Author Archives: Daniel Quintão

Daniel Quintão da Silva tem 22 anos e mora em Ipatinga, MG. Formado no curso Técnico em Informática Empresarial pela Escola Novaerense, da Rede Pitágoras, em Nova Era, MG. Atualmente está cursando Psicologia na UNILESTE e segue a linha comportamentalista. Cético, ateu, interessa-se por música, teatro, literatura em geral e psicologia.

Tenho uma caixa de ferramentas. Dentro dela: alicates, chaves-de-fenda, porcas, parafusos e um canivete. Sim, tenho mesmo poucas ferramentas, apesar de possuir diversos tipos da mesma ferramenta.

Na condição de ser-humano, posso dizer que criei essas ferramentas. Elas ampliam meu poder de corte, furo, pressão e precisão. É para isso que existem as ferramentas: para ampliar nossas capacidades.

Todas as minhas ferramentas exigem manuseio. Sem mim, elas não são nada; sem elas, eu sou incapaz de muitas coisas. Mas elas não possuem direito de escolha. Outro dia utilizei meu alicate como martelo, e ele não reclamou.

Posso não ter domínio total sobre o uso dos meus instrumentos de trabalho (na verdade, o uso é esporádico). Porém, eles nunca fugiram de controle. Ficam lá, inertes, até que eu decida usá-los.

Assim, sei de tudo o que se passa com as ferramentas: onde estão, com quem estão (às vezes empresto), de onde vêm e para onde vão. Onipresença, onisciência… onipotência? Não. Talvez, sem elas, eu seja apenas mais uma espécie de macaco.

Ouvi falar que somos ferramentas de Deus. Concordo. Acho que, no final das contas, Deus é homem, o homem é macaco, e o macaco é Deus.

Sensacionalismo pouco é bobagem. Desde o dia 27 de julho, ateus de todo o Brasil tem demonstrado sua indignação em relação aos comentários maldosos do apresentador José Luiz Datena, no programa Brasil Urgente.

Já faz uma semana que ocorreu a difamação, e muitos sites ateístas (e ateus avulsos)  já expuseram suas opiniões a respeito do sujeito em questão. Foram tantas as reclamações no twitter, youtube, blogs e afins, que nem consegui ler ou ouvir a todos. Uma verdadeira sanguia desatada de ateus!

Na verdade, ler ou assistir a tantas reclamações faz-me sentir como se, a todo tempo, eu esteja passando pela experiência de déjà vu.

Há cerca de duas semanas, fui convidado a participar da LiHS (Liga Humanista Secular). A princípio achei a idéia de participar de uma “liga” algo equivalente a associar-me a um partido, ou seguir uma religião (mais tarde percebi até que fui grosseiro demais em minha recusa). Porém, após as asneiras vomitadas pelo Datena, percebi que aflorou em minha uma vontade ainda mais forte de me unir a algum grupo ateísta, assim como tantos outros ateus também tiveram essa vontade. Cheguei a cogitar a possibilidade de afiliar-me realmente à LiHS.

Refletindo a respeito disso, percebi que sempre que algo nos ameaça, ou a nossas ideologias, tendemos a procurar um grupo, talvez pelo velho instinto de preservação (óbvio que em grupo nos sentimos mais protegidos). É nessas horas, quando muitos se mobilizam em prol de um único objetivo (no caso, repudiar as calúnias sofridas), que descobrimos a força que há em qualquer grupo, seja ele grande ou pequeno.

É hora de aproveitarmos o calor do momento e sairmos de vez do armário. Fazer valer os direitos e deveres constantes na Constituição Brasileira. Pseudo-heróis como o Datena distorcem as leis a seu favor, argumentando que também tem o direito de expressar suas opiniões; porém arrotar preconceitos e calúnias não é direito constitucional; é apenas uma forma de se fazer admirar às custas da ignorância do outro.

A mente do povão já virou sopa, e imbecis como o Datena preferem engrossar o caldo de preconceito, alienação e religião do que fazer com que percebam que o paladar pode sentir mais do que o gosto dessa lavagem que lhe empurram.

PS.: CALA A BOCA, DATENA!


Nota: – Texto redigido a pedido de alguns dos nossos leitores, via e-mail e MSN. Grato a todos pela participação.

Algo que nos interessa, a princípio, é a etimologia da expressão utilizada no título. Pois bem: Hocus Pocus, segundo o linguista Jairo Moura, “é pseudo-latim e tenta emular a primeira declinação dos nomes; os magos usavam porque era a língua ‘oficial’ para conjurar magias”; ou seja, é apenas uma expressão que os mágicos adotaram há alguns séculos para distrair a plateia; tão significativa quanto shazam!. Enquanto a platéia se concentrava no Hocus Pocus!, mil coisas aconteciam nas mãos do mágico e atrás das cortinas. Uma ótima forma de tapear o povão.

Devidamente apresentada a expressão, vamos ao que se segue: um amontoado de truques para você fazer e divertir sua família ou, quem sabe, tornar-se um grande bruxo, macumbeiro, médium, pastor, trombadinha… enfim, qualquer coisa relacionada à religião.

Brincadeiras à parte, é provável que você já tenha percebido o quanto as religiões tem-se utilizado das artimanhas dos mágicos para iludir multidões de pobres coitados (nem sempre a palavra pobre está relacionada ao financeiro, mas também ao intelecto). James Randi que o diga.

Sei que, apesar desta revista ser voltada, principalmente, ao público ateísta, muitos religiosos tem nos visitado, e mesmo esses hão-de convir que, pelo menos fora de suas religiões, o que não falta são charlatões posando de super-heróis.

Lembro que cheguei ao ateísmo após experimentar muitas religiões (nem todas ativamente, mas sem medo dos rituais). Acredito que não há modo melhor e mais divertido de compreender e trucar religiões do que quando já se experimentou pelo menos um pouquinho delas.

Proponho então aos ateus que, como eu, se divertem com as crendices; aos agnósticos, que não têm medo de experimentar para tirar a prova; e aos teístas que ousam arriscar a alma pela comprovação dos fatos; que comprem suas velas, aprendam a fazer farofa e energizem suas auras, porque testaremos, a partir dos próximos textos, milagre por milagre, mandinga por mandinga, cada superstição que pudermos imaginar, das mais light às mais pesadas (exceto os sacrifícios; a não ser que eu descubra uma seita em que se possa utilizar ratos de laboratório como sacrifício).

Chega de pilantras e charlatões gritando palavras mágicas e tapando nossa visão. Veremos o show de cima do palco, com os olhos no movimento por detrás das cortinas e ignorando as distrações.

Que rufem os tambores!

Observe com atenção a figura abaixo:

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Estão representados nessa gravura alguns gestos manuais do nosso cotidiano. Você provavelmente conseguiu identificar o significado de muitos deles, talvez de todos.

Esses são sinais conhecidos em todo o mundo. Aonde quer que você vá, é possível entender e se fazer entender utilizando qualquer um desses exemplos, apesar de alguns sofrem variações em seu significado.

Apontar para algo ou alguém não gera dúvidas quanto ao que se quer dizer; porém, pode ser que, numa excursão por uma tribo apache, você peça, com um gesto, para o índio parar, mas este, entendendo como apenas um cumprimento, responda: “Haw!” e continue seu caminho; ou que, num passeio pela Austrália, entre num bar e, percebendo algum clima não muito amistoso, cumprimente alguém utilizando-se do gesto que representa “paz e amor”. Fazendo-o, num descuido, com as costas da mão voltadas para o sujeito em questão, que não aceitará o insulto envolvendo sua progenitora. Pode-se perceber então que, apesar de determinados gestos serem universais, estão sujeitos a diferentes significados, gerando desentendimentos ignoráveis ou não.

Gestos também têm o poder de motivar ou enfurecer. Quando você faz um trabalho cuja qualidade se considera particularmente boa, a aprovação, mesmo que dita apenas com as mãos, traz certa satisfação pessoal, reforçando a continuidade de tal padrão de trabalho. No trânsito, um gesto obsceno pode ser o gatilho para uma briga séria. Ninguém precisa te explicar o significado, pois você já sabe, assim como ninguém te pergunta por que você sabe, pois parece claro que isso foi aprendido pelo contato com o meio, que tradicionalmente já utilizava esses gestos.

Algo intrigante em relação aos gestos representados na gravura é que, pelo menos em sua maioria, não se sabe dizer quando e onde eles foram criados, se são manifestações intrínsecas do ser-humano ou mero aprendizado e, se assim o são, por que são utilizados, mesmo que de diferentes formas, em povos isolados?

Com certeza não fazem parte de um plano maior, nem nada de sobrenatural. Na verdade não aparenta ser algo que necessite atenção. Não mudaria em nada o modo como os gestos são utilizados, ou o poder que exercem sobre o movimento e a psique humana. Seria uma grande perda de tempo, cujos anos de pesquisa estariam propícios a resultarem em contradições, devido à variedade de abordagens, muitas delas divergentes entre si, porém com os mesmos princípios lógicos e/ou filosóficos.

E se os gestos se chamassem Deus?

