Author Archives: Victor Alves

Victor P. Alves tem 24 anos e mora em Recife-PE. Bacharel em Direito pela Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), é autor de “Disciplina, poder, labor e liberdade: uma análise sócio-filosófica das instituições carcerárias”. Entusiasta em Filosofia, Literatura, História e Tecnologia.

Quando revelamos sermos ateus para alguém de fé, é comum que questionem com expressões de indignação: “como assim, você não acredita em nada?!”. De fato, me falta a fé no sobrenatural e no inexplicável, e para a maioria de nós, é preferível a dúvida do que uma certeza fabricada e sem fundamento. Mas será mesmo que podemos dizer que não acreditamos em nada?

Para isso, me permiti pegar de empréstimo o título outrora utilizado por Bertrand Russell, que sabiamente dizia:

“Eu acredito que quando morrer, irei apodrecer e nada do meu ego sobreviverá. Mas me recuso a tremer de terror diante da minha aniquilação. A felicidade não é menos felicidade porque deve chegar a um fim, nem o pensamento e o amor perdem seu valor porque não são eternos. (…) Se não temessemos a morte, creio que a ideia de imortalidade jamais houvesse surgido. O medo é a base do dogma religioso, assim como de muitas outras coisas na vida humana.”¹

A existência, por si só, traz consigo uma carga de improbabilidade que a torna quase sagrada, sem que seja preciso criarmos fantasias acerca de seres sobrenaturais e universos fantástico post mortem. Como questionava Douglas Adams, “não é o bastante ver que um jardim é bonito sem ter que acreditar também que há fadas escondidas nele?”

Entretanto, a ausência de crença em deus não nos torna diferentes enquanto espécie humana. Nossos erros e acertos são similares. É bem verdade que temos uma postura diferente quanto à busca pelo conhecimento, em contraste com a entrega devota a respostas incoerentes, mas via de regra só se reconhece um ateu quando este expõe a sua descrença. Respiramos, comemos, amamos, desejamos… tudo na mesma intensidade.

Acredita-se que o ateu está condenado à punição de deus (seja ele qual for), por não acreditar. Me parece ser característica elementar dos deuses o egocentrismo ranzinza. Pouco importa se você foi um bom sujeito. Não acredita em deus? Está condenado!

Recentemente meu Estado, Pernambuco, foi atingido por uma terrível enchente que destruiu boa parte dos municípios interioranos. O Brasil inteiro se envolveu em uma bonita campanha para arrecadar doações para as vítimas. Os moradores do meu prédio também ajudaram a arrecadar tais mantimentos, e para sensibilizar ainda mais os seus vizinhos, criaram o slogan “aquele que oferece de bom coração, recebe em dobro de Deus”.

É ai que eu acho que reside a maior diferença entre ateus e religiosos. É preciso que seja ofertada uma recompensa divina para convencer uns aos outros a ajudar seus irmãos necessitados? É nisso que eu acredito. Acredito na ética como forma de estabelecer equilíbrio na sociedade; acredito que um ajudando o outro, estabelece-se uma harmonia e, quando você precisar, saberá que terá com quem contar.

Por fim, terminarei este meu texto com uma citação. Não de um grande filósofo ou cientista, mas de poetas e músicos canadenses da banda Rush, que resumem o meu pensamento:

Eu não tenho fé na fé
Eu não acredito na crença
Você pode me chamar de infiel.
Mas ainda me agarro à esperança
E acredito no amor
Isso é fé suficiente para mim.²

1. RUSSELL, Bertrand. No que acredito. LP&M. São Paulo, 2008.

2. I don’t have faith in faith/I don’t believe in belief/You can call me faithless/I still cling to hope/And I believe in love/And that’s faith enough for me.


Em meu texto anterior, procurei fazer uma comparação entre a paixão por um time de futebol e por uma congregação religiosa. Procurei demonstrar como cada séquito religioso busca se firmar como verdadeiro e estabelecer de vez o seu poder enquanto representantes oficiais de uma determinada religião. É assim com o cristianismo, islamismo, judaísmo, xintoísmo, animismo, e por aí vai. Hoje vamos nos aprofundar nas diferenças entre as religiões e as possíveis explicações lógicas para esse ânimo defensivo sempre que confrontados os seus dogmas e as suas ideologias.

