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Em 1977, como parte do programa de exploração interplanetária batizada de Voyager,foi lançada na direção de Saturno a sonda Voyager I. Após completar a sua missão, em 1990, uma última foto foi tirada em direção ao planeta Terra, a uma distância de 6.4 bilhões de quilômetros. Esta fotografia ganhou fama e foi batizada de Pale Blue Dot (ou pálido ponto azul), que mais tarde inspirou a confecção de um livro homônimo do brilhante astrônomo norte-americano Carl Sagan, que na época fazia parte do projeto e havia solicitado que a imagem fosse capturada pela sonda.

Na imagem acima, destacada pelo círculo azul, o planeta Terra se apresenta como um insignificante ponto no universo. Olhos desavisados nem ao menos perceberiam sua presença. Não há nada de especial neste ponto luminoso, exceto para nós, que o habitamos. Este é o planeta no qual residimos e que serviu de testemunha para todos os feitos da humanidade. Não conhecemos (ainda) outra forma de vida, senão aquela que aflorou em solo terrestre.

Para nós, seres humanos, é fácil imaginar que todo o universo gira em torno de nossa jovem existência, de nosso planeta tão rico em vida, e tão facilmente desprezamos o fato que nada temos de especial neste colossal universo, senão o fato de que fomos afortunados o suficiente para proporcionar, em dado momento, que a célula primordial viesse a existir.

Dentre tantos planetas, só a Terra possui vida; logo deve ter sido obra de uma inteligência superior, diriam os crentes. Entretanto, sabemos que não é bem assim. Dentre bilhões de planetas que flutuam no nosso universo, não é nada impressionante o fato de a vida ter aflorado em ao menos um deles. Imagine que mesmo se a chance fosse de um em um milhão, ainda assim haveria uma alta porcentagem de favorecimento a alguns desses planetas.

É muito provável, ainda, que existam outros sistemas onde tal fato também se deu. Não é descartada a possibilidade de outros planetas que carregam em seu solo alguma espécie de vida extraterrena, que pode ser, ou não,similar ao que conhecemos por vida. Seja qual for a situação, nossa possibilidade de comunicação com tais seres se vê separada por anos-luz.

Me parece extremamente pretensioso que se atribua à uma força inteligente e infinitamente superior a criação de tudo o que existe, que deliberadamente o fizera com a única finalidade de servir de nicho para um grupo de humanoides, com a intenção de que estes últimos louvassem e erguessem templos em homenagem a este criador vaidoso e ciumento.

Entretanto, como nos lembra bem Carl Sagan, apesar de insignificante, este é o nosso planeta. É tudo o que temos. Não conhecemos ainda meios de migração para outros planetas, e não há qualquer previsão que torne tal acontecimento possível. É preciso cuidar do que temos, pois é o único que temos, e deixar de lado todas as futilidades e puerilidades metafísicas criadas por desocupados religiosos, inconformados com uma existência simples na Terra, e que sob a pretensão de serem vistos como humildes servos de um ser maior, criam a ilusão de uma vida póstuma, elevada e superior.

A visão mais comum que se tem dos ateus é a de indivíduos carentes de espiritualidade; ou seja, como se fossem indivíduos aos quais falta uma espécie de sensibilidade que diz respeito exclusivamente à esfera religiosa. Mas o que é exatamente esse sentimento? E por que não tê-lo deixa os demais tão desconfiados? Ao que parece, pela simples razão de que tendemos a excluir os que são diferentes. Não é uma explicação que enaltece os ateus, mas parece ser bastante simples, óbvia e observável, satisfazendo ao menos o critério da Navalha de Occam.

Traçando um paralelo, imaginemos um indivíduo que não possui amigos. Além disso, suponha-se, para todos os fins, que somos seres sociáveis. Qual costuma ser nossa reação diante de um eremita confesso? Geralmente algo que não está muito distante da que um religioso teria diante de um ateu. Mas pensemos por ora no caso do eremita. Mesmo que — talvez inspirados por boas maneiras antropológicas — relutemos em confessá-lo, temos a clara impressão de que, pelo fato de o indivíduo não possuir um círculo social, sua vida paira oca sobre o abismo do absolutamente nada.

Na tentativa prematura de construir uma imagem de sua vida sem possuir qualquer dado a respeito, partiremos de vários preconceitos sem sentido, como, por exemplo, o de que ele é infeliz — mesmo que vejamos que ele é feliz. Obviamente, também pressuporemos que saibamos perfeitamente bem do que ele precisa — algo que invariavelmente coincide com o que nós próprios precisamos. Enfim, seja qual for o argumento que apresentemos em favor do ermitão, o indivíduo em geral se recusa a admitir que seja possível a alguém levar sozinho uma existência completa e satisfatória — ainda que ela esteja diante dele em carne e osso.

