Author Archives: Ricardo Ramos

Ricardo Antonio de Oliveira Ramos tem 44 anos, mora atualmente em Goiânia – Goiás. Cursou em 1984 e 1985 Administração na PUC de São Paulo, quando abandonou e seguiu a carreira de aviador comercial, a qual exerce até os dias atuais somando um total de 10 mil horas de vôo no comando de aeronaves de todos os tipos (monomotores, bimotores, turbo-hélices, jatos, avião-anfíbio). Cético e pensador por natureza, se interessa bastante por astronomia, filosofia, música e aviação. Pretende escrever num futuro próximo um livro narrando as tantas histórias reais ocorridas a bordo de aeronaves em mais de 20 anos de profissão, as quais mesclam pânico, humor, alegria, tristeza e aventura. Um livro para as pessoas lerem sem ver o tempo passar e entenderem que é sempre o Homem quem toma as decisões dentro de uma máquina qualquer, seja ela voadora ou não.

Nesta semana desejo abordar um assunto repetido e já bastante discutido, o qual tem me tirado substancialmente a paciência para debater ou conversar com crentes: a ineficácia dos argumentos racionais perante as cansativas e repetitivas falácias. Navegando na rede por sites céticos e científicos, e em especial pelo Ateus.net, nos deparamos constantemente com crentes, registrados nos fóruns de debates, árduos em exporem seus pensamentos crédulos e tentando a todo custo nos explicar a “lógica” de suas crenças e demonstrar que não há falácia alguma em suas descabidas retóricas. Quanto a presença de crentes em fóruns céticos, vejo até mesmo com “bons olhos”, uma vez que isto incita inúmeras discussões sobre diversos assuntos (insanos) religiosos abrindo naturalmente tantas portas para nós, céticos, argumentarmos com o máximo de racionalidade possível e, quem sabe, trazer alguma inocente “alma” para as raias da razão. Mas o esgotado problema a que me refiro reina em torno da total inutilidade justamente sobre o uso da razão e também do desprezo em relação à exposição da lógica. Para todo e qualquer assunto religioso devidamente refutado pelo cético, o crente sempre (desonestamente) ignora a lógica e responde com uma besteira qualquer tentando vergonhosamente validar sua fantasiosa crença.

Uma das maiores distorções da realidade nos debates entre crédulos e incrédulos, e que está no meu “topo de lista” sobre as coisas mais covardes e desonestas que os crentes costumam se pautar, é a insistência na não compreensão relativa ao “ônus da prova” e seu inadequado uso. Abandonei diversos debates, tanto em fóruns virtuais como em calorosas conversas pessoais com colegas ou com gente estranha, no momento em que a desonestidade de meus interlocutores chegou a este nível. É absolutamente inadmissível que a questão primária do “ônus da prova” não seja assimilada pelo crente debatedor, tamanha a facilidade de compreensão sobre o seu real sentido. Mesmo uma inocente criança, ao contar estorinhas para os pequenos amigos no recreio escolar, é capaz de compreender isso. Mas as insanidades dos crentes superam a lógica e a razão, portanto é de se esperar que eles não vejam absurdo algum na inversão do ônus. Porém, este fato nos tira a boa e agradável sensação de um debate produtivo. Isso nos faz parecer que estamos conversando com loucos:

“Prove para mim que você realmente recebe a visita de duendes no seu quarto todas as noites conforme está alegando”

“ Prove você que eu estou mentindo e que eles não existem. Afinal, é você que não está acreditando em mim!!”

É curioso como o esdrúxulo exemplo acima faz parte da rotina dos absurdos “argumentos” usados pelos crentes, e mais curioso ainda é o fato de que, mesmo ao lerem este exemplo no qual eu substituo a palavra alvo de sua cega crença (“deus” por “duendes”), ainda assim não entendem a simples e infantil lógica a quem de fato pertence o “ônus da prova”. Quando se trata do deus deles, insistem descaradamente na inversão do ônus, tornando qualquer debate inútil e sem propósito.

As falácias são velhas conhecidas no “universo” dos crédulos, e não existe ilusão alguma por parte dos céticos/ateus que num debate entre crentes e descrentes elas fiquem de fora, mesmo porque, sem o uso das famigeradas falácias, como eles defenderiam as contradições, ironias, fantasias, insanidades e aberrações contidas nas tantas raligiões e seitas que povoam o planeta? Mas seguindo com rigor o velho ditado que diz “há limite para tudo”, estamos caminhando para o esgotamento máximo no que tange discutir ou debater com crentes. Enquanto o tempo passa cadenciosamente e a ciência progride deixando cada vez um espaço menor para a existência de seres celestiais ou similares, “usurpando” dos crentes a possibilidade de reação plausível, a desonestidade que habita o conteúdo das explicações e/ou refutações promovidas por eles, os crentes, estão se tornando cada vez mais falaciosas e possivelmente, num prazo não tão longo, elas estarão superando o próprio significado da palavra “falácia”. Ultrapassarão tal categoria e adentrarão no território da mais pura desonestidade intelectual, tanto para si como para seus interlocutores. Uma falácia já é isso, mas eles estão indo além!

Ateus, céticos, cientistas, sábios…não são detentores da verdade absoluta e nem é disso que se trata a questão. Isso é irrelevante. O problema reside na distorção da lógica, no descaso para com a razão e na tentativa de explicar insanamente, desesperadamente e cegamente, o que ainda não se sabe, tornando uma conversa, um debate ou uma discussão, num circo de loucos e malucos que sequer compreendem um conceito tão banal e primário como o contido na expressão “ônus da prova”. E se entendem, a desonestidade por parte deles é ainda maior.