Dando início a esse intento, devo introduzir uma breve e interessante estória. Há aproximadamente 180 anos atrás, um norte-americano que atendia pelo nome de Joseph afirmou ter testemunhado a aparição de um anjo em seu quarto, enquanto rezava. Esse anjo o havia instruído para procurar em meio a uma floresta na Pensilvânia por duas grandes placas de ouro. As placas, segundo Joseph, estavam escritas na língua dos anjos, e apenas com a utilização de dois ornamentos esculpidos em pedra seria possível a sua tradução.c

O jovem Joseph, então, traduziu aquela revelação e escreveu um livro, que nos ensinava a respeito de uma antiga população de judeus vivendo nos Estados Unidos há milênios, que teriam erguido imensas cidades e guerreado entre si. Afirmava também existirem três mundos póstumos, qualificados por uma espécie de índice de satisfação, e apenas aos que seguissem a sua revelação seria garantido o posto mais alto. Joseph afirmava também que seus fiéis restabelecessem a tradicional poligamia e que, na época de Cristo, negros opressores também habitavam terras americanas. Jesus, entretanto, três dias após ser crucificado, haveria se revelado a esse povo do hemisfério norte. Os Judeus então teriam aprendido sobre a verdade e os negros, como punição pelos seus crimes, foram escravizados.

Para qualquer brasileiro de inteligência normal que não tenha sido afetado por essa tacanha doutrina, a estória narrada certamente parecerá estranha e absurda. Não é difícil constatar que há dois mil anos não existiam judeus ou negros vivendo nos Estados Unidos, bem como nunca foram reveladas ao público aquelas placas de ouro das quais Joseph falava. Talvez surpreenda alguns saber que existem por todo o mundo pessoas que defendem veementemente a veracidade deste conto. Tenho certeza de que o leitor já se deparou com algum missionário mórmon, que se autointitulam Santos dos Últimos Dias (por acreditar que são escolhidos e serão os únicos a sobreviver ao Apocalipse), afirmando possuir as verdades relevadas a Joseph Smith Jr. pelo anjo Morone.

E se nós ousássemos modificar um pouco essa estória, e ao invés de um norte-americano rezando em seu quarto, adotássemos um árabe rezando dentro de uma caverna, e a exemplo da primeira estória, um anjo haveria aparecido e mantido um diálogo com ele por onze anos? Para encurtar a nossa lenda, vamos dizer que este Árabe, que aqui chamaremos de….Maomé, recebe de presente um cavalo alado, através do qual ele viaja até o paraíso. Parece estranho, não é mesmo? Mas muito mais popular do que o mormonismo, o islamismo tem crescido de forma desenfreada na Europa e Oriente médio (graças a alta taxa de natalidade das famílias imigrantes). Para você, toda essa estória de anjos em cavernas, cavalos que voam, devem parecer absurdo, mas para eles é a verdade em sua essência mais pura.

E a estória sobre um anjo que engravida uma mulher virgem, que pariu um carpinteiro (que supostamente é a personificação do próprio deus), e esse opera uma série de milagres inúteis (transforma água em vinho, anda sobre o oceano, cura um ou outro deficiente), é acusado de heresia e crucificado, ressuscitando no terceiro dia, apenas para provar que realmente é filho de deus, e em seguida sobe aos céus ainda em carne para se juntar ao seu pai criador? Calma lá, essa estória não nos parece tão estranha assim; talvez haja um fundo de verdade nela, correto?

Tão fantasiosa quanto nos parece os ensinamentos do Islamismo e Mormonismo, o Cristianismo traz fantasias capazes de causar inveja nas imaginações mais férteis; porém, por estarmos inseridos em sociedades cristãs, nos parece ser uma crença privilegiada. Há uma dissonância entre esses três exemplos que não nos passa desapercebido. Se tratam, todavia, de religiões próximas e abordadas de forma genérica. Como se não bastasse a gritante discordância entre essas três doutrinas abraâmicas, cada uma delas compreende congregações que dão a sua própria versão do conto, esteja ele contido no Corão, na Bíblia ou no Livro de Mórmon.

Da mesma que nós, cristãos e ex-cristãos, conseguimos perceber o absurdo de crenças como islamismo, somos até certo ponto complacentes com o cristianismo. Entretanto, para um mulçumano, o oposto ocorre. Imaginem agora as milhares de outras religiões que se encontram fora da esfera das religiões do deserto, aquelas que não tem conexão, ou apenas de forma remota, com a doutrina abraâmica. Imaginem todos os fiéis dessas inúmeras correntes olhando uns para os outros com profundo estranhamento, apontando os erros e fantasias da religião do vizinho, mas reforçando as suas próprias crenças sem sentido.

Mais uma vez, o sentimento de pertencer a um grupo, que acredito ser herança de tempos primitivos, cria uma esfera de ignorância em volta daqueles que adotam determinada doutrina. É quase como se os cegasse para determinadas realidades, como se desligasse o sensor crítico do cérebro, responsável por separar o que é verossímil e o que é fantasioso.

Observação importante: Talvez o leitor encontre algumas inconsistências quanto a datas e números. Entretanto, utilizar-se de tais inconsistências dativas para provar um ponto é uma estratégia pobre. Se um determinado fato histórico ocorreu em 1819 e não 1833, não altera sua veracidade ou irrealidade. Nem mesmo a bíblia consegue chegar a um consenso quanto ao número de pessoas para as quais Jesus haveria se revelado após a sua morte. Tentar debater se Maomé demorou 11 anos ou 16 anos para “revelar o alcorão”, como se isso alterasse sua natureza fantasiosa é como argumentar que o coelho da páscoa é marrom, e não branco

Se você é ou já foi uma pessoa religiosa, certamente lhe é familiar o sentimento de pertencer a um seleto grupo detentor da verdadeira palavra de deus. O grupo escolhido para transportar, multiplicar e perpetuar os ensinamentos da única verdadeira religião: a sua. Entretanto, basta olhar em volta e perceber que, ironicamente, esse é um sentimento genérico e pertence a todas as denominações religiosas. Poderiam todas estar certas? Se todos são escolhidos, não faz muito sentido se gabar a esse respeito.

Em verdade, tal sentimento existe em toda sociedade na qual prevalece a emoção em detrimento da razão. Como exemplo, podemos citar um grupo de torcedores de um dado time, que independentemente do balanço de vitórias e derrotas, vai sempre defender que seu time é melhor que todos os outros. Esse cabo-de-guerra emocional parece ser uma espécie de efeito colateral de um outro sentimento sempre presente nas sociedades de pessoas: a necessidade de pertencer a algo coletivo. O torcedor ama, vibra, delira e veste a camisa do seu time, o defende com unhas e dentes, independentemente da sua satisfação pessoal. Podem até existir críticas entre os torcedores daquela dada equipe, mas tais críticas são consideravelmente atenuadas em frente aos afiliados de outras agregações.

Os religiosos não são diferentes: amam, veneram e são fiéis a sua congregação, mesmo quando não concorda inteiramente com seus ensinamentos, ações e decisões. Defendem-na frente às críticas, e em seus ciclos limitados até se permite um certo grau de discordância, mas para por aí. Sua religião é a verdadeira, seja ela qual for e isso basta. Não adianta tentar explicar a paixão pelo futebol através da razão por se tratar de algo essencialmente emocional. Com as instituições religiosas não é diferente.

Na véspera da Copa do Mundo de Futebol, proponho uma reflexão desportiva comparativa, pois os elementos presentes no sentimento patriótico ou no amor pelo time de futebol local estão também presentes nas religiões. Talvez essa crescente divergência entre as diversas religiões e congregação, e o aumento da informação dos fiéis, seja o calcanhar-de-Aquiles da fé, que em muito colabora para a popularização das igrejas ecumênicas, grandes atrativos para aqueles que percebem a irracionalidade dessa disputa religiosa pela detenção de uma “verdade” imaginária, mas que não se sentem confortáveis para abandonar de vez a fé.


Esta semana minha família comemorou o aniversário de nascimento da minha mãe. Até então, nada fora do padrão, mas foi um envelope esquecido em cima da mesa da sala que me chamou a atenção. Como já havia sido aberto e seu conteúdo restava depositado entre outros papéis, tomei a liberdade de me familiarizar com o conteúdo daquela intrigante carta. O motivo pelo qual o envelope me chamou a atenção: nele havia estampado um ou dois símbolos cristãos e um escudo, que achei representar uma arquidiocese.

