Category Archives: Ad hoc

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por Isaias Puccinelli

Bacharel em letras e em ciência, doutor em medicina, poliglota (falava o alemão, o inglês, o italiano, o espanhol e o holandês), filósofo e autor de inúmeros trabalhos acadêmicos.Nada disso impediu que o senhor Dennizard Hippolyte Léon Rivail ficasse maravilhado pela comunicação com os espíritos.

Para quem não reconheceu, esse era o nome real de Allan Kardek, cidadão francês que estudou os fenômenos ditos sobrenaturais nos idos de 1854. Com formação científica isenta de questionamento e vivência no meio acadêmico, é de surpreender que esse homem tenha se apaixonado – sim, paixão – pelo objeto de seus estudos, a ponto de considerar como autêntico o “fenômeno das mesas e cadeiras girantes, que pulavam e corriam, e isso em tais condições que não era possível nenhuma dúvida” (SAUSSE, p.5).

Lendo sua biografia, fica muito difícil imaginar uma pessoa com o seu currículo caindo no misticismo da comunicação com espíritos, chegando até mesmo a escrever falácias em suas obras, como a encontrada no Livro dos Médiuns (comentários e grifos meus):

Façamos abstração, por um momento, de fatos que, para nós, tornam a coisa incontestável… Pedimos que os incrédulos nos provem, não por uma simples negação, porque sua opinião pessoal não pode instituir-se em lei, mas com razões peremptórias, que isto [a comunicação com espíritos] não seja possível” (KARDEK, p.30).

Não satisfeito em solicitar o abandono de fatos que vão contra sua nova ciência, ele prossegue (grifos meus):

“Colocamo-nos em seu terreno e, já que eles [os incrédulos] querem apreciar os fatos espíritas com o auxílio das leis da matéria… Provem por a mais b, sempre partindo do princípio da existência e da sobrevivência da alma…” (KARDEK, p. 30).

Isso demonstra a imparcialidade esperada pelo uso do método científico? Ou seria mais próximo de uma defesa apaixonada em prol da aceitação de uma “ciência” que apenas os místicos lutam para que seja aceita como verdade?

Não obstante a falta de provas da existência de espíritos, ele, na figura do responsável pelos estudos e pelas experiências a respeito do sobrenatural, ainda justifica que os incrédulos em sua teoria é que deveriam provar que a comunicação entre espíritos e humanos não ocorria e propôs nove questões para os céticos:

1º. Que o ser que pensa durante a vida não deve mais pensar durante a morte;

2º. Que, se ele pensa, não deve mais pensar naqueles que amou;

3º. Que, se pensa naqueles que amou, não deve mais querer se comunicar com eles;

4º. Que, se pode estar em toda a parte, não pode estar ao nosso lado;

5º. Que, se pode estar ao nosso lado, não pode comunicar-se conosco;

6º. Que, por seu invólucro fluídico, ele não pode agir sobre a matéria inerte;

7º. Que, se ele pode agir sobre a matéria inerte, não pode agir sobre um ser animado;

8º. Que, se pode agir sobre um ser animado, não pode dirigir sua mão para fazê-lo escrever;

9º. Que, podendo fazê-lo escrever, não pode responder as suas perguntas e transmitir-lhe o seu pensamento.

Notem que não quero entrar na discussão da doutrina espírita, muito menos provar que espíritos não existem – (isso me parece inviável, de qualquer forma) –. O que quero demonstrar é o abandono da crítica racional em troca de um pensamento místico desesperado, que parte de suposições nunca provadas e pede cinicamente uma prova contrária.

Essa mudança de 90º do modo de pensar do Sr. Rivail o transformou em Allan Kardek e levou muitas pessoas a falarem aos quatro cantos do mundo que o espiritismo era uma ciência. E ainda por cima uma ciência provada, testada e nunca derrubada (deve ser muito difícil mesmo derrubá-la, pois, segundo Allan Kardek, os espíritos não respondem quando são propostos testes…).

Parece que o Sr. Rivail foi ludibriado por pessoas de má-fé, que, vendo na figura deste homem da ciência uma oportunidade de ganhar prestígio, o enganaram. Tendo abandonado seus trabalhos verdadeiramente científicos em prol de um estudo sério sobre a existência de espíritos, abandonou por completo sua crítica imparcial, abraçando até à morte sua paixão mística (sem nunca ter provado nada).


Bibliografia

KARDEK, Allan. O livro dos espíritos. In: KARDEK, Allan. O caminho da verdade. São Paulo: Opus, [19–].

KARDEK, Allan. O livro dos médiuns. In: KARDEK, Allan. O caminho da verdade. São Paulo: Opus, [19–].

SAUSSE, Henri. Bibliografia de Allan Kardek. In: KARDEK, Allan. O caminho da verdade. São Paulo: Opus, [19–].


