Category Archives: Ad hoc

Nesta categoria reúnem-se os textos escritos por autores que não fazem parte da equipe titular da revista eletrônica Um deus em minha garagem. A participação de terceiros é aberta a qualquer pessoa, desde que sejam seguidos alguns parâmetros de publicação propostos; para maiores informações, faça o download do “Guia de padronização”, em formato PDF, neste link: http://deusnagaragem.ateus.net/udmg-guia-de-padronizacao.pdf

por Elisa Maia

Eu me considero uma pessoa de sorte: nasci numa família ávida por mim, pelo meu crescimento e florescimento como ser humano, disposta a acreditar no meu potencial e a investir todo o possível no meu futuro. Fui acolhida em minha fragilidade primordial e assistida em todas as necessidades, materiais e imateriais. Quando tive frio, recebi o calor dos cobertores e do afeto; quando tive medo, recebi as armas para enfrentá-lo – o escudo da proteção do clã e a espada do empoderamento.

Havia, porém, um incômodo sempre presente: a fome. Não a fome do corpo, pois nunca passei sem almoço e jantar, e sim a fome da mente. Fome de conhecer, de saber, de decifrar, de compreender. (“Compreender”: entender, perceber. Mas também: abraçar, envolver). Desde sempre, concebi o conhecimento como o único meio de se conquistar o mundo, de obter força, poder e sabedoria.

Novamente, tive sorte: meus tutores sempre buscaram saciar a minha fome. Deram-me educação escolar e educação familiar, livros e conversas, discursos e exemplos. Mas, acima de tudo, me deram amor: amor que se refletiu na liberdade para fazer minhas perguntas e buscar minhas respostas, amor que me acolheu em todas as minhas dúvidas e posicionamentos, fossem eles quais fossem. O amor foi, desde o começo, o fator que permitiu minha libertação. O amor nutre e faz crescer.

Mas agora, feita essa constatação, faz-se necessário olhar para aqueles que não tiveram sorte: aqueles que foram privados de amor. O que perderam? No que se tornaram deficientes?

Lembro-me de um caso contado quando trabalhava numa escola pública para jovens em risco social: a mãe havia dado à luz gêmeos. Pobre, desnutrida e desesperada, ela costumava largar os dois bebês num quintal abandonado durante o dia, quando saía para trabalhar, na esperança de que pelo menos um deles sucumbisse ao frio, à fome ou ao ataque das cobras e escorpiões. Assim, a responsabilidade pela eventual morte das crianças seria, ao menos e em última instância, não dela, mas de um suposto juiz onipotente.

Os meninos sobreviveram. Mas apenas isso. Descartados desde o nascimento, cresceram à margem da humanidade, como muitos outros. A subnutrição do cérebro resultou no raquitismo de pensamento. Carregados de ódio e desprezo, é ódio e desprezo o que agora atiram à sociedade, aos outros, que para eles são muito mais outros do que para nós.

Como eles, muitos cresceram e crescem com fome e sem amor. Nunca viram a bondade, por isso chegaram à conclusão de que ela não existe. Pelo menos, não para com eles. Enxergam um mundo desfigurado pela violência a que foram submetidos, e projetam sua existência de acordo com esse mundo pervertido. É aterrorizante constatar que hoje, no tão celebrado século XXI, tantos de nós ainda vivam entre a humanidade primitiva de milênios passados. Nossa civilização falhou com essas pessoas.

Vem-me agora outra lembrança daquela escola: duas professoras conversavam com um aluno, menino franzino de onze anos, resumido pelo olhar jornalístico a delinquente juvenil. As professoras queriam saber se ele vinha se comportando bem, se não vinha “aprontando” mais nada. Ele, convicto, respondeu: “Eu não! Jesus tem poder”.

Eis algo que todos nós – ateístas, secularistas e racionalistas, tanto quanto teístas, religiosos e fundamentalistas – devemos admitir, mesmo a contragosto: sim, Jesus tem poder. Jesus, Deus, ou qualquer um dos muitos modelos de Redentor, ainda possui grande poder para aqueles que buscam desesperadamente amor e todas as benesses que decorrem deste sentimento: aceitação, dedicação, proteção, perdão, ensinamento. O Salvador, qualquer que seja seu nome ou religião, tem o poder de fazer os rejeitados da humanidade sentirem-se acalentados pela divindade.

A descoberta do amor divino pode operar transformações tão intensas na vida dessas pessoas que ele é comumente dito milagroso, curador, libertador. Para os carentes de afeto humano, Deus surge como o provedor amoroso, e a religião, como o modo de vida saudável e tranquilo que a civilização traidora lhes prometera. Para essas crianças perdidas, Deus é o mapa e o caminho. Tudo o que nós não lhes demos, Deus oferece. Tudo que não lhes ensinamos, Deus ensina. Por Deus, o único ser que lhes promete amor eterno, elas farão sacrifícios. A Deus, pai do céu que supre a falta do pai terreno, elas obedecerão com humildade e alegria, mesmo que suas ordens sejam as mais severas.