O conteúdo da correspondência: uma mensagem padrão, contendo felicitações pela data, no primeiro parágrafo, e ocupava-se nos demais de ressaltar a importância do dízimo para a igreja, e como isso ajudaria a construir igrejas em lugares remotos do país. Apesar de os católicos terem fama de serem mais discretos quanto à cobrança do dízimo, esta mensagem me pareceu um tanto quanto desesperada. A carta tinha por remetente uma organização situada em São Paulo e registrada sob a alcunha de “Sociedade brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade” (TFP).

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O mais interessante é que, acompanhado de tal carta, havia um boleto bancário solicitando a contribuição da quantia que variava entre 15 e 25 reais, podendo ser mais se o fiel assim o desejasse, para fomentar uma campanha de nome ridículo: “Vinde Nossa Senhora de Fátima, Não Tardeis!”. Acabei descobrindo que esta campanha existe há mais de uma década, e anualmente mais de três milhões de correspondências são enviadas para casas de todo o Brasil.

A organização utiliza-se de datas importantes para pedir contribuição financeiras, a exemplo do que fez no carnaval de 1997, enviando cerca de um milhão de correspondências, falando sobre os pecados carnais típicos dessa época.

Não é de hoje que tenho percebido a popularização da tecnologia para conquistar novos fiéis e arrecadar dinheiro para as igrejas, a exemplo do texto abordado em outra oportunidade, sobre a utilização de jogos eletrônicos para fidelizar a juventude. Entretanto, eu desconhecia que os templos religiosos ousaram ir tão longe. A revista Veja da primeira semana de abril trouxe a notícia de que a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), do controverso Edir Macedo, haveria adquirido quase duzentas mil máquinas de cartão de crédito para a implementação do dízimo eletrônico.

Como em toda boa empresa, agora o dízimo pode ser pago através de cartão de crédito.

Entretanto, justiça seja feita, foi a Catedral Católica de Ribeirão Preto que encabeçou tal manobra no país. De forma mais

humilde, adquiriu máquinas para que os fiéis pudessem doar de bom grado seu dinheiro através de cartões de crédito ou depósitos na conta da igreja. Os equipamentos, que são benzidos, ganham popularidade também nas paróquias católicas do Brasil afora.

Com essa latente oportunidade de maximizar os lucros, não faltam oportunistas para lucrar com esse período de transição. Encontrei, por exemplo, uma empresa de Engrenharia de Software que projeta programas de computador com a missão de cobrar, registrar e até criar correspondências padrão, como aquela que minha mãe recebeu. Os criadores do programa se orgulham da possibilidade de “poder enviar automaticamente cartas padronizadas sem precisar digitar sequer uma linha de texto.”

Com a constante perda de fiéis por parte da Igreja Católica, me parece que a discrição que lhes era particular foi substituída pela necessidade de arrecadar, assim como as cestinhas que circulavam entre os que frequentavam tal estabelecimento estão perdendo lugar para as máquinas de cartão de crédito.

httpv://www.youtube.com/watch?v=vrhQQLJRNIs

Don Pedro de Barberana y Aparregui, Cavaleiro de Calatrava, por Diego Velázquez.

Don Pedro de Barberana y Aparregui, Cavaleiro de Calatrava, por Diego Velázquez.

Fundada no reino de Castilha, região que hoje é território espanhol, a Ordem de Calatrava foi a segunda Ordem de Cavaleiros a receber apoio papal. O papa Alexandre III reconheceu sua legitimidade em 1164, com o objetivo principal de melhor organizar a ofensiva da Batalha da Reconquista, na qual portugueses e espanhóis pretendiam expulsar todos os muçulmanos da península Ibérica.

Os cavaleiros da Ordem lutaram e combateram os muçulmanos que ocupavam a região andaluz. Mas não foi até 1409 que a Ordem, que tinha por símbolo a cruz da Igreja Católica Ortodoxa Grega entrelaçado pela flor-de-lis, símbolos da cristandade, ganhou poder político, quando o papa Inocêncio VII, convencido do sucesso da campanha da Ordem do Dragão, patrocinou política e financeiramente a Ordem de Calatrava para investir contra o império Otomano.

Calatrava, Wallachia e Constantinopla são apenas alguns dos vários sítios históricos que testemunharam o derramamento de sangue por motivos religiosos. Não sejamos simplistas a ponto de achar que tais fatos ocorreram apenas pela fé. Nenhum rei, nem mesmo o Papa gastaria tanto dinheiro e patrocinaria tantas mortes se não houvesse real interesse econômico e político no domínio cristão na Europa.

As igrejas sempre foram grandes máquinas de coletar dinheiro (muitas vezes às custas das ilusões daqueles que não têm mais ao que se apegar), e perder a galinha dos ovos de ouro seria um preço muito caro. Foi preciso, nestes dois últimos séculos, fechar os olhos para o sexto mandamento de Moisés.

Mas os livros de história estão sempre empoeirados nas prateleiras daqueles que querem dedicar a vida à religião. Quinhentos anos parece algo tão distante e surreal que é fácil negar ou ignorar o cheiro de carcaça que ainda brota de um passado nem tão distante.

A verdade é que não precisamos ir tão longe. Para manter as chamas da ignorância acesas, atropelam-se deliberadamente os fatos que, se não fossem patrocinados por uma poderosa entidade religiosa, jamais passariam desapercebidos. Quem seria capaz de ignorar o legado de crueldade deixado pelo nazista? Qual empresa se safaria de tantas acusações de pedofilia por parte dos seus representantes?

Enquanto existir o controle das massas por essas megaempresas multinacionais que,explorando a fraqueza emocional e a necessidade de consolo espiritual, enriquecem os salões do Vaticano e os bolsos dos pastores evangélicos, continuaremos jogando a sujeira para debaixo do tapete e fechando os olhos para as atrocidades cometidas sob a proteção da batina e do crucifixo.

Localizada entre o rio Danúbio e as geladas montanhas de Cárpatos, ergue-se a fria e solitária região de Wallachia. Aparentemente esquecida pelo tempo, a região localizada ao sul da Romênia foi testemunha de determinantes conflitos históricos que livraram o leste europeu de um possível domínio Turco.

Entretanto, não é por estes conflitos que a região é principalmente conhecida, mas pela fama nebulosa que circunda um de seus mais notórios governantes, Vlad III, imortalizado pelo folclore romeno e posteriormente difundido globalmente pelo aclamado romance de Bram Stoker e as suas várias adaptações para o cinema.

Vlad III nasceu na Transilvânia e aos cinco anos de idade foi levado a Nuremberg, onde foi iniciado na Ordem do Dragão. O Voivoda exibia orgulhosamente o título de Draculea, significando“o filho do Dragão”; uma clara referência ao seu pai, Vlad II Dracul, conhecido como O Dragão, membro honorário da Ordem.

Com sua lealdade posta em dúvida entre os membros do Conselho Húngaro, Vlad II Dracul firmou um acordo com sultões turcos, prometendo pagar-lhes tributo e não oferecer resistência à sua expansão. Como garantia, O Dragão enviou seus dois filhos a Edirne, então capital do império Otomano, na condição de reféns.

Vlad III em seu famoso desjejum entre as vítimas de empalamento. Ilustração do século XV: “O bosque dos empalados”. Autor desconhecido.

Vlad III em seu famoso desjejum entre as vítimas de empalamento. Ilustração do século XV: “O bosque dos empalados”. Autor desconhecido.

O que os jovens da Transilvânia não sabiam era que seu genitor tinha planos de sacrificá-los como parte de uma manobra protelatória política, obtendo assim os favores dos demais nobres húngaros. Vlad III e seu irmão Radu, o Belo, ficaram sob a custódia de Mehmed II, que, ao invés ordenar a morte dos dois jovens, como esperado, tinha planos de doutriná-los de acordo com os costumes islâmicos e mais tarde reinseri-los no poder, constituindo então um reino muçulmano no coração de Wallachia.

Os irmãos testemunharam a rigidez com que o sultão controlava seu povo. Relatos históricos nos mostram que Radu não demorou a converter-se ao islamismo, porém Vlad era constantemente punido pela sua insolência e recusa a abandonar o cristianismo. Ambos receberam treinamento em táticas de guerra, aprenderam a língua turca e estudaram profundamente o corão. O empalamento era algo praticado em larga escala na Turquia.

