Author Archives: André Cancian

André Díspore Cancian tem 27 anos e mora em Catanduva, SP. Formado em letras pela IMES-FAFICA. Autor dos livros Ateísmo & Liberdade e O Vazio da Máquina. Administra os portais ateus.net e niilismo.net.

Um indivíduo que abraça todas as oportunidades de defender seu ponto de vista, que tenta explicá-lo a todos os que se dispuserem a ouvir, sempre encontrando um meio de relacionar qualquer assunto à sua ótica particular, é um fanático. Ele está apaixonado. Não consegue mudar de assunto. Todos sabemos o que é uma paixão, e é indiferente se ela se direciona a uma pessoa ou a uma ideia, tampouco se essa ideia é verdadeira ou não. Inspirado pelo sentimento místico de iluminação interior, o indivíduo se sente inclinado a mudar o mundo sem jamais mudar a si próprio, mas aqueles que o cercam só veem alguém que nunca muda o assunto.

Agora imaginemos a seguinte situação: somos apresentados a um vídeo no qual vemos alguém numa praça pública defendendo seu ponto de vista ardorosamente, interrompendo todos os que se encontram no caminho para propagandear suas convicções. Logo percebemos que se trata de um fanático. Porém, eis o detalhe: o vídeo em questão não tinha áudio, com imagens de pouca definição. Inferimos que se tratava de um fanático pela forma como se comportava em relação às suas ideias, pelo modo agressivo como tentava impô-las, não pelo seu conteúdo propriamente dito. O indivíduo poderia muito bem ser um ateu falando de evolucionismo; não faz diferença. O fanatismo independe do conteúdo da crença — e até a postura mais racional pode ser defendida fanaticamente. Por isso mesmo, o fanatismo também não indica se um ponto de vista está certo ou não. A verdade depende dos fatos, não da convicção.

O exemplo acima nos permite distinguir entre a forma de uma ideia e o conteúdo dessa mesma ideia. Assim, por motivos diferentes, um indivíduo torce por um time, outro torce por um time diverso, mas a forma de ambos é a mesma: eles torcem. Muda apenas o conteúdo, a explicação que dão para justificar seus atos, ainda que isso não justifique nada.

Pois bem, suponhamos agora que o indivíduo realmente fosse um ateu. Naquela situação, ele estava defendendo a ciência com o mesmo ardor com que um beato se curva à cruz. Poderíamos recorrer à explicação segundo a qual não é possível que um ateu seja fanático, pois o ateísmo não é uma crença, e sim uma descrença, mas isso é meramente um rodeio vocabular. Nenhuma argumentação muda o fato de que ele se comportava exatamente como um igrejeiro.

A conclusão é que para um indivíduo ser fanático basta que se comporte como um. Não importa se suas convicções têm fundamento ou não. Por isso, na medida em que se torna prescritivo — seja por si próprio, seja na forma de antimovimento —, o ateísmo — ou qualquer outro ponto de vista — também não se distingue de uma religião.

A história da fé, das religiões, da metafísica, quase poderia ser resumida aos métodos que inventamos ao longo do tempo para nos doparmos naturalmente. Se a fé consola, se a meditação acalma, isso ocorre pura e simplesmente porque rezar e meditar são meios de induzir estados mentais que consideramos agradáveis, arrancando recompensas específicas de nossos cérebros. Dentro disso, Deus nunca passou de um grandioso pretexto, pois o fato é que verdades reveladas não nos revelam nada. Invejamos nas catarses místicas dos santos o mesmo que invejamos em junkies com agulhas espetadas nas veias, e quando viciados superam sua dependência por meio da fé, não se trata de milagre algum: apenas mudaram de traficante.

Isso pode parecer uma argumentação delirante. Porém, se o objetivo da religião não fosse dopar os indivíduos, alucinações e experiências místicas, paz na alma, sucesso e felicidade pessoal não seriam vistos como argumentos em favor da veracidade da religião. Ninguém, ao buscar religiões, está em busca da verdade, e sim da felicidade, e isso deixa perfeitamente claro que ter fé se trata de maximizar as possibilidades de sucesso no emprego do efeito placebo. Como a eficiência do placebo está intrinsecamente ligada à nossa capacidade de acreditar, não de saber, a veracidade da crença religiosa torna-se absolutamente irrelevante nesse particular. O conteúdo da crença é simplesmente gratuito, pois não passa de uma metáfora, de uma imagem à qual a convicção pode fixar-se para alcançar o resultado que deseja, coisa que será um benefício prático qualquer, pois é óbvio que, se almejassem conhecimento, se dedicariam ao estudo.

