Author Archives: Humberto Quaglio

Humberto Araújo Quaglio de Souza tem 33 anos e mora em Juiz de Fora, MG. Bacharel em Direito pela Universidade Federal de Juiz de Fora e Licenciado em História pela Universidade de Uberaba, é Advogado e Professor.

Em dezembro de 2007, em sua edição 2040, a Revista Veja publicou uma pesquisa que expõe o medo que boa parte do eleitorado brasileiro tem dos ateus. Segundo tal pesquisa, apenas 13% dos eleitores votariam sem reservas em um candidato ateu para presidente do Brasil. Dos demais entrevistados, 25% declararam que votariam “dependendo da pessoa”, 3% declararam não saber ou não quiseram responder, e 59% declararam que simplesmente não votariam em um ateu para a presidência da República.

Sem adentrar a questão da exatidão de tal pesquisa, é interessante notar que uma expressiva parte dos eleitores do Brasil não votaria em um candidato ateu. É mais da metade do eleitorado. É importante também levar em conta que um quarto dos eleitores, ao declarar que votariam em um ateu “dependendo da pessoa”, expressaram alguma reserva quanto ao ateísmo do candidato. Assim sendo, mais de 80% do eleitorado brasileiro vê o ateísmo como um atributo negativo em alguém que concorra a um cargo público eletivo.

Obviamente, os candidatos e seus respectivos partidos sabem disso. Em qualquer eleição se gasta muito dinheiro e, como em qualquer grande investimento, investidores sérios procuram obter o máximo de informações possíveis para garantir um bom retorno do que foi investido. Tudo aquilo que o eleitor considera defeito é cuidadosamente escondido na elaboração da propaganda, e nenhum candidato a presidente que pretenda vencer a eleição seria tolo a ponto de declarar abertamente que não acredita em deus.

Isto nos remete ao episódio nacionalmente conhecido das eleições para a prefeitura de São Paulo em 1985. Durante um debate, o então candidato a prefeito Fernando Henrique Cardoso titubeou ao ser perguntado se acreditava ou não em deus. FHC perdeu as eleições, e muito se discute se o resultado teria sido diferente caso ele tivesse respondido com firmeza que acreditava em deus. Mas é certo que o vacilo em responder uma pergunta tão direta certamente foi visto por muitos eleitores como uma confissão de descrença. Posteriormente, em suas propagandas eleitorais na televisão, FHC negou ser ateu e maconheiro, mas isto não evitou sua derrota naquele pleito (o programa pode ser visto em http://www.youtube.c…h?v=uyvWXZDlhNY ). É interessante notar que FHC, no mesmo discurso, falou de duas coisas que o eleitorado reputa igualmente ruins: o uso de entorpecentes e o ateísmo, como se ser ateu fosse algo socialmente tão reprovável quanto ser usuário de entorpecentes. Isso para não mencionar a comparação entre ateísmo e desrespeito ao sentimento religioso, que é um lamentável preconceito.

Se FHC é ou não ateu, só ele pode dizer. Para nós ateus é difícil pensar que alguém possa ser “ex-ateu”, mas na fauna humana encontra-se de tudo. Se FHC se atrapalhou para responder uma pergunta tão direta, pode-se pelo menos dizer que sua fé em alguma divindade não era a mesma da maioria do eleitorado paulista na época. De qualquer forma, alguns anos depois ele foi eleito presidente do Brasil e ninguém parecia mais se importar com o que FHC pensava acerca de deus. O assunto simplesmente não vinha à tona

Mas se, para um político, declarar-se ateu, de forma aberta, ostensiva, é uma espécie de suicídio eleitoral, a atitude contrária, ou seja, declarar-se fiel a alguma religião, rende votos. A ironia é notar que boa parte dos muitos políticos brasileiros envolvidos em escândalos de corrupção, e mesmo em diversos outros crimes, faz parte do grupo que usa o discurso religioso como alavanca para obtenção de votos. Em 1993, deus estava na boca do deputado envolvido no escândalo dos anões do orçamento, que atribui seus mais de cinquenta prêmios na loteria em menos de um ano à ajuda divina. Também estava na boca dos envolvidos nos recentes escândalos envolvendo o governo do Distrito Federal.

De tudo isto, só se pode concluir que a crença ou a descrença em deus não diz nada quanto à honestidade do candidato. Honestidade e desonestidade podem acompanhar igualmente a fé ou a incredulidade, e não há motivos para se temer um candidato ateu por causa do seu ateísmo, assim como não há motivos para se confiar em um candidato religioso em razão de sua religiosidade. Mesmo assim, enquanto a imagem do ateu como ímpio e como sujeito sem valores éticos e morais estiver presente no imaginário popular, o eleitor ainda terá medo de votar em ateus, e os candidatos ateus ainda terão medo de declarar publicamente seu ateísmo.

Não se passou ainda muito tempo desde que a internet começou a se popularizar. No Brasil, somente a partir de 1995 tornou-se possível ao público contratar os serviços de provedores de acesso à rede e conectar-se ao ciberespaço. Mas, desde então, os hábitos de milhões de pessoas se modificaram radicalmente, e hoje o acesso à internet é indispensável para muitas pessoas, especialmente no campo profissional. Logo no início da popularização da internet no Brasil, na segunda metade da década de 1990, tornou-se lugar-comum a ideia de que a rede promove ao mesmo tempo integração e isolamento. Inúmeras vezes já foi dito que hoje há muita gente que conversa todos os dias com pessoas do outro lado do mundo, mas não sabe sequer o nome de seus vizinhos.