(artigo recebido em 26 de janeiro de 2011)

Nota: para participar como autor ad hoc, envie seu texto para udmg@ateus.net. O material ficará disponível a todos os membros titulares para peer review e estará sujeito a críticas e sugestões antes de ser publicado (em data que seguirá a ordem de recebimento dos materiais). Para maiores informações a respeito, faça aqui o download do ‘Guia de padronização’, em formato PDF.

por Isaias Puccinelli

Acho que todos nós, que trabalhamos, estudamos ou desempenhamos alguma atividade na sociedade, em nosso dia-a-dia, já nos deparamos com pessoas que poderiam muito bem ser acusadas de ter dupla personalidade.

Eu, por exemplo, trabalho com o planejamento da produção de uma grande empresa e, para desempenhar as responsabilidades a que sou atribuído, devo ser cético e lidar com cálculos de demanda e capacidade produtiva de maneira imparcial, utilizando números.

Não há espaço para ideias que vão contra a razão, que contradizem os números. A análise deve representar de maneira mais próxima possível a realidade de determinada seção fabril.

Meus colegas de trabalho são pessoas esclarecidas, que pensam rápido, notáveis em suas funções e que aparentam não ter problema com o pensamento crítico e, além de tudo, são jovens.

À primeira vista, um ambiente perfeito para se discutir honestamente e criticamente os mais variados assuntos, certo? Errado.

Certa vez, nós discutimos sobre religião e fiquei abismado ao ver que as mesmas pessoas que aplicavam o pensamento crítico em suas atividades profissionais não o faziam em sua vida o pessoal.

Muitas dessas pessoas instruídas acreditam literalmente, por exemplo, na preservação do sábado para adoração a Deus, na existência terrena de Jesus, na vida eterna após a morte e nos demais dogmas disseminados pelas doutrinas cristãs.

Eu demorei um pouco para assimilar o que acontecia naquele momento. Como pessoas tão críticas no âmbito profissional poderiam ser tão crédulas no âmbito pessoal?

Como um engenheiro formado em uma universidade pública, considerado um dos futuros líderes pelos seus colegas de trabalho, pode acreditar que uma virgem deu à luz um Deus-Homem? Sem questionar. Sem pensar. Apenas aceitar isso como uma verdade absoluta?

Então por um momento pensei: será que existe algum mecanismo de autoproteção biológico que diz quando é bom pensar e quando não o é?

Porque não poderia ser apenas preguiça dessas pessoas de analisar criticamente as “verdades” que faziam parte de suas vidas.

Dessa maneira, durante minhas pesquisas, encontrei uma resposta relevante em uma obra de Freud, chamada “O futuro de uma ilusão”, a qual aponta uma hipótese, ou melhor, uma boa hipótese para essa questão.

Sendo breve, Freud passa a ideia de que o homem é pressionado pela cultura (Freud não desassocia cultura de civilização), devido à coerção que esta submete ao homem, ao trabalho e à renuncia aos impulsos (impulso é aqui tratado como algo que impele, coloca em movimento, muito parecido com desejo), causando a frustração e o sentimento de hostilidade à cultura (FREUD, p. 44).

Entretanto, abolir a cultura, na opinião de Freud, seria uma coisa insensata, uma vez que a vida em natureza seria muito mais difícil de suportar, devido aos danos que esta causa à humanidade.

Assim, tal para a humanidade como um todo, também para o indivíduo a vida é difícil de suportar (FREUD, p. 55), pois lhe é cobrada uma cota de privações pela cultura, outra porção de sofrimento lhe é causada pelas demais pessoas e a isso se acrescentam os danos que a natureza lhe inflige.

Dessa maneira, o homem exige consolo; o mundo e a vida devem ser despojados de seus pavores e a curiosidade humana ganhar uma resposta. E isso consiste em humanizar a natureza e daí surgem os deuses e com eles sua missão: afastar os pavores da natureza, reconciliar os homens com a crueldade do destino e recompensá-los pelas privações que passam.

Sendo as forças e os destinos impessoais substituídos por entes iguais àqueles que o homem conhece, ele respira aliviado, pois pode fazer súplicas, apaziguá-los, suborná-los ou roubar-lhes uma parte de seu poder através de tal influência.

Esse modelo infantil é usado para suportar a vida e por isso deve ser tão difícil para muitas pessoas utilizar o senso crítico que elas possuem – e que utilizam em seu dia-a-dia – naquilo que lhes facilita o viver.

E isso levanta uma outra questão: se as pessoas utilizam esse modelo infantil de representação do mundo, elas o fazem conscientemente?


Referência Bibliográfica

FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão. Porto Alegre: L&PM, 2010.


(artigo recebido em 23 de dezembro de 2010)

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por Cauê Beloni

É muito comum nos depararmos com frases como “deus me ajudou a vencer esse desafio” ou “deus me deu esse dom maravilhoso”. Tendo em vista tais afirmações, podemos cair na ideia de que, mesmo se deus não existir, o fator deus, ou seja, a ideia de que deus existe, é essencial à força de ação do indivíduo. Mas quais as outras possibilidades de impulsos para nossa força de ação?