Muitos criticam, não sem razão, a cegueira causada pela fé. Contudo, tendo em vista que a eficiência do efeito placebo depende exatamente da firmeza da convicção, faz perfeito sentido que a fé não dê importância aos fatos, pois sua função não é conhecer, mas exercer controle sobre nosso universo mental. Apenas por isso na religião a dúvida é um pecado, e também por isso se prega desprendimento em relação ao mundo material e submissão à autoridade. Quem acredita quer resultados, não explicações. Basta ter fé: compreende-se agora o que isso significa? Deus existe para tornar a fé possível, e não o contrário. Milagres são os casos em que o efeito placebo deu resultados, e isso é prova suficiente da existência de Deus. Chorem os ateus, mas a crença funciona, do contrário não haveria tantos viciados em fé. Observemos apenas que, assim como usuários pesados de LSD, aqueles que utilizam muita fé dificilmente retornam à realidade. Incapazes de administrar seu vício, a depender de seu caráter, tornam-se santos ou fanáticos.

Indivíduos inteligentes e racionais nunca escolheram ser incapazes de se dopar com ilusões infantis, bem como religiosos nunca escolheram ter fé. Nenhum dos dois tem a liberdade de mudar voluntariamente o modo como seu cérebro desde sempre se habitou a funcionar. Porém, como precisamos de ilusões para viver, cada qual, de acordo com sua inteligência, se vê obrigado a empregar métodos diferentes para suportar a existência.

É inútil insistir: não conseguimos ter fé. Nossa única alternativa passa a ser buscar consolo no esclarecimento, mas como? Só causa miséria a lucidez diante de um mundo miserável. Então, se não conseguimos contornar esse problema nos envolvendo com ilusões absurdas, passamos então a nos envolver com ilusões sensatas, que satisfazem nossa inteligência. Mentiras simplesmente não nos cativam, nos enojam. Assim, como não conseguimos nos iludir com falsidades, iludimo-nos com o seu oposto: a verdade. Encontramos no conhecimento o que os tolos encontram na fé, buscamos na honestidade o mesmo que os demais no engano, entendemos de olhos abertos como se consolam os vendados. Aprendemos a suportar a vida à nossa maneira. Se hoje temos uma consciência tranquila diante do fato de não precisarmos ter fé, isso ocorre porque nos bastam farmácias e bibliotecas. Nossos milagres estão em blisters. Concluímos em vez de acreditar, refletimos em vez de suplicar.

O fato é que nunca teríamos aceitado tão tranquilamente a morte de Deus se não dispuséssemos de meios seguros de substituí-lo. No lugar do jardim do Éden, colocamos o jardim da filosofia, e tanto um como o outro servem apenas para nos distrair, para esconder o desfiladeiro niilista. Sabemos que, em nossas vidas, a filosofia, a reflexão abstrata, cumpre o mesmo papel que a religião, e ambas as coisas não passam de meios de fugir da realidade. Reconhecemos que nem a filosofia nem a religião nos levarão a lugar algum, apenas nos distrairão do tédio. Parece pouco, mas basta. Somos humanos, e uma existência decente é tudo o que esperamos. Como temos farmácias, o autoengano tornou-se dispensável. Como temos inteligência, encontramos consolo na reflexão, e sentimo-nos plenos por podermos levar adiante nossa natural inclinação à honestidade.