Esta ideia é expressa, geralmente, como uma espécie de reprovação ao comportamento de quem cultiva mais relacionamentos virtuais do que reais. Condena-se tais relacionamentos como algo que promove o distanciamento entre as pessoas, ou a reclusão, ou hábitos antissociais. Talvez, em certa medida, esta ideia tenha algum fundamento. Fala-se em pessoas viciadas em internet, que não têm outra vida além da tela de um computador. Mas esses casos são uma insignificante minoria, e a internet, na verdade, revelou-se um poderoso instrumento de aproximação de pessoas que possuem algum tipo de afinidade, mas que jamais se encontrariam fora do ciberespaço. Os ateus são um bom exemplo.

Sou ateu desde antes da popularização da internet no Brasil. Acessei a rede pela primeira vez quando estava na universidade, em 1996. Antes disso, acho que conhecia pessoalmente no máximo uns dois ou três ateus. O isolamento era então muito grande. Imaginemos a seguinte situação: um católico praticante tem à sua disposição, em qualquer lugar do país, igrejas para frequentar e, consequentemente, sempre encontrará um grupo de pessoas com quem tenha afinidade. Se um cristão deseja conversar com alguém que compartilhe de suas crenças, facilmente encontrará interlocutores. Se este cristão se mudar de cidade, não terá dificuldades para encontrar outro grupo. Os ateus, antes da internet, dificilmente encontravam pessoas com a mesma cosmovisão, exceto, talvez, em cidades grandes de alguns países onde alguns grupos já se haviam organizado. Este isolamento era agravado pela forte oposição e até mesmo hostilidade que muita gente ainda tem ao ateísmo. O ateu, além de se sentir isolado, sofria maior pressão social para não manifestar seu pensamento, e manifestar publicamente ateísmo, mesmo que de forma corriqueira, em simples conversas, poderia trazer aborrecimentos para a vida social do descrente. Ser parte de uma minoria que desperta algum tipo de hostilidade sempre gera este tipo de pressão sobre o indivíduo.

É, portanto, inegável que a internet tenha ajudado, e ainda esteja ajudando, a mudar tal situação. Para quem queria encontrar interlocutores ateus e discutir assuntos relacionados a ateísmo ou religião, sem ouvir o discurso hostil contra os descrentes que, infelizmente, é tão comum, o ciberespaço é o “lugar” ideal, e é também uma ferramenta que reduz a sensação de isolamento. Mas, além disto, há outro aspecto importante a se considerar: a internet não só tornou muitos ateus visíveis uns para os outros, mas também ajudou, e muito, a tornar o ateísmo visível para a sociedade. Se, a cada dia, mais e mais pessoas acessam a internet e se inserem no mundo virtual, mais e mais pessoas também se deparam com os ateus, não somente com indivíduos isolados, à mercê da hostilidade e reprovação social, mas também como grupo que tem voz e se expressa sobre tudo que lhe interessa, principalmente sobre religião e política. É claro que os ateus, como grupo, também são hostilizados e recebem críticas. Mas tais hostilidades apenas aumentam a nossa visibilidade e mostram que, a cada dia, nos tornamos mais difíceis de sermos ignorados.

Quem digitar a expressão “ateu militante” em qualquer mecanismo de busca da internet encontrará diversos sites e blogs falando desta assustadora figura. O ateu militante é descrito por muita gente como um sujeito intransigente, intolerante, ignorante e arrogante, que se compraz em ofender a fé e a religião alheia. Muitos falam dele como uma espécie de fanático da ciência, um inculto que ignora a existência de vastos campos do saber, incapaz de pensar em outros termos que não os da física, química ou biologia. Há também alguns que não conseguem dissociar ateísmo de doutrinas políticas como o marxismo, e acham que todo ateu é um comunista seguidor de Stalin. E é comum, junto a estas descrições apavorantes, a expressão da opinião de que ateus têm o direito de ser ateus, mas que deveriam manter seu ateísmo reservado, sem alarde, como se a descrença fosse algo deselegante, ou constrangedor, e como se declará-la fosse um ato agressivo e socialmente reprovável: “Oh!, você é ateu?! Tudo bem, mas não espalha para não escandalizar as pessoas. Eu te respeito, mas tenho pena de você.”

Estas reações ao ateísmo militante são superficiais e até engraçadas, como costumam ser algumas reações emocionais a ideias contrárias. Mas elas também são um interessante objeto para reflexão. Por que muita gente se mostra tão irritada e incomodada com aquilo que chama de ateísmo militante? Penso que o primeiro passo nesta questão é definir o que é um ateu militante. Se duas pessoas discutem sobre uma palavra ou expressão, mas possuem conceitos diferentes para esta mesma expressão, tal discussão geralmente não chega a lugar nenhum. E este problema se torna mais grave quando a expressão discutida é vaga o bastante a ponto de nela caberem várias definições ou conceitos diferentes.

A expressão “ateu militante” me parece ser assim: é tão vaga que pode abarcar vários tipos de pessoas diferentes. A palavra “ateu” não me parece ser hoje muito difícil de definir, e não vejo razão para discutir seu sentido aqui. Mas a palavra “militante” torna as coisas um pouco mais complexas. Ela nos remete de forma imediata à pessoa que milita, que propugna, que luta por alguma coisa; ao contrário da pessoa inerte, inativa, acomodada. Em alguns casos, o sentido fica bastante claro. Associada, por exemplo, à palavra “advogado”, a palavra militante nos remete ao sujeito que exerce a advocacia, que está na “linha de frente” das lides forenses, que atua em processos e representa seus mandantes junto ao poder judiciário, ao contrário do sujeito que possui uma carteira de advogado, mas que exerce outra profissão. Mas que tipo de atividade ou de atitude faz de um ateu um “ateu militante”?

