Author Archives: Sérgio Rodrigues

Sérgio Luiz de Miranda Rodrigues tem 33 anos e mora em Brasília, DF. Bacharel em Ciência da Computação pela Universidade de Brasília, é desenvolverdor de sistemas no setor público e astrônomo amador.

No século XIX, décadas antes de Einstein ter proposto suas contra intuitivas teorias da relatividade, pairava no meio científico a dúvida sobre a existência do éter luminífero. Não só a intuição, mas também o conhecimento sobre a natureza das ondas sonoras (que constituem a vibração de um meio material tal como o ar, ou qualquer porção de líquido ou corpo sólido) levavam cientistas a postular a existência desse elemento. Tendo a luz, tal como o som, a natureza de onda, o éter luminífero seria o meio através do qual ela se propagaria. Em outras palavras, a propagação da luz consistiria na vibração desse meio. Era estranha a ideia de que a luz se propagasse no vácuo, onde não há o que vibrar.

Dispostos a esclarecer a dúvida, em 1887 os físicos Albert Michelson e Edward Morley propuseram e realizaram um experimento[1] capaz de constatar a existência do éter, como acreditavam, e que poria fim à questão. O engenhoso experimento era baseado na grande velocidade com que a Terra se desloca na órbita em torno do Sol (cerca de 107.000 km/h) e, portanto, em relação ao éter, e tentava constatar uma diferença de tempo entre dois feixes de luz que percorreriam uma dada distância, mas em direções perpendiculares. Na sua fundamentação, um dos feixes de luz seria desfavorecido pela corrente contrária de éter causada pelo deslocamento da Terra sobre o éter no espaço, levando mais tempo para percorrer a mesma distância[2].

O dado curioso a respeito desse famoso experimento é que, embora ele tenha sido possível de realizar fosse bem fundamentado teoricamente, o resultado foi exatamente o contrário do que esperavam seus autores. Não se constatou nenhuma diferença no tempo de percorrimento dos feixes perpendiculares e, em vez de provar a existência do éter, como pretendido a princípio, acabou por afastar a hipótese da existência. Outras versões mais refinadas do experimento foram realizadas desde então, obtendo o mesmo resultado negativo.

Como se sabe, em ciência o conhecimento é produzido empiricamente. É possível descobrir não só se algo faz parte da realidade, como também se não faz; desde que esse algo esteja bem definido, tendo características detectáveis ou, melhor ainda, mensuráveis. Quando descreve o dragão na garagem, Carl Sagan[3] usa o artifício de jamais defini-lo objetivamente, conseguindo com isso sempre manter a hipótese da existência como possível. Tal como outros seres míticos em outras literaturas.

 

Referências

[1] Experimento de Michelson e Morley <http://pt.wikilingue.com/es/Experimento_de_Michelson_e_Morley>. Acesso em 6 de maio de 2010.

[2] Simulador para a hipótese do experimento <http://galileoandeinstein.physics.virginia.edu/more_stuff/flashlets/mmexpt6.htm>. Acesso em 6 de maio de 2010.

[3] SAGAN, Carl. “Um dragão em minha garagem”. In: O mundo assombrado pelos demônios.

II

O filme A Vida de Brian narra a estória de um homem comum, que teria vivido cerca de 2.000 anos atrás em algum lugar no oriente médio, e vez por outra era tido por um messias e seguido por centenas e centenas de pessoas, ávidas por ouvir palavras de sabedoria. Em uma das cenas, ele tenta usar o próprio prestígio, conseguido por puro acidente, para tentar desfazer a confusão: “vocês devem pensar por si mesmos, não sigam ninguém”, aconselha à multidão de seguidores, que vibra com o conselho mas não o assimila. O filme é uma comédia, cheia de personagens caricatos e escrachados, a multidão é um deles.

Século XXI, em algum lugar da América do Sul. Desta vez uma cena real: uma dona de casa vê uma mancha no vidro da janela e tenta removê-la com álcool. A mancha não sai. Mas, com ajuda da cunhada, por pareidolia, reconhece a imagem popularmente atribuída à “Nossa Senhora” católica. O fenômeno logo é conhecido também pelo marido, vizinhos, e se espalha até virar notícia em todo o Brasil. Nos dias seguintes, uma multidão se aglomera em frente à janela manchada, ávida pela graça de ver também a santa e com esperança de que aquilo terá algum efeito positivo em suas vidas.