O amor divino, ainda que irreal, supre a carência dessas crianças. A crença nesse amor é o que leva muitos a adotarem condutas melhores, a buscarem a honra, a dignidade e a retidão dentro de si mesmas. Porque aprendem que Deus acredita nelas, elas passam a acreditar em si mesmas. Eis por que Jesus segue tendo poder.

Frente a esse quadro, emerge a dúvida perturbadora: onde Deus ainda se faz tão necessário, onde a religião ainda funciona como pão e guia, seria correto revelar a verdade aos milhões de rejeitados, lançando-os mais uma vez ao abandono?

 

(artigo recebido em 14 de abril de 2010)

Nota: para participar como autor ad hoc, envie seu texto para udmg@ateus.net. O material ficará disponível a todos os membros titulares para peer review e estará sujeito a críticas e sugestões antes de ser publicado (em data que seguirá a ordem de recebimento dos materiais). Para maiores informações a respeito, faça aqui o download do ‘Guia de padronização’, em formato PDF.

Por Gustavo dos Anjos

Estava tranquilo no meu quarto jogando uma desafiadora partida de tênis no meu recém comprado videogame. Recebi uma cruzada de esquerda que me deixou em posição muito desfavorável na partida. Utilizando os novos recursos que havia aprendido no complexo controlador do jogo, me recuperei do revés a ponto de me deixar próximo de um golpe vencedor. Pensei, parei, preparei e quando percebi, um súbito grito de desespero me tirou completamente a atenção. Perdi o jogo. Minha frequência cardíaca se alterou instantaneamente. Os gritos continuavam e não havia sinal de que iriam parar. Corri para ver qual deveria ser o motivo tão aterrorizante para justificar tamanha histeria. Não era nada de mais. Algo extremamente corriqueiro. Uma barata. Quando menos percebi, já tinha despejado uma quantidade imensa de inseticida nela. Nesse instante, uma vida havia se extinguido. E a culpa era minha.

Por que temos tanta facilidade em matar determinados animais em comparação a outros? Parecemos ter um instinto protetor paterno para com os cachorros e um instinto assassino para com os mosquitos. Amamos os pássaros, mas nem tanto os ratos. Pisamos sem hesitar em uma formiga, mas somos processados criminalmente caso o alvo seja um elefante. Por que existe essa evidente diferenciação de tratamento? Certas indiferenças são chocantes se pararmos um minuto para pensar. Será que a vida de uma borboleta é mais valiosa que a de uma sequoia? A resposta não é simples e estamos longe de encontrar um explicação satisfatória. Esse breve texto tem o objetivo de apenas levantar alguns pontos para reflexão sobre a questão, jamais visa a esgotar os complexos e interdisciplinares argumentos que emergem desse debate.

Inegavelmente, uma vertente de possíveis explicações para essa constatação tem fundamentação religiosa. As doutrinas mais representativas gostam de defender a tese de que o homem é um ser superior aos demais seres vivos. Nossa prepotência é tão assustadora que não apenas nos consideramos melhores que os demais seres como somos os únicos feitos à imagem e semelhança do próprio deus. Que, aliás, é nosso pai. Nessa ótica, toda a diversidade de vida se faz presente para única e exclusivamente servir como suporte a nossa existência. Os adeptos a esse modo de pensar são, desde crianças, treinados para subjugar todos os demais seres vivos em sua volta. Não é muito difícil inferir que, quando adultos, essas mesmas pessoas transformem esses ensinamentos em algum tipo de agressividade contra animais.

Sem medo de errar, é possível afirmar que o criacionismo é uma poderosa forma de perpetuar essa relação desequilibrada entre humanos e demais seres. Negar a evolução é negar a inexorável conexão que todos os seres vivos possuem entre si. É como quebrar o elo de parentesco, desvinculando por completo os seres humanos dos demais seres. Uma vez isolados, podemos, com mais segurança, dizer que somos, de fato, diferentes, melhores, superiores. Descendemos de deus, nunca de um grotesco ser unicelular. Sacrifícios são permitidos em nome da purificação do ser superior. Mas não vamos jogar toda a culpa nas religiões. Ao menos, nessa questão específica, outros fatores também são importantes e devem ser considerados.

Evolução. Talvez exista alguma influência genética evolutiva que nos leva a ter propensão a desenvolver comportamentos mais agressivos com determinados seres vivos. Como, por exemplo, evitar o contato com animais que transmitem doenças, pode ser uma vantagem competitiva na corrida pela sobrevivência. Manter um maior grau de relacionamento com certos animais pode ser benéfico para a formação de um sociedade, divisão do trabalho. Entretanto, me faltam mais elementos para desenvolver essa tese. De qualquer forma, vale a pena mencioná-la.