Se dissermos que é ateu militante toda pessoa que não esconde sua descrença em divindades, então o ateu não militante seria apenas aquele que não “saiu do armário”. Mas esta definição é vaga demais. Há pessoas que não escondem seu ateísmo mas também não o alardeiam, declarando descrerem em deuses apenas se o assunto surgir eventualmente, ou se forem indagadas diretamente sobre sua religião. É claro que não podemos chamar estas pessoas de militantes. Se, no outro extremo, dissermos que ateu militante é aquele que tenta a todo tempo convencer outras pessoas a se tornarem ateus, como uma espécie de pregador de um evangelho da descrença, e que pretende “desconverter” todo religioso que aparece pela frente, estaremos deixando de fora muita gente que defende publicamente o ateísmo e os ateus sem pretender “desconverter” ninguém.

Talvez seja mesmo inviável tentar traçar uma linha demarcatória exata entre o militante e o não militante, deixando a definição para cada situação concreta. Há quem escreva regularmente sobre religião, defendendo uma postura ateísta, e não se considera ateu militante; e há quem se limita a participar de grupos de discussão e chats na internet e se declare um militante.

Entretanto, qualquer que seja o critério que se use para se definir um ateu militante, ele nunca será justo se tentar classificar a todos da forma como vemos frequentemente na internet, que mencionei acima. Nem todo ateu militante deseja varrer as religiões do planeta, nem assume postura arrogante ou zombeteira diante das crenças dos outros, nem vê as religiões como a raiz de todos os males. Nem todo ateu militante é um marxista ou um sujeito incapaz de enxergar o mundo fora da ótica das ciências naturais. Se a maioria das tentativas de definição do ateísmo militante acabam sendo vagas ou imprecisas, estas definições que vemos muito frequentemente na rede são simplesmente incorretas, sintomas de preconceito e, certamente, de um pouco de medo.

Talvez a presença dos ateus na sociedade, que se torna a cada dia mais visível, principalmente por causa da internet, incomode aquelas pessoas que não estavam acostumadas a ver suas convicções confrontadas por quem tenha ideias diferentes. Esta desconfortável confrontação a suas crenças leva muita gente a esquecer que, em nossa sociedade, todos têm o direito de expressar suas convicções. Há quem pense que a mera discordância de uma crença religiosa, e a expressão pública desta discordância, é um desrespeito à religião. Isto demonstra certa imaturidade quanto à natureza de uma sociedade aberta, onde a crítica a uma ideia não é necessariamente uma agressão ou ofensa aos adeptos do ponto de vista criticado. O direito de “pregar o evangelho a toda criatura” vale para qualquer “evangelho” e para qualquer “criatura”.

Mircea Eliade, em seu livro O sagrado e o profano, conta a história de uma tribo de caçadores e coletores nômades que venerava um poste de madeira. Este poste sagrado representava o eixo cósmico. Segundo as tradições daquele povo, um ser divino, em tempos míticos, após ter fundado as instituições da tribo, subiu por aquele poste e desapareceu no céu. Desde então, a tribo passou a carregar o poste sempre consigo por suas andanças em busca de alimento. O tal pedaço de madeira era tão importante para aquele povo que até mesmo a direção que deveriam seguir em seu nomadismo era determinada pela inclinação do poste.

Prosseguindo em sua narrativa, Eliade conta que em uma ocasião o poste sagrado se quebrou. Para aquela tribo, isto representou o fim do mundo, literalmente. Em sua visão de mundo, condicionada por seus mitos e suas tradições religiosas, após a quebra do poste, não havia mais cosmos, não havia mais uma realidade ordenada, não havia mais sentido na vida. Apenas caos. A consequência foi que todas as pessoas da tribo, após vaguearem por algum tempo, simplesmente se sentaram no chão e lá ficaram, até morrer.

Esta história, para quase todos os membros de nossa sociedade, tem um aspecto tragicômico. É terrível pensar que várias pessoas permaneceram no mesmo lugar esperando a morte chegar, com fome e sede. Mas esta situação não deixa de inspirar uma impressão de absurdo, e mesmo de ridículo, em nossas mentes. Como é possível que um grupo de seres humanos pense que o mundo acabou só porque um poste de madeira se quebrou? Será que aquelas pessoas não seriam capazes de constatar que a vida poderia prosseguir normalmente sem o tal poste sagrado? Não poderiam ter elas experimentado levar a vida como antes? O filósofo que narra esta história, ao longo da mencionada obra, tenta mostrar as diferenças fortes nas visões de mundo do homem religioso e do homem profano. Não é minha intenção falar sobre este tema aqui. Quero apenas fazer uma comparação com uma situação que me parece análoga à narrada.