Iniciei o texto comentando sobre perder a paciência para debater ou conversar com crentes, e não há, de forma alguma, a pretensão de postular nenhuma razão absoluta a meu favor, tanto em assuntos religiosos quanto em quaisquer outros. Apenas expor uma situação que está tornando os debates entre crentes e descrentes absolutamente desleal e injusto por parte do primeiro grupo. Os crentes estão encurralados e desesperados; procuram sítios céticos para “checarem” sua própria fé e promovem um “show de horrores” com tópicos, respostas e refutações extremamente desonestas, transformando qualquer debate num covarde apelo à insensatez.

Há tempos eu observava a pequena “matilha” de cães da raça fila brasileiro que mantinha em minha própria residência, e a postura do macho líder, sempre mostrando com veemência que a desobediência custaria “caro” para algum canino teimoso infiél, me chamou a atenção para um detalhe: a natural imposição da autoridade (em alguns casos uma pseudoautoridade) através do medo e da ameaça. Conosco, Homens (maravilhosos seres humanos superdotados de excepcional razão e profundo discernimento entre asneiras e coerência  — explico para o possível leitor desatento que existe óbvia ironia neste comentário — ), também prevalece tal imposição, mesmo que algumas vezes travestida em “roupas de gala”. Pensando dessa forma, não simplesmente pela ótica animal, e considerando que há um enorme espaço antropocêntrico dentro de cada um de nós, não parece tão surpreendente; mas ao analisarmos com bastante calma e total isenção como funciona o mecanismo autoritário incrustrado no convívio social humano (família, trabalho, lazer, esporte…), começamos a compreender melhor como funciona a eficiente “rédea” religiosa. Em destaque significativo, aqui no Ocidente, as seitas neopentecostais.

Num mundo onde a natureza é absolutamente indiferente a tudo e a sobrevivência extremamente dificil, os crentes ainda necessitam se curvar a um Deus bastante ameaçador. Temê-lo, respeitá-lo e, acima de tudo, adorá-lo. A ausência de “adoração” pode custar muito caro a eles (em suas mentes). A própria defesa da razão é ameaçada com punição no fogo eterno, caso ela vá de encontro à fé cristã. Contudo, é fenomenal a maneira como a aderência por parte dos crentes em relação às coisas originadas e mantidas a partir da ciência são significativas em suas vidas. Para isso, com exceção dos Testemunhas de Jeová, não há punição. Aliás, os Testemunhas de Jeová compõe um caso para ser analisado em outra ocasião específica, tamanha a aberração de seus atos no sentido de irem contra o próprio instinto de sobrevivência em detrimento a um ser que sequer existe. Essa classe de crentes, juntamente com os alucinados homens suicidas muçulmanos, provavelmente são os verdadeiros crentes, os que realmente acreditam “naquilo”, ao contrário da maioria que simplesmente “teme” por alguma vingança divina caso não creia em Deus ou pelo menos ventile a possibilidade de sua inexistência. É o medo da morte, sempre, e o medo de uma punição absurdamente sofrível: o inferno.

Muitas vezes me pergunto se as religiões teriam chegado tão longe caso não houvesse o lado punitivo, do inferno, do sofrimento eterno. Sem as punições e as terríveis ameaças e medos, como a razão seria estirpada tão facilmente das pessoas? Se não existisse na humanidade o medo de pensar livremente e de blasfemar, como bilhões de pessoas estariam ainda hoje lotando igrejas e mais igrejas, tomando hóstias e confessando suas intimidades para estranhos homens de batina? Muitos crentes certamente usariam uma retórica já bastante conhecida para invalidar a questão das ameaças e do medo, oferecendo uma enorme “lista” de bons motivos para se seguir um religião, principalmente os cristãos. Mas eles próprios seriam o manequim da contradição, de pé atrás de uma vitrine que vende “falsas verdades” às custas de muito medo e danação. Um leão forasteiro solitário jamais obedeceria a ordem do macho líder de um bando qualquer, para se afastar das fêmeas ou da zebra morta caída ao chão, se não fosse por conta de uma enorme ameaça de força e/ou brutalidade (que pode ser levada às últimas consequências). Como somos animais também, a ameaça e o medo instintivo ainda compõem as melhores táticas para a manipulação dos “bandos” de humanos. Mas somos civilizados e emocionais, o que faz com que essas ameaças sejam mais sofisticadas em relação ao enorme rugido de um leão.

Estudando um pouco as maiores religiões monoteístas da história, percebemos que, na propaganda geral elas falam de paz, harmonia e congregação (fachada), mas as “rédeas” são na verdade guiadas e mantidas por terríveis ameaças e punições (interior) dignas de super produções cinematográficas. Ou pensam que um filme B qualquer conseguiria reproduzir um inferno eterno e ardente?

“Nada” é uma palavra criada por nós, seres humanos. Obviamente fomos nós quem criamos todas as outras que existem no vocabulário para designar e dar significado contextual às coisas, mas a palavra “nada” me chama especial atenção. A abrangência dela é enorme e normalmente a usamos tão corriqueiramente que nem percebemos o que de fato ela pode esconder, ou não esconder, e é aí que reside minha perplexidade em relação a ela. Quando alguém nos pergunta o que estamos sentindo e respondemos “não estou sentindo nada”, fica claro que este nada é bastante superficial e se refere a um estado qualquer em que a pessoa se encontra (dor, tristeza, angústia, paixão, depressão, solidão, alegria etc.). Mas, se analisarmos a mesma resposta “não estou sentindo nada” de forma absoluta, perceberemos quão esta palavra só possui valor factual subjetivo, pois não há meios de uma pessoa (viva e consciente) não estar sentindo absolutamente nada. E nesses termos chego ao ponto que desejo abordar.