Não farei considerações a respeito de a mancha ser apenas uma mancha ou a manifestação de uma semi-divindade, ou sobre a possibilidade de ter algum efeito prático na vida de quem pôde presenciar o fenômeno. Tendo em vista que eu sou ateu, elas são facilmente dedutíveis. O que pretendo evidenciar nesse episódio é a facilidade com que o conhecimento do fenômeno se propagou e provocou comoção em centenas de pessoas.

A esmagadora maioria da população brasileira tem uma vida nada tranquila. A educação e o sistema de saúde são ainda um tanto precários, altos níveis de violência assustam boa parte das grandes cidades, e o salário médio é bastante baixo. Apesar de ser um povo tido por alegre, não se nega que enfrenta muitas dificuldades e que a alegria vem de uma boa louvável capacidade de adaptação e improviso, e um dos apoios em que as pessoas costumam usar para alívio de uma realidade dura, aqui como em vários lugares do mundo, é a religião. Numa famosa citação, Karl Marx afirmava: “A miséria religiosa é ao mesmo tempo expressão de miséria real e protesto contra ela. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, o alento de uma situação desalentada. É o ópio do povo.”[1]

De fato o brasileiro é, também, um povo bastante religioso. O catolicismo veio na bagagem da dominação portuguesa e predominou na mente da quase totalidade da população até o século passado, quando só passou a perder terreno significativo para outras vertentes do cristianismo que se mostraram igualmente ou mais eficientes em tocar a disposição à fé que sempre fez parte e sempre foi valorizada na nossa cultura. De fato, no imaginário popular, ter fé está associado a ser uma pessoa com boas atitudes ou, no mínimo, boas intenções, enquanto a falta de fé não raro é vista como uma desilusão com a vida, tristeza, sinal de más intenções ou uma deficiência, como a ausência de algo essencial para a vida.

No nosso país, o misticismo é tido como normal e, culturalmente, não costuma ser questionado. Por isso, o fenômeno da aparição de uma mancha assemelhada a uma santa na janela foi relatado pela imprensa ora com entusiasmo – perseguindo a audiência de uma população religiosa – ou ora como um fenômeno pitoresco mas absolutamente normal. Na reportagem referenciada no segundo parágrafo, o questionamento sobre o fenômeno chegou apenas a se seria uma das aparições milagrosas da santa – tomando por premissa que, senão essa, outras ocorreram ou ocorrem. É por isso que a pergunta costuma ser feita na forma invertida: “por que você não acredita em Deus?” em vez de “por que você acredita?”.

Referências

[1] MARX, Karl. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel (1843).

I

Pouca gente no Brasil entende que o universo seja criado uma vez a cada dia do deus da criação – que corresponde a 4,3 bilhões de anos do nosso calendário usual – e, ao fim do dia, esse deus adormece e tudo é consumido pelo fogo. Mas o deus da criação acorda de novo no dia seguinte e repete toda a criação, até completar 100 anos. Após esse período, ele e todos os outros deuses deixarão de existir e, junto com o resto do universo, serão dissolvidos em seus elementos constituintes [1].

Fora da cultura hindu, essa narração de como o deus Brama interfere no universo parece não fazer sentido. Segundo a mitologia hindu, ainda, Brama, Vixnu e Xiva – deuses da criação, da conservação e da destruição, respectivamente – são a parte cognoscível pelo homem do Brâman, o Absoluto. No entanto essa compreensão sobre o universo e como ele é regido por deuses também só se deu dentro da cultura hindu.

