. As afirmações grandiloquentes e irresponsáveis são o combustível dos insensatos, e delas precisamos fugir para que não tenhamos, como a grande maioria, nossa individualidade, nosso caráter e nossa razão moldados com o barro da ignorância.

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Notas

  1. LACAN, Jacques. In: Discurso de Julho de 1953, em virtude da fundação da Societé Française de Psychanalyse. Trad. Maria Sara Mangaravite. 1953.
  2. OLIVEIRA, Francisca Bezerra de. “Concepção de sujeito em saúde mental”. In: Psychiatry On-Line Brazil, Vol. 10, Número 9, Setembro de 2005. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.polbr.med.br/ano05/artigo0905.php>. Acesso em 8 de dezembro de 2009.
  3. Expressão popularizada pelo latim, ainda que tenha origem grega (φρίκη του κενού), horror vacui diz respeito à tese aristotélica de que a natureza tem “horror ao vazio”; isto é, em um espaço hipoteticamente carente de matéria, naturalmente ocorreria a sucção de líquido ou gás para preencher o espaço. Para nossos propósitos, a expressão tem conotação metafórica: nossa mente não consegue viver sem respostas; logo, é abarrotada com sentidos — sejam eles coerentes ou toscos.

Que o leitor não se assuste com o título deste texto. Eis o que de imediato podemos dizer para quem pense em desistir de lê-lo. Além disso, poderíamos dizer que o intuito destas linhas não é outro senão explic(it)ar o significado de seu título — que ao final terá, como esperamos, sua parcela de sentido.

Comecemos pelo capital: διεντέρευμα, palavra oriunda do grego clássico, foi um neologismo criado pelo escritor grego Aristófanes em uma de suas mais importantes peças teatrais, a saber, As nuvens. Vejamos, antes de prosseguir com nossas considerações, o excerto no qual o termo aparece:

Strepsíades — E o que disse Sócrates sobre os mosquitos?

Discípulo — Ele afirmava que os mosquitos tinham o intestino estreito; ora, o canal sendo assim delgado, o ar passa com força até o rabo; depois, saindo pelo reto apertado, faz o ânus ressoar pela violência do sopro.

Strepsíades — Então o ânus dos mosquitos é uma trombeta! Três vezes feliz é o autor dessa intesti…gação.[1]

Como se nota, o comediógrafo jogou com as palavras para criar o termo “intestigação” partindo-se da reunião de “investigação” (διερευναν) e “intestino” (ἔντερον). Leve-se em consideração o humor presente na passagem acima, posto que o neologismo reflete, simultaneamente, uma alusão à investigação feita a partir do intestino dos mosquitos e, sobretudo, o caráter próprio da conclusão exposta por Strepsíades, qual seja, uma falácia — ou, para sermos poéticos e entrarmos na dança das palavras, uma espécie de flatulência do discurso, um tipo (típico) de fezes ilógicas.

Aristófanes trouxe à baila uma interessante e bem humorada crítica aos sofistas, tendo em Sócrates seu maior expoente. (Vale dizer, para efeito de justiça, que o pai da Filosofia não era, de fato, um sofista; tal interpretação aristofânica teve como ensejo tão somente a necessidade de pilheriar.) O que nos interessa é, no caso, a crítica proveitosa contra tais mestres das distorções retóricas. Mais do que isso: a ameaça desses pseudo-pensadores que não se importam em alcançar a verdade, mas sim em garantir, num debate, a persuasão — geralmente para fins desonestos. Para ser mais claro: “No caso específico de As nuvens, o que fica patente na crítica aos sofistas são os efeitos inesperados decorrentes do reino da palavra, o qual se pretende controlar: tão plástico e escorregadio, quanto traidor e incontrolável. Tudo isso, à revelia das boas intenções dadas por princípio.”[2]

Eis que se percebe o contratempo caso transferirmos, para o mundo atual, o excerto dAs nuvens e a crítica que há na peça como um todo. Passados mais de dois mil anos desde a primeira encenação da comédia aristofânica, o que notamos é um cenário no qual a maioria não sabe nada, mas sabe de tudo — menos, explicite-se, de sua estreiteza intelectual —; a lógica devem saber que a infringem, mas se esqueceram de que o sabem. Apesar dos riscos de generalizações apressadas, de modo geral os religiosos optam por argumentações que parecem assegurar tão somente a inutilidade de uma discussão: para eles, um debate torna-se proveitoso apenas se for possível dissimular, nos argumentos, a deficiência de seus equívocos. Em outras palavras, suas investigações intelectuais não passam de intestigações. E sabemos bem a consequência pragmática disso…

Pode soar estranho comparar o argumento “o ânus dos mosquitos é uma trombeta porque o canal delgado do intestino faz com que o ar ressoe ao sair” com um argumento contemporâneo (por exemplo, “Deus está além de nosso conhecimento” ou “a evidência de que Deus existe provém do que confirmam meus sentimentos”); mas, ao analisarmos mais a fundo, apontaremos com facilidade alguns princípios que ainda constituem o grosso das discussões atuais — ausência de evidência objetiva, falta de consistência lógica e presença de conclusões equivocadas, para citar apenas três.

Não é por acaso que, no século XXI — que nada mais é do que um século ainda VI a.e.c. com, claro, algumas dissimulações e equívocos a mais e melhor tecnologia —, Deus torna-se, a cada dia, uma palavra cada vez mais obscena.

Montagem a partir de RODIN, Auguste. Le penseur. Paris: Musée Rodin, 1902.

Montagem a partir de RODIN, Auguste. Le penseur. Paris: Musée Rodin, 1902.

Talvez a questão ainda persista porque o homem, como o conhecemos em suas circunvoluções, não mudou o bastante; e ainda, diga-se, tem a ilusão babuína de achar que terá sucesso em tapar com esparadrapo um corte extenso na jugular da razão. Lembremo-nos, por fim, da ideia trazida a lume por Michel Foucault, a respeito da loucura na idade clássica — mas que, como se poderá notar, tem sua validade ainda hoje —: “o louco também é detentor da sua verdade, mas essa verdade está oculta e, como ele não consegue alcançá-la, nem decifrá-la, então ele clama desesperadamente para que ela seja, enfim, revelada.”[3]

Sejamos loucos, mas não abusemos.

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Notas

  1. ARISTÓFANES. As nuvens. Trad. Mário da Gama Cury. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995. l. 167. (o texto, no original, pode ser encontrado no site do Perseus Digital Library.)
  2. RUBIÃO, Laura Lustosa. “A comédia e a ruptura dos semblantes: notas sobre ‘As nuvens’, em Lituraterra”. In: Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica, Vol. 9, Número 2, pp. 261-262. Julho-Dezembro de 2006. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.scielo.br/pdf/agora/v9n2/a07v9n2.pdf>. Acesso em 12 de dezembro de 2009.
  3. VIEIRA, Priscila Piazentini. “Reflexões sobre A história da loucura, de Michel Foucault”. In: Revista Aulas, Número 3, p. 20. Dezembro/2006-Março/2007. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.scribd.com/doc/16660368/Foucault-Historia-da-loucura-Artigo>. Acesso em 12 de dezembro de 2009.