Crédulos e incrédulos muitas vezes se “golpeiam” verbalmente na tentativa de cada um dar uma explicação melhor e mais plausível para a origem do universo conhecido ou até mesmo do infinito cosmos (apesar do nosso universo possuir o cognome de “infinito”, ele pode sim ter suas longínquas fronteiras, já o cosmos, não), porém, é muito comum ambos ignorarem que o nada não existe e nunca existiu, e se perderem em pensamentos que jamais os levarão a lugar algum. Esta dificuldade de assimilação é perfeitamente aceitável por termos uma visão padrão de começo, meio e fim e por existirmos. Temos uma visão subjetiva do nada e ao pensarmos no cosmos muitas vezes não conseguimos apartar essa subjetividade de nossas mentes e acabamos pensando equivocadamente que um dia “ele” foi um nada. As estórias religiosas para explicar a origem das “coisas” são de longe as mais irracionais e muitas vezes cômicas, mas isso não significa que não exista uma singela parte de céticos e ateus que insistem em pensar no cosmos como tendo uma “origem” a partir de um nada. Com certeza é nesses moldes que a confusão e as questões naturalmente instigantes se elevam ainda mais. Nem poderia ser diferente. O erro se inicia a partir do momento em que o pensador (crédulo ou incrédulo) tenta desenvolver em sua mente a ideia do nada absoluto. Primeiramente teríamos que compreender o que é o nada, mas visto que ele nunca existiu, caso contrário nada existiria (nada = nada), não temos então que nos esforçar para compreendê-lo. É um pensamento sem lógica e não nos ajuda a entender as coisas. Ao contrário, pois somente nos faz alimentar a absurda ideia da “causa primeira”. Absurda pois com deuses ou sem deuses o nada jamais poderia gerar algo. Seja qual algo for.

Curiosamente o equivocado nada absoluto assusta as pessoas por elas terem em mente justamente o seu nada subjetivo: o começo, meio e fim da existência orgânica que somos, conscientes ainda por cima. A humanidade, debruçada em centenas de crenças variadas, inventou a “vida eterna”, os “espíritos”, as “almas”, para poder de uma certa maneira conviver bem com a noção da própria morte, esta última representante máxima da ideia distorcida do nada e de toda a aflição humana que isto envolve. Mas esta mesma aflição, considerando-a somente em relação ao nada, curiosamente não tem impacto algum quando pensamos em “quem” não existe ou em “quem” ainda não nasceu (ou nem foi concebido). Um casal que planeja ter um filho em cinco anos, sequer para pra pensar sobre o “nada” em que se “encontra” hoje seu futuro primogênito(a). A não existência pós vida incomoda muito, enquanto a não existência pré vida nada significa aos humanos. Mas por que, se ambas as situações para o efeito da aflitiva não existência são rigorosamente a mesma coisa? No meu entender a resposta que parece ser a mais coerente, além da nossa imensa bagagem emocional, é essa equivocada ideia a respeito do nada. Tanto quando se trata da “origem” do cosmos quanto qualquer outra questão que envolva a tentativa de se “idealizar” o nada absoluto, como a morte tanto nos aparenta ser.

Alguns filósofos e grandes pensadores já “flertaram” inutilmente com o nada, tentando preencher de maneira até mesmo metafísica o que simplesmente não pode ser preenchido de modo algum, e assim muitos foram à loucura. E pode ser aí, em nossa equivocada ideia sobre o nada, que reside o início da solução de muitos mistérios ainda não descobertos pela ciência. Pode ser na inexistência do nada, na ausência da origem cósmica tão discutida, que se encontre respostas mais esclarecedoras. Talvez esteja na hora de esquecermos a ideia do nada absoluto e voltarmos nossa atenção para algo novo.

Você trocaria a realidade pela fantasia? Trocaria o amor, a amizade, o carinho de uma pessoa real pelo “afago” psicológico de um ser que não existe de fato? Ainda que você acredite em “algo”, provavelmente não. Mas essas perguntas, que a princípio soam sem sentido, constituem um sério problema que está começando a se tornar comum nas sociedades. A fé, a crença, não estão mais presentes somente naqueles inocentes encontros dominicais em que o fiel cumpria suas obrigações para com Deus e pecava à vontade na semana que se seguia. Hoje temos um reflexo, um efeito colateral social maior, interferindo diretamente nas vidas das pessoas. Sem querer ignorar toda a história religiosa do mundo e as mazelas proporcionadas pelas religiões nos tantos séculos passados, incluindo-se aí o uso da força, o fato é que o fanatismo psicológico religioso contemporâneo começa a mostrar a que veio e como veio, e o mundo racional moderno falhou e não conseguiu colocar as religiões e as estúpidas crenças medievais em seu devido lugar. A força, a brutalidade, o inquisicionismo foram postos de lado, substituídos sabiamente por uma “arma” muito mais eficaz: a lavagem cerebral. A manutenção das crenças até os tempos atuais, mesmo considerando a maneira como a ciência já demonstrou o quanto elas são ideias infantis e sem lógica, serve de forma falaciosa aos argumentos dos crentes (“se existe até hoje é porque é verdade”). Muitas vezes a escolha por uma doutrina religiosa intelectualmente castradora retira da pessoa alguns pontos importantes para o correto discernimento no procedimento de escolhas coerentes e para a tomada de decisões. E tomar decisões corretas, ou pelo menos próximas disso, nos dias de hoje é extremamente importante. Em alguns casos chega a ser vital.