Muitas vezes nos aprofundamos em discussões sobre detalhes e perdemos de vista a verdadeira questão. Por exemplo, quando discutimos se um deus pode ou não ter nos criado, se alienígenas nos visitam, se o amor é para sempre, pressupomos que haja realmente algo sendo discutido. Mas não há; por quê? Porque já sabemos as respostas. Aliás, em regra, todos os assuntos que apresentamos com esse tom de dúvida são apenas piadas vestindo paletó (será que fantasmas existem? Será que o mundo terá paz um dia? Será que o Santo Sudário é realmente o corpo de cristo? Etc.) Nessas questões há sempre dois lados, que nunca estão equilibrados; um se porta racionalmente, representando o bom senso, o outro se guia pela emoção, representando nossa capacidade de ignorar os fatos. Assim, há os que abordam o assunto com sensatez e os que preferem vê-lo como uma espécie de emplastro para feridas existenciais. Note-se que alguns indivíduos chegam a estar cientes da irracionalidade de suas crenças, e parece paradoxal que mesmo assim continuem acreditando, mas sabemos bem demais como isso é comum.

Então, quando nossas discussões estão estagnadas por motivos emocionais e a razão não nos permite prosseguir por falta de fatos concretos, o melhor modo de levar a questão adiante pode ser um revigorante retorno ao óbvio. O que isso quer dizer exatamente? O retorno ao óbvio pode ser visto como uma espécie de metaintuição, tornando racionais processos mentais que normalmente realizamos automaticamente, tomados como pressupostos; é a tentativa de isolar os pontos-pacíficos que temos em nosso favor, usando-os como uma alavanca que multiplica a força de nosso conhecimento, a qual também pode, alternativamente, tornar inúteis nossos melhores esforços. Por exemplo, suponhamos que dois indivíduos estejam tentando decidir qual corre mais; porém, em toda disputa um vence o outro por frações de segundo, ou chegam perfeitamente emparelhados. Sem fatos, a razão não pode dizer qual dos dois foi mais rápido; por outro lado, racionalizar algum pretexto emocional para considerar este ou aquele mais rápido não será mais que uma mentira desculpável.

Nessa situação, onde está o óbvio? Não naquilo que se discute, mas naquilo que se cala. O óbvio sempre está distante das disputas acaloradas (que se tornam tão mais acaloradas quanto menos fatos houver). Mas trata-se de algo difícil de ser visto e tornado consciente. É tão evidente que chega a ser difícil sequer pensá-lo; claro que, uma vez visto, torna-se óbvio, como todo problema bem resolvido. Do que exatamente estamos falando? Há testes antidopping em corridas, certo? Faz sentido. Mas há testes antimilagre? Não; porque deus não existe; logo, milagres simplesmente não acontecem. Não é óbvio? Sim, é; e isso nos toca num nível tão fundamental que ficamos levemente atônitos; e é um pouco ridículo também, por se tratar de uma obviedade desmascara o nosso modo tradicional de lidar com o assunto. Esse tipo de detalhe normalmente passa despercebido, mas prova a inexistência de deus melhor que as complexas argumentações científicas/filosóficas (quando não têm todos os fatos, claro). Então, antes de discutir assuntos quaisquer no nível micro — como evolução versus criação —, deveríamos considerar se um rápido resgate do óbvio já não resolveria a questão logo de início, descartando a necessidade de nos engajarmos em discussões sérias, aprofundadas e inúteis.

Muito do que tomamos como óbvio nunca foi realmente trazido à consciência de maneira deliberada; num primeiro contato, por vezes isso nos choca, por vezes nos surpreende. O óbvio sempre nos revela perspectivas perigosamente imprevistas, ainda que instigantes. Porém, aqui não há margem de segurança; nesse nível não há como nos protegermos da realidade, pois estamos falando de uma busca por fatos autoevidentes, e não haverá como negá-los depois que os tivermos visto. Não há como prever exatamente quais serão as implicações; mas, na medida em que é esclarecedor, pode ser também um processo emocionalmente perturbador.

O óbvio pode revelar-nos uma verdade insuportável, mas também pode trazer-nos uma longamente aguardada serenidade diante da incerteza; para o bem ou para o mal, um raio de luz nunca deixará de ser um esclarecimento. Metaforicamente, esses insights são como buracos de minhoca da inteligência, ligando dois pontos de nosso conhecimento imediata e inesperadamente. Sempre revelam muitas coisas; porém, às vezes revelam mais do que gostaríamos, e diante disso nossa reação mais comum é fingir que nada vimos. É frustrante perceber nossa clara tendência de resistir ao conhecimento, engajando-nos em microdebates que frequentemente perdem de vista a imagem do todo, mas talvez seja exatamente essa a ideia. Nosso modo quase cínico de ignorar o óbvio não seria apenas reflexo de nossa incapacidade de suportá-lo?