Descontentes com a posição que Vlad II Dracul assumira com relação aos Otomanos, Hunyadi liderou ataque ao principado de Wallachia, assassinando o então governante da região juntamente com seus filhos mais velhos. Esta ação fez com que os otomanos atacassem o sul da Romênia, com o objetivo principal de tornar líder Vlad III. Este governo, entretanto, não durou muito e logo João Hunyadi investiu novamente contra a região, depondo Vlad Ţepeş e substituindo-o por Vladislav II.

Acreditando ter dado o trono para um simpatizante do islamismo, os turcos prepararam-se para uma nova investida, marchando contra Constantinopla, hoje Istambul, com a intenção de eliminar a última resistência cristã no mediterrâneo.

Referência cristã no emblema da Ordem do Dragão. Inscrição: O Draconistarum ordeurs, Justus et Paciens. Representa a vitória de São Jorge sobre o Dragão, da cristandade sobre Satanás.

Referência cristã no emblema da Ordem. Traz a inscrição "O Quam Misericors est Deus, Justus et Paciens". (Ó quão misericordioso é Deus, justo e paciente).

Vlad fugiu para Moldavia, onde tinha a proteção do seu tio Bogdan II. Ali, Vlad Ţepeş teve a oportunidade de se encontrar com Hunyadi, um homem extremamente religioso e preocupado com a situação do país, e conseguiu convencê-lo de que não apenas conhecia profundamente os costumes e hábitos turcos, mas que sobretudo não havia se convertido ao islamismo, a exemplo do seu irmão. Hunyadi nomeou Vlad III seu conselheiro de guerra.

Em 1451, Constantinopla caiu nas mãos do império Otomano, que marcharam novamente, desta vez para Belgrado, com fins de dominar toda a região da Romênia. Com o apoio de Hunyadi, Vlad III liderou um pequeno exército contra Wallachia, assassinando Vladislav II e retomando o poder. Enquanto isso, Hunyadi liderava os seus homens para a Sérvia com a intenção de montar uma resistência.

Vlad III governou Wallachia com punhos de ferro. As punições eram exemplares; para todo tipo de delito havia penas severas, e a mais comum delas era o empalamento. Foi por causa desse modus operandi que ganhou o apelido de Vlad Ţepeş, ou Vlad, o Empalador.

Até os seus últimos dias de vida, Vlad lutou para manter Wallachia um reino cristão, e para isso matou não apenas os seus inimigos, mas também os seus conterrâneos subordinados. O medo presente na população da região era tamanho que diz-se ter existido um cálice de ouro no centro de sua capital sem que ninguém ousasse subtraí-lo. Era uma demonstração clara do seu poder de controle. Vlad provocou os otomanos, não pagando seus tributos e empalando qualquer muçulmano que se aproximasse do seu país. Mehmed então invandiu a Wallachia com aproximadamente 80 mil homens de armas.

Vlad não possuia mais do que 40 mil homens, mas organizou uma resistência psicológica. Atacava constantemente os otomanos enquanto dormiam, tornando-se famoso o episódio “Ataque Noturno“, onde pelo menos 15 mil otomanos foram mortos. Tudo o que os turcos encontraram ao invadir a Romênia foi uma floresta de corpos empalados e um trono vazio. Sem dinheiro para continuar a sua resistência, Vlad III foi unir-se ao seu aliado Matthias Corvinus, na esperança de conseguir convencê-lo a defender o seu principado. Matthias, entretanto, ordenou a prisão de Vlad.

Após ter se tornado cativo na Húngria, foi libertado a pedido do próprio Papa, para que voltasse à Wallachia, onde asseguraria que o cristianismo predominasse sobre o islamismo. Temendo a volta ao poder pelo seu carrasco líder, populares atacaram e mataram Vlad Ţepeş, expondo sua cabeça em uma alta estaca.

Pio II. O Papa que ajudou a criar e patrocinou a Ordem do Dragão.

Pio II. O Papa que ajudou a criar e patrocinou a Ordem do Dragão.

Os casos bárbaros e as lendas que circundam a figura do Empalador são muitas; seria preciso escrever um livro completo para detalhar suas façanhas cruéis. Não vou me ocupar desta tarefa. Na verdade, tenho a impressão que este texto está se tornando longo e enfadonho. Por isso termino este capítulo da Ordem do Dragão, que narra a história de um de seus mais emblemáticos líderes, com uma simples reflexão.

O papa Pio II, então governante na época, não apenas acobertou as crueldades ocorridas no Cárpatos, mas deu efetivo apoio, chegando a patrocinar financeira e ideologicamente a criação e o combate armado por parte da grande Ordem. Não apenas aprovou, mas viu estes esforços como um exemplo a ser seguido, o que mais tarde influenciaria a criação de uma nova ordem na Espanha. Mas este é assunto para o nosso próximo texto.

É assim que se expressava o amor cristão durante a Idade Média: Através de inquisições e empalamentos. É este o papel do Vaticano, e de seu Praetorium Excelsior, enquanto portadores do legado histórico conferido pela religião abraâmica? Talvez ainda exista um pouco da Idade das Trevas, em forma tênue, vagando entre os palácios do Vaticano.

      Para saber mais:

      • FLORESCU, Radu. Drácula: Uma biografia de Vlad, o Empalador, 1431-1476. Nova York: Hawthorn Books, 1973.
      • _________. Drácula: As várias facetas do Príncipe; Sua vida e sua Época. Boston: Brown and Company, 1989.
      • STOICESCU, Nicolae. Vlad, O Empalador. Bucareste: Universidade da Romênia, 1978.
      • TREPTOW, Kurt W., ed. Dracula: Artigo sobre a vida nos tempos de Vlad Tepes In Monografias do Leste Europeu. no. 323, Nova York: Editora da Universidade de Columbia, 1991.
      Segismundo da Hungria, Sagrado Imperador Romano e fundador da   Ordem do Dragão.
      Segismundo da Hungria, Sagrado Imperador Romano e fundador da Ordem do Dragão.

      O ano é 1408. Preocupados com a expansão dos turcos, o papa reúne-se com nobres de toda a Europa para discutir estratégias de contenção do expansionismo islâmico. Dessa congregação e fruto do gênio do rei Segismundo da Hungria, é fundada a Societas Draconistrarum. Composta inicialmente por 21 nobres, a ordem tinha representantes das mais notórias famílias húngaras, com destaque para os Bathory, dos quais fazia parte Elizabeth Bathory, conhecida por banhar-se em sangue de mulheres jovens e belas, na tentativa de restaurar a sua própria beleza e juventude, e a família Bethlen, representada por Gabriel Bethlen, que provocou guerras calcadas em motivos religiosos.

      A verdade é que a ordem lutou contra os turcos e caiu nas graças do Vaticano, sendo conferido ao rei Segismundo o título canônico de Sagrado Imperador Romano. Em 1410 Segismundo uniu forças com outra ordem beligerante católica, a Ordem Germânica dos Cavaleiros Teutônicos, ou Ordo domus Sanctæ Mariæ Theutonicorum Hierosolymitanorum, contra o rei Władysław II Jagiełło, que resultou na batalha de Grunwald, considerada por muitos historiadores como uma das maiores batalhas envolvendo Cavaleiros Católicos da Idade Média.

      Para nós que crescemos aprendendo sobre a história das inquisições e das cruzadas, o banho de sangue proporcionado pelo expansionismo cristão, especificamente da Igreja Católica Romana, não mais impressiona. Os mesmos senhores que por vários anos estiveram à frente da única fonte de referência aos textos cristãos provocaram inúmeras guerras e matanças, tudo em nome de deus e em nome da fé na doutrina de Saulo de Tarso. Mas hoje pretende-se acreditar que a história do cristianismo nada tem a ver com as instituições modernas, e o passado parece tão distante e nebuloso que ignoramos conscientemente os massacres em nome de uma ignorância confortante.

      Ademais, comete falta grave aos olhos dos cordeiros católicos abordar a história de sangue e mentiras que tornou possível a construção deste grandioso e secular instituto religioso, ignorando-se os séculos de matanças e perseguições, de doutrinações e punições, de pederastia e ignorância, de controle e resistência à ciência, provocados por esta grandiosa máquina de fazer dinheiro e gerar ilusões. Custo a acreditar que existam fieis que ainda levem a sério uma instituição predatorial como esta, que alimenta a segregação religiosa e incentiva a ignorância, através de atitudes homofóbicas, e anti-progressistas, com  o exemplos bizarro da proibição moral do uso da camisinha, com direito a palestras no continente africano, infestado pelo vírus da AIDS.