Entre vários exemplos que podemos citar, um é o crescente número de cônjuges com problemas dessa natureza. Não se trata da “fé” pessoal exclusivamente, carregada e guardada intimamente no “coração” do crédulo, mas do modus operandi na aplicação trivial da postura prática e da rotina social (educação dos filhos, organização financeira, fantasias exarcebadas, fanatismo etc). O número de pessoas que se convertem a essas novas formas de religião (as chamadas neos) dirigidas e professadas por grandes empresários da fé, cresce assustadoramente. As pessoas são expostas a uma incrível e eficiente lavagem cerebral e passam a agir, mesmo sem se darem conta, de modo diferente na sua rotina conjugal, pessoal, financeira, racional, enfim, comportamental. Obviamente que seria uma afronta de minha parte censurar a questão íntima crédula das pessoas, mas o ponto que evidencio envolve a extrapolação disso. Resultados catastróficos provenientes de ações medíocres acabam atingindo terceiros (filhos, maridos, irmãos, netos, amigos) que em hipótese alguma “comungam” com tais devaneios. A liberdade religiosa exige respeito, mas não é uma via de mão dupla, uma vez que ela própria invade as vidas dos incrédulos pensadores que agem pela razão. No caso dos cônjuges chegou-se à absurda situação em que, o crente ao se ver “encurralado” e obrigado a tomar um partido, uma decisão, fazer a escolha, acaba surpreendentemente optando pela fantasia, pelo irreal. Abre mão do(a) companheiro(a) de carne e osso e segue “feliz” de mãos dadas com o amigo imaginário. Difícil escolher e classificar tal situação entre “triste” ou “cômica”. Talvez o termo mais correto seja “patético”.

Há casos mais severos em que a troca da realidade pela fantasia chega a ser chocante. Deveria inclusive ser tratada como doença, embora o teor da crença não seja nem mais nem menos insano do que qualquer outra. Porém, o grave problema reside nas ações. As atitudes surpreendem. É o caso da ala radical islâmica, à qual a citada troca acima significa abrir mão da própria vida, seja em atentados suicidas, carrengando com eles a vida de milhares de pessoas inocentes e mentalmente sãs, ou simplesmente em suicídio ordinário. Os crentes muçulmanos radicais orgulhosamente chamam isso de “sacrifício” por Alá (Deus), mas sabemos que na verdade são vítimas também de intensa e eficiente lavagem cerebral iniciada ainda em berço, tal qual ocorre com os cristãos, destacando-se entre estes os lunáticos neos cristãos. E não há argumentos racionais que façam uma lavagem cerebral bem instalada ser alvo de autocrítica pelo seu detentor, salvo raríssimas exceções.

Uma outra troca boçal e inadmissível da realidade pela fantasia, e esta me choca consideravelmente por eu ter presenciado pessoalmente o sofrimento de uma jovem vida inocente que sequer podia escolher, é a psicose que reina entre os Testemunhas de Jeová. Antes que algum leitor crente lance petardos enfurecidos sobre mim, me amaldiçoando ao fogo eterno por desrespeito a crença alheia, antecipo que não há nada, absolutamente nada, crença alguma, convicção alguma, maldição alguma que justifique a privação de uma inocente criança a um tratamento simples e suficientemente eficaz para salvar a sua vida, seja uma transfusão de sangue ou um transplante de órgão. A liberdade de crença deve ser respeitada, mas o limite da insanidade envolvendo a vida de terceiros deveria ser rigorosamente vigiado e controlado, não importando e nem cabendo nessas situações apelos religiosos ou credulismos insanos. Porém, ainda que esse controle seja feito, ou não, é muito assustador pensar que existem pais que trocam a real vida do filho, a real presença dele ao seu lado, vê-lo crescer, se formar, lhe dar netos e muita alegria, por uma crença qualquer. É a loucura religiosa se sobrepondo aos mais básicos instintos naturais humanos.

Como afirmei acima e repito agora, seria uma afronta de minha parte censurar a questão íntima crédula das pessoas, mas quando isso extrapola a individualidade, o lado pessoal introspectivo, e retorna à sociedade em forma de normas medíocres, regulamentações impróprias para o avanço da civilização, dogmas sem sentido, atitudes fundamentalistas, interferindo na educação laica das crianças, na formação de leis de uma nação e até mesmo na censura comportamental de um indivíduo incrédulo, a questão torna-se extremamente grave. Trocar a verdade pela fantasia, por mais lamentável que seja, é um direito de todos. Desde que não interfira absolutamente na vida de quem optou pela realidade.

Como devem saber, sou aviador, e os assuntos aeronáuticos certamente me interessam em maior intensidade em comparação aos interesses do público não ligado a esta área. Mas quando mesclamos o assunto aviação com o ceticismo, dando a devida e justa atenção para a razão nas situações infortunas que por vezes ocorrem com este fantástico meio de transporte, surpreendentemente a questão passa a ser também de grande interesse para os leigos e desinteressados no universo aeronáutico, se não por curiosidade somente, mas por despeito do quanto os deuses podem se distrair e ignorar orações. O fatídico acidente sobre o oceano Atlântico com o imenso Airbus 330 da companhia aérea francesa Air France, ocorrido no dia 31 de maio de 2009, no qual morreram 228 pessoas de maneira extremamente sofrível, quando analisado absolutamente pelo lado técnico, ignorando toda a “romantização” que gira em torno da aviação através das mentes crentes, desperta a atenção e a curiosidade de todos, além de uma boa dose de confusão na mente daquele que não entende por que e como o “ser divino” permitiu a ocorrência de tamanha tragédia.