Temos muitos exemplos de pessoas sem crença em deus que foram extremamente produtivas em seus trabalhos: Isaac Asimov escreveu mais de 400 livros, e também, não pela quantidade de trabalhos, mas pela quantidade de áreas em que se desenvolveu, temos Charlie Chaplin, que era ator, diretor, produtor, dançarino, roteirista e músico que participava em praticamente todas as etapas de seus filmes.

A proposição que coloco é que, se nos colocamos a desenvolver determinadas tarefas, fazemos visando benefícios futuros. Para alguns cientistas, a força de ação talvez seja ganhar o Nobel, ou para os artistas talvez seja ser publicamente reconhecido. Ambos os motivos seguem a linha da recompensa. Essa recompensa social deve estar ligada com a necessidade biológica de sobrevivência, uma economia natural que procura equilibrar ganho e despesas, a sociedade recompensará aqueles que geram informações e produtos úteis para o indivíduo que está recebendo a informação ou o produto. Uma obra de arte pode lhe ensinar que o ciúme é comum, mas que talvez o melhor seja tentar superá-lo, e que talvez agir da forma como foi ensinada pela obra de arte façam as suas chances de ter um relacionamento saudável maior. Portanto, até a ideia da existência de deus é desnecessária para a força de ação, tanto para os que crêem em deus como aos que não crêem, pois temos impulsos biológicos inconscientes para agir.

Se declarar conquistas como responsabilidade divina não passa de uma alegoria para  a força de ação, então, qual seria a razão para tais afirmações? Naturalmente se não fossem registrados benefícios por alegar responsabilidade divina em um trabalho, bem rápido esse hábito seria descartado. Julgo que aqueles que fazem tais afirmações não estão interessados em deus, tão menos ainda no céu, mas estão interessados inconscientemente nos benefícios reais, que vêm da Terra, benefícios que alcançam na demonstração de ser uma pessoa portadora da fé. O que é buscado não é deus, e sim quebrar a desconfiança e conquistar a confiança social. Enraizaram a ideia de que deus é bom e que quem o segue também é. Deus nunca foi o objetivo, ele foi sempre o meio para os objetivos humanos, ou seja, uma persuasão. Aquele que se destacou em um determinado trabalho, pode considerar melhor creditar o feito para deus, pois além de ter feito um bom trabalho, também se coloca como inofensivo ou até mesmo como um escolhido por deus para ter tais talentos. Assim, conquista a confiança e mantém distantes aqueles que podem desvalorizar seu feito; afinal, quem desvalorizaria um dom dado por deus?

Muitos não usam o mecanismo de ganhar a confiança através de deus, então, para estes o que lhes sobra é conquistar a confiança através de seu suor, entre outras formas, demonstrando ativamente por que devem ser considerados uma pessoa respeitável na sociedade. Por ser um sujeito produtivo e como colaborador do grupo em que vive, sem persuasões em nome deus. Destarte, também é recompensado com a confiança e admiração; porém, em sua medida justa e com alto dispêndio de suor. Consequentemente, assim como aqueles que exercitam seus músculos sem esquemas facilitadores de auto-enganação, se tornarão mais fortes.


(artigo recebido em 26 de agosto de 2010)

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por Leonardo Bueno Postacchini

Saudações ao leitor. Com todas as discussões sempre esbarrando na definição do que é objetivo e subjetivo, eu decidi escrever meus pensamentos sobre o assunto. Por vezes eu já pedi a outros a definição dessas coisas, sabendo que a tarefa seria difícil, pois ela é fundamental para certas discussões e é o coração de certas correntes filosóficas.

Devo fazer primeiro uma nota aos incautos: as definições aqui são dadas de acordo com a minha visão autista da realidade e, portanto, não necessariamente encontrarão validações de dicionários. Este é um texto filosófico mas não científico e, portanto, tem seu próprio grau de divergência da realidade.

O intuito não é oferecer uma verdade e sim mostrar um ponto de vista e, como tal, deve ser considerado com o devido ceticismo e senso crítico.

Isso posto, vamos ao assunto: para que possamos entender os conceitos de subjetividade e objetividade precisaremos justamente colocar eles em prática; para entendermos o que é o subjetivo, precisaremos colocar ele como objeto de nossa análise, entender como ele surge em nossas mentes.

Quando nós, seres-humanos, olhamos para algo, apontamos nossos receptores fotossensíveis para uma fonte direta ou indireta de luz; essa luz estimula células em nossa retina que, em resposta, gera impulsos nervosos; esses impulsos são transmitidos ao nosso cérebro, que os organiza e lhes dá significado, primeiro como conceitos simples, como cor e intensidade; a partir destes, pela sua disposição, contexto atual e conhecimentos anteriores, nosso cérebro enriquece o modelo com significados derivados: “isto é uma luz de farol”, “aquilo uma mulher” e daí por diante.

Àquela fonte de luz para a qual apontamos nosso olhos chamamos de “objeto” de nossa observação, seja ela o farol, a mulher, ou apenas a paisagem. A rigor, qualquer coisa que seja o alvo de nossa atenção pode ser definida como o objeto de nossa atenção, seja apenas de forma mais concreta, como de fato olhando, ouvindo ou de alguma forma percebendo o objeto através de nossos sentidos, como numa linguagem mais abstrata algo que seja o alvo de nossos estudos; ou seja o objeto de estudo.