Beleza é um fator unânime. Consideramos determinados padrões físicos como belos e não gostamos de matar a beleza, definitivamente. Atuando exatamente como efeito contrário, o fator repulsão também influencia nosso relacionamento com outros seres. Insetos em geral não são companhia agradáveis para a maioria das pessoas.

Cultura ou aprendizado. Certamente um ponto fundamental nessa reflexão. Boa parte de nossa interação com outros seres vivos parece se alterar de acordo com características diversas relacionadas ao que se genericamente chama de “cultura”. E nesse aspecto, as variáveis a se considerar podem ser muitas: local de nascimento, religião, clima, família, riqueza, sexo, período histórico, filosofias, como o vegetarianismo, entre outros. Essa constatação pode ser facilmente comprovada quando confrontamos os costumes dos povos do Oriente com os do Ocidente. Comer carne de cavalo, cérebro de macaco, escorpião e grilos é algo que causa embrulho no estômago até dos mais resistentes. Apenas mencionar no Ocidente que alguém vai matar um cachorro para cozinhar sua carne no jantar é motivo suficiente para provocar manifestações enfurecidas em praça pública. Cozinhar uma vaca, nem tanto.

A semelhança com nossas afeições físicas também exerce relevante influência. Os seres com formas “humanoides” (não gosto desse termo, é evolutivamente incorreto, mas que se encaixa bem para o propósito dessa reflexão) são mais suscetíveis a nossa adoração. Animais com rosto, membros e tronco que se assemelham com as proporções humanas são usualmente os preferidos. Ademais, um sistema nervoso desenvolvido é motivo decisivo no momento de decidirmos qual lado defender. Na média (eu disse na média), ninguém gosta de ver um animais sofrer. Ouvir gemidos de dor então, nem se fala. Detestamos.

Nem pretendo entrar no debate acerca de nossa relação com os vegetais. Porque aí as coisas vão se complicar ainda mais. Só como aperitivo, parece existir uma dificuldade enorme para que as pessoas entendam que os vegetais também são seres vivos. O abismo entre seres humanos e vegetais se mostra intransponível para a compreensão do ser humano médio. Mas esse assunto merece uma futura reflexão específica.

O que podemos concluir de toda essa breve exposição? Nada de definitivo. De qualquer forma, esses são apenas alguns elementos que podem nos ajudar a entender o porquê de nos comportamos de forma diferenciada perante os demais seres vivos. Não podemos ficar indiferentes ao fato que, inconscientemente ou conscientemente, matamos uma formiga sem o menor remorso enquanto que julgamos a vida de elefante mais valiosa. Eu, ao menos, não consigo.

(artigo recebido em 22 de dezembro de 2009)

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por Gustavo dos Anjos

Fiel: Alô…

Call Center: Seja bem-vindo ao serviço de atendimento do divino. Esta é uma gravação; e com o intuito de estar agilizando e facilitando o seu atendimento, a seguir aperte o numero correspondente à sua necessidade…
Fiel: Alô, alô…Queria falar com Deus!!

Call Center: Se você deseja estar verificando o saldo devedor da última fatura do seu dízimo, aperte o numero 1. Se você deseja estar comprando um terreno no paraíso, confira nossos planos promocionais apertando o numero 2. Se você deseja estar falando com um dos nossos atendentes, aperte o numero 3.

Fiel: # 3.

Call Center: Aqui é a assessoria angelical falando, no que posso ajudá-lo?

Fiel: Tenho algumas questões que gostaria de tratar diretamente com Deus. Sempre fui um seguidor assíduo do nosso Senhor e espero que esse meu desejo possa ser atendido. É possível?

Call Center: Pode me adiantar o assunto? Talvez não seja necessário falar com o todo-poderoso.

Fiel: Pois bem, vou direto ao ponto. Queria saber qual o motivo para o criador de tudo e de todos ter enviado o temporal de ontem que alagou e destruiu toda a minha casa.

Call Center: Infelizmente esse assunto não compete à Deus. Tente falar com o Diabo.

Fiel: Então, deixe eu falar sobre minha demissão do mês passado. Sabe, foram trinta anos na mesma empresa e agora não sei como arrumar outro trabalho. Já estou cansado de me ajoelhar, estou desesperado. Minha família está passando fome.

Call Center: Irmão, não podemos lhe ajudar nesse caso. Lúcifer é quem está por trás de sua desgraça.

Fiel: Entendi. Queria também reclamar do porquê da demora em atender minhas preces. Minha mãe está doente já faz mais de um ano e nada de melhora. Toda semana compareço pontualmente aos sermões do padre Bento.