Assim, mesmo que o solitário leve uma vida aparentemente mais agradável que a nossa, isso só pode ser uma consequência do fato de que indivíduos iludidos são mais felizes, pois alguém que não concorda conosco só pode estar errado. Julgamos que, como sua vida não se encaixa no padrão que preestabelecemos como o único válido para alcançar uma satisfação que nós próprios nunca alcançamos — e nem por isso nos sentimos inclinados a pô-la em xeque —, o melhor que temos a fazer é nos protegermos desse indivíduo com todas as forças pelo simples fato de ser diferente; ou seja, mesmo que não tenha nos ameaçado em nada, o simples fato de ele ser diferente já é, para nós, uma ameaça implícita, que nos deixa tensos diante da possibilidade de não sermos o centro do universo.

Pensemos no caso dos direitos dos ateus. O que ateus podem exigir da sociedade? O direito de ser irrelevantes. Parece estranho, então exemplifiquemos. Um ateu pode apenas exigir que, digamos, ao ir a uma frutaria, tenha o direito de escolher o suco que bem entender, bebê-lo, pagá-lo, receber o troco, colocá-lo no bolso e partir sem ser questionado sobre os porquês de sua descrença na origem divina do universo. Sendo razoáveis, isso é tudo o que podemos esperar. Não queremos, enquanto ateus, receber descontos na compra de laranjadas, ou que se cobre mais de religiosos. Queremos simplesmente ser vistos como cidadãos comuns, que a sociedade tenha tolerância quanto ao ateísmo, de modo que o fato de sermos ateus seja tão irrelevante quanto o fato de outrem ser religioso.

No mais, se nossa descrença diz respeito à religião, só faz sentido que sejamos tratados diferentemente no que diz respeito à religiosidade. É perfeitamente lógico que não possamos, por exemplo, nos casar em igrejas ou participar de grupos de oração. Sendo ateus, aceitamos tais implicações com a maior boa vontade, pois simplesmente fazem sentido. Em tais questões não haveria sentido em exigir igualdade. Pelo contrário, seria absurdo esperar que ateus, no tocante à fé, fossem tratados como religiosos, assim como seria absurdo esperar que indivíduos feiosos fossem tratados como belos no tocante à beleza. Ateus devem ser tratados como ateus; religiosos como religiosos; feiosos como feiosos; belos como belos. Mas tudo em seu devido contexto. Nessa situação, o preconceito surgirá apenas se permitirmos que as coisas se misturem. Por exemplo, se acreditarmos que, pelo fato de um indivíduo ser ateu, também é feio. Apenas isso seria um preconceito, isto é, uma generalização indevida.

Não temos fé, e não damos a mínima se a Igreja considera o ateísmo errôneo para com os profetas. Porém, enquanto ateus, não queremos ser julgados pelo que não tem relação alguma com religiosidade. Não queremos ser forçados a mentir sobre nossas opiniões em entrevistas de emprego, durante conversas, e assim por diante. Esperamos que um indivíduo, ao declarar-se ateu, não cause espanto algum, que os demais não reajam com perplexidade, dizendo: pelos céus, ele é ateu! Ao dizer que somos ateus, esperamos que os demais recebam tal afirmação com naturalidade, sem espanto, assim como ninguém se espanta ao ouvir que certo indivíduo é católico, evangélico ou espírita. É apenas nesse sentido que entendemos a igualdade, e exigir mais que isso seria injusto para com os demais. Para percebê-lo, basta pensar do seguinte modo: para os ateus, a vida não tem sentido. Isso é problema de quem? Problema dos ateus. Se somos ateus, problema nosso, e não importa se tal fato nos entristece ou desmotiva. Isso não é culpa dos religiosos.

Agora, para ilustrar tal situação perante a sociedade, suponhamos que a consciência da ausência de sentido nos cause depressão. Isso nos dará o direito de exigir que recebamos medicação gratuita para tratá-la? Teremos o direito de exigir que a sociedade custeie a manutenção de uma instituição voltada exclusivamente aos ateus com o nobre fim de amenizar os dissabores de uma existência sem sentido? Poderemos exigir que ateus devam cumprir jornadas de trabalho mais curtas por viverem angustiados? Será justo processar um padre que se recuse a casar, perante os olhos de Deus, um casal de ateus? Podemos ser ateus, mas é ridículo exigir compensações da sociedade pelo fato de a existência não ter sentido e isso nos entristecer, e o mesmo se aplica aos demais: não podem exigir compensação da sociedade por um problema que só diz respeito a eles próprios.