Na nossa sociedade e em nosso tempo, nem todos os indivíduos fazem da religião o centro de suas vidas. Talvez possamos até dizer que a maior parte das pessoas, mesmo que declarem ter uma religião, vivem quase todo o tempo sem sequer pensar sobre ela, lembrando-se ocasionalmente que existem coisas como igreja, culto, missa, padres ou pastores apenas quando alguém casa ou morre. Da mesma forma que existem pessoas que declaram beber “socialmente”, muita gente só pratica sua religião “socialmente”. Mesmo assim, nós ateus sabemos que é bastante comum que muitas pessoas, tanto as religiosas autênticas quanto as que praticam a religião “socialmente”, reajam como se estivessem escandalizadas quando alguém declara que não acredita em qualquer deus. Tais pessoas expressam uma espécie de reação de repulsa diante da escolha do ateu de viver sem a crença em entes sobrenaturais. Daí surgem as indefectíveis perguntas: “como você explica então a existência do mundo?” ou “que sentido você vê na vida sem deus?”

Eu sou capaz de apostar que a maioria das pessoas que fazem estas perguntas iria achar absurda a história da tribo que se deixou morrer só por causa do poste quebrado. Mas, será que as perguntas que elas fazem ao ateu não se parecem com a atitude dos nômades do poste quebrado? Achar estranho que alguém viva sem aceitar algum tipo de deus como explicação da existência ou como sentido da vida me parece semelhante à atitude de alguém que acha que o mundo acabaria se sua crença se revelar errada. Se você, caro leitor, é religioso, pense nisso antes de fazer aquelas perguntas a nós ateus. Nós apenas constatamos que a inexistência de divindades não é o fim do mundo…

Referências:
ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008 (a história da tribo encontra-se nas páginas 35 e 36).

Se um professor de história, em uma aula sobre a Grécia de antes do século VIII a.C., começar a falar sobre Aquiles, Odisseu ou Heracles como quem fala de Alexandre, de Carlos Martel ou do Marechal Deodoro, ou seja, como quem fala de pessoas de carne e osso, será visto, no mínimo, com estranheza. Muitos de seus colegas historiadores pensarão que este professor está ficando doido, como se estivesse tratando Asterix e Obelix como homens tão reais quanto Júlio César. Após as famosas descobertas arqueológicas de Heinrich Schliemann no século XIX, sabe-se que existiu uma cidade grandiosa onde hoje é a Turquia que, provavelmente, identifica-se com a Troia dos poemas homéricos. Mas dizer que tais descobertas confirmam a historicidade de heróis como Aquiles ou Odisseu equivale a dizer que os personagens gauleses de Uderzo e Goscinny existiram porque os romanos realmente conquistaram a Gália.

Contudo, se este mesmo professor de história, seguindo rigorosamente o texto de alguns livros didáticos de ensino fundamental e médio publicados no Brasil, disser que há três mil e duzentos anos um homem chamado Moisés libertou o povo hebreu escravizado no Egito e conduziu este povo durante vários anos por regiões desérticas como a Península do Sinai, e se disser que este povo, após tal andança, sob o comando de um chefe militar chamado Josué, conquistou a região hoje chamada de Palestina, poucas pessoas, inclusive seus colegas historiadores, acharão tal aula absurda. Por quê?

No Ocidente, sob o peso de séculos de hegemonia cultural cristã, as pessoas acham normal pensar que os relatos da Bíblia são históricos e não míticos. Mesmo entre pessoas não religiosas, é comum pensar que a narrativa bíblica, despojada de seus elementos miraculosos, como a passagem pelo Mar Vermelho ou a interrupção do movimento aparente do Sol através do céu, reflete acontecimentos históricos, e que os personagens mencionados em tais narrativas existiram, ao contrário do que se pensa sobre os semideuses gregos. Afinal, por muitos séculos a cristandade acostumou-se a pensar em Moisés, Josué ou Sansão como figuras históricas, e em seus feitos milagrosos e fantásticos como eventos reais que expressavam a intervenção divina na história.

Entre os séculos IV e III a.C., um grego chamado Euêmeros tornou-se célebre por sua interpretação racional dos antigos mitos de seu povo. Em sua obra Hierà Anagraphé, que chegou à nossa época apenas em alguns fragmentos, Euêmeros propõe explicar a origem dos mitos à luz da razão, lançando a hipótese de que deuses e heróis nada mais eram do homens que se destacaram por seus feitos no passado. Com o passar do tempo, a admiração das pessoas pelas obras destas figuras ilustres, e o culto à memória deles, fez com que fossem gradativamente divinizados.

A proposta de Euêmeros é um notável passo em direção a uma visão racional e dessacralizada do mundo, dos mitos e da História. Esta forma de encarar figuras míticas tornou-se inclusive conhecida como “evemerismo”. Assim, uma análise “evemerística” de uma personagem mitológica, a “evemerização” dela, é o ato de propor uma visão racional da figura em estudo, deixando de lado os elementos sobrenaturais que acompanham o herói, semideus ou deus em questão. Contudo, tal atitude pode se revelar um obstáculo a uma análise objetiva da origem do mito, pois a propositura de uma explicação evemerística para a personagem mitológica ou religiosa pode ser apenas um desejo de se preservar algo de uma tradição religiosa cujas origens possuem poucas fontes históricas disponíveis. Basta pensarmos na seguinte situação: nós não vemos hoje a menor necessidade de postular ou de investigar um “Odisseu histórico”, ou um “Perseu histórico”. Mas, para os antigos gregos, cuja civilização passou por um processo de racionalização desde os tempos de Homero (outra figura possivelmente lendária) aos tempos de Euêmeros, optar por dizer que seus heróis um dia existiram, mesmo que como homens comuns, seria melhor do que admitir que tais figuras não possuíam qualquer historicidade.