Emocionalmente, entender a realidade como um sistema físico impessoal equivale a desumanizá-la, ou seja, remover todos os atributos subjetivos que nela havíamos projetado, o que em certo sentido significa matá-la. Para compreendê-lo melhor, basta imaginar a seguinte situação: estávamos pesquisando em uma biblioteca, e por acaso encontramos um documento com nosso nome; ao lê-lo, descobrimos que todos os nossos familiares na verdade não são seres humanos: são máquinas pré-programadas para conviver conosco; elas gostam de nós automaticamente; até mesmo seus sentimentos são reações químicas em seus processadores centrais. Pois bem, mesmo que tal compreensão não mudasse nada na prática, sabê-lo não seria emocionalmente devastador? O sentimento de que tudo nunca passou de uma grande mentira nos esmaga. Agora basta perceber que não se trata de ficção científica: eles realmente são máquinas, e nós também. Todos são. A vida é um sonho dentro de uma máquina. Diante disso, ficamos atônitos, perplexos; e luto é a melhor palavra que nos ocorre para descrever esse sentimento niilista de vazio existencial, pois temos a exata sensação de que algo morreu, embora não saibamos dizer muito bem o quê; tudo morre um pouco.

Em geral, pensamos na religião como a verdadeira guardiã da moralidade humana, sem a qual a sociedade se desintegraria. Acredita-se que, sem Deus, tudo é permitido. Por que pensamos dessa forma? Porque é mais fácil decorar chavões que pensar no assunto. Assim, tentemos entender por que a religião, em termos morais, é algo virtualmente inútil, possuindo, na prática, apenas um valor marginal. De início, percebamos que os valores morais defendidos por esta ou aquela religião fazem sentido. O fato, entretanto, é que, ao levá-los adiante, nunca conseguimos alcançar os resultados que prometem. Por quê? Porque partem de pressupostos falsos. Por idealizar o homem, os princípios morais que a religião elabora são algo impossível de ser posto em prática, pois dizem respeito a algo que não existe. Não há como esperar que valores feitos para espíritos funcionem para primatas. O que sinceramente poderíamos esperar da moralidade um macaco que se acredita dotado de uma alma eterna a ser julgada por um superchimpanzé imortal que mora na estratosfera?

Ademais, na elaboração de tais princípios de sublime irrelevância, ela não apenas erra o alvo sistematicamente, como também nunca demonstra uma abordagem positiva. A religião não busca solucionar os problemas, mas evitar que surjam por meio da negação de nossa natureza. Busca nos acovardar perante o mundo e perante nós mesmos, desviando nossos olhares do presente e encorajando uma miopia passiva que nos será recompensada no além. Para ilustrar, vejamos a questão do seguinte modo: a função da moral é administrar os problemas sociais decorrentes do fato de sermos humanos. Qual é a solução religiosa? Desumanizar o ser humano, isto é, negá-lo, castrá-lo, torná-lo doente, i.e. espiritualizá-lo. Seu valor, portanto, é meramente negativo. Seus princípios não são respeitados por seres úteis ou racionais, mas por terem respaldo do criador dos céus e da terra, proporcionando algum sentimento de segurança àqueles que os seguem. Essa é a única utilidade da religião no âmbito moral. Trata-se de uma contribuição indireta, de um pretexto para agirmos moralmente, ainda assim, não como homens, mas como serviçais de fantasmas.