Do outro lado desse processo, está o modelo que criamos a respeito do estimulo, está o que entendemos da realidade, nossa interpretação, a construção subjetiva. Perceba que, nesse nosso modelo, o processo de coletar informações e transformá-la em conhecimento e ideias é o próprio objeto de nosso estudo e o texto aqui apresentado é a interpretação subjetiva do
processo de coleta de informações.

Fica assim faltando uma definição, que depende de uma melhor elaboração de nosso modelo. Durante o processo de coleta de informações e a sua subsequente transformação em conhecimento, temos a formação gradual de um modelo mais simples e rudimentar que vai se elaborando e ficando cada vez mais sofisticado.

Tomemos o exemplo da observação de uma colher: primeiro nosso cérebro precisa dividir a imagem, dar-lhe cor e intensidade; certas partes da luz recebida, por exemplo, vão ser classificadas como a cor prateada, talvez tenha a ela associado o atributo brilhante; a forma precisa ser reconhecida também. A partir daí o modelo vai ficando mais complexo, por associação com objetos parecidos o cérebro identifica quais usos podemos lhe dar. Talvez esse cérebro tenha armazenado nele outras informações mais antigas relacionadas ao conceito de colher, e essas informações serão ajuntadas ao modelo.

Dessa forma, o cérebro produz um gradiente de modelos, do mais rudimentar e mais próximo do objeto ao mais elaborado e abstrato que por vezes representa bem o objeto de observação e por vezes se afasta dele.

Dentro desse gradiente, a objetividade está em tentar deixar o modelo o mais próximo do rudimentar, do que é apenas sensorial e menos carregado de informações adicionadas por nossa interpretação, do que é, por assim dizer, constatado por nossos sentidos.

No entanto, podemos ver que a nossa compreensão é sempre dependente do modelo criado por nosso cérebro; mesmo conceitos extremamente simples como o “amarelo” que enxergamos, não o nome da cor mas a cor em si, já é uma abstração, uma invenção de nosso cérebro na sua luta para compreender o mundo e poder reagir a ele de forma satisfatória.

Sendo assim, verificamos que não há como criar uma dicotomia entre o que é subjetivo e o que é objetivo; mesmo a visão mais objetiva ainda é dependente do que nosso cérebro interpreta dos impulsos sensoriais e, portanto, é subjetiva; não há como estabelecer um ponto claro de divisão e não há contraposição entre os conceitos, ou seja, eles não são opostos, da mesma forma que os valores de 1 a 10 não são o oposto dos números inteiros positivos.

O que eu tento mostrar com isso é que a divisão entre objetivo e subjetivo é pobre para determinar o que é real ou não, ou que ideias são válidas ou não, a começar pelo fato de que a separação entre os dois não existe; além do mais, existem elaborações complexas, e portanto mais subjetivas, que têm sucesso em representar o que encontramos na realidade.

Nas próximas partes deste artigo, eu vou retomar esse modelo e expandi-lo, tratando dos conceitos de realidade consensual, convergência e divergência de modelos e como essas coisas se relacionam com a ciência e a forma científica de analisar o mundo.


(artigo recebido em 31 de agosto de 2010)

Nota: para participar como autor ad hoc, envie seu texto para udmg@ateus.net. O material ficará disponível a todos os membros titulares para peer review e estará sujeito a críticas e sugestões antes de ser publicado (em data que seguirá a ordem de recebimento dos materiais). Para maiores informações a respeito, faça aqui o download do ‘Guia de padronização’, em formato PDF.

por Edmundo E. Medeiros

Michel Foucault analisou profundamente a estreita relação entre poder e conhecimento. Concluiu que um não existe sem o outro e que a produção da verdade se dá, em última análise, dentro de relações de poder que funcionam como eficientes mecanismos de exclusão, constrangendo e condicionando a circulação da verdade em toda a rede de poder. Para Foucault, “não há relação de poder sem constituição correlata de um campo de saber, nem saber que não suponha e não constitua ao mesmo tempo relações de poder”.

Os discursos de verdade são produzidos, circulam e funcionam em múltiplas relações de poder que permeiam a sociedade numa estrutura microfísica: nela, Direito, poder e verdade se relacionam intimamente. Na própria estrutura burocrático-institucional do Estado sobejam exemplos dessa realidade, que pode ser observada nos mecanismos institucionais destinados à legitimação do chefe de Estado, nos discursos técnicos que fundamentam a aplicação da política econômica mais adequada (instigando ou inibindo políticas de intervenção), nos procedimentos legislativos de produção normativa, com todos os “cabos-de-força” travados entre múltiplos e antagônicos interesses, nas atividades judiciárias de julgamento, dentre outros exemplos que poderiam ser aqui citados indefinidamente.