Call Center: Nesse caso, o Satanás está de alguma forma interferindo no bem-estar de seu ente querido.

Fiel: Quer dizer então que toda as frustrações e desgraças da minha vida também devem ser culpa do belzebu?

Call Center: É bem provável.

Fiel: Que estranho!!! Existe alguma coisa nesse mundo cuja responsabilidade pode ser atribuída a Deus?

Call Center: Mas é claro que sim, irmão. Já parou para pensar no porquê de a natureza ser tão bela e perfeita? Já agradeceu, hoje, por você ter sido agraciado com a sua vida? Ou iluminado pela bondade e perfeição dos homens?

Fiel: Já entendi tudo. Pode me passar para o departamento financeiro?

Call Center: Por quê?

Fiel: Quero cancelar meu contrato.

Call Center: …

Fiel: Alô, alô… Estranho, acho que a ligação caiu.

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(artigo recebido em 06 de janeiro de 2010)

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por Daniel Quintão


“A farda modela o corpo e atrofia a mente” (Che Guevara)


Nascemos fardados, assim crescemos e nos misturamos ao meio social. Somos bilhões de filhos, pais, avós, todos unidos pela mesma causa, a sobrevivência cultural.

É enfadonha a sensação de manipulação e controle aos quais somos submetidos ao longo de nossas vidas. Quando crianças, estamos sujeitos à modelagem de nossos pais, expostos assim à absorção de suas crenças, preconceitos e modo de vida, sendo que posteriormente é a sociedade quem define nossas preferências e sonhos. Somos máquinas pré-programadas para absorver o mundo e compreendê-lo da melhor forma possível, cada um a seu modo. A uniformização de um modo geral de pensamento é a necessidade humana de formação de grupos para sua própria sobrevivência social. Quando nos adaptamos ao grupo, mesmo que inconscientemente, não fazemos mais do que proteger a nós mesmos da aleatoriedade de fenômenos incompreendidos em relação ao mundo e aos nossos sentimentos. Querendo ou não, somos abertos aos mais diversos tipos de influências e, baseados nelas, modificamos e visualizamos o mundo da forma que melhor nos convém.

Quando fardados, os soldados sentem-se mais poderosos, devido fazerem parte de um grupo que consideram forte, geralmente, “O melhor do melhor, senhor!”. É comum que morram por uma causa que desconhecem, guiados e incentivados por mentiras e/ou omissões, que os fazem sentir-se verdadeiros heróis, visualizando uma posterior recompensa. Acredite, quase todos morrem por desejarem uma simples medalha, que colocarão em uma moldura e pendurarão em suas salas e pela consciência de que serão eternamente lembrados por seus atos. O engano se dá no momento em que se esquecem de que nada fizeram isoladamente, sua morte não será escolha própria e de recompensa nenhuma desfrutará, vivo ou morto, a não ser o trauma ou o nada, pois soldados não são indivíduos, são massa sem nome, sem individualidade, apenas peças do jogo de um ser maior, o governo e o capitalismo.

O problema com tais vestes, as fardas, é a reverência ao ego, que tira de nós a capacidade de raciocínio em troca do engrandecimento pessoal instantâneo (inexistente). Quanto maior o número de estrelas (condecorações), maior a “burrocracia”. Ateísmo é tirar a farda, liberdade para se criar novas formas e cores, “desuniforme” de todo sonhador racional. Religião é farda vistosa, reconhecida e pomposa, valorização estúpida de adornos imaginários, inválidos, umas iguais à outras, com diferentes bandeiras que disputam por soldados entre si.

Que farda você veste?

Notas
A frase utilizada inicialmente pode ser encontrada via WWW na URL <www.pensador.info>.

Referências bibliográficas

  • FREUD, Sigmund. A psicologia das massas e a análise do eu.
  • LANE, Silvia T. M. Psicologia social – O homem em movimento. 13ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.

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(artigo recebido em 10 de janeiro de 2010)

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por Gustavo dos Anjos

Deus é uma energia que regula e impulsiona o universo.

Que tipo de alegação sem sentido é essa? Bom, é esse o tipo de alegação que venho constantemente escutando de forma cada vez mais frequente de pessoas que tentam explicar o que é deus para elas. E foi exatamente nesses termos que ouvi essa intrigante definição durante um encontro com colegas de trabalho. Parece haver uma forte atração no sentido de definir deus como algo intangível, subjetivo, sem forma definida. Fugir das definições corriqueiras, como a tão verbalizada expressão homem é a imagem e semelhança de Deus, é um fenômeno bastante comum nos ambientes onde as pessoas querem se mostrar superiores aos crentes usuais.