Analisemos um pouco mais a questão. Sabemos que uma parcela considerável da população mundial é religiosa e acredita em divindades moralistas. Não parece estranho, entretanto, que vejamos como extremistas os que efetivamente seguem os princípios de sua religião? Na prática, os que governam suas vidas em função de tais princípios são considerados fanáticos alienados, doentes mentais. Porém, se a religião fosse algo realmente verdadeiro, não é exatamente isso o que deveríamos fazer? Mas não fazemos. Religiosos ou não, somos humanos, e nossa intuição prática nos diz que há algo de muito errado nos valores morais religiosos. Muito poucos, na vida real, levam tais princípios a sério. Como isso se explica? Vejamos: por que julgamos inadmissível que se coloque Deus acima da lei? Exatamente porque não tratamos Deus como algo real — não ao pé da letra —, e sim como algo que se escolhe, semelhante a um time de futebol ou a um partido político, ou seja, como um assunto pessoal e privado. Então, no fim das contas, tratamos Deus como aquilo que é: uma crença. Pois bem, isso significa que, em regra, não se acredita literalmente em Deus, acredita-se na crença em Deus. Afirmam acreditar em Deus, mas agem como se ele não existisse. Usemos o mito da criação para exemplificá-lo. Alguém realmente acredita que o mundo foi criado em seis dias? Sabemos que se trata de uma mentira óbvia; não apenas algo improvável, mas absolutamente ridículo, tanto que nem mesmo os fiéis da inerrância bíblica conseguem acreditar nisso literalmente, vendo-se forçados a elaborar sofisticadas interpretações simbólicas para justificar essa paspalhice que algum lunático tirou da cartola. Então por que respeitamos tais crenças? Por questão de boas maneiras. Pelo mesmo motivo que não dizemos às pessoas obesas que são obesas, aos paraplégicos que são paraplégicos, e assim por diante. Sabemos da verdade, mas não a dizemos simplesmente para não magoá-las, para não ferir seus sentimentos, pois viver já é duro o bastante, e não precisamos jogar à cara dos indivíduos suas limitações, defeitos e inépcias simplesmente porque isso é verdade. Não julgamos que estar certo é uma justificativa boa o suficiente para ser rude e grosseiro.

Como qualquer dependente, aquele que precisa de crenças religiosas estapafúrdias para conseguir ser moral provavelmente tem problemas em lidar com a realidade. Não zombamos de suas crenças não porque elas nos inspirem qualquer respeito, mas simplesmente para poupá-los, para não tornar sua vida ainda mais difícil. Basta que imaginemos como seria nossa vida se dependêssemos de mentiras para viver em paz, se tivéssemos de defendê-las como se fossem verdades, mesmo sabendo perfeitamente bem que são mentiras, e isso nos dará uma ideia de como acreditar em besteiras deve ser difícil. Por exemplo, caso precisássemos acreditar que no céu vive um holograma suicida três-em-um; caso precisássemos acreditar que nossos entes queridos são vertebrados imortais. Como continuar a acreditar quando a realidade toda demonstra que estamos completamente errados? Nossa única alternativa viável seria não pensar muito no assunto — e é exatamente o que se faz. Isso porque, para qualquer indivíduo educado, deve ser extremamente perturbador ter de acreditar nessas asneiras. Então supomos que, se acredita em algo tão desvairado, deve ter bons motivos para isso — e como esses motivos são invariavelmente vergonhosos, temos a boa educação de deixá-los em paz com suas demências. O fato é que ninguém precisa de Deus porque ele não existe, mas da crença em Deus muitos precisam, e esse é o único motivo pelo qual respeitamos tais crenças. Claro que, pessoalmente, não temos dúvida alguma de que se trata de uma idiotice sem tamanho.

II

Um exemplo que ilustra muito bem os verdadeiros interesses por detrás do discurso relativista são os criminosos que, por meio de artifícios legais quaisquer, buscam se inocentar de crimes dos quais sabem ser culpados: um comportamento relativista bastante típico. Claro que, se fossem inocentes, não teriam nada a perder com a verdade; pelo contrário, ajudariam a buscá-la por interesse próprio. Porém, como são culpados, dizer a verdade não convém: se quiserem permanecer livres, sua única chance está em confundir tudo o que se entende por verdade, ao menos no que diz respeito às evidências que os incriminam. Por isso nunca exibem qualquer interesse sincero em averiguar os fatos, sempre se limitando ao mínimo necessário para que saiam impunes. Assim, em vez de adotarem uma postura aberta, enfatizando uma irrestrita busca por evidências, simplesmente olham ao lado na esperança de que ninguém se dê ao trabalho de investigar mais a fundo — pois seria apenas questão de tempo até encontrarem indícios que os incriminam. Essa é a razão pela qual todos os culpados são estranhamente isentos de curiosidade: sabem muito bem o que será encontrado por detrás das aparências. Precisam, portanto, relativizar as evidências que apontam para sua culpa e também desestimular investigações posteriores a fim de evitar que sejam encontrados novos indícios, pois poderiam facilmente fragilizar, ou mesmo tornar indefensável, sua versão alternativa dos fatos segundo a qual são inocentes.