O aeroporto internacional do Galeão (desde 1999 Antonio Carlos Jobim), no Rio de janeiro, é majestoso e imponente. Uma “porta” para o mundo. Diariamente milhares de pessoas embarcam e desembarcam, indo e vindo das mais remotas partes do planeta. Nos últimos 100 anos, o avanço aeronáutico tornou nosso mundo bem menor do que antes parecia. Entramos em velozes máquinas voadoras e após algumas horas alcançamos outro hemisfério, no Oriente ou Ocidente. O Galeão, assim como as centenas de aeroportos internacionais espalhados pelo mundo, possui tudo o que o passageiro necessita (lojas, bancos, lanchonetes, restaurantes, hotéis, casas de câmbio…), e evidentemente está lá presente uma capela para orações, demonstrações de fé, pedidos, agradecimentos e tudo mais o que as pessoas costumam fazer de olhos fechados, concentradas sabe-se lá no que ou em “quem”.

O voo AF 447 era rotineiro, agradável, requintado e cobria umas das rotas mais gloriosas da aviação: Rio-Paris. Um luxo! Principalmente para os afortunados da primeira classe (numa excelente empresa francesa nada mais justo do que um excelente champanhe francês). Desde o fim dos anos cinquenta do século passado essa rota desafia pilotos e encanta multidões. No final da tarde daquele belo domingo as pessoas usufruiam tudo o que o magnífico aeroporto carioca oferecia enquanto aguardavam ansiosamente a chamada para o embarque. Alguns passageiros encontravam-se na capela acima mencionada, pois muito mais importante do que se “empanturrarem” de fast-food, café expresso, cerveja, uísque ou chope, era lembrar o “criador do cosmo” que eles iriam embarcar num voo de 10 horas e atravessariam o oceano, logo seria necessário uma proteção extra. Além do mais, um pequeno dízimo de oferta à capela aeroportuária demonstraria uma maior atenção e respeito para com o protetor divino se comparado aos teimosos, hereges e céticos comilões e beberrões. A “garantia” estava na palavra fé.

A chamada para o embarque ocorreu pontualmente e, trinta minutos antes da partida, todos os passageiros já estestavam devidamente acomodados. O imenso A330 com seus 285 mil quilos decolou majestosamente do Rio de Janeiro às 19h30 rumo à Cidade Luz. Famílias inteiras, casais em lua de mel, homens de negócio, crianças desacompanhadas, participantes de pacotes de excursão, modelos brasileiras e francesas, políticos, enfim, gente de todos os tipos, crédulos e incrédulos. Todos fechados dentro de um habitáculo pressurizado ascendendo para uma altitude de 37 mil pés (10 mil metros). A companhia francesa, uma das mais requintadas do mercado, rapidamente iniciou o excelente serviço de bordo e, para o jantar, foi oferecida uma variada opção de cardápio, incluindo peixes, aves e carnes bovinas nobres. Bebidas de todos os tipos para todos os gostos. Neste tipo de viagem a intenção dos comissários de bordo é servir os mais de 200 passageiros nas primeiras duas horas do voo, restando assim uma boa parcela de tempo para o “tranquilo” pernoite dos mesmos. Quando sobrevoou o Nordeste brasileiro, duas horas e trinta minutos após a decolagem, o serviço estava concluído e as pessoas começaram a relaxar, ouvindo os mais de 30 canais de música disponíveis ou assistindo a vídeos variados, individualmente em suas luxuosas poltronas. Os “abençoados” usuários da primeira classe se esticavam horizontalmente como se estivessem em suas próprias camas, com direito a serviço despertador uma hora antes do pouso para usufruir de um magnífico café da manhã. E assim, quase três horas após a partida, a gigantesca aeronave francesa já se encontrava sobre o oceano Atlântico.

Precisamente às 22h33 o copiloto da aeronave fez seu último contato por rádio com o centro de controle de área do Brasil (ACC), e foi instruído a manter o presente nível de voo e transferir as comunicações para o espaço aéreo do Senegal. Tudo estava normal. Na cabine de comando os PFD’s (Primary Flight Display) e os MFD’s (Multi Function Display) reproduziam fielmente o que os poderosos CPU’s a eles transmitiam, restando aos dois pilotos apenas se preocuparem com o extremo mau tempo a frente. O radar meteorológico começou a indicar núcleos inacreditáveis de CB’s (cúmulos-nimbos) e TCU’s (cúmulos encastelados, Towers cúmulos), e os experientes aviadores sabiam o que iriam enfrentar. Na verdade eles achavam que sabiam. Alguns passageiros já sonhavam, talvez com um belo passeio na Torre Eiffel ou com um agradável fim de tarde em Marseille. Outros esperavam o difícil sono chegar, provavelmente desconfiados e desconfortáveis dentro daquela imensa máquina veloz. Algumas crianças hiperativas andavam e corriam pelos corredores e ofereciam trabalho extra aos educados comissários franceses que tentavam mantê-las em suas poltronas. Um casal em lua de mel ensaiava com alguns beijos o que pretendia fazer na bela Paris, enquanto um executivo da indústria farmacêutica relia algumas apostilas sob sua luz privada de teto. Mas tudo isso mudou quando ocorreu o primeiro forte impacto.

A partir das 23 horas as coisas tomaram um rumo surreal e pavoroso para aqueles pobres humanos que habitavam o interior do tubo metálico. Correntes fortíssimas ascendentes e descendentes no interior de uma indescritível linha de instabilidade, formada por uma cadeia de gigantescos cúmulos-nimbos sobre o oceano, terríveis tempestades, começaram a transformar aquele que era um agradável voo num verdadeiro show de horrores. Piloto e copiloto seguiam as instruções de desvios meteorológicos indicados no moderníssimo radar de bordo, mas quanto mais adentraram na instável linha negra pior a situação ficou. O comandante lançou um aviso aos tripulantes para que cuidassem da integridade física dos passageiros, uma vez que a intensidade da turbulência começou a ultrapassar os limites toleráveis. Com a aeronave praticamente incontrolável, e os pilotos pensando que estavam vivendo uma das piores situações de suas carreiras, num “xeque-mate” todo o painel do A330 subitamente se apagou, deixando aqueles pobres aviadores perplexos e absolutamente sem possibildades de alguma ação corretiva. A imensa aeronave estava por sua própria conta. Sem indicação de velocidade, de altidude, informação meteorológica, regime dos motores e de atitude direcional, lateral e longitudinal de voo, os dois velhos aviadores ficaram de “mãos atadas”. Nessas condições eles foram adentrando pela tempestade. Sabiam que era o fim.

