Author Archives: Jairo Moura

Jairo de Souza Moura nasceu em 1986. É tradutor, revisor e professor de inglês formado em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte e atualmente é graduando em Direito na mesma universidade.

Dentre os sistemas de crenças, o politeísmo tem um traço mais universal, mais humanizado, por assim dizer. Não há motivo aparente para que imaginemos primeiramente um só agente por trás de fenômenos tão diferentes, como a mudança das estações ou o controle patológico – ambos tão fundamentais em sociedades primitivas à mercê dos movimentos e das intempéries naturais.

Devemos levar em conta que não há saltos maiores do que a nossa imaginação pode nos dar. Mesmo as figuras mais estonteantes, como a Quimera ou o Pégaso, não passam da montagem de características de coisas ou de animais diferentes fusionadas em um só ser. Em nosso tempo, encontramos esse mesmo processo no mito do Chupa-cabras, por exemplo, ou na incrível semelhança entre os retratos falados de extraterrestres e o desenvolvimento fetal do ser-humano.

Quando examinamos as antigas mitologias que chegaram até nós, conseguimos relativamente bem destituir os mitos de todas as alegações extraordinárias para encontrarmos traços humanos relacionáveis. Mesmo sendo impossível que alguém seja tão miraculoso quanto Jesus – para citar um dos mais famosos em nossa sociedade –, podemos fazer o exercício mental de imaginarmos um agitador social endeusado pela tradição oral.

O monoteísmo, portanto, parece advir de um pensamento abstrato mais pormenorizado, que tira dos mitos a maior parte das características relacionáveis. Invariavelmente a figura central continua com traços antropomórficos – como o cuidado paternal ou a liderança tribal –, mas se torna impossível realizar o mesmo exercício mental que faríamos com os deuses gregos, como Zeus ou Apolo.

Isso não quer dizer, contudo, que o deus bíblico seja monoteísta desde suas origens. Há boas razões para acreditar que os relatos orais do antigo testamento deem conta de uma monolatria, isto é, o reconhecimento de outros deuses com o monopólio de adoração, como o segundo mandamento nos faz interpretar: “Não terás outros deuses diante de mim” (Êxodo, 20:3). Assim, muito mais do que refinamento teológico, o deus abraâmico surge como brilhante estratégia política para manter a coesão interna de um grupo nômade e para minar a influência externa sobre sua tribo.

É muito depois, com os teólogos medievais, que a ideia atual do monoteísmo cristão começa a se desenvolver, mas não sem seus ajustes. Grande parte da tradição católica foi incorporada dos mitos pagãos da Europa, gerando um panteão extraoficial no que deveria ser centrado em um só deus. Há toda uma variedade de santos, beatos e outras classes hierárquicas que podem interceder pelos fieis e a quem se atribuem milagres.

“Não são deuses”, afirmariam os apologéticos. No entanto, é óbvio que não faz diferença alguma como o grupo deseja nomeá-los. Fato é que têm todas as características dos mesmos deuses e semideuses que habitaram os panteões politeístas. Também não procederão as alegações das ramificações evangélicas ou protestantes de que isso é uma falha católica, pois a própria noção da trindade demonstra arquétipos politeístas.

Também não procederão porque pululam os exemplos – ambos no antigo e no novo testamento – de homens comuns com poderes miraculosos, desde Moisés e os antigos profetas, até os apóstolos evangelizadores e Paulo. São vistos como emissários divinos com a missão de espalhar as boas novas ou simplesmente reafirmar a fé no deus ausente em corpo, mas o eufemismo não consegue disfarçar os traços politeístas da tradição oral.

Chegamos, então, à visão abstrata do deus único, mas ele não é mais a expressão das crenças primitivas em agentes; é, ao contrário, o trabalho de teólogos e de filósofos que dedicaram seu tempo a fim de conciliá-lo com as descobertas subsequentes, tentando fiá-lo à lógica e à metafísica. Não é por acaso que essa versão racionalista não tem apelo massivo, pois de que adiantaria rezar pela intercessão de uma figura que não nos atenderá ou que, dependendo da base teórica, sequer é senciente?