Voltemos à figura de Moisés. A Bíblia, no livro de Êxodo, pelo menos nas traduções mais populares na nossa língua, afirma claramente que Deus concedeu poderes a Moisés. Poderes. Algo que o diferencia dos demais mortais e o aproxima de figuras como os semideuses gregos. Com tais poderes, segundo a Bíblia, Moisés derrotou uma das maiores potências militares e políticas do século XIII a.C., o Egito. É um relato cujos elementos miraculosos equivalem a qualquer mito que narra intervenções divinas na História, como os deuses tomando partido por um ou outro lado na guerra de Troia. No entanto, como seria possível “evemerizar” tal narração? Retirando-se os elementos miraculosos do Êxodo, resta a difícil tarefa de explicar como um povo desarmado e escravizado, sem recorrer à sublevação violenta, de repente deu as costas aos seus antigos senhores e fugiu do Egito. Sigmund Freud, em sua obra Moisés e o Monoteísmo, tenta dar uma explicação “evemerística” para o Êxodo. Para Freud, resumindo superficialmente, Moisés era um egípcio importante, provavelmente de origem nobre, partidário do faraó Amenófis IV, que mudou seu nome para Akenaton e estabeleceu a mais radical reforma religiosa da história do Egito antigo, instituindo o monoteísmo, em clara afronta ao poder dos sacerdotes de Amon. A reforma de Akenaton não sobreviveu ao faraó. Freud propõe então que Moisés tenha sido um dos seguidores do monoteísmo de Akenaton que, aproveitando-se do breve período de caos político surgido logo após a morte do faraó, liderou um povo de escravos semitas que vivia no Egito e impôs a ele sua religião.

Sem querer criticar as hipóteses psicanalíticas que Freud expõe na referida obra, na qual ele tenta mostrar como certas ideias aplicáveis a indivíduos se adequam a grupos humanos, o livro Moisés e o Monoteísmo é um bom exemplo de evemerização. Freud parece querer salvar a hipótese da existência histórica de uma figura muito importante para o judaísmo e o cristianismo. Entretanto, muitos dos argumentos utilizados por Freud para sustentar a existência histórica de Moisés estão francamente ultrapassados e, naturalmente, pelos avanços da arqueologia e da história, hoje sabemos muito mais sobre as origens do judaísmo do que em 1938, data da publicação do livro. Sabe-se hoje que, nos períodos e lugares usualmente propostos para a permanência dos hebreus no deserto, não há qualquer sinal da estada de um povo. Nada foi encontrado na Península do Sinai que pudesse indicar uma jornada de quarenta anos de milhares de pessoas rumo à Palestina. Não há também qualquer indício da presença de um povo culturalmente homogêneo, como os hebreus, como escravos no Egito, apesar das evidências de intenso tráfego de pessoas de diversas origens, principalmente semitas, que habitavam sazonalmente o Egito em tempos de escassez em suas terras.

Tudo isto indica que tentativas de se buscar o “Moisés histórico” parecem ser tão promissoras quanto uma busca por um “Aquiles histórico”, ou um “Heracles histórico”. Moisés parece ser uma figura de historicidade tão plausível quanto os mencionados semideuses helenos. Mesmo assim, folheando vários livros didáticos brasileiros, de ensino fundamental e médio, encontraremos lá Abraão, Jacó, Moisés ou Josué, todos devidamente “evemerizados”. Tão inverossímeis quanto seus correspondentes gregos.

Referências:

Sobre Euêmeros e evemerismo:

ELIADE, Mircea. Mito e realidade. 6ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2007.

KURY, Mário da Gama. Dicionário de mitologia grega e romana. 6ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

A obra de Freud mencionada:

FREUD, Sigmund. Moisés e o monoteísmo. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

Sobre as pesquisas arqueológicas e históricas mais recentes:

FINKELSTEIN, Israel e SILBERMAN, Neil Asher. A Bíblia não tinha razão. São Paulo: A Girafa, 2003

Andando pelas ruas de qualquer grande cidade do Brasil, é inevitável topar com exemplos de crendice popular. No trajeto de ônibus da minha casa ao meu trabalho, vejo todos os dias diversos anúncios, cartazes, placas, panfletos e papéis diversos anunciando serviços de pessoas cuja ocupação é lucrar com a credulidade. A “Vovó Fulana” faz “energização”, a “Mãe Fulana” lê seu futuro nas cartas, a “Dona Fulana” lê sua mão, o “Pai Fulano” sabe a sua sorte pelos búzios e o “Pastor Fulano” abençoa seu dinheiro. É muito comum ver estes modernos feiticeiros anunciarem ser capazes de trazer de volta a pessoa amada que foi embora, tirar “olho gordo”, desfazer feitiços, mas há aqueles que prometem até tirar nome do SPC e do Serasa. Não penso ser correto afirmar que todos agem de má-fé, conscientes de estarem enganando seus clientes. Nem sequer penso ser possível avaliar quantos são enganadores conscientes e quantos agem de boa-fé. Mas é razoável pensar que, pelo menos, boa parte destes adivinhos são rematados vigaristas.

Porém, como este tipo de prática é vista pela cultura popular? Se é provável que boa parte da população acredita nestes sortilégios, é também razoável pensar que há muitas pessoas simples e sem instrução formal que não acreditam nestas práticas divinatórias. E isto talvez possa ser chamado de ceticismo popular. Não vou dizer que este ceticismo popular seja semelhante ao que se tem chamado de ceticismo contemporâneo, movimento ao qual aderem, em geral, pessoas que se declaram ateus, céticos, livre pensadores, brights etc. Este ceticismo popular pode se manifestar esporadicamente, não como uma completa visão de mundo que prescinde de explicações sobrenaturais para tudo na vida, mas diante de situações concretas, especialmente quando a desfaçatez de um eventual explorador da credulidade é muito grande.