Imediatamente, os passageiros frequentadores da capela aeroportuária fecharam os olhos e começaram a invocar “aquele” em quem depositaram total confiança e esperança de um voo seguro. Os outros, os comilões e os beberrões, também. Somente um ou outro tentou manter a calma e confiar na habilidade dos pilotos, mesmo a situação tornando-se insuportável e aterrorizante. Mas quando a fuselagem da aeronave começou a se romper, despressurizando explosivamente toda a cabine que foi invadida pelo ar hiperfrio de 40 graus negativos, o pouquíssimo tempo que cada passageiro teve para pensar em algo tornou-se infinito. Alguns, com muita sorte, perderam a consciência quase instantaneamente, enquanto outros tiveram tempo suficiente para perceber que o avião estava se rompendo e caindo sobre as águas do oceano Atlântico. Um pânico rápido porém indescritível, incapaz de ser reproduzido pelos melhores produtores de Hollywood. Impossível não imaginar o que se passou, nem que por alguns segundos, na cabeça de todos os pobres passageiros, especialmente aqueles traídos pelo seu “protetor”. A queda, em meio a fortíssimas rajadas de vento, raios e trovoadas, foi rápida, e em poucos minutos as partes da aeronave, juntamente com os corpos, atingiram as frias águas do oceano, e lá até hoje muitos “repousam”. Certamente sob as águas as cenas de horror também ocorreram, especialmente se pensarmos que a região é habitat natural de inúmeras espécies de tubarão, mas pelo menos já não havia mais mente consciente alguma para lamentar o descuido do protetor.

Aos parentes dos que se foram restou o já citado “Deus sabe o que faz” e a esperança de receber uma considerável indenização da empresa francesa. Mas curiosamente, por temor ou ignorância, ninguém decidiu voltar à capela e questionar o porquê dessa distração divina. Ou, no mínimo, para pegar o dinheiro de volta.

É notório e indiscutível (embora qualquer crente irá afirmar o contrário) que os humanos possuem suas crenças e religiões basicamente por medo da morte e pela busca de um sentido “maior”. E também, nos casos dos crédulos pensadores, para tapar as instigantes lacunas, por mais contraditório que isso possa parecer. O pensador crente usa em última análise a figura de um deus para cessar em sua cabeça as perturbadoras questões sem resposta, e curiosamente parece não perceber que abre uma lacuna muito maior. Na verdade ele abre uma fantasia absurda e simplesmente se contenta com ela. Neste último caso fica claramente demonstrada a relevância do fator emocional. Mas não é esse o cerne da questão que desejo abordar. Por ora, neste texto, deixaremos o medo da morte (que de uma maneira ou de outra, é natural sentirmos) e as lacunas de lado. O alvo da nossa reflexão profunda é o tal sentido “maior”. O que significa isso afinal?

É bastante comum ouvirmos de pessoas crédulas que os ateus carecem de um sentido para suas vidas e para o além-morte. Que não possuem um sentido “maior”, que vivem por viver. É evidente que há um equívoco nisso o qual não pretendo alimentar, que é a presunção do crente (uma certeza) em afirmar naturalmente que há vida após a morte. Mas para seguir adiante com a proposta do raciocínio requerido por mim, necessito hipotetizar que o crente esteja correto. Vou descer do meu arrogante pedestal de cético teimoso e dar asas à fantasia, imaginando assim todos os seres humanos morrendo e, sabe-se lá de qual forma, continuando suas vidas em outro “local” para todo o sempre. Na eternidade. Seja em um inferno, num céu, num paraíso, numa colina linda e exuberante, ou nos braços de sedutoras virgens ninfetas. Não me importam esses detalhes. O que está em voga é: o que isto traria de sentido “maior” para alguém? Tudo indica que os crédulos nunca pararam para analisar profundamente esta questão. Sequer devem ter ideia do siginificado da palavra eternidade, quando a usam. Dentro de um “universo” de fantasias e possibilidades de pseudo-situações pós-morte, ainda assim seriamos obrigados a nos perguntar: qual o sentido “maior” disso ou daquilo? Recentemente, li em um adesivo fixado no terminal de passageiros do aeroporto de congonhas-SP a seguinte inscrição que questionava os transeuntes: “Onde pretende passar a eternidade?”. Ora, não sei quanto ao leitor, mas por falar em sentido, aí está uma pergunta um tanto quanto sem sentido. Mas, dando sequência a essa hipotetização, a princípio, num surto de sinceridade e pensando em minha plena satisfação, eu responderia que desejaria passar a eternidade num lindo campo verde cercado das pessoas que amei durante minha vida; ou que desejaria passar a eternidade assistindo ao sitcom “Seinfeld”; ou que desejaria passar a eternidade ouvindo minhas bandas preferidas… Bem, são tantas as possibilidades que tornam a escolha difícil. Mas muito mais difícil de se compreender é que, seja lá qual for a escolha do crente em resposta ao adesivo religioso que indaga “onde” ele gostaria de passar a eternidade, qual seria o sentido “maior” dessa escolha principalmente se tratarmos com rigor o significado da palavra eterno?