Recentemente foi revelado ao mundo um dos casos mais estarrecedores de pedofilia entre padres. Desta vez foi na Alemanha onde, até agora, 115 ex-alunos de colégios católicos resolveram romper o véu do silêncio e denunciar suas experiências acadêmicas desagradáveis.

Ainda mais revoltante é a Igreja Católica, que parece estar muito mais preocupada em manter a sua boa imagem do que em prezar pelo bem estar das crianças que frequentam seus cultos. Segundo a Ministra da Justiça alemã, o Vaticano criou um “muro de silêncio” para tratar deste caso, afirmando que a Igreja orienta seus membros a não divulgar tais assuntos fora da instituição, dificultando, desta forma, a ação da justiça dos homens.

A conclusão da ministra é corroborada por uma carta do falecido João Paulo II que, em 1999, aconselhava Robert Burns, um padre com histórico de abusos, a mudar de área ou continuar na mesma área desde que sua permanência não acarretasse novos escândalos.

Aqui no Brasil também há alguns casos semelhantes. O do padre Ângelo Schiarelli, por exemplo, pego pela polícia em flagrante no quarto com uma menina de 13 anos. O padre, de 64 anos, havia sido transferido de São Lourenço do Oeste onde já havia suspeitas de abusos contra menores.

Existem muitos outros casos descobertos e, provavelmente, muitos outros mantidos em segredo com sucesso.

Segundo a doutrina católica, a castidade não é um sacrifício, mas um fruto do Espírito Santo, que ajudando os homens a controlar suas mentes, aproxima-os de Deus.

Evidentemente, não podemos cobrar sucesso do Espírito Santo nessa missão. Afinal, além de não haver qualquer sinal deste, somos seres sexuados e, por isso, o sexo possui uma relevância psicológica bastante grande em todos nós. Essa relevância é muito mais prevalente nos homens, que, por razões evolutivas, possuem uma libido bastante maior do que a média das mulheres.

Com padres, obviamente isso não poderia ser diferente. A tentativa de coibir a natureza humana com dogmas religiosos é uma tentativa fadada ao insucesso, o problema assume maior proporção quando essas falhas envolvem crianças, alvos fáceis para padres predadores.

Mircea Eliade, em seu livro O sagrado e o profano, conta a história de uma tribo de caçadores e coletores nômades que venerava um poste de madeira. Este poste sagrado representava o eixo cósmico. Segundo as tradições daquele povo, um ser divino, em tempos míticos, após ter fundado as instituições da tribo, subiu por aquele poste e desapareceu no céu. Desde então, a tribo passou a carregar o poste sempre consigo por suas andanças em busca de alimento. O tal pedaço de madeira era tão importante para aquele povo que até mesmo a direção que deveriam seguir em seu nomadismo era determinada pela inclinação do poste.

Prosseguindo em sua narrativa, Eliade conta que em uma ocasião o poste sagrado se quebrou. Para aquela tribo, isto representou o fim do mundo, literalmente. Em sua visão de mundo, condicionada por seus mitos e suas tradições religiosas, após a quebra do poste, não havia mais cosmos, não havia mais uma realidade ordenada, não havia mais sentido na vida. Apenas caos. A consequência foi que todas as pessoas da tribo, após vaguearem por algum tempo, simplesmente se sentaram no chão e lá ficaram, até morrer.

Esta história, para quase todos os membros de nossa sociedade, tem um aspecto tragicômico. É terrível pensar que várias pessoas permaneceram no mesmo lugar esperando a morte chegar, com fome e sede. Mas esta situação não deixa de inspirar uma impressão de absurdo, e mesmo de ridículo, em nossas mentes. Como é possível que um grupo de seres humanos pense que o mundo acabou só porque um poste de madeira se quebrou? Será que aquelas pessoas não seriam capazes de constatar que a vida poderia prosseguir normalmente sem o tal poste sagrado? Não poderiam ter elas experimentado levar a vida como antes? O filósofo que narra esta história, ao longo da mencionada obra, tenta mostrar as diferenças fortes nas visões de mundo do homem religioso e do homem profano. Não é minha intenção falar sobre este tema aqui. Quero apenas fazer uma comparação com uma situação que me parece análoga à narrada.