Engana-se quem pensa que a ilusão restringe-se ao amor e à religião. Somos tão hipócritas que, ao dizer “somos livres por romper os laços da fé!”, acabamos por nos esquecer de que a fé é regida por dogmas, hierarquias e, consequentemente, submissão. Não estamos livres disso em nosso dia-a-dia, nem em nossas mentes.

Todo o conceito que temos de certo e errado, educado e grosseiro, engraçado e triste, agradável e repugnante, tudo isso não passa de imposições estúpidas do cotidiano.

Um cristão se baseia em sua fé (entre outras coisas) para definir o certo e o errado. Neste caso a fé gera convicção. Não é errado dizer que um ateu tenha convicção, apesar de ser uma baita provocação dizer que tenha fé. Às vezes somos tão convictos de nossas posturas filosóficas que nos sentimos no direito de julgar o que é fútil e vulgar e o que é proveitoso e belo.

A velha frase “gosto não se discute” só é aplicada ao que não nos incomoda, ao que não perturba nossa linha de raciocínio e intelectualidade.

É triste quando percebemos que aquilo que julgávamos medíocre pode ser, para o outro, a mais bela arte; quando acordamos para o fato de que apesar de declararmos não sermos os donos da verdade, ainda assim tentamos impor uma verdade, de forma sutil ou não, consciente ou inconsciente.
A supervalorização de si, do outro ou de algo só nos faz perder tempo e oportunidades. Nossos olhos, rigorosamente treinados para a detecção do que é falso, servem apenas para o que está além da ponta do nosso nariz.

Ainda que apenas mais uma pirita entre tantas outras, chego a uma (particular) importante conclusão: mas que ridículo eu sou ao tentar descrever quão ridículos somos…

A todo cadáver cabe enfrentar a decomposição do corpo. Em tempo, a luta continua para os que, ainda vivos, enfrentam a degeneração mental – no plano das idéias, claro. Não que isso seja ruim. Para tudo o que se destrói, nova coisa se constrói.

O herói ainda vivo vê seus planos ruírem junto à inesperada partida do antigo companheiro. As memórias tranformam-se em instrumentos de tortura. A agonia e o desespero, ainda que ocultos, às vezes utilizando a máscara da indiferença, compõem a fórmula de sentimentos tão tediosos e monótonos quanto as palavras lidas até aqui.

Para a superação sentimental e intelectual há duas soluções possíveis: uma é encarar a situação, vivendo-a com todo o lodo que ela traz à tona; a outra é retirar a região do cérebro via cirurgia, tornando-se o vegetal que muitos são (mesmo sem necessitar de abrir mão).

É este o ponto chave da fé. O não aceitamento da situação, substituindo o real pela necessidade da impossível.

Por mais difícil que seja aceitar, nada é mais saudável para a vida do que a morte, esta inimaginável situação que mexe tanto com a cabeça das pessoas, que transforma a dor da despedida em ponto de partida para o sensacionalismo e a exploração da situação da própria mente por gênios da extorsão, de plantão em cada esquina.

A fé é uma brincadeira de mau gosto. Somente quando explicitada podemos compreender o vilão que é:

httpv://www.youtube.com/watch?v=eahHZOfQfEA

A vida exibe seu desprezo em relação à existência – conceito gerado pelo grau relativamente elevado da consciência humana.

Nada parece mais prático e razoável do que a possibilidade de alcançar a almejada glória, tão longe da vista até mesmo das aparentes intocáveis criaturas humanas, sedentas de aventuras, riquezas e histórias para contar. Acontece, então, de muitos sentirem estar tão distantes da satisfação pessoal que buscam na morte seus sonhos, depositando nela suas expectativas de plenitude, isso a ponto de viver a morte. Fazem da morte sua história de vida. Realmente não há nada mais curioso do que a possibilidade da inexistência. Difícil imaginar a inconsciência mas, pensando melhor, ainda mais difícil é encarar uma existência eterna.

Uma das vantagens da morte é que nela surge a possibilidade de ser o que se pensa, ou fingir ser o que nunca se foi. É na iminência da morte que surge o herói.

O bem e o mal se fundem; a pessoa deixa de ser um subproduto do meio e volta ao estado de organismo, numa tentativa cruel e observável de luta pela sobrevivência. Nessa luta não há coragem ou covardia; é a busca pela permanência existencial de um corpo que insiste em continuar ativo, independente do motivo de sua deterioração.

Retirada a força para o último suspiro, despede-se da vida para a eterna escuridão; mais uma máquina de sobrevivência e, com ela, suas confidencialidades, histórias particulares, crenças e subjetividades.

Surge, então, o resultado da luta diária de todo herói, ilustrado a seguir, em toda sua beleza biológica e possível tenebrosidade psicológica:

httpv://www.youtube.com/watch?v=w7fe0FqLDVI