Voltando ao mundo dos verdadeiros mortais, como podem perceber o sentido real de nossas vidas é absolutamente subjetivo e somos nós mesmos que o fazemos. Qualquer sentido “maior” que o crente reclame ou exija é um engodo idiota, infantil, fantasioso e, ironicamente ao contrário do que prega, verdadeiramente sem sentido. Se você for crente, pense nisso, porque como diz aquela antiga propaganda de cartão de crédito: “A vida é agora”

Você pode ser uma pessoa religiosa ou simplesmente ter a sua fé particular, mas se for honesto e justo consigo mesmo certamente deve ter milhões de questionamentos na cabeça. Se for honesto mesmo, de verdade, deve admitir sem necessidade de autodefesa (pelo menos deveria), que reside em seu interior uma boa dose de preguiça intelectual, ou simplesmente muito medo. Um medo aterrorizante. A sua aceitação incondicional em relação as absurdas contradições, que são visíveis nas crenças destituídas de razão, demonstram claramente isso. Por que não questionar? Qual o problema em duvidar? Como pode acreditar em algo (insano, lunático e descabido) por pura osmose, sendo que esse algo foge a tudo que se conhece na natureza demonstrada? Você crê em lobisomem? Em fadas? Você, que se diz crente e cristão, crê também nas virgens paradisíacas (muçulmanas) que aguardam os homens-bombas no céu? Você crê no Inri Cristo? Perguntas idiotas para situações mais idiotas ainda. Não há nada mais irônico e contraditório do que tratar assuntos lunáticos com discursos sérios e racionais. No entanto é isso que geralmente nós, incrédulos, tentamos fazer. Portanto, os céticos possuem uma parte de culpa no fomento dessa idiotice toda, pois há séculos vocês, crentes, deveriam ser devidamente desprezados pelos que se dão ao trabalho de pensar. Pensar e encarar a realidade é difícil, mas é necessário. Vocês não pensam.

Continuemos. Quando você está numa roda de amigos e aquele colega repleto de estórias e contos lhe propõe uma fantasia absurda e sem sentido natural, totalmente irracional e amplamente desprovida de bom senso, apesar de você se deleitar temporariamente com ela (o lazer fantasioso, um ótimo entretenimento, seja em forma de conto verbal, literário, cinematográfico, teatral etc.), não encontra dificuldade alguma para descartá-la assim que a conversa termina. Convenhamos: você não vai para sua residência achando ou pelo menos ventilando a hipótese de que as insanas palavras do seu amigo devaneador são “sagradas” ou “divinas”. Este exemplo, que a princípio é tosco aos olhos dos que creem em deuses celestiais e sequer param para pensar na equivalencia entre as tosquices (o meu deus é o verdadeiro, a bíblia é a prova disso!!), na verdade revela que a crença em algo destituído de razão é absolutamente prepotente e sem lógica racional. Uma simples análise imparcial comparativa e profundamente honesta comprova isso. Honesta a ponto de vencer a covardia interna e os próprios medos.

Se você é um crente, mas pelo menos com um pouco de esforço consegue entender essas palavras acima, lembre-se da próxima vez quando for censurar, debochar ou insinuar que a crença de outrem é esquisita, irreal ou maluca, que a sua própria crença não tem valor algum para a realidade. Não se esconda atrás da palavra para justificar as contradições da sua religião ou do seu credo em detrimento de outras, por mais que você as considere insanas. De fato elas são, não iria discordar de você em relação a isso, mas não são mais nem menos do que a sua. Na hipótese de você não aceitar essas palavras devido à cega paixão pela sua própria crença, pense consigo mesmo porque as outras seitas, religiões, lendas, estórias e folclores são irreais e a sua não. O que, além do que você chama de fé, torna sua crença especial e lógica em relação as outras? Faça a simples inversão da “fé”. Ponha-se no lugar de um muçulmano, por exemplo, que tem na mesma proporção as “certezas” na crença dele que você tem na sua. Se você compreender o que a palavra certeza de fato significa, e isso não fizer você pelo menos pensar e entender que existe algo estranho e bizarro nisso tudo, seu poder de discernimento e, consequentemente, sua lucidez sobre a realidade não existem mais. Ou seja, você é um crente.

O mundo que conhecemos hoje nem sempre foi assim. Uma frase um tanto quanto óbvia não é mesmo? Mas para muitas pessoas, e por incrível que pareça, isso não é levado em consideração quando se aprofundam em pensamentos, considerando as que se permitem aprofundar. Fazer um retrocesso histórico/temporal honesto e confiável, até onde se é capaz, para muitos significa ir de encontro às suas convicções religiosas. Convicções essas que independente de quão bizarras sejam, estão cravadas na cabeça de uma pessoa crente. Basta dizer que nos dias de hoje, mesmo com o acúmulo de informações, com todo nosso conhecimento a respeito da evolução das espécies e precisas datações históricas, ainda há quem pense que o planeta Terra possui seis mil anos apenas. Isso não seria surpreendente caso eu estivesse me referindo a pessoas sem instrução e sem conhecimentos. Há casos em que o crente cristão letrado e suficientemente culto simplesmente ignora algumas passagens de seu livro sagrado (no livro “Deus, Um Delírio” o biólogo Richard Dawkins narra uma situação bastante curiosa sobre isto) para continuar fiel àquela doutrina religiosa. E existem casos mais severos em que tal convicção se transforma num muro intransponível ao seu detentor, como ocorreu com um professor de biologia de uma renomada escola de São Paulo, que preferiu parar de lecionar a referida matéria científica, pois seu conteúdo “feria” suas convicções cristãs. Imaginem um homem que passou anos estudando em excelentes colégios, posteriormente se formou em biologia, consagrou-se mestre nesta matéria e abandona tudo em nome de uma convicção que não possui palpabilidade alguma.