Em determinadas situações, dizer que deus é uma figura masculina de barbas pode parecer ridículo perante os demais presentes. Então, a idealização de deus como uma energia indescritível que funciona como uma força superior ao universo parece ser uma saída transvestida de um maior grau de intelectualidade. Pura ilusão. Dizer que deus é um energia é tão ou mais vazio do que um velho de barbas.

Talvez, essa onda de definições energéticas tenha sua influência em alegações como as do físico Albert Einstein. Muitas interpretações já foram feitas a respeito da crença desse famoso cientista, e ideias dele como a religião do futuro será cósmica e transcenderá um Deus pessoal, evitando os dogmas e a teologiaDeus é a lei e o legislador do Universoapenas colaboram para que mais e mais pessoas relacionem deus com o universo. E todos sabemos como o ser humano gosta de utilizar o argumento da autoridade. Outro famoso físico, conhecido por seu incrível poder de divulgação da ciência para o público em geral, Carl Sagan, também é sempre mencionado nos debates sobre religião. Como não poderia ser diferente, suas reflexões são tiradas do contexto como uma forma de chancelar um argumento que precisa de convencimento. “A idéia de que Deus é um gigante barbudo de pele branca sentado no céu é ridícula. Mas se, com esse conceito, você se referir a um conjunto de leis físicas que regem o Universo, então claramente existe um Deus.” Ou quem sabe essa onda de definições cosmológicas é influenciada por ideologias como o panteísmo e o deísmo, que interpretam, de forma genérica, deus como sendo elementos do universo e forças da natureza.

De qualquer forma, existe um infinidade de possibilidades para compreender deus como uma entidade cósmica. E, como sempre, nenhuma delas é acompanhada de qualquer suporte científico. Somente pura especulação. Essas pessoas parecem confortáveis com a situação. Acham que se livraram dos dogmas ultrapassados das religiões tradicionais e que agora encontraram uma definição bem mais sofisticada e aceitável do sobrenatural. Contraditoriamente, essas modernas definições são, ao contrário do que muitos pensam, muito deficientes como força argumentativa a favor de deus. Para início de conversa, ninguém sabe, nem ao menos, definir o que pretendem com o conceito de energia. A definição científica para “energia” não é exatamente o que as pessoas querem dizer.

Não é difícil entender o porquê das constantes referências encontradas na história da humanidade acerca da relação “deus e universo”. Curvamo-nos impotentes perante a imensidão que nos cerca. Parece natural que deus estivesse de alguma forma ligado a uma definição de um cosmos desconhecido. Afinal, desde de sempre, o deus das lacunas é o mais evocado de todas as divindades.

Dito isso, vejo uma luz no fim do túnel acerca desse constatado fenômeno. Pessoas que já abandonaram as definições clássicas de deus foram capazes de se livrar da poderosa influências das religiões organizadas. Estão um passo mais adiante no sentido de abandonar a figura divina como algo relevante para nossa existência. Apenas não foram ainda capazes de suprimir por completo a ideia de que é necessário existir algo superior. Tarefa bem mais difícil de ser realizada. Não possuir um deus que fica a eternidade interferindo e perturbando a sua vida cotidiana já é um grande alívio.

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(artigo recebido em 16 de dezembro de 2009)

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por Jairo Moura

Em um mundo técnico-científico como o nosso, deveria ser praticamente impossível ter crenças (não só religiosas, que fique claro) que não se sustentam em um confronto com os fatos. Até que ponto precisamos de tais crenças para nossas vidas?

A psicologia evolutiva e seus esforços na tentativa de explicar os comportamentos humanos à luz do benefício evolutivo inerente a eles já nos deu boas respostas. Como muitas de nossas crenças são costumes apreendidos culturalmente, grosso modo equivale a dizer que boa parte do que somos vem de um condicionamento que começa assim que engatinhamos na observação dos primeiros padrões que conseguimos distinguir.

Teoricamente, todo condicionamento é passível de mudança. Mas é um processo muitas vezes doloroso e que gera um sentimento inegável de luto. É assim quando acabamos um namoro, quando perdemos alguém que amamos para a inexorável morte, quando fechamos um ciclo escolar e nos separamos de nossos colegas, quando mudamos de cidade e deixamos para trás tudo o que aprendemos a vivenciar por lá. A lista fica aberta para que o leitor dê sua própria contribuição. Pense consigo mesmo e adicione seus itens.

No entanto, tudo isso é prático e vivenciado. E é interessante perceber que, assim como o nosso conhecimento tecnológico interfere pouco ou quase nada no nosso sistema de crenças, ideias e preconceitos, nosso arcabouço teórico é blindado para que não sofra com os males de um luto doloroso.