Na nossa sociedade e em nosso tempo, nem todos os indivíduos fazem da religião o centro de suas vidas. Talvez possamos até dizer que a maior parte das pessoas, mesmo que declarem ter uma religião, vivem quase todo o tempo sem sequer pensar sobre ela, lembrando-se ocasionalmente que existem coisas como igreja, culto, missa, padres ou pastores apenas quando alguém casa ou morre. Da mesma forma que existem pessoas que declaram beber “socialmente”, muita gente só pratica sua religião “socialmente”. Mesmo assim, nós ateus sabemos que é bastante comum que muitas pessoas, tanto as religiosas autênticas quanto as que praticam a religião “socialmente”, reajam como se estivessem escandalizadas quando alguém declara que não acredita em qualquer deus. Tais pessoas expressam uma espécie de reação de repulsa diante da escolha do ateu de viver sem a crença em entes sobrenaturais. Daí surgem as indefectíveis perguntas: “como você explica então a existência do mundo?” ou “que sentido você vê na vida sem deus?”

Eu sou capaz de apostar que a maioria das pessoas que fazem estas perguntas iria achar absurda a história da tribo que se deixou morrer só por causa do poste quebrado. Mas, será que as perguntas que elas fazem ao ateu não se parecem com a atitude dos nômades do poste quebrado? Achar estranho que alguém viva sem aceitar algum tipo de deus como explicação da existência ou como sentido da vida me parece semelhante à atitude de alguém que acha que o mundo acabaria se sua crença se revelar errada. Se você, caro leitor, é religioso, pense nisso antes de fazer aquelas perguntas a nós ateus. Nós apenas constatamos que a inexistência de divindades não é o fim do mundo…

Referências:
ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008 (a história da tribo encontra-se nas páginas 35 e 36).

Nos Julgamentos de Nuremberg que se sucederam ao Holocausto, nos quais diversos oficiais nazistas foram julgados, quando inquiridos das motivações para a matança sistemática de inocentes a resposta era sempre a mesma: estávamos seguindo ordens.

Essa resposta, é claro, não convenceu nenhum dos juízes envolvidos nos processos; afinal, pessoas normais não aceitam esse tipo de ordem. Estes oficiais, para os juízes, eram psicopatas e mereciam ser castigados por isso. Porém, não foram apenas os altos oficiais os envolvidos nesta chacina, milhares de soldados também executaram inocentes; é possível que todos fossem psicopatas, ou, de fato, estavam apenas seguindo ordens?

Em 1961, o psicólogo Stanley Milgram iniciou um experimento que responderia essa pergunta.

Milgram selecionou voluntários para um experimento de memória e aprendizado. Neste experimento o voluntário assumia o papel de professor, sua função era a de fazer perguntas para outro participante (denominado aluno) utilizando um microfone. Para cada reposta incorreta, o professor deveria aplicar um choque elétrico que era aumentado em 15 volts de cada vez. Não havia contato visual, porém, os gritos e protestos do aluno podiam ser ouvidos. Ao lado do voluntário, ficava o experimentador que tentava, utilizando-se de sua autoridade científica, fazer com que o voluntário continuasse a aplicar os choques.

O que os voluntários não sabiam, é que o aluno era um ator e os barulhos que ouviam eram de uma gravação. O intuito do experimento era, na verdade, saber até onde os voluntários iriam, quantos deles aplicariam o choque fatal de 450 volts? Surpreendentemente, entre 61 e 65% dos voluntários “matava” o aluno. Era perfeitamente visível que os voluntários não se sentiam confortáveis com aquilo, também era visível que eles tinham plena consciência do que faziam. Ainda assim, continuavam.

Houve variações deste teste em que o voluntário recebia ordens do experimentador por telefone. Neste caso, a participação caiu para 21%, o que demonstrou a importância da presença da autoridade.

Incluo abaixo um documentário no qual o experimento foi refeito pela BBC.

httpv://www.youtube.com/watch?v=0PassGyF8X8

Parte 2

Parte 3

Muitos dos voluntários afirmaram que a principal motivação para terem ido até o final era a ideia de estarem fazendo aquilo em nome de um bem maior, no caso, para o avanço da ciência.

Não havia, para os voluntários de Milgram, nenhum tipo de ameaça; e, mesmo assim, a maioria foi até o fim. É provável que a colaboração atinja quase 100% se os voluntários fossem, de alguma maneira, ameaçados do mesmo modo que, provavelmente, os oficiais nazistas eram. Apenas para termos uma ideia, segundo o artigo 387 do código penal militar brasileiro, em tempos de guerra, a recusa ao cumprimento de uma ordem pode ser punida com a morte por fuzilamento.

Obviamente, não quero, com este texto, justificar as ações tomadas pelos oficiais nazistas. Vale a pena, porém, observarmos o quão facilmente podemos ser levados a atos contrários às nossas convicções morais e éticas, basta que peçam do modo certo.