Da mesma forma, antes que fosse fácil a troca de informações em nível mundial, o deus de que estamos habituados a falar – tanto que a praxe é grafá-lo como ‘d’ maiúsculo do título; o deus judaico-cristão-muçulmano, não se revelou aos hindus. A eles também, provavelmente, pareceria exótica e inverossímil a narração bíblica da criação do universo e como é regido pelo deus que seria único mas auxiliado por forças semi-divinas como o diabo e, em breve passagem, o messias filho desse deus. Melhor, aliás, designá-lo por deus abraâmico, pois esse termo remete à sua origem de fato única. Causa alguma confusão que Deus, o mesmo cultuado pelos judeus, cristãos e muçulmanos, a um grupo ainda esteja por enviar o prometido messias, ao outro já tenha enviado, junto com um Novo Testamento; e ao terceiro, tenha enviado também um último profeta e prometido 72 virgens aos mártires religiosos.

É difícil deixar de enxergar inconsistências mesmo dentro das estórias religiosas ensinadas na nossa própria cultura. Historicamente, o deus abraâmico deu origem a ramificações conflitantes. As características desse deus são inconsistentes. Ele seria onipotente e teria dado livre arbítrio aos seres humanos, mas seria ao mesmo tempo onisciente, o que não permite nenhuma das duas coisas. Ele teria superpoderes e uma inteligência muito superior à humana, mas frequentemente age com violência dominado pela ira. E a narrativa bíblica é permeada por informações que, com o advento da ciência, se revelaram erradas, como a separação do dia e noite antes da criação do sol, a terra plana e o surgimento de todas as espécies de seres vivos quase ao mesmo tempo.

Racionalmente, a pergunta tão comum feita aos ateus parece estar invertida. Deus é algo muito difícil de acreditar.

Referências

[1] <http://pt.wikipedia.org/wiki/Trimurti> Acesso em 4 abr. 2010.

Criança e de criação católica na década de 1980, como quase todo mundo eu apreciei um disco de grande sucesso na época, cujo tema era estória bíblica da arca de Noé. Um trabalho interessante e bem produzido, tanto que eu quis readquirir, anos mais tarde, a mesma obra em formato CD, como uma lembrança nostálgica. A primeira faixa narra poeticamente, numa composição de Chico Buarque e Toquinho, e interpretação de Milton Nascimento, a tão conhecida passagem do Antigo Testamento.

Era uma obra para o público infantil, e explorava inteligente e divertidamente os bichos: leões, tigres, macacos, gatos, corujas, abelhas… realmente uma boa temática para crianças. Mas algum tempo depois que eu não me considerava mais católico, e que, ironicamente e pela primeira vez, me interessei pela leitura do Antigo Testamento, veio a percepção de que a estória do Gênesis não era lá tão apresentável sequer para pessoas de alguma idade, que se dirá para crianças.

Ora, resumidamente, a estória conta que, certa ocasião, Deus estaria bastante aborrecido por uma humanidade muito pecadora, e pediu a Noé que construísse uma arca em terra firme e para ela levasse sua família e um casal de cada espécie animal. O bravo Noé levou pra lá pares das bilhões de espécies existentes, não esquecendo sequer os pinguins nem os ornitorrincos, que graças a ele podemos ver até hoje. Para resolver o problema que tanto o enfurecia, assim que Noé terminou a tarefa, Deus fez chover em todo o planeta por 40 dias e 40 noites, matando afogados todos os que ficaram de fora da arca. Deus simplesmente comete ele mesmo um dos maiores genocídios já relatados, mesmo na ficção.

Com um pouco de senso crítico, essa estória só poderia ser ensinada a crianças como exemplo do que não fazer. Algo como:

Era uma vez um deus muito perverso que criou um planeta e colocou habitantes nele. Da forma como esse deus os fez, esses habitantes quase sempre agiam de forma diferente do que ele desejava. Então esse deus, que era muito rude, em vez de ter uma conversa com eles ou torná-los naturalmente agradáveis a ele, achou mais interessante escolher uma família para deixar viva e matar todos os demais. Deus mandou essa família entrar numa arca e inundou o planeta, e todos os que estavam fora da arca morreram afogados. Depois disso, essa família se multiplicou e deu origem novamente a uma numerosa humanidade que continuou não o agradando. E esse deus continuou elaborando métodos violentos muitas e muitas vezes para castigá-la, sem nunca conseguir que ela se comportasse como ele sempre quis, e viveu infeliz para sempre. Moral da estória: a violência não resolve problema algum.