Suponhamos que nos acusem de um crime qualquer. Por mais hediondo que seja esse crime, se não o cometemos, a realidade estará em nosso favor. Assim, se confrontados a esse respeito, em vez de nos defendermos com discursos delirantes, relativizando toda a realidade, atacando ferozmente nossos acusadores, plantando dúvidas traiçoeiras em cada argumento que nos dirigem, seremos, pelo contrário, os maiores interessados cooperar com qualquer investigação que se proponha, para que se chegue à verdade o mais rapidamente possível, e assim os indícios demonstrem nossa inocência. Então, se somos inocentes, nosso maior interesse estará em ser honestos, pois, por mais que se descubra a nosso respeito, isso apenas confirmará nossa versão dos fatos. Por isso o sinal distintivo da honestidade é a consciência tranquila. Esse interesse sincero na busca pela verdade é a exata postura de qualquer cientista: ele tem consciência de que ser honesto é um interesse pessoal porque seu objetivo é alcançar a verdade — e qualquer outro interesse que se insira nessa equação só poderá prejudicá-lo, razão pela qual todo indivíduo que não tenha nada a esconder com sua interpretação pessoal dos fatos sempre verá o relativismo como um inimigo, nunca como um aliado. Portanto, se a realidade está ao nosso lado, nada temos a esconder. Não importa que surjam novas pistas a serem investigadas, não importa que todos os cientistas do mundo investiguem a questão por décadas e décadas com as mais avançadas ferramentas tecnológicas — quanto mais se investigar, mais ficará comprovada nossa inocência.

A visão mais comum que se tem dos ateus é a de indivíduos carentes de espiritualidade; ou seja, como se fossem indivíduos aos quais falta uma espécie de sensibilidade que diz respeito exclusivamente à esfera religiosa. Mas o que é exatamente esse sentimento? E por que não tê-lo deixa os demais tão desconfiados? Ao que parece, pela simples razão de que tendemos a excluir os que são diferentes. Não é uma explicação que enaltece os ateus, mas parece ser bastante simples, óbvia e observável, satisfazendo ao menos o critério da Navalha de Occam.

Traçando um paralelo, imaginemos um indivíduo que não possui amigos. Além disso, suponha-se, para todos os fins, que somos seres sociáveis. Qual costuma ser nossa reação diante de um eremita confesso? Geralmente algo que não está muito distante da que um religioso teria diante de um ateu. Mas pensemos por ora no caso do eremita. Mesmo que — talvez inspirados por boas maneiras antropológicas — relutemos em confessá-lo, temos a clara impressão de que, pelo fato de o indivíduo não possuir um círculo social, sua vida paira oca sobre o abismo do absolutamente nada.

Na tentativa prematura de construir uma imagem de sua vida sem possuir qualquer dado a respeito, partiremos de vários preconceitos sem sentido, como, por exemplo, o de que ele é infeliz — mesmo que vejamos que ele é feliz. Obviamente, também pressuporemos que saibamos perfeitamente bem do que ele precisa — algo que invariavelmente coincide com o que nós próprios precisamos. Enfim, seja qual for o argumento que apresentemos em favor do ermitão, o indivíduo em geral se recusa a admitir que seja possível a alguém levar sozinho uma existência completa e satisfatória — ainda que ela esteja diante dele em carne e osso.

Assim, mesmo que o solitário leve uma vida aparentemente mais agradável que a nossa, isso só pode ser uma consequência do fato de que indivíduos iludidos são mais felizes, pois alguém que não concorda conosco só pode estar errado. Julgamos que, como sua vida não se encaixa no padrão que preestabelecemos como o único válido para alcançar uma satisfação que nós próprios nunca alcançamos — e nem por isso nos sentimos inclinados a pô-la em xeque —, o melhor que temos a fazer é nos protegermos desse indivíduo com todas as forças pelo simples fato de ser diferente; ou seja, mesmo que não tenha nos ameaçado em nada, o simples fato de ele ser diferente já é, para nós, uma ameaça implícita, que nos deixa tensos diante da possibilidade de não sermos o centro do universo.