Essa nossa predisposição à autoridade foi descoberta há pouco tempo pela ciência, mas certamente é conhecida há muito tempo por líderes de todo o tipo, de militares a religiosos.

No caso dos extremistas islâmicos, por exemplo, a autoridade observadora é substituída por uma autoridade divina onisciente, os alunos devem aprender sobre a verdade de Alah, caso contrário, serão punidos. Os resultados, como sabemos, são bombásticos.

Há tempos eu observava a pequena “matilha” de cães da raça fila brasileiro que mantinha em minha própria residência, e a postura do macho líder, sempre mostrando com veemência que a desobediência custaria “caro” para algum canino teimoso infiél, me chamou a atenção para um detalhe: a natural imposição da autoridade (em alguns casos uma pseudoautoridade) através do medo e da ameaça. Conosco, Homens (maravilhosos seres humanos superdotados de excepcional razão e profundo discernimento entre asneiras e coerência  — explico para o possível leitor desatento que existe óbvia ironia neste comentário — ), também prevalece tal imposição, mesmo que algumas vezes travestida em “roupas de gala”. Pensando dessa forma, não simplesmente pela ótica animal, e considerando que há um enorme espaço antropocêntrico dentro de cada um de nós, não parece tão surpreendente; mas ao analisarmos com bastante calma e total isenção como funciona o mecanismo autoritário incrustrado no convívio social humano (família, trabalho, lazer, esporte…), começamos a compreender melhor como funciona a eficiente “rédea” religiosa. Em destaque significativo, aqui no Ocidente, as seitas neopentecostais.

Num mundo onde a natureza é absolutamente indiferente a tudo e a sobrevivência extremamente dificil, os crentes ainda necessitam se curvar a um Deus bastante ameaçador. Temê-lo, respeitá-lo e, acima de tudo, adorá-lo. A ausência de “adoração” pode custar muito caro a eles (em suas mentes). A própria defesa da razão é ameaçada com punição no fogo eterno, caso ela vá de encontro à fé cristã. Contudo, é fenomenal a maneira como a aderência por parte dos crentes em relação às coisas originadas e mantidas a partir da ciência são significativas em suas vidas. Para isso, com exceção dos Testemunhas de Jeová, não há punição. Aliás, os Testemunhas de Jeová compõe um caso para ser analisado em outra ocasião específica, tamanha a aberração de seus atos no sentido de irem contra o próprio instinto de sobrevivência em detrimento a um ser que sequer existe. Essa classe de crentes, juntamente com os alucinados homens suicidas muçulmanos, provavelmente são os verdadeiros crentes, os que realmente acreditam “naquilo”, ao contrário da maioria que simplesmente “teme” por alguma vingança divina caso não creia em Deus ou pelo menos ventile a possibilidade de sua inexistência. É o medo da morte, sempre, e o medo de uma punição absurdamente sofrível: o inferno.

Muitas vezes me pergunto se as religiões teriam chegado tão longe caso não houvesse o lado punitivo, do inferno, do sofrimento eterno. Sem as punições e as terríveis ameaças e medos, como a razão seria estirpada tão facilmente das pessoas? Se não existisse na humanidade o medo de pensar livremente e de blasfemar, como bilhões de pessoas estariam ainda hoje lotando igrejas e mais igrejas, tomando hóstias e confessando suas intimidades para estranhos homens de batina? Muitos crentes certamente usariam uma retórica já bastante conhecida para invalidar a questão das ameaças e do medo, oferecendo uma enorme “lista” de bons motivos para se seguir um religião, principalmente os cristãos. Mas eles próprios seriam o manequim da contradição, de pé atrás de uma vitrine que vende “falsas verdades” às custas de muito medo e danação. Um leão forasteiro solitário jamais obedeceria a ordem do macho líder de um bando qualquer, para se afastar das fêmeas ou da zebra morta caída ao chão, se não fosse por conta de uma enorme ameaça de força e/ou brutalidade (que pode ser levada às últimas consequências). Como somos animais também, a ameaça e o medo instintivo ainda compõem as melhores táticas para a manipulação dos “bandos” de humanos. Mas somos civilizados e emocionais, o que faz com que essas ameaças sejam mais sofisticadas em relação ao enorme rugido de um leão.

Estudando um pouco as maiores religiões monoteístas da história, percebemos que, na propaganda geral elas falam de paz, harmonia e congregação (fachada), mas as “rédeas” são na verdade guiadas e mantidas por terríveis ameaças e punições (interior) dignas de super produções cinematográficas. Ou pensam que um filme B qualquer conseguiria reproