No século XIX, décadas antes de Einstein ter proposto suas contra intuitivas teorias da relatividade, pairava no meio científico a dúvida sobre a existência do éter luminífero. Não só a intuição, mas também o conhecimento sobre a natureza das ondas sonoras (que constituem a vibração de um meio material tal como o ar, ou qualquer porção de líquido ou corpo sólido) levavam cientistas a postular a existência desse elemento. Tendo a luz, tal como o som, a natureza de onda, o éter luminífero seria o meio através do qual ela se propagaria. Em outras palavras, a propagação da luz consistiria na vibração desse meio. Era estranha a ideia de que a luz se propagasse no vácuo, onde não há o que vibrar.
Dispostos a esclarecer a dúvida, em 1887 os físicos Albert Michelson e Edward Morley propuseram e realizaram um experimento[1] capaz de constatar a existência do éter, como acreditavam, e que poria fim à questão. O engenhoso experimento era baseado na grande velocidade com que a Terra se desloca na órbita em torno do Sol (cerca de 107.000 km/h) e, portanto, em relação ao éter, e tentava constatar uma diferença de tempo entre dois feixes de luz que percorreriam uma dada distância, mas em direções perpendiculares. Na sua fundamentação, um dos feixes de luz seria desfavorecido pela corrente contrária de éter causada pelo deslocamento da Terra sobre o éter no espaço, levando mais tempo para percorrer a mesma distância[2].
O dado curioso a respeito desse famoso experimento é que, embora ele tenha sido possível de realizar fosse bem fundamentado teoricamente, o resultado foi exatamente o contrário do que esperavam seus autores. Não se constatou nenhuma diferença no tempo de percorrimento dos feixes perpendiculares e, em vez de provar a existência do éter, como pretendido a princípio, acabou por afastar a hipótese da existência. Outras versões mais refinadas do experimento foram realizadas desde então, obtendo o mesmo resultado negativo.
Como se sabe, em ciência o conhecimento é produzido empiricamente. É possível descobrir não só se algo faz parte da realidade, como também se não faz; desde que esse algo esteja bem definido, tendo características detectáveis ou, melhor ainda, mensuráveis. Quando descreve o dragão na garagem, Carl Sagan[3] usa o artifício de jamais defini-lo objetivamente, conseguindo com isso sempre manter a hipótese da existência como possível. Tal como outros seres míticos em outras literaturas.
Referências
[1] Experimento de Michelson e Morley <http://pt.wikilingue.com/es/Experimento_de_Michelson_e_Morley>. Acesso em 6 de maio de 2010.
[2] Simulador para a hipótese do experimento <http://galileoandeinstein.physics.virginia.edu/more_stuff/flashlets/mmexpt6.htm>. Acesso em 6 de maio de 2010.
[3] SAGAN, Carl. “Um dragão em minha garagem”. In: O mundo assombrado pelos demônios.