De fato, a violência divina aparece repetidamente ao longo de praticamente toda a Bíblia, sem nunca chegar a um resultado satisfatório para Deus. Mesmo em passagens mais singelas, como na estória do profeta Jonas: Deus quis que ele fosse pregar a sua palavra em Nínive. Você adivinha o que acontecia lá? A população era muito pecadora – mais uma vez! Jonas não queria, a princípio, e Deus o convence fazendo um peixe grande engoli-lo e vomitá-lo na praia três dias depois. Nessa passagem, Deus me lembra Dom Corleone, o lendário chefe mafioso de O Poderoso Chefão. O que ele fez foi sequestrar Jonas, deixá-lo aterrorizado com a provável morte iminente por três dias, para passar o recado: “faça o que eu mandar, você não tem muita escolha”.

Como leitura educativa, essas estórias carecem de virtude.

“Talvez a maior tragédia da história humana tenha sido o sequestro da moralidade pela religião.”[1]

Se alguém se der ao trabalho de notar se as pessoas que frequentam o noticiário policial, ou mesmo as pessoas que não chegam a tanto, mas são conhecidas e mais aparecem por atitudes de mau caratismo; se alguém prestar atenção ao fato de essas pessoas terem ou não religião e quanto se dedicam a ela, talvez se surpreenda ao perceber que muitas têm religião e algumas se dedicam bastante. Políticos corruptos, ladrões de todas as estirpes, pequenos ou grandes sonegadores de impostos, a proporção de pessoas religiosas nesses grupos é algo parecida com a proporção na população em geral.

Em vários casos, os próprios líderes religiosos acabam sendo autores de notórios crimes às vezes até propiciados pelas atividades que exercem. Recentemente, pastores da Igreja Mundial, tentaram aproveitar o prestígio da sua imagem e livre acesso a um morro de Niterói para fazer tráfico de armas. O casal líder máximo da Igreja Renascer, famosa por ter vultuosa arrecadação, foi preso ao tentar entrar nos E.U.A. com uma quantia de dólares sem a declaração legalmente prevista, escondidos dentro de uma Bíblia. Ao redor de todo o mundo padres desviam sua sexualidade reprimida pelo celibato para alguns desafortunados coroinhas que neles confiam, e a igreja de que são membros vez por outra se preocupa mais em ocultar os casos para manter uma imagem santa do que em punir os padres criminosos e evitar mais vítimas.

Convém não generalizar. Assim como a proporção de religiosos entre os criminosos guarda similaridade com a proporção na população toda, felizmente a recíproca também é verdadeira. A infelicidade é que algumas religiões, notadamente as religiões cristãs, se auto-declarem os únicos guias confiáveis para a moralidade. É simplesmente escabrosa a imagem que essas religiões tentam passar a respeito dos ateus. Normalmente somos acusados de incapacidade de fazer qualquer distinção entre bem e mal e, a partir dessa premissa, sermos responsáveis por todo o tipo de comportamento reprovável que existe na sociedade. Esse tipo de afirmação é mais um que requer o exercício alienante da fé, pois não encontra qualquer apoio nos fatos. As atitudes reprováveis são esmagadoramente cometidas pela esmagadora maioria religiosa da população. E os ateus têm noção de moralidade tanto quanto qualquer pessoa religiosa.

Vejo com bons olhos a intenção das religiões de guiarem moralmente seus fiéis. Isso propicia dedicação ao assunto e, consequentemente, seu desenvolvimento. Vejo também certa incoerência ao usarem para isso um livro recheado de violência e atitudes pueris na maior parte das vezes perpetradas pelo personagem principal, mas isso é assunto para outro artigo. O maléfico é a desonestidade de atacar gratuitamente quem não segue uma religião e o preconceito que surge disso. Preconceito leva a atitudes erradas em qualquer direção, seja a de um ateu que possa ser desmerecidamente punido quanto a de um religioso ganhar mais confiança do que merece, muitas vezes dos seus pares ou seguidores. Uma pessoa deve ser julgada por suas atitudes reais e não pelas que somos levados a crer com base na religiosidade ou falta dela.