É óbvio que tal ceticismo esporádico não se manifesta em todas as pessoas. Se fosse assim, não haveria nenhuma audiência para estes charlatões que costumam de vez em quando aparecer na mídia alegando serem capazes de transformar um ovo em uma galinha em poucos segundos com o poder do pensamento, mas este tipo de gente nunca obtém aceitação unânime.

No entanto, é curioso notar que, mesmo raramente, este ceticismo esporádico pode se manifestar até mesmo na cultura popular. Quero tomar como exemplo disto duas músicas do saudoso sambista Bezerra da Silva. Seus sambas são célebres por exaltar a malandragem, e até mesmo a bandidagem algumas vezes, mas são quase sempre muito engraçados e bem-humorados. Tenho um amigo que dizia que gostava de tomar doses diárias de malandragem ouvindo uma música do Bezerra todo dia. É claro que não podemos mencionar este compositor como exemplo de cético. Dizer que ele era uma pessoa religiosa talvez não seja exato, mas ele também não era ateu. Qualquer pesquisa em sua biografia na internet, como na Wikipédia, vai indicar que ele foi, em diferentes épocas, umbandista e evangélico. Mas, em algumas de suas músicas que exaltavam a malandragem, Bezerra deixou transparecer este saudável ceticismo, como em Zé Fofinho de Ogum, que conta a história do sujeito que dizia prever o futuro, começou a explorar a mulher de um delegado de polícia e se deu mal quando teve que enfrentar o marido dela cara a cara, e no famoso samba Pai Veio 171.

Um dos sambas mais conhecidos do Bezerra, e também dos mais engraçados, é o Pai Veio 171. Penso que ele é o melhor exemplo do que chamei acima de ceticismo popular. Ao longo da canção, o “Pai Véio” do título vai dando uma de suas “consultas”, dizendo ao “cliente” as oferendas que ele deve trazer para acabar com seus problemas. Tremendo estelionatário, como descrito no art. 171 do Código Penal Brasileiro. Não dá para segurar o riso à medida que o “Pai Véio” vai instruindo o “otário” a lhe trazer alimentos, bebida e dinheiro, informando inclusive que aceita cheque caso o pobre coitado não tenha dinheiro vivo. O samba atinge o auge quando o vigarista diz à vítima que seus problemas se acabaram, que ele terá “grande futuro” e pede ao otário que volte com mais pessoas, mas que não traga “ninguém duro”.

Algumas pessoas podem achar que as músicas mencionadas são ofensivas às religiões brasileiras de matriz africana. Não penso que seja assim. Bezerra da Silva fazia críticas bem-humoradas a vários aspectos da vida popular no Brasil. Se ele usou exemplos de vigarice inspirados em religiões afro-brasileiras, estes exemplos podem ser encontrados igualmente, em abundância, com inspiração em outras matrizes religiosas. Pululam em nosso tempo vigaristas com inspiração em religiões orientais, como o Hinduísmo, ou inspirados em doutrinas comuns no Ocidente, como as diversas correntes espiritualistas. Isto para não mencionar a crescente onda de vigarice inspirada no protestantismo neopentecostal, que vende quinquilharias tais como “água abençoada do Rio Jordão”, “chaves da fé”, crucifixos, além de orações, bênçãos, profecias, tudo sempre condicionado a prévio pagamento dos ludibriados fiéis, em franca oposição ao mandamento expresso na própria bíblia que eles dizem ser a palavra do deus deles (confira em Mateus 10:8). A vigarice e a pilantragem não têm preconceitos: podem inspirar-se em qualquer religião, seja de origem europeia, americana, asiática ou africana. Qualquer religião legítima, praticada de boa-fé (como penso que a maioria ainda é no Brasil), pode infelizmente ser usada por espertalhões aproveitadores para enganar otários e tomar dinheiro deles.

Aconselho ao amigo leitor que ouça o samba Pai Véio 171 do saudoso Bezerra, caso nunca tenha ouvido. Como disse meu amigo, será como tomar uma pequena dose de malandragem. E talvez, quando você olhar para um desses anúncios de pessoas oferecendo previsões, milagres, feitiços e sortilégios quejandos, poderá lembrar-se, com um sorriso no rosto, dos versos iniciais da música: Qué falá com Pai Véio vem agora / porque Pai Véio já qué ir se embora…

Estou convencido de que há um universo no qual existem deuses e onde tudo é possível: é o universo do cinema e da televisão. Os deuses lá são chamados de roteiristas e são onipotentes, visto que capazes de criar qualquer coisa que imaginem. O que quer que saia da cabeça de um roteirista de filmes ou séries de televisão, por mais absurdo que seja, ganha “vida” nas telas grandes e pequenas. É assim que vemos pessoas voando sem aviões, poderes mágicos, viagens no tempo, monstros improváveis, espíritos e tudo mais que constantemente brota das mentes férteis, e por vezes meio amalucadas, dos profissionais que ganham a vida inventando mitos.