No mundo das relações interpessoais, nenhuma de nossas crenças é aplicada sem sermos chamados de loucos ou, com muita boa vontade, excêntricos. Há uma supressão constante de nosso foro íntimo porque sabemos que não podemos nos revelar fora de nosso grupo partilhador. Mas defendemos tais ideias como cães raivosos quando temos a chance de expô-las. Não conseguimos nos desvencilhar delas no aspecto teórico. Não as seguimos, mas não as enxergamos na sua inutilidade e nos apegamos a elas como alguém se apegaria a um copo d’água no deserto escaldante.

Há um exemplo bastante curioso que pode exemplificar este conceito. No seu sentido mais atual, diz-se agnóstico alguém que acredita não ser possível alcançarmos um conhecimento absoluto sobre questões intrigantes, sendo, portanto, salutar permanecer na dúvida, reconhecendo as nossas limitações. Essa dúvida se baseia na nossa percepção incompleta da realidade e na nossa incapacidade de descrevê-la sem recorrermos aos nossos próprios referenciais.

Pois bem. Um agnóstico deveria duvidar de tudo o que nos é conhecido, estendendo a sua hesitação a toda a nossa gama de conhecimentos e a todo o espectro de possibilidades de nossa imaginação. Mas, quando se trata de religião, não é o que vemos. O que temos hoje é a falsa ideia de que um agnóstico é o meio-termo entre um ateu e um teísta, limitando a sua dúvida somente à questão “deus(es)”.

Sem parecer simplório, cabe dizer que há vários motivos para que alguém se considere, neste sentido mais estrito, agnóstico: desde a repulsa ao termo ateu e o seu estigma social, até o receio de que estar errado com relação a deus(es) possa desencadear uma punição qualquer. É exatamente este último tipo que nos interessa por ora: por mais que o indivíduo tenha dados suficientes para desacreditar todos os deuses já concebidos e vê-los como projeções humanas, resta ainda um fiapo de teoria que lhe assombra: o fiapo de seu condicionamento.

A capacidade humana de cogitar “e se…?” é a última fagulha de vida para todas as ideias que não se sustentam. Imagine agora: existe uma foca girando o nosso planeta na ponta de seu focinho, dando a nossa noção de movimento de rotação da Terra. Espero que todos tenham rido de suposição tão ridícula, mas entendam que, por ter sido criada neste momento, é uma hipótese que não goza das mesmas falácias que dão suporte ao agnosticismo com relação a deuses: ad populum (“considero a hipótese pelo número de fieis”), ad antiquitatem (“considero a hipótese porque está aí há muito tempo”), ignotus per ignotium (“considero porque ainda não sabemos tudo e deus pode estar escondido debaixo de uma pedra no fundo do mar ou em uma galáxia muito, muito distante”) ou uma que ganhou mais força recentemente, devido aos estudos genéticos: a falácia naturalista (“é natural crer”).

São falácias que só existem na tentativa indecente de justificar uma opinião baseada tão-somente em um motivo não-racional: o fato de ter nascido e de ter sido criado em meio a uma profusão de afirmações que, de tão vivas em aparência, geram um luto teórico forte o suficiente para que não queiramos fechar o caixão e enterrá-las para todo o sempre.

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(artigo recebido em 25 de janeiro de 2010)

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por Vinícius Rodrigues de Assis (Hórus)

O criacionismo se apoia numa desonestidade intelectual medíocre, na tentativa de justificar sua crença, no entanto, essa não se faz crível pela consistência de suas explicações, e sim por atuar na simples vontade de acreditar aguçada e instigada, tornando-se necessidade de seus fiéis.

É irônico o fato de crentes se utilizarem da ciência quando essa lhes é conveniente, e atacá-la veementemente quando a mesma atinge suas confortáveis crenças. É raro ver crentes reclamando das tecnologias produzidas pela ciência; em geral, usam-na com gosto; portam celular, meios de transporte, central de ar em casa ou no trabalho, micro-ondas, bombas nucleares para matar infiéis, enfim, uma incontável diversidade de benefícios que facilitam a vida prática, sem falar na medicina, que salva muito mais vidas que qualquer pastor, curandeiro, médium etc., e que a maioria dos crentes prefere consultar quando está morrendo. Mesmo com essa confiança nos produtos e serviços científicos, a situação muda quando a ciência apresenta alguma teoria que vá contra alguma coisa relacionada à crença em deus; os religiosos, que antes se fartavam com os agrados da ciência, agora passam a ofendê-la e desrespeitá-la com vigor, como se a ciência pudesse acertar em tudo, menos em qualquer coisa ligada a deus. Ora, nenhum religioso se incomoda com o parecer científico sobre a gravidade, ou com a lei de ação e reação de Newton, e se importaram pouco com a revolução física provocada pela relatividade de Einstein se comparada com a do evolucionismo, embora este apresente tantas evidências quanto a outra, senão mais. A teoria do Big Bang também apresenta fortes evidências, mas mesmo assim muitos crentes relutam em aceitá-la.