Notas:

[1] CLARKE, Arthur C. Greetings, Carbon-Based Bipeds!: Collected Works 1934-1988. New York: St. Martin’s Press, 1999.

III

Se a fé não tem a capacidade de realmente prover o objeto de desejo que a produz, ou que a justifica, cabe de qualquer forma questionar se existe algum mal em tê-la. A fé traz conforto, alterando, ao menos psicologicamente, uma realidade demasiadamente incômoda para algo nada incômodo ou até mesmo agradável. Quando o seu corpo parar de se mexer por si mesmo e começar a apodrecer, como acontece com todo mundo algum dia, você não estará morto, mas sim continuará a viver em um outro lugar onde o seu corpo não será necessário. E aquelas pessoas queridas que você viu morrerem um dia, aquelas que deixaram uma saudade quase insuportável, você poderá ter a companhia delas outra vez.

Usamos outras coisas assim no dia a dia, e não são necessariamente ruins. A anestesia suprime uma dor física demasiadamente grande, e é fundamental para o sucesso de quase todas as cirurgias. É não só útil como muito benéfica, e os benefícios vão além da supressão da dor, já que em grande parte das vezes o usuário pode viver bastante mais tempo por ter tido uma cirurgia bem sucedida. Ou mesmo um ato simples como o de tomar refrigerante. Fazer isso não traz nenhum benefício físico: podemos nos hidratar bebendo simplesmente água e as calorias nós normalmente já consumimos em excesso em outros alimentos, tanto que uma parte das pessoas prefere a versão dietética. Mas proporciona um pequeno prazer – um efeito puramente psicológico – com o qual podemos considerar a vida um pouco melhor.

O mesmo se pode dizer de preferir a vida com fé – por que não? Se é um alento, um conforto que dá à pessoa a possibilidade de se preocupar menos com um problema que de toda maneira é inevitável, e isso não muda independente de quanta preocupação se dedique a ele. Não há um mal intrínseco nessa postura, mas vale para a fé a regra que convém para praticamente qualquer coisa: “use” com moderação. Manter os pés no chão – ou a cabeça na realidade que não dá indícios para os acontecimentos pretendidos com fé – permite colher o conforto que proporciona sem prejuízos colaterais.

O problema é que a as religiões mais populares exploram a necessidade, a busca pelo conforto emocional num mundo onde coisas ruins acontecem e as tendências que todo mundo ocasionalmente tem à irracionalidade, para fazer um apelo exacerbado ao argumento autossustentado – e vazio – da fé. Conquistam massas com esse recurso que atrofia a capacidade crítica das pessoas e com isso conseguem transmitir ideias e explorá-las, mesmo com promessas baseadas em mundos que ninguém nunca viu e à troca de vantagens absolutamente mundanas, sem praticamente nenhum questionamento. E rebanhos de religiosos cedem 10% de suas rendas a igrejas que não cogitam o trabalho de prestar contas – isso quando não são mais afoitas e pedem contribuições mais vultuosas aos seus fiéis, como carros, imóveis e outros bens ofertados a um deus inexplicavelmente materialista; oferecendo em troca um duvidoso paraíso de felicidade ao mesmo tempo em que os ameaça com o fogo de um suposto inferno caso não contribuam satisfatoriamente. Mais impressionante do que haver líderes religiosos que usem de uma retórica assim é haver fiéis que se comportem de acordo e achem tudo perfeitamente normal. Isso só se explica com muita fé.

 