      Emblema da Ordem do Dragão, baseado no mito do ouroboros.
      Emblema da Ordem do Dragão, baseado no mito do ouroboros.

      Aparentemente a Igreja ainda não se libertou de seus laços históricos, nem tampouco aprendeu com seus erros. Ainda há demonstrações explícitas do seu anti-semitismo latente, enquanto escondem crianças vítimas de abusos sexuais embaixo de suas batinas. Os fantasmas da Ordem do Dragão ainda circulam pelos corredores do vaticano, nos lembrando da sede de sangue que banhou os mármores das suas igrejas históricas.

      Afirma-se que o ocidente é cristão por vontade de uma força divina, manifestada por revelações. A verdade é que foi a espada quem assegurou que os reis europeus mantivessem suas coroas e sua principal arma de controle das massas: o cristianismo. Não que estes líderes estivessem livres das garras alienantes desta religião oriunda do deserto. De fato a maioria deles era profundamente religiosa. Nos meus próximos dois textos tratarei de algumas dessas importantes figuras históricas, e tentarei abordar, ainda que de forma simplista, algumas das estratégias e métodos mais grotestos e menos divulgados dentre os utilizados pela cristandade durante a Idade das Trevas.

          Em 1977, como parte do programa de exploração interplanetária batizada de Voyager,foi lançada na direção de Saturno a sonda Voyager I. Após completar a sua missão, em 1990, uma última foto foi tirada em direção ao planeta Terra, a uma distância de 6.4 bilhões de quilômetros. Esta fotografia ganhou fama e foi batizada de Pale Blue Dot (ou pálido ponto azul), que mais tarde inspirou a confecção de um livro homônimo do brilhante astrônomo norte-americano Carl Sagan, que na época fazia parte do projeto e havia solicitado que a imagem fosse capturada pela sonda.

          Na imagem acima, destacada pelo círculo azul, o planeta Terra se apresenta como um insignificante ponto no universo. Olhos desavisados nem ao menos perceberiam sua presença. Não há nada de especial neste ponto luminoso, exceto para nós, que o habitamos. Este é o planeta no qual residimos e que serviu de testemunha para todos os feitos da humanidade. Não conhecemos (ainda) outra forma de vida, senão aquela que aflorou em solo terrestre.

          Para nós, seres humanos, é fácil imaginar que todo o universo gira em torno de nossa jovem existência, de nosso planeta tão rico em vida, e tão facilmente desprezamos o fato que nada temos de especial neste colossal universo, senão o fato de que fomos afortunados o suficiente para proporcionar, em dado momento, que a célula primordial viesse a existir.

          Dentre tantos planetas, só a Terra possui vida; logo deve ter sido obra de uma inteligência superior, diriam os crentes. Entretanto, sabemos que não é bem assim. Dentre bilhões de planetas que flutuam no nosso universo, não é nada impressionante o fato de a vida ter aflorado em ao menos um deles. Imagine que mesmo se a chance fosse de um em um milhão, ainda assim haveria uma alta porcentagem de favorecimento a alguns desses planetas.

          É muito provável, ainda, que existam outros sistemas onde tal fato também se deu. Não é descartada a possibilidade de outros planetas que carregam em seu solo alguma espécie de vida extraterrena, que pode ser, ou não,similar ao que conhecemos por vida. Seja qual for a situação, nossa possibilidade de comunicação com tais seres se vê separada por anos-luz.

          Me parece extremamente pretensioso que se atribua à uma força inteligente e infinitamente superior a criação de tudo o que existe, que deliberadamente o fizera com a única finalidade de servir de nicho para um grupo de humanoides, com a intenção de que estes últimos louvassem e erguessem templos em homenagem a este criador vaidoso e ciumento.

          Entretanto, como nos lembra bem Carl Sagan, apesar de insignificante, este é o nosso planeta. É tudo o que temos. Não conhecemos ainda meios de migração para outros planetas, e não há qualquer previsão que torne tal acontecimento possível. É preciso cuidar do que temos, pois é o único que temos, e deixar de lado todas as futilidades e puerilidades metafísicas criadas por desocupados religiosos, inconformados com uma existência simples na Terra, e que sob a pretensão de serem vistos como humildes servos de um ser maior, criam a ilusão de uma vida póstuma, elevada e superior.