Fiz referência a mitos propositalmente. O escritor romeno Mircea Eliade, célebre por seus trabalhos sobre filosofia da religião, faz uma interessante comparação entre os mitos religiosos antigos e a mídia de massa, em sua obra Mito e realidade. Diversos aspectos dos mitos antigos ligados à religião estariam presentes, ainda hoje, em manifestações culturais populares nos mass media, como os heróis das histórias em quadrinho ou na literatura. O homem contemporâneo, ao ler um romance ou uma revista em quadrinhos, estaria realizando um ritual de fuga do tempo ordinário, da realidade, e transportando-se para outro tempo enquanto está absorto em sua leitura, assim como o homem na Antiguidade ou em sociedades primitivas narrava seus mitos com finalidades religiosas para sair de seu próprio tempo e realidade ordinários e aproximar-se do tempo mítico em que os deuses atuavam diretamente no mundo. Esta semelhança entre mass media e mitos pode também abranger o cinema e as produções ficcionais da televisão. São de certa forma mitos adequados à vida profana, mesmo que tenham semelhança com os mitos religiosos.

Nós, seres humanos, temos grande dificuldade em pensar sobre a grandeza do universo. Mitos religiosos tentam muitas vezes exprimir a noção de pequenez do homem diante do mundo, mas nenhum deles me causa tanto assombro quanto pensar no que sabemos hoje sobre o cosmos. Uma rápida consulta a uma obra como o Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica, do astrônomo Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, nos fornece dados assombrosos sobre a grandeza do espaço e das coisas que nele existem. Nos nossos dias, qualquer pessoa medianamente instruída pode ter uma razoável noção do tamanho de nosso planeta. Qualquer pessoa com recursos financeiros suficientes pode viajar para quase todos os pontos da superfície dele. Então, para pensar sobre a grandeza do universo, podemos prosseguir por comparações. A estrela mais próxima de nós, o Sol, é aproximadamente um milhão de vezes maior do que a Terra. Um número tão elevado já nos apresenta uma dificuldade maior para abarcar uma superfície tão grande em nossas mentes. A galáxia em que vivemos possui aproximadamente cem bilhões de sóis, espalhados por um disco de cem mil anos-luz de diâmetro e dezesseis mil anos-luz de espessura. Não sei quanto a você, amigo leitor, mas eu confesso que neste ponto minha mente já é incapaz de visualizar algo tão grande. Não consigo comparar tais distâncias com aquelas que me são familiares. Esporadicamente, como muita gente, faço viagens de duas ou três horas, a uma velocidade aproximada de cem quilômetros por hora, percorrendo mais ou menos uns duzentos e cinquenta quilômetros, e o espaço percorrido, na minha cabeça provinciana, me parece considerável. Mas, imaginar uma distância que a luz, com sua velocidade de trezentos mil quilômetros por segundo, só possa percorrer em cem mil anos, é algo que está além da minha capacidade. E isso para não mencionar o fato de que existem milhares de galáxias no universo.

Um dia desses eu estava assistindo a um desses mitos profanos de nossa época, que nos tiram do nosso tempo ordinário. Era um episódio da série de televisão Star Trek: Voyager. É o típico exemplo de criação em que os roteiristas manifestam sua onipotência: eles criaram um enredo em que uma nave espacial é lançada, por obra de um alienígena, e meio sem explicação, para uma região de nossa galáxia bem distante da Terra. A tripulação, então, vê-se em cada episódio envolvida em diversas aventuras enquanto busca uma forma de voltar para casa. Neste mundo de ficção tal espaçonave é capaz de viajar mais rápido que a luz, algo que muita gente pensa ser impossível mesmo em teoria. Porém, no referido seriado, mesmo que a nave viaje em sua velocidade máxima, a tripulação não conseguirá chegar à Terra em menos de setenta anos.

Após assistir a um episódio do seriado a que me referi, lembro-me de ter lido um trecho do Alcorão, o livro sagrado do Islamismo. A sura dezesseis dá exemplos de coisas criadas pelo deus dessa religião. Neste relato, a divindade criou tudo em função do homem, como os peixes dos mares, para alimentação, os rios, para orientação, os cavalos e mulas, para transporte. Esta sura também insinua a ideia de que a criação é um sinal para os homens da existência de um “projetista”, o que nos remete ao argumento do desígnio, tão caro a muitos religiosos para afirmar a existência de deus. Mas quero mencionar um pequeno trecho que me chamou a atenção. O versículo dezesseis da sura dezesseis diz: “E criou pontos de referência. É pelas estrelas que os homens se guiam”.

Ora, a ideia de uma divindade colocando pequenos pontos luminosos na abóbada celeste apenas para ajudar suas criaturas diletas a se orientarem em suas viagens me parece um exemplo interessante de mito compatível com a mentalidade pré-científica do século VII. Sem considerar lampejos de genialidade antiga, como ocorreu entre os gregos (lembremo-nos de Eratóstenes e sua medição da circunferência da Terra), ninguém tinha sequer uma noção aproximada das grandezas do universo. Os mitos surgidos seriam adequados à estreita noção de distâncias, tamanhos e tempo que os homens tinham naquela época.

Uma comparação entre os modernos mitos profanos do cinema e da televisão e os antigos mitos religiosos sempre será problemática. Mesmo com as semelhanças entre eles apontadas por Mircea Eliade, as diferenças são muito significativas. O mito profano, mesmo que tire nossas mentes momentaneamente da nossa realidade, tem a função de entreter, diferente da função litúrgica religiosa da recitação dos mitos religiosos expressos em textos sagrados. Mesmo assim, não posso deixar de notar que um mito moderno, expresso em uma produção mediana feita para a televisão com intenção de divertir, levemente baseada em algumas informações científicas, me faz sentir muito mais próximo da grandeza do universo do que um antigo mito religioso antropocêntrico escrito com seriedade há mais de mil e trezentos anos.