Voltemos agora ao inicio deste texto. Se o mundo, desde os idos tempos medievais, para não irmos tão longe na história, tivesse seguido a risca a cabeça dos orgulhosos homens convictos (acho interessante como uma pessoa se auto-vangloria exageradamente quando se declara convicta em algo), será que nós teríamos estes computadores à nossa disposição? E quanto a medicina? Quantas e quantas vezes a humildade em reconhecer erros, refazer pensamentos, inverter ideias, desistir de ideias, criar novas ideias, dar o braço a torcer para a opinião de outrem, foram necessárias para chegarmos onde estamos? Há pesquisadores convictos? Certamente que sim, mas nenhum pesquisador convicto (aquele determinado a provar sua teoria, porém suficientemente maduro e honesto para admitir o oposto caso as evidências assim o forcem) sério e interessado realmente no resultado verídico final de seu estudo, iria contra a realidade somente para sustentar uma convicção que ficou sem embasamento. E nesse momento chegamos a uma conclusão: existem as convicções necessárias e as desnecessárias. Antes que leitores afoitos, principalmente os com tendências a qualquer tipo de credulidade no sobrenatural, acessem o “santo” google tentando achar referências oficiais sobre essas expressões e solicitar fontes sobre o enunciado, me adianto informando que são apenas termos criados por mim neste texto com o único objetivo de efetuar a devida separação. Separação esta de profunda importância para a história e para a vida no planeta.

As convicções necessárias a que me refiro (que até poderíamos substituir por um termo similar ao significado de busca consciente de algo), são aquelas que sustentamos por causa de motivos e evidências favoráveis que justamente nos fazem tê-las, e consequentemente defendê-las enquanto a razão assim nos permitir. Esse tipo de convicção é um alimento (um fomento extra) que nos da energia para continuar seguindo as “pistas” de nosso objeto de pesquisa/estudo e alcançar o sucesso (seja a criação de uma vacina, o projeto de um novo perfil de asa em um túnel de vento, a criação de um novo pesticida, enfim, o descobrimento de algo novo, seja em qual área for). Essas convicções são facilmente abandonadas quando se conclui que as evidências estavam equivocadas ou mau interpretadas. Você pode até pensar: “então não eram convicções”. Ledo engano. Eram sim, porém abertas a realidade, e não ao misticismo esdrúxulo. Um engenheiro aeronáutico que passou meses ou até anos convicto que o projeto de seu novo perfil aerodinâmico iria funcionar bem e inovar o mercado da aviação, abandona imediatamente tal convicção ao se deparar com a inviabilidade técnica da ideia quando demonstrado o fiasco no resultado final. Não há orgulho ferido e nem vergonha nessa atitude, apenas profissionalismo e maturidade humana para colher bons frutos da aprendizagem do antigo projeto e partir para um próximo. É muitíssimo provável, para não dizer certo, que a humanidade vive confortavelmente nos moldes de hoje devido a atitudes deste tipo.

As convicções desnecessárias (que até poderíamos substituir por um termo similar ao significado de falta de aprofundamento na questão), são por vezes nocivas, uma vez que, se sustentadas por um grupo social grande o suficiente para fazer “peso” de ordem, podem atrapalhar, prejudicar e atrasar diversas áreas de interesse comum ao restante da sociedade que não possui tais convicções. Isso foi e ainda é um problema sério até mesmo para a elaboração de leis (aborto, pena de morte, prisão perpétua…). Mas você pode estar se perguntando: com que autoridade ou base fundada este que escreve está afirmando sobre a nocividade das convicções desnecessárias? A resposta é bem simples. Se o objeto alvo da convicção desnecessária ultrapassar a fronteira do íntimo, do pessoal, ela passa a ser nociva, arrogante e prejudicial, seja em curto, médio ou longo prazo. Nenhuma convicção sem embasamento lógico e evidenciável, que formam as desnecessárias, deveria romper os limites do indivíduo que a possui. Mas infelizmente a realidade é outra. E isso nos leva diretamente às religiões, que são produtos de devaneios, fantasias e convicções coletivas que adentram no sistema de vida de toda sociedade, pois é notória a dificuldade de uma nação ser, de fato, laica. O laicismo total e verdadeiro seria um enorme passo para que as convicções desnecessárias fossem irrelevantes aos restantes cidadãos da sociedade, mas iremos tratar o laicismo em outra ocasião, não neste texto. Se levarmos em conta o mundo globalizado de hoje, podemos dizer sem exageros que as convicções desnecessárias de alguns, do outro lado do planeta, interfere diretamente na vida de quem vive do lado oposto do globo (11/09 WTC é um ótimo exemplo). Sempre lembrando que o termo “desnecessário” utilizado aqui diz respeito tão somente a ser desnecessário para a coletividade, e não individualmente (a análise de quanto uma convicção idiota e desnecessária faria mal unicamente ao seu portador não vem ao caso).

No geral, para pessoas que não são detentoras da verdade e reconhecem isso, as convicções podem de certa maneira fomentar projetos e até mesmo sonhos, concretizando coisas maravilhosas que um dia foram apenas impulsos elétricos dentro de um cérebro vivo freneticamente pensante. Porém, sem se aprofundar imparcialmente nas gigantescas “fossas” dos questionamentos e sem respeitar o bom senso e a razão, tudo o que se terá serão apenas convicções idiotas e sem fundamento, e a história real do mundo nos mostra dolorosamente o quanto elas são DESNECESSÁRIAS para as sociedades.

Nota de esclarecimento ao leitor – O conceito sobre o termo convicção abordado neste texto, não segue com rigor o significado desta palavra, mas tão somente a maneira vulgar como ela tramita rotineiramente no dia-à-dia das pessoas.