O argumento da fé
Parte I
Parte II
Parte III

II

O meu fusquinha inverossímil tem uma grande vantagem: não precisa se amarrar aos limites da realidade. Na minha empreitada de vendedor imaginário, eu o ofereci a um comprador que disse que iria gastar muito mais, mas preferia um carro moderno; de fato estava prestes a comprar um super-esportivo muito potente, que faz de 0 a 100 em apenas cinco segundos. Falei pra ele que o fusca é superior, é mais potente que um fórmula um e faz de 0 a 100 em bem menos de cinco segundos. Um segundo interessado disse que gosta é de escutar música clássica no carro, e prefere um modelo luxuoso e ultra silencioso, e odeia esses modelos muito potentes, porque fazem um barulho dos diabos. Disse a ele que não se preocupasse, o fusca era o mais silencioso dos carros. E uma senhora, por fim, ponderou que era uma péssima ideia um carro tão potente quanto silencioso, pois o que seus donos costumam fazer é abusar da confiança e se esborrachar em um poste. Tranquilizei-a também: o meu adorável fusquinha é o mais seguro dos carros, ninguém nunca se envolve em acidentes com ele. Agora essa estória exacerbou. Se antes o fusca era somente muito improvável, passou definitivamente a pertencer ao mundo da magia.

Alguém apontará uma falha notável na minha analogia do fusca com os benefícios que as religiões prometem à troca de fé: eu sou só um mortal comum, não mais – e tomara que não menos – que os mais de seis bilhões que habitam hoje o planeta. Como qualquer um deles, eu não tenho a possibilidade de entregar esse carro. No caso das promessas religiosas, elas seriam cumpridas por um ser mais poderoso do que eu. Quão mais poderoso? Infinitamente. Esse ser é, simplesmente – como isso pudesse ser simples – onipotente.

Esse ser tem ele próprio algumas inconsistências, a começar pelo fato de um ser que tudo pode realmente pode tudo, com exceção de existir. Segundo as religiões mais populares, ele está muito acima da capacidade e do entendimento humano, é único e se revela pela fé. Mas, se está acima das capacidades humanas, por que tem sentimentos e comportamentos tão humanos, como amor e ódio, destruição de coisas materiais e vidas por acessos de raiva e desejo de vingança, preferência por algumas pessoas e rejeição por outras? E, se é único, por que se revela de formas diferentes a povos que habitam lugares diferentes, e até mesmo de formas diferentes a pessoas diferentes dentro de um mesmo povo? Dos diversos deuses do hinduísmo, da mitologia greco-romana ou das tribos indígenas das Américas ao deus único do judaísmo, do cristianismo e do islamismo, do dar a outra face ensinado na bíblia por quem seria o filho de deus à invasão do Iraque, segundo o então presidente dos E.U.A, George W. Bush, inspirada por esse mesmo filho de deus, das Católicas pelo Direito de Decidir que defendem a laicidade do Estado ao papa Joseph Ratzinger a constranger políticos católicos que não defendem a proibição total e irrestrita ao aborto, nota-se uma diversidade imensa na forma como os deuses ou o deus único se “revelam” a pessoas diversas.

Seriam essas características de um ser real e externo à mente de cada pessoa, ou um ser criado pela própria imaginação, induzido por uma vontade inerente e por apelos à fé? Não seria o apelo à fé pura simplesmente um apoio ao autoengano? Para quem não toma a fé como um valor fundamental para a vida, isso parece bastante evidente, e o clamor por fé não seria mais do que uma forma até mesmo simplória de delegar ao fiel a tarefa de se convencer. Ora, por que as promessas feitas pelas religiões, que o deus professado por elas cuidará de cumprir, coincide exatamente com o que queremos? A começar pelo desejo mais forte de quase todo ser humano, aliás a quase todo ser vivo complexo o bastante para ter desejos, que é o de não morrer. No mundo real, é notável que todo ser vivo um dia morre, e que todos nós somos seres vivos. A conclusão é tão direta quanto incômoda, e o que as religiões oferecem é o alento a esse incômodo: “na verdade” o ser humano não morre; em vez disso vai para outra vida. Vai para uma outra existência que pode ser mais interessante ou simplesmente para a felicidade eterna, conforme a vertente religiosa que se escolha.

Esse tipo de afirmação deveria, em princípio, ser passível de comprovação, digamos alguma comunicação inequívoca com alguém que já passou pela morte, a comprovar que continua vivo em algum outro lugar. O que as religiões oferecem em lugar dessa comprovação é um misto de ora que esses sinais se dão – mas que nunca resistem a uma análise científica – e ora que não se dão porque o ser criador de tudo não quer, por razões reconhecidamente inexplicáveis – o argumento de que estão além da compreensão humana. Estranhamente, para ter isso que elas oferecem e é exatamente o que você deseja, na falta de argumentos palpáveis, pedem para que você tenha fé. Mas será que o simples acreditar, por mais intenso que seja, é capaz de criar um paraíso de vida eterna e feliz mais é de criar um fusquinha mágico?