Há que se perguntar se essas próprias crenças religiosas não são embasadas em evidências, e a resposta para isso é não. Não há nenhum motivo racional para se crer num deus pessoal, nenhuma evidência ou indício de sua existência; a religião, com seus mitos, sempre falhou em suas explicações, as quais não se baseiam em fatos, isto é, na realidade propriamente dita, mas em sonhos que enaltecem o ser humano com antropocentrismos ocos. As investigações científicas, que se fundamentam em evidências e rigorosas experimentações, quanto mais avançam mais demonstram a irracionalidade das crenças religiosas.

Como os religiosos não possuem argumentos sólidos que sustentem suas crenças, apelam para deprimentes falácias que só demonstram o quanto necessitam crer nessas infantilidades. Uma delas é a de que estão justificados para crer em deus porque nunca se provou a inexistência dele. Obviamente que, por questões práticas, quem afirma a existência de alguma coisa é que deve prová-la, do contrário qualquer um poderia inventar por meio da imaginação coisas totalmente insanas e admitir sua existência sem nenhum motivo plausível. Mas crentes querem que os cientistas percorram todo o universo para verificar que deus não está em nenhuma parte, e não basta fazer isso com telescópios, exigem fazê-lo pessoalmente. Presumindo que os cientistas consigam tal proeza e comprovem a ausência de deus, os crentes ainda diriam: “Ora, mas como saber se não há universos exteriores ao nosso nos quais possa estar deus? Vocês devem comprovar isso também”. Mesmo que conseguissem investigar todo o espaço que existe e não achar nada de deus, ainda poderia se ouvir dos crentes a alegação de que deus pode estar oculto por poderes que nossos sentidos não conseguem detectar. Desse modo, não se pode provar a inexistência de deus, mas isso em nada justifica racionalmente a sua crença. Sem contar que com todo conhecimento que obtemos por meio da ciência, é provável e até faz sentido dizer que deus não existe, ao menos não um deus pessoal como gostariam os religiosos.

Os criacionistas, não tendo nada para alegar a favor de sua “teoria”, usando somente uma autoridade que sequer é demonstrada, dirigem todos os esforços atacando a ciência na ânsia de refutá-la, como se depois disso automaticamente estivessem validando sua própria tese. Entretanto, as falhas que os religiosos alegam encontrar na ciência ou são mal entendidos ou distorções deslavadas. Quando desistem de forjar falhas, apelam para a ignorância da ciência, apontando as lacunas, nas quais depositam deus como explicação. Assim como todo o resto, isso não passa de covardia; chamar nossa ignorância de deus nunca nos ajudou em nada, pelo contrário, até hoje só nos conduziu ao erro e prolongou nosso desconhecimento. Ademais, se a ciência estiver errada em suas explicações sobre o desenvolvimento do universo e da vida o que é possível, mas demasiado improvável, já que há inúmeras evidências ao seu favor , isso só mostrará que estamos errados e teremos que recomeçar nossas investigações do zero, ou de onde erramos; nada disso justificará a crença no criacionismo, como este postula, ainda mais porque segundo o seu raciocínio, a ciência deve mostrar um conhecimento absoluto para estar certa, enquanto que para o criacionismo ser validado basta que a mesma esteja errada. O mínimo que podemos chamar isso é de desonestidade.

Desse modo, crentes não estão interessados, como nós, em entender a realidade, mas em justificar sua crença em deus, não importando as explicações pífias que tenham de preservar para tanto. Mas não levemos a sério esses religiosos, discutir com eles é como tentar convencer crianças de que Papai Noel não existe enquanto temem perder seus presentes ao descobrir isso. Deixando a metáfora de lado, religiosos não entendem que o conforto emocional que obtêm não advém de deus, mas da crença deste, e por isso o avanço científico os amedronta com a ideia de que não sobre nenhum lugar no qual deus se esconda. Afinal, como bem sabiamente afirmou Carl Sagan, não é possível convencer um crente de coisa alguma, pois suas crenças não se baseiam em evidências; baseiam-se numa profunda necessidade de acreditar [1].

Referências

  1. “You can’t convince a believer of anything; for their belief is not based on evidence, it’s based on a deep seated need to believe”. SAGAN, Carl. Contact. New York: Pocket Books, 1985.