Referências

  • ALCORÃO. Tradução de Mansour Challita. Rio de Janeiro: ACIGI, s/d.
  • ELIADE, Mircea. Mito e realidade. 6ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2007.
  • MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. 2ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1995.

Todos nós que cursamos o ensino médio (ou segundo grau, no caso dos mais velhos, como eu) provavelmente vamos nos lembrar de já ter ouvido falar em genes ou alelos recessivos e dominantes nas aulas de biologia. Definindo grosseiramente a noção de recessividade e dominância, o gene dominante, quando presente, sempre se manifestará, mesmo que haja maior número de genes recessivos. Mas passemos da biologia para a história.

Eric J. Hobsbawn, historiador britânico, escreveu um interessante livro intitulado A era das revoluções. A obra trata do período entre os anos de 1789 e 1848, sob uma perspectiva “primordialmente europeia” e “mais precisamente franco-britânica”, nas palavras do próprio autor (p. 13). Hobsbawn aborda o período referido enfatizando o que ele chama de “dupla revolução”, ou seja, a Revolução francesa de 1789 e seus desdobramentos até 1848, e a revolução industrial, cujo epicentro é a Inglaterra. O impacto desta dupla revolução nas mentalidades é inquestionável. O progresso tecnológico e científico é acelerado pela própria dinâmica da revolução industrial, e as novas ideias e valores políticos que ajudaram a deflagar a Revolução na França espalham-se pela Europa e, posteriormente, pelo mundo todo.

Mas não é minha intenção fazer aqui uma resenha desta obra. Quero apenas expor algumas reflexões sobre um trecho do livro. No capítulo 12 d’A era das revoluções, cujo título é A ideologia religiosa”, o autor menciona que as classes sociais mais baixas e a maioria das pessoas pertencentes à burguesia ainda eram religiosas naquele período. Entretanto, havia no seio da burguesia uma minoria crescente de livres pensadores, que se opunham à religião, e esta minoria irreligiosa era, como descreve o eminente historiador, “imensuravelmente mais dinâmica e efetiva”. Chamou-me a atenção a forma como Hobsbawn expôs este fato, e acho que vale a pena transcrever parte do texto:

“Embora, em termos puramente quantitativos a religião continuasse muito forte e, como veremos, ficaria ainda mais forte, ela não era mais dominante (para usarmos uma analogia biológica) mas recessiva, e assim permaneceria até os dias atuais dentro do mundo transformado pela revolução dupla” (p. 306).

Vale ressaltar que Hobsbawn publicou o livro no início da década de 1960 e, portanto, devemos levar em conta que o que ele chama de “dias atuais” já se passou faz quase meio século.

A “analogia biológica” de Hobsbawn é interessante, mas, comparando a época por ele retratada e a nossa própria época, me vem à cabeça a questão: será que o livre pensamento ainda é dominante em nossos dias? Será que a religião, que nunca deixou de ser quantitativamente superior, ainda é recessiva em nossos dias, ou será que ela se tornou dominante?

Entre o final do século XVIII e meados do século XIX, as instituições religiosas no Ocidente, e em especial a Igreja de Roma, ainda possuíam considerável influência, mas nada que pudesse ser comparado ao poder que possuíam antes do século XVIII. É, porém, difícil comparar nossa época com o período estudado na obra citada de Hobsbawn, ou mesmo com épocas anteriores. Em primeiro lugar, a influência de qualquer instituição na cultura é hoje exercida por meios que não existiam na primeira metade do século XIX. Não havia naquela época, por exemplo, igrejas-empresa donas de emissoras de televisão e rádio. A popularidade de religiosos carismáticos da época não tinha o alcance e a dimensão da popularidade dos padres cantores galãs ou dos “televangelistas”. E o alcance destas pessoas hoje não se limita às classes sociais mais baixas, mas exerce influência sobre boa parte da classe média e alta. Politicamente, o discurso religioso chega a influenciar fortemente até o destino de países poderosos, como pudemos ver recentemente com os recentes oito anos de governo Bush na América do Norte, ou a ascensão do poder político de fundamentalistas islâmicos em diversos países do mundo. O discurso religioso está hoje visivelmente mais presente e influente na vida política de boa parte do mundo do que no período da “dupla revolução”, e seu alcance parece aumentar também na esfera privada, por causa dos meios de comunicação hoje disponíveis.

Obviamente, Hobsbawn tem o privilégio de escrever sobre um período cujo distanciamento no tempo permite uma análise histórica mais objetiva. É sempre difícil para qualquer historiador falar sobre seu próprio tempo, e talvez, daqui a um século, nossa visão sobre a influência da religião nas primeiras décadas do século XXI seja diferente. Talvez historiadores do futuro constatem que, apesar de tudo, o pensamento secular se manteve dominante, e o religioso se manteve recessivo. Vivemos em uma época que talvez seja considerada tão revolucionária, do ponto de vista tecnológico, quanto o período da revolução industrial. Talvez até mais. Mesmo assim, é inquietante pensar que nós hoje nos preocupamos muito mais com a influencia do extremismo religioso nas nossas vidas do que os livre pensadores que viveram duzentos anos antes de nós.

Referências

1. HOBSBAWN, Eric J. A Era das Revoluções. 21ª Ed. São Paulo: Paz e Terra, 2007.