 

O argumento da fé
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I

Tenho um ótimo negócio para você: um fusca por cem reais. Ok, talvez você nem esteja procurando um carro pra comprar no momento, e se estiver muito provavelmente nem é um fusca, que há tempos deixou de ser um sonho de consumo quando se fala de automóveis. Mesmo assim é uma oferta tentadora, aparentemente tão generosa que cabem perguntas a respeito. É de brinquedo esse fusca? Eu respondo: não, é um automóvel de verdade, desses em que você entra, dá a partida e pode sair dirigindo. É regular? Qual o estado de conservação? É totalmente regular, a documentação está em meu nome, e zero quilômetro, sem nenhuma avaria e totalmente funcional.

Agora ficou ainda mais estranho. É muito improvável haver um fusca zero quilômetro à venda. Desde 2003 não se fabricam mais, isso no mundo todo. E alguém que conservou um sem andar e em perfeitas condições normalmente pediria mais de cem reais por ele. Você nem estava procurando um fusca, mas a oferta é inegavelmente tentadora, se for verdadeira. As minhas condições para a venda são bem simples: preciso dos cem reais hoje ainda, mas só posso entregar o carro daqui a um mês. Não é nada realmente incômodo para um negócio tão bom. Tudo bem, as condições são aceitáveis, mas como é possível – e até muito provável, dada a generosidade da oferta – que você entregue o dinheiro e nunca receba o fusca, é bom ter algumas garantias. Pode ser, digamos, firmar o contrato de compra e venda, registrar em cartório, e pedir documentos que comprovem a existência do carro, a regularidade da documentação, e ainda que deem uma razoável certeza de onde eu possa ser encontrado daqui a um mês. Curioso é que, nesse caso, talvez se gaste mais com a comprovação disso tudo do que os cem reais pedidos pelo fusca. Mas mesmo assim o negócio ainda é muito bom.

Até aqui eu devo ter prendido a sua atenção ao negócio e, possivelmente, o seu interesse em fechá-lo. Basta agora convencê-lo de que ele é verdadeiro. Se está interessado em fechá-lo, é porque gostaria que fosse. Eu não ofereço a comprovação da forma como você pediu. Não tenho agora a documentação do carro, nem a minha que pode indicar onde eu poderei ser encontrado com razoável certeza. Em vez disso, ofereço o seguinte: você quer que o negócio seja verdadeiro, não é? Pois se acreditar bastante, se acreditar verdadeiramente, ele será.

Nesse ponto eu já espero, sinceramente, que você perceba que toda essa conversa é um grande papo furado, que eu não tenho fusca nenhum pra vender e, se tivesse, não deveria vendê-lo por cem reais. Mais do que isso, espero que não fique tentado a dar os cem reais apostando na chance de eu estar falando a verdade, já que “não é tanto dinheiro assim”, dependendo do seu ponto de vista.

É flagrante a diferença entre a forma como a maioria das pessoas pensa sobre questões da vida prática e questões religiosas. Essa diferença é, na verdade, questão crucial para boa parte das religiões, em especial as religiões populares no Brasil. É bem aceita a ideia de que é uma boa coisa alertar pessoas próximas – seja na educação de filhos, ou em conversas com pais, marido ou esposa, ou amigos – para que não sejam ingênuas a ponto de querer comprar um fusca por cem reais. E chega a ser ofensivo pedir o mesmo raciocínio, fazer exatamente o mesmo alerta, quanto a assuntos religiosos.

Na educação religiosa, somos orientados desde pequenos a ter fé. E, quando questionamentos surgem em nossas cabeças, a orientação é ter mais fé. Fé, não escondem os religiosos, é acreditar mesmo diante da ausência de evidências. Fé foi o que eu pedi na minha (espero) malsucedida negociação do fusca. O que você diria se eu pedisse mais fé?

E por 90, vai?

 

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