O poder, em múltiplas e incessantes relações, não para de “institucionalizar a busca da verdade, profissionaliza-a e a recompensa. No fundo, temos que produzir a verdade como temos que produzir riquezas, ou melhor, temos que produzir a verdade para poder produzir riquezas. Por outro lado, estamos submetidos à verdade também no sentido em que ela é lei e produz o discurso verdadeiro que decide, transmite e reproduz, ao menos em parte, efeitos de poder… Afinal, somos julgados, condenados, classificados, obrigados a desempenhar tarefas e destinados a um certo modo de viver ou morrer em função dos discursos verdadeiros que trazem consigo efeitos específicos de poder…, regras de direito, mecanismos de poder, efeitos de verdade, ou regras de poder e poder dos discursos verdadeiros…”[2].

O saber, portanto, é produzido nas cadeias de transmissão do poder para manter, transmitir e recriar o próprio poder. Essa indissociável relação com o saber é fruto da legitimidade que o poder necessariamente busca através da verdade. Fixar tal legitimidade é essencialmente o papel do Direito, que dilui o fato da dominação dentro do poder para fazer surgir, aí, os direitos legítimos da soberania e o dever legal da obediência.

O conhecimento, portanto, – esse mesmo produzido pelo, no e para o poder, que domina e é transmitido capilarmente – foi inventado, e aí a ideia de invenção, seguindo Nietzsche, contrapõe a de origem: dizer que o conhecimento foi inventado é dizer que ele não teve origem e que, portanto, não há no conhecimento uma adequação ao objeto, uma relação de assimilação, mas sim uma relação de dominação; é afastando-se do idealismo que Nietzsche associa o conhecimento à ideia de luta, dominação e poder. A verdade, então, é fabricada dentro de relações de luta e poder: não há como apreender sua constituição sem visualizar o embate travado na sua formação[3].

Não há uma essência do conhecimento ou condições universais para tal. O conhecimento está sempre relacionado a relações estratégicas e, exatamente por essa razão, sua natureza é parcial, oblíqua[4]; sua natureza é perspectiva porque há batalha e é desta luta que ele (conhecimento) exsurge. Tal ideia se contrapõe ao idealismo platônico, segundo o qual a verdade necessariamente se dissocia do poder político, que há antinomia entre saber e poder e que, se há o saber, ele necessariamente deve renunciar ao poder. É precisamente a ideia que contrapõe a verdade ao poder político que Nietzsche se propõe demolir ao evidenciar o poder por detrás de todo conhecimento e que, no fundo, o saber é tramado com o poder[5].

As condições políticas e econômicas nas quais se insere o sujeito, portanto, não são um véu que perturba a relação do sujeito com o conhecimento, mas sim aquilo através do que se constitui o sujeito de conhecimento, ou seja, só há verdade e sujeito de conhecimento a partir de condições políticas que são o próprio solo onde as relações entre ambos e os próprios domínios de saber se constituem[6].

Todo conhecimento, então, possui sua própria história, como qualquer outro objeto. Resulta daí que para apreendê-lo, em sua profundidade, isto é, em sua fabricação, é preciso aproximar-se mais da política que dos filósofos, e é somente nessas relações de luta e de poder – na maneira como os homens entre si se odeiam, lutam, procuram dominar uns aos outros e querem exercer, uns sobre os outros, relações de poder – que compreendemos em que consiste o conhecimento.

Referências:

[1] FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Petrópolis: Vozes, 1989. p. 30.

[2] FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. São Paulo: Edições Graal, 2004. p. 180.

[3] VEIGA NETO, Alfredo. Foucault & a Educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2003. p. 75.

[4] FOUCAULT, Michel. A Ordem do Discurso. São Paulo: Edições Loyola, 2003. p. 34.

[5] MACHADO, Roberto. Nietzsche e a Verdade. São Paulo: Graal, 2002. p. 96.

[6] FOUCAULT, Michel. A verdade e as formas jurídicas. Rio de Janeiro: Nau Editora, 2003. p. 27.


(artigo recebido em 26 de agosto de 2010)

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por Rafael Bittencourt Santos

Não é meu objetivo neste texto estabelecer princípios morais ou fazer uma profunda pesquisa sobre Ética. O que pretendo, na verdade, é propor-lhes uma área que tem se ocupado dos estudos morais e metafísicos há milênios e que é independente da religião. O motivo dessa pretensão é que tenho visto, no meu dia-a-dia, tanto por parte de religiosos quanto por parte de não religiosos, o esquecimento de que Ética não é um campo exclusivo da religião e de Deus.

A pergunta é clássica para aqueles que se declaram ateus: “de onde vem sua moral?” Os julgamentos de que ateus não têm base ética nem sentido para sua vida são muito difundidos porque para muitos – a massiva maioria[1] – a religião é a detentora das rédeas das nossas vidas. Até mesmo alguns que se declaram ateus – e isso me deixa atônito – dizem que não há bases morais fora da religião. Não discutirei, aqui, o modo de vida religioso. Basta identificá-lo como a vida regida pela fé. Pretendo apresentar e propor-lhes a filosofia, em toda a sua pluralidade. É fato que a filosofia se dedica à investigação no campo da Ética e da Metafísica por excelência. Contudo, ao contrário da investigação religiosa, se assim se pode chamar, a pesquisa filosófica se funda na razão.

Focando no ateísmo: quais as bases morais oferecidas pelo ateísmo? Nenhuma[2]. O ateísmo é apenas a posição contrária à teísta, a negação da crença divina e nada mais. Todavia, é certo que ateus têm senso moral e capacidade para fazer julgamentos. Porém, após rejeitar a vida religiosa, onde buscar o aprimoramento para a vida? Onde buscar a melhor forma de viver e ser? Na filosofia. É certo que a filosofia não é una, mas tão diversa quanto a religião. Várias linhas que se opõem e completam compõem as correntes filosóficas. Apesar disso, a filosofia cumpre um requisito que geralmente ateus procuram para firmar suas ideias: o desejo de ser racional e expulsar a fé.

Ainda assim, restariam questionamentos. Não seria esta apenas uma forma de trocar figurinhas? De certo ponto de vista, até pode ser visto apenas como uma troca de figurinhas. Contudo, uma “troca” semelhante à da alquimia pela química ou da astrologia pela astronomia. Na verdade, uma evolução. Digo que seria importante frisarmos o modo de vida filosófico porque traríamos as discussões para o campo da razão. O grande problema dos diálogos entre religiões e com religiões é o vínculo destas com a fé; com as crenças inquestionáveis e dogmas inabaláveis. Depois de puxado de volta para a filosofia o diálogo, mesmo que ela não esteja ainda una e acabada, poderíamos começar a construir um edifício mais seguro e ter, enfim, o sonhado debate sem objeções como “é o que minha fé diz”.

Eis minha proposta. Busquemos na filosofia as questões que muitos buscam nas religiões. Troquemos a Bíblia pela “Ética a Nicômaco”, de Aristóteles, ou “Os Deveres”, de Cícero. Àqueles que nos oferecerem o Novo Testamento, ofereçamos “Da Tranquilidade da Alma”, de Sêneca. Se nos perguntarem de onde vêm nossos julgamentos, digamos que da filosofia. Se nos perguntarem o que rege nossas vidas, digamos que a razão. E não apenas abracemos a filosofia, mas recriemos os círculos filosóficos, nos juntemos para discutir os assuntos e assumir posições, como fora feito numa época de luz.

Notas:

[1] Considero apenas o “mundo ocidental”. Sobre o Oriente, falta-me conhecimento.

[2] Creio que seja necessário uma melhor explicação de tal ponto, visto que pode gerar confusão. O ateísmo não pretende dar bases morais porque não é seu intuito. Seria como cobrar de alguém que está expondo a Teoria das Cordas a reflexão ética dada por ela. São coisas diferentes com intuitos diferentes.


(artigo recebido em 20 de agosto de 2010)

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por Edmundo E. Medeiros

Ainda nômade o homem “reconheceu” deus. O ser superior falava com voz de trovão e interpretá-la era especialidade rara, quase sempre delegada ao Pajé. O Pajé dizia, então, o tipo de sacrifício necessário à satisfação da divindade. Alguns sacrificavam mulheres, outros até crianças.

Na Bíblia o sacrifício é tema recorrente. Disse Deus a Abraão: “Toma agora teu filho; o teu único filho, Isaque, a quem amas; vai à terra de Moriá, e oferece-o ali em sacrifício sobre um dos montes que te hei de mostrar”. A conhecida história bíblica segue até que o pai, já empunhando o cutelo para imolar o filho, recebe ordem divina para substituir a criança por um carneiro. Depois deste episódio e exceção feita ao próprio filho, “entregue” aos mortais para servir de bode expiatório, Yaveh não mais exigiu sacrifício humano (Sodoma e Gomorra não foram propriamente sacrifícios), bastando-lhe o sangue de cordeiros.

As selvas tupiniquins ainda abrigam tribos que adoram o deus trovão. Candomblecistas e Umbandistas, por outro lado, oferecem às suas divindades galinhas, bodes, vegetais e minerais.

Apesar da proliferação de religiões, muitos humanos “reconhecem” deus sem se dizerem praticantes de nenhuma delas. Zezinho, funcionário de um grande abatedouro de aves, é um deles. Acorda todos os dias às 5 horas da manhã e segue para o trabalho, onde irá operar o equipamento que realiza a degola diária de milhares de frangos. Zezinho consome nuggets de frango com a mesma regularidade com que policiais norte-americanos devoram donuts.

O equipamento que opera funciona praticamente sozinho e com precisão cirúrgica. Zezinho observa, durante horas, os animais sendo pendurados numa esteira suspensa que os conduz às navalhas circulares. Zás! Fim da vida para os frangos que seguem pendurados para o caldeirão fervente que facilitará a extração das penas.

Certa manhã Zezinho tropeçou numa oferenda deixada na esquina da sua rua. Olhou para o pobre frango degolado em troca de algum benefício reclamado pelo devoto de um Orixá qualquer e se lembrou das implacáveis navalhas do equipamento que em poucos minutos operaria.

– Benefícios pela degola de um mísero frango?! (Indagou Zezinho).

Cogitou, então, quantos benefícios poderia obter se oferecesse todos os frangos que matava diariamente para a tal divindade, antes da degola na navalha circular.

– Bobeira! Faltaria o ritual… (logo concluiu).

Zezinho, no entanto, nunca mais olhou para as pequenas aves da mesma forma. Milhares de degolas se passaram até Zezinho, certo dia, indagar acerca da alma dos “bichinhos”. Concluiu, depois de algum tempo, que os frangos não poderiam ter alma.

– Para onde iriam tantas almas? Somente seres inteligentes podem ter alma!

Zezinho abandonou o hábito de consumir nuggets. As reflexões fizeram-no se interessar pelos programas do Animal Planet. Percebeu, ao assisti-los, que outros seres vivos também são inteligentes. Golfinhos e macacos, por exemplo, têm um nível de inteligência inferior ao humano; no entanto, inegavelmente, têm inteligência; ao menos a necessária para, por exemplo, tripularem uma nave até o espaço, como já ocorrera com o macaco Albert II, em 1949.

– Será, então, o nível de inteligência animal que determina o “direito” a um deus? Haveria um deus macaco ou golfinho convivendo no além com Alá ou Jesus Cristo? Como seria o inferno destes animais? Macacos e golfinhos têm regras morais? (…)

As questões foram aparecendo mais rápido que as respostas. E as implacáveis navalhas circulares… Zás!… Zás!… Zás!

– Eureka! Esses animais, com ou sem inteligência, não têm espírito! Não podem tê-lo! Não têm um deus! Não têm um inferno para pagarem seus pecados: sem regras morais, não pecam!

Finalmente paz! Zezinho pode, agora, trabalhar tranquilo! Os nuggets voltaram ao cardápio! Animal Planet tornou-se rotina, todas as noites, antes de dormir.

Animal Planet apresentou, recentemente, uma nova série de documentários chamada “Evolução”. Zezinho, pela primeira vez, compreendeu com clareza a teoria darwiniana. Concluiu que…

– Antes de Homo sapiens éramos macacos… Antes de macacos, éramos peixes!

Foi-se então, mais uma vez, a paz de Zezinho! Se peixes e macacos não têm um deus e um espírito, por que humanos, que já foram macacos, os teriam?

– Fé! Foi preciso fé no deus trovão! Fé em Yaveh! Fé em Alá! Fé em Orixás e Caboclos! Sem fé não se pode “enxergar” deus.

Zezinho encontrou, finalmente, a resposta para todas as questões! O “sentido” da vida! Percebeu que peixes, frangos e macacos não têm deus porque lhes falta fé! Não conseguem “enxergar” deus porque não têm fé. Inteligência, neste aspecto, é irrelevante ou pouco determinante.

A existência, finalmente, tem um sentido claro para Zezinho e o motor que faz tudo funcionar atende pelo nome de fé! Esta vida, o post mortem, nosso espírito, deus… Bastava ignorar o “detalhe” de que milhares de anos precederam a consciência e a fé do Homo sapiens para que tudo, finalmente, se “encaixasse”!

– Nada faria sentido sem fé! Seríamos como peixes ou macacos, que nascem sem um destino claro, vivem e morrem. Sem um deus e um espírito não seríamos nada além de animais com um bocado de inteligência a mais que macacos e golfinhos! Apenas “estaríamos”, sem nada antes ou depois. O post mortem seria apenas o pó, no cemitério. A vida humana teria tanto sentido quanto a vida de um macaco, de um golfinho ou de um frango (Zás!).

Zezinho decidiu ter fé! Em Thor, Yaveh, Alá, Jesus Cristo ou Orixás? Bem… Essa questão é menos importante… Zezinho precisa, apenas, ter fé!


(artigo recebido em 10 de agosto de 2010)

Nota: para participar como autor ad hoc, envie seu texto para udmg@ateus.net. O material ficará disponível a todos os membros titulares para peer review e estará sujeito a críticas e sugestões antes de ser publicado (em data que seguirá a ordem de recebimento dos materiais). Para maiores informações a respeito, faça aqui o download do ‘Guia de padronização’, em formato PDF.

por Rafael Bittencourt Santos

Algo que deve ser bastante notado por qualquer iniciante na filosofia, quando abordada como uma área do saber, é quão escorregadia e confusa ela é. Esse tipo de abordagem na filosofia causa, algumas vezes, um estranhamento e pode levar a uma conclusão inusitada: a filosofia é fracassada.

Explico-me melhor. Desde a “independência” ganha pela ciência e seu grande e indubitável progresso guiado pelo método empírico, a filosofia tem perdido o seu brilho. Na verdade, o grande brilho da filosofia foi perdido com o fim das escolas helenísticas – platônicos, aristotélicos, estoicos e epicuristas, além das correntes cínicas e céticas – quando ela deixou de ser um modo de viver para tornar-se apenas discussão e interpretação de textos. Se observarmos o que era a filosofia nos tempos de Platão e Epicuro, veremos a busca pelo bem-viver. Veremos homens que não apenas estudavam, mas praticavam. Havia certa diferença entre “filosofia” e “discurso filosófico”.

No entanto, depois do término desse período de esplendor, a filosofia tornou-se apenas ferramenta. Foi, assim, abusada e deturpada. Argumentos filosóficos eram usados para defender cristãos e defender muçulmanos. A filosofia servia a religiosos e laicos. Aparentemente, ela se tornara uma prostituta do saber onde qualquer um ia buscar inspiração para defender qualquer tese que tivesse.

É interessante notar, também, que a filosofia é a única área em que seus estudantes podem “gostar” de teorias. Não é raro escutarmos alguém dizer que não “gosta” muito do determinismo, ou que prefere as tendências do pragmatismo. Contudo, soaria estranho se alguém falasse que não é um fã da Teoria da Relatividade ou não fosse simpático às consequências da Lei da Gravidade. E então a questão: será mesmo a filosofia, agora que não tem mais em seu baralho a ciência, uma disciplina digna de ser dita “acadêmica”? Não seria ela tão digna de foro público quanto a teologia?

Tais questionamentos podem soar estranhos, mas merecem atenção. A filosofia parece, cada vez mais, uma “testa de ferro” que se aventura onde a ciência ainda não está madura o suficiente. E, cada vez mais, perde seu espaço. Numa tentativa de sobrevivência, a filosofia como atividade acadêmica tem se voltado para suportar as bases da ciência, mesmo que ainda não haja consenso sobre questões milenares de epistemologia. A sobrevivência de relativistas, por exemplo, é um fato que denota a fragilidade da argumentação filosófica, visto que tal corrente é duramente atingida desde Platão. Hoje, a filosofia se foca nas bases da ciência – em justificar seu método, dizem alguns – mas devemos lembrar que há algum tempo ela estava nas bases da teologia, serva utilizada por religiosos para justificarem suas crenças de modo “racional”.

Dessa maneira, proponho, humildemente, uma mudança no modo de ver a filosofia. Vê-la, como há bastante tempo, como uma atividade prática e um modo de vida. Não como um conjunto de conhecimentos acadêmicos, pois ela não os tem. Não há como ensinar “filosofia”, e isso é fato. Há como repassar e interpretar textos filosóficos, e lê-los como se fossem literatura. Considerá-los como os que estudam Dom Quixote de La Mancha ou Dom Casmurro. Todavia, interpretar textos não é filosofia nem filosofar. Devemos começar a entender filosofar como aprender a viver.

De que importa isso? Qual a utilidade de tal mudança? Seria uma mudança de ordem bastante prática, o que não tem sido o forte ultimamente da atividade filosófica, geralmente enclausurada nos altos círculos acadêmicos. Atualmente, há grande dificuldade de as pessoas enxergarem a moral como independente da religião – o que causa grande transtorno a ateus com estereótipos preconceituosos, diga-se de passagem. Mas isso não ocorre simplesmente por que as pessoas são ensinadas que a moral vem de Deus ou da Bíblia. Muitas vezes as pessoas reconhecem que seus preceitos éticos não vêm dessas fontes, e muitas trocam de religião justamente porque uma não combina com seu “sistema” ético e a outra está mais de acordo. Se é assim, então por que há tanto transtorno com o fato de ateus não terem nenhuma espécie de crença religiosa, esteja ela ligada a uma instituição ou seja ela independente?

Suspeito que “religião” tenha se tornado, claro que não com as mesmas bases, a filosofia de outrora. As pessoas vivem sua religião. Praticam-na. Reúnem-se para discuti-la. Religião se tornou mais que crença ou fé; tornou-se o viver. E quando escrevo que a filosofia deva retornar às suas raízes, não digo que a filosofia deva se tornar religião (mesmo que, muitas vezes, o comportamento dos filósofos seja muito parecido com o dos religiosos). Digo que ela deve se tornar de novo a busca pelo bem-viver. Seja ele as virtudes, o prazer, o conhecimento ou a busca do ideal de bem.

Por fim, tomando a filosofia como um modo de vida baseado na razão, em contraposição à religião, que se baseia na fé, muito seria ganho. Teríamos, depois de suplantado o terreno da fé, um debate racional, finalmente. Talvez seja a hora de ateus e agnósticos responderem, quando perguntados se têm alguma religião, que, ao invés disso, têm uma filosofia.


(artigo recebido em 21 de julho de 2010)

Nota: para participar como autor ad hoc, envie seu texto para udmg@ateus.net. O material ficará disponível a todos os membros titulares para peer review e estará sujeito a críticas e sugestões antes de ser publicado (em data que seguirá a ordem de recebimento dos materiais). Para maiores informações a respeito, faça aqui o download do ‘Guia de padronização’, em formato PDF.