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(artigo recebido em 08 de janeiro de 2010)

Nota: para participar como autor ad hoc, envie seu texto para udmg@ateus.net. O material ficará disponível a todos os membros titulares para peer review e estará sujeito a críticas e sugestões antes de ser publicado (em data que seguirá a ordem de recebimento dos materiais). Para maiores informações a respeito, faça aqui o download do ‘Guia de padronização’, em formato PDF.

por Gustavo dos Anjos

Atualmente, é possível encontrar muitos textos e artigos de boa qualidade sobre religião, ateísmo e temas do gênero. A internet, sem dúvida, facilita bastante essa divulgação, possibilitando cada vez mais o acesso a informação. Entretanto, difícil mesmo é achar, nessa infinidade de ideias, alguma que seja realmente nova. Ou que ao menos traga alguma perspectiva diferenciada para contribuir com a reflexão sobre esse complexo debate. Deus e sua relação com os seres humanos. Ou vice-versa.

Nessa perspectiva, nos últimos dias fiquei pensando sobre como, de fato, as pessoas a minha volta se relacionam com deus. Como as pessoas enxergam deus no seu dia a dia, fora do mundo dos cultos e das igrejas. Porque, ao menos na minha realidade cotidiana, ninguém fica utilizando os famosos e exaustivamente debatidos argumentos históricos e filosóficos para reforçar sua crença em deus.

Na intenção de trazer alguma análise particular, resolvi tentar traçar o perfil de Deus segundo a perspectivas de alguns amigos próximos. Primeiramente, é necessário fazer algumas considerações. Esses amigos não pertencem a nenhuma religião especifica,  tampouco frequentam cultos ou rituais rígidos. Mas todos acreditam em deus e acham que esse mesmo deus mantém algum tipo de comunicação pessoal com eles.

Sempre inicio minhas discussões sobre religião perguntando para as pessoas a definição de Deus. Como era de se esperar, os tropeços já começam bem cedo. É surpreendente a quantidade de elementos distintos que cada indivíduo apresenta para qualificar seu Deus pessoal. Só como exemplo, vou relatar um caso em particular que me chamou a atenção, mas que resume de forma satisfatória o comportamento padrão das pessoas a minha volta. Um determinado amigo acredita em um Deus que consegue ouvir suas orações diariamente, é capaz de interferir na sua vida, que, por sinal, não acaba após a morte, e ainda alega que seu espírito é real e às vezes sai do seu corpo durante a noite.

Até aqui tudo bem, parece uma definição clássica de um cristão. Mas é exatamente aí que mora o problema. Essa pessoa não é cristã, está longe disso. Não vai à igreja, não acha que foi o divino quem criou o mundo, acha a história de Adão e Eva uma besteira, Maria não era virgem e considera a evolução como um fato. Bom, tento nem entrar no assunto Jesus Cristo, porque daí as coisas ficam ainda mais nebulosas. As pessoas sequer conseguem claramente distinguir Cristo de Deus.

Depois de ouvir pacientemente várias respostas, que acabam inevitavelmente se repetindo, é possível dizer que Deus é constituído por um conjunto de características que cada indivíduo julga conveniente. Em outras palavras, pega-se um dogma do cristianismo, outro do budismo, noções do espiritismo, mais um do hinduísmo e às vezes de filosofias quem nem são religião, como o yoga. O que as pessoas não percebem é que ao agregar características diversas, acabam criando um novo deus, único, exclusivo e personalizado. E o mais perturbador é saber que essa constatação não parece ser um problema para essas mesmas pessoas.

O mais comum é ouvir dizer que cada um pode ter seu deus pessoal, de acordo com suas convicções e experiência de vida. Como podem existir infinitos deuses pessoais igualmente verdadeiros? Essa contradição não parece tão absurda para a maioria das pessoas. A partir do momento em que se cria um deus personalizado, um frankenstein, mais frágil se torna a própria argumentação a favor da existência de um Deus qualquer. Ao menos, os deuses fundamentados em uma religião específica estão resguardados por alguma fundamentação histórica, por mais frágil que seja. E, nesses casos, me parece ser mais plausível acreditar nessa divindade. Tenho mais respeito por aqueles que tentam seguir os dogmas de um deus historicamente consolidado do que por aqueles que produzem sua receita de acordo com sua arrogante conveniência.

Só existe uma conclusão óbvia para toda essa miscelânea de definições.  Deus é como uma colcha de retalhos. Um emaranhado de vontades pessoais que se entrelaçam para acobertar os medos e frustrações humanas. Uma capa protetora contra a impotência perante a realidade. Todos se sentem protegidos e aquecidos, mas existe sempre o risco de serem descobertos.

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(artigo recebido em 16 de dezembro de 2009)

Nota: para participar como autor ad hoc, envie seu texto para udmg@ateus.net. O material ficará disponível a todos os membros titulares para peer review e estará sujeito a críticas e sugestões antes de ser publicado (em data que seguirá a ordem de recebimento dos materiais). Para maiores informações a respeito, faça aqui o download do ‘Guia de padronização’, em formato PDF.