Na história da teologia, portanto, passamos de deuses interventores a deuses que apenas impulsionaram o início de tudo. Obviamente, o fato de postularmos apenas um deus como o agente por trás do começo de tudo deve-se muito mais à herança cristã do que a conclusões filosófico-teológicas. Assim, resolvemos – em parte – a questão da reza, mas não a da reverência; e muito menos resolvemos a questão do politeísmo popular: se antes era cultuado em altares próprios a deus(es), hoje reside na cabeça de cada crente em sua abstração conceitual.

Privados de uma definição concreta e sem aderir ao escrutínio teológico, cada fiel cria o seu próprio deus, selecionando características convenientes sem abrir mão da palavra plurissignificativa, pois ela mantém o grupo coeso sob a crença em deus(es), não importando o quão diferentes sejam. Evidentemente, continuam fora – e vistos com os piores olhos possíveis – aqueles que simplesmente não criam ou não creem em figuras transcendentais.

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Para saber mais, sugiro a análise de James Fieser sobre os textos de Hume – além dos próprios textos, é claro – que tratam do assunto. O artigo está disponível em inglês no endereço http://www.iep.utm.edu/humereli/#H2. Último acesso em 15 fev. 2011.

Às 10:23 da manhã do dia 05 de fevereiro, vários céticos, em várias cidades de diferentes países do mundo, se reuniram para ingerir medicamentos homeopáticos no que seria, caso seus princípios fossem verdadeiros, uma overdose. Juntei-me ao protesto na cidade de Natal, acompanhado de Igor Santos, do Science Blogs.

Igor Santos e Jairo Moura, antes da "overdose"

Dividimos um frasco de 360 bolinhas adocicadas de Arsenicum Album com diluição de 30CH. É a diluição recomendada por Hahnemann, criador das leis da homeopatia, e significa que existe 1 molécula do princípio ativo para cada 1060 moléculas de solvente. Não fosse isso, teríamos realmente morrido, pois é uma substância altamente tóxica.

Tomei pouco menos da metade dos comprimidos e, mais de um dia depois, asseguro que não fui acometido por nenhum sintoma ou quaisquer efeitos colaterais. É claro que é exatamente o resultado esperado e não buscávamos com isso comprovar experimentalmente que a homeopatia não funciona, pois os trabalhos científicos e as meta-análises já deram cabo do assunto.

O propósito da manifestação era mais pedagógico, pois a maior parte da população sequer sabe como funcionam os princípios homeopáticos e como são preparados os medicamentos. E, para a minha surpresa, também descobri que havia facetas que desconhecia na indústria homeopática.

O Laboratório Homeopático Almeida Prado é, certamente, o mais conhecido dessa indústria e trabalha com diluições bem abaixo daquela indicada por Hahnemman, nomeando seus produtos com números, como em uma franquia de sanduíches. Ao ler a bula do medicamento 46 – indicado como laxante –, vemos na composição que cada comprimido contém: Cássia senna 1DH 0,020 g; Polygonum punctatum 1CH 0,015 g; Collinsonia canadensis 1CH 0,015 g; e Picossulfato de sódio 0,005 g.

Reparem que todos os compostos estão diluídos em escalas Hahnemanniana decimais (DH) ou centesimais (CH), exceto pelo Picossulfato de sódio – e é exatamente o que faz a diferença. É o mesmo princípio ativo encontrado no remédio “alopático” para problemas de prisão de ventre. Um exemplo deles é o Guttalax, que contém 7,5 mg/ml da substância (o equivalente a 15 gotas).

Frasco vazio de Arsenicum Album 30CH

Convertendo a concentração do similar homeopático, encontramos 5 mg em cada comprimido e a recomendação da bula é que se tomem dois por noite, gerando um total de 10 mg por dose. O Guttalax recomenda o uso para adultos de 10 a 20 gotas, com um total entre 5 a 10 mg de princípio ativo ingerido. Trocando em miúdos, os dois possuem aproximadamente a mesma concentração para o que se recomenda tomar por vez.

Então isso quer dizer que a homeopatia funciona? Pelo contrário! Quer dizer que engana-se quem toma o remédio 46 (e outros da Almeida Prado) com a ideia de tratar-se com remédio homeopático. Se ele funciona, é porque não segue os princípios homeopáticos de diluição ao extremo para o que realmente importa e gera efeitos no organismo.

Obviamente, o remédio não foi ingerido em doses além das recomendadas e nem foi sugerido que qualquer participante da manifestação o fizesse. Os medicamentos usados no protesto foram aqueles altamente diluídos, pois seriam, de acordo com a hipótese homeopática, os mais eficientes.

 

Para saber mais:

Bule Voador – ótima cobertura sobre o evento e textos sobre a homeopatia.

Desafio 1023 – página oficial do desafio 10:23 no Brasil.

Overdose homeopática – vídeo-diário de Igor Santos.

Há basicamente três correntes do ceticismo – a saber, o religioso, o filosófico e o científico. Dentre as três, o ceticismo científico é o sinônimo mais comum para aqueles que autodefinem “céticos”. Diz-se da pessoa que questiona as suas crenças com base no entendimento científico. Assim, as alegações passam a ser analisadas e consideradas verdadeiras se puderem passar por testes empíricos.

Resumindo assim, é impossível ser completamente cético. Há uma série de alegações que não podemos testar empiricamente e que, mesmo assim, tomamos por verdadeiras. E não falo aqui de testarmos nós mesmos todas as alegações possíveis, pois seria inviável tornar-se sapiente o bastante para empreender testes em determinadas áreas que exigem um aprofundamento que leva um bom tempo de nossas vidas.

Para as alegações do grupo testável e que não podemos testar nós mesmos, confiamos nos profissionais em suas respectivas áreas e nos fiscais de seus trabalhos. É aqui que entra um novo significado de ceticismo mais condizente com uma sociedade baseada na informação: devemos ser cautelosos e prudentes na escolha das fontes que nos informam. Não há ideia extravagante que não encontre excêntricos dispostos a defendê-la.

Enquanto a ciência simplesmente ignora alegações sobrenaturais ou paranormais, o manto de arrogância lhe é inevitavelmente associado pelos defensores de tais práticas. Não entendem eles que suas alegações escapam ao escopo empírico e que provas anedóticas não satisfazem o desejo legítimo de conhecer. Nem percebem a faceta tendenciosa de suas publicações autoafirmativas.

São – na falta de melhores palavras – pessoas desinformadamente informadas, que buscam somente as fontes que corroboram suas crenças íntimas e que as acham por um preço módico, mas nem sempre. Esconder ou ignorar as teses contrárias é um claro sinal de como as nossas crenças podem nos tornar os canalhas que não somos em outras tantas ocasiões. Que não entendam com isso, todavia, uma equivalência entre fontes científicas e folhetins apologéticos.

Não se trata de um simples apelo à autoridade, mas da aplicação do que se entende por ceticismo em nossos tempos com uma abordagem prática às fontes nas quais buscamos conhecimento. Uma verdadeira fonte científica dá detalhes sobre a metodologia, apresenta as teses concorrentes, bem como descreve os procedimentos, e qualquer um pode repetir os passos e comprovar o resultado por si. Em contrapartida, as “alternativas” à ciência comumente se baseiam em reduzi-la à ignorância e a argumentação não passa de autovitimização.

Ao invés de comprovarem que suas práticas funcionam através de procedimentos, limitam-se a repetir lamentos sobre como são ignorados pela ciência, comumente taxada de “preconceituosa” e “limitada”. Fazem crer que há uma conspiração mundial entre os cientistas para que pesquisas não sejam realizadas e, quando feitas, que os resultados sejam abafados. No entanto, quando há as pesquisas e os resultados são divulgados, resta-lhes ainda explicar por que a conclusão não lhes é favorável, geralmente alegando um interesse escuso que não sabem dizer exatamente qual.

Repórter: Então, você alega ser clarividente, que pode prever o futuro?

Entrevistado: Exatamente, eu prevejo o futuro.

[Repórter estapeia o entrevistado]

Repórter: E isso aqui? Conseguiu prever? Como podem ver, não precisa de muito para desmistificar um charlatão.

Diálogo transcrito de um teste cético em uma versão humorística. Talvez não tão cômicas quanto as possíveis desculpas, caso fosse um teste verdadeiro. É assim com a maioria das alegações pseudocientíficas.

Kentaro Mori, editor do portal ceticismo aberto, é o coordenador nacional de uma demonstração que tentará fazer algo parecido contra as alegações da homeopatia. A campanha 10:23 teve início no Reino Unido e já tem a participação de mais de 10 países.

Os participantes do protesto tomarão caixas inteiras de remédios homeopáticos a fim de demonstrar sua ineficácia. Funcionassem realmente, as doses ingeridas seriam suficientes para matá-los por overdose.

Tudo acontecerá na manhã do dia 05 de fevereiro de 2011. O endereço oficial da campanha no Brasil é http://1023.haaan.com/. Aos interessados, busquem os meios hábeis de participar e, caso participem, mandem fotos para udmg@ateus.net para que as publiquemos.


Muitos dos esforços que mais conseguiram progredir em determinadas áreas dizem respeito à organização de um método capaz de resolver os problemas com os menores gastos de tempo e energia possíveis. Uma vez encontrado, um trabalho dispendioso e errático pode ser executado de maneira rápida e reprodutível. É assim com o método que Henry Ford implementou na indústria automobilística, só para citar um caso que mudou drasticamente o modo de produção.

Nas ciências, podemos destacar Aristóteles e seu método analítico e classificatório como o grande propulsor da biologia, por exemplo, bem como é de seu mérito a organização de uma gramática como a conhecemos e estudamos até hoje nas escolas. Mas é Descartes – junto com outros nomes como Bacon – quem nos dá a maior contribuição nesse sentido, pois seu método é, para todos os efeitos, uma forma de aprender a aprender.

Longe de qualquer coincidência, os princípios cartesianos são uma forte base para o método científico da forma como é atualmente concebido. Os passos de Descartes podem ser descritos em quatro conceitos: evidência, análise, síntese e recordação. Em resumo, devemos partir do fato, desmembrando-o em partes e vendo o que apresenta em comum sem negligenciar ou omitir qualquer informação.

Sabemos de nossas limitações e não é – como muitos fazem parecer – fraqueza admiti-las. Pelo contrário: é quando as abraçamos que podemos superá-las. Eis a função do método: retirar ao máximo as falhas de nossas avaliações pessoais e dar às nossas observações um caráter impessoal e despido, na medida do possível, de todos os mecanismos evolutivos que possuímos que são, muitas vezes, obstáculos para o conhecimento.

Ainda assim, é difícil dissociar ciência de cientista. No entanto, apontar erros do segundo grupo de modo algum invalida os méritos da instituição científica. Em primeiro lugar, porque é a mesma instituição que tem a função de desmascarar os erros provocados por seus membros – e não é com menor orgulho que o faz. Mesmo publicações periódicas indexadas podem ser ludibriadas por pessoas inescrupulosas, mas é usando o método que encontrarão as fraudes.

Ergo, a construção do método é uma tarefa empírico-filosófica de maior importância. É empírica porque precisa descrever e ser capaz de manipular os fenômenos observáveis da melhor forma possível – é sua raison d’être. E é filosófica porque, até onde lhe é permitida, é puramente especulativa – um produto de nosso pensamento abstrato. É, sem a menor das dúvidas, a criação da maior das ferramentas para satisfazermos a nossa propensão natural à curiosidade com o devido cuidado de selecionar as respostas mais satisfatórias e fiáveis.

E não é com menor admiração que estudos neurológicos começam a nos mostrar que o próprio cérebro trabalha de forma semelhante: nossa massa cinzenta não é somente responsável por processar informações de forma passiva, mas elabora hipóteses que serão testadas com os estímulos captados pelos sentidos. E a razão disso parece ser óbvia: realizar a tarefa com o menor dispêndio.

Observou-se menor atividade neural quando o estímulo visual pertence a um contexto previsível. Em outras palavras: o cérebro tenta antecipar o estímulo sensorial para operar com maior economia. Para entendermos com um exemplo: o cérebro cria a hipótese de encontrarmos a nossa televisão onde sempre esteve na sala-de-estar e terá menor atividade pela sua confirmação se comparado ao resultado inesperado de vermos um objeto diferente – ou mesmo a falta de um objeto – em seu lugar.

De modo algum existe a alegação de que a ciência é perfeita ou imune a críticas. Seu método pode ser melhorado? Por princípio, tudo pode. Os limites parecem ser aqueles que emergem das propriedades definidas no objetivo – e os da ciência dizem respeito ao que é passível de observação e reprodução controlada. Parece pouco, mas dificilmente encontraremos fenômenos realmente importante que estejam fora de seu escopo.


Referências:

ALINK, Arjen. SCHWIEDRZIK, Caspar M. et al. Stimulus Predicability Reduces Responses in Primary Visual Cortex. The Journal of Neuroscience, Washington, 2960, pp. 2960-2966, fevereiro de 2010. Disponível em: <http://www.jneurosci.org/cgi/reprint/30/8/2960.pdf>. Acesso em 10 jan. 2011. [em inglês]

ARISTÓTELES. Metafísica. Disponível em: <http://remacle.org/bloodwolf/philosophes/Aristote/tablemetaphysique.htm>. Acesso em 10 jan. 2010. [original grego com tradução para francês]

BACON, Francis. Novum organum. Disponível em: <http://temqueler.files.wordpress.com/2009/12/francis-bacon-novum-organum.pdf&gt;. Acesso em 10 jan. 2011. Do original latim Novum organum scientiarum (1620), disponível em <http://ia700402.us.archive.org/5/items/1762novumorganum00baco/1762novumorganum00baco.pdf>. Acesso em 10 jan. 2010.

DESCARTES, René. Discurso do método. São Paulo: Martins Fontes, 2009. 4. ed. Também disponível em: <http://ateus.net/artigos/filosofia/discurso-do-metodo/>. Acesso em 10 jan. 2011. Do original francês Discours de la méthode (1637), disponível em <http://s3.amazonaws.com/manybooks_pdfLRG/descarte1384613846-8pdfLRG.pdf>. Acesso em 10 jan. 2010.

LAKATOS, Imre. Ciência e pseudociência. Disponível em: <http://ateus.net/artigos/ceticismo/ciencia-e-pseudociencia/>. Acesso em 10 jan. 2011.

POPPER, Karl. Como a ciência evolui. Disponível em: <http://ateus.net/artigos/filosofia/como-a-ciencia-evolui/>. Acesso em 10 jan. 2011.

Por conta de um aplicativo que nos retorna todos os saites que colocam ligações até aqui, recebi a notícia de que o Portal Diante do Trono usara uma das imagens de nossos arquivos – a saber, Darwin com um dedo na boca em sinal de silêncio – para ilustrar uma série de textos sobre a temática evolução vs. criação.

Visitei o portal e fiquei surpreso por não haver indicação da fonte. Usei, então, os comentários da postagem para pedir os devidos créditos e me dispus a colocar ligações para a série neste espaço. Ofereci também a oportunidade para que usassem quaisquer dos nossos vários textos que abordam o assunto.

À espera de uma resposta, qual não foi minha surpresa ao notar que, não só não fui devidamente respondido, mas também meu comentário fora apagado sem violar quaisquer das regras expressas.

Dessa forma, ao invés de dar aos leitores a chance de ler textos não apologéticos sobre o assunto, percebo que a intenção não era que eles pudessem “consultar, opinar e formar suas próprias conclusões sobre um tema muito polêmico, mas ao mesmo tempo importante”, mas tão-somente selecionar fontes que corroborem a conclusão inicial.

Para ilustrar, vejamos o primeiro comentário, que foi editado para retirar a formatação em caixa alta:

“É muito bom defendermos a palavra de Deus. Sou formada em história e nunca deixei que essas falsas teorias me afastassem do amor de Jesus. Quando dou aula para meus alunos, procuro fazer com que eles parem e pensem sobre suas próprias origens, e, assim a maioria acabam aceitando que fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Deus seja louvado!!!
Kelly Linhares”.

Em tempo: nossa imagem continua exposta no portal sem os devidos créditos.

É uma época do ano em que a religião está em mais alta evidência. Por consequência, é também a época do ano em que os fieis entram em maior questionamento sobre sua crença. Alguns saem com a fé abalada; outros, fortalecida; outros tantos, sequer pensam a fundo sobre o assunto.

Para o cristianismo, é a época de celebrar o nascimento de Cristo, figura emblemática que até hoje divide opiniões sobre sua historicidade. Sabemos, no entanto, que a data não é mencionada algures nem alhures e que foi incorporada na tradição cristã através dos ritos pagãos de celebração solar, no hemisfério norte.

De uma forma ou de outra, tudo isso é irrelevante. Os maiores questionamentos pouco têm a ver com os dogmas específicos de tal ou qual religião. Principalmente porque eles, com o avanço científico, se tornaram mais simbólicos e mitológicos do que a maior parte dos religiosos se permite admitir.

Os maiores questionamentos ainda dizem respeito às nossas origens e ao nosso destino, depois da nossa passagem de tempo neste mundo que conhecemos. O fato de persistirem já seria suficiente para derrubar qualquer alegação de que a religião nos dá respostas satisfatórias para nossas preocupações existenciais.

A verdade é que temos uma resposta muito bem evidenciada: chegamos até aqui por meio da seleção natural e partilhamos com os outros seres-vivos toda a nossa história biológico-evolutiva. Depois que morrermos, também teremos o mesmo fim que terão nossos soci malorum: a inevitável decomposição e a reincorporação no ciclo do carbono.

Por que, então, protelamos as questões? Em parte, porque as respostas científicas massageiam pouco ou quase nada nosso senso de importância cósmica. Ou seria simples coincidência que tenhamos um paraíso à espera e o resto dos seres não? Aos advogados de nosso mérito, resta-lhes escolher características como consciência, raciocínio ou reflexão para justificar nossa posição central em um plano superior.

Não sei quanto às outras pessoas, mas suspeito que sejamos nós a escolher quais características devem contar para a seleção divina de seres; e suspeito mais ainda que as características eleitas para o concurso sejam exatamente aquelas que apresentamos com maior proeminência. E não me digam que a escolha veio de uma força maior, a menos que me apresentem o que vos legitima a falar em nome de deus(es) mudos e incomunicáveis.

No fundo, somos produtos em ambas as visões de mundo – não importa se científica ou religiosa. Se preferimos ser uma criação divina, isso diz mais sobre nossa vontade de valorização do que sobre nossa vontade de entender.

Ao invés de enxergar a religião como uma adaptação selecionada pela evolução, a corrente que a define como um produto acidental se baseia em dois principais argumentos: em primeiro lugar, a própria definição de “religião” como um conjunto homogêneo é vaga e carece de linhas divisórias claras. É um indício muito forte contra a afirmação de que os componentes do que hoje se conhece como religião surgiram em um mesmo ponto da história evolutiva.

Em segundo lugar, mesmo conceitos como os de deuses ou os de vida eterna – claramente religiosos – não gozam de mecanismos cognitivos próprios. De fato, o mesmo mecanismo que permite inferir sobre a personalidade de deus(es) nos dá a oportunidade de projetar características em agentes corpóreos, como os indivíduos que convivem conosco.

Em outras palavras, nossa capacidade de empatia, de pensar no que os outros estão pensando, de nos colocarmos em seu lugar, é simplesmente estendida a agentes não-corpóreos, como, por exemplo, pessoas já mortas, personagens fictícios ou agentes sobrenaturais.

Isso dá conta do ponto de vista cognitivo, mas aqueles que atacam a visão da religião como produto acidental argumentam que, na verdade, a religião teria sido selecionada por sua contribuição para as relações sociais dentro de um grupo. No entanto, mais uma vez, não há nenhum mecanismo especializado que seja exclusivo do que se entende por comportamento religioso.

Dentre os principais mecanismos de cooperação, poderíamos citar o monitoramento da reputação, os sinais e os dispositivos de comprometimento, a psicologia de coalizão, a forte reciprocidade dentro do grupo, os sinais étnicos e os sentimentos morais. Por mais que vários deles estejam presentes na religião, é consenso que todos evoluíram independentemente de crenças sobrenaturais e que operam de forma idêntica em quem não partilha delas, como é o caso de crianças que ainda não receberam doutrinamento religioso.

A explicação mais plausível é a de que tais mecanismos foram selecionados primariamente para resolver problemas morais mais gerais a fim de facilitar a interação social e que somente depois foram aproveitados em atividades religiosas. A religião seria, então, uma forma eficiente e particularmente pouco dispendiosa de organizá-los ao redor de um culto comunal, gerando uma falsa conclusão de que a moralidade é impossível fora de seu círculo.

Quod erat demonstrandum, os mecanismos dos quais a religião se aproveita não são exclusivos a ela, nem foram selecionadas por causa dela. Os julgamentos morais são independentes da crença religiosa e não há nenhum indício de que tenha sido selecionada pelos meios evolutivos biológicos, senão culturais e, como tal, deve ser estudada pela memética e pela antropologia.

Referência:

PYYSIÄINEN, Ikka; HAUSER, Marc. The origins of religion: evolved adaptation or by-product? Disponível em <http://www.wjh.harvard.edu/~mnkylab/publications/recent/EvolReligion.pdf>. Acesso em 30 nov. 2010. [em inglês]

Das origens da religião I: adaptação da evolução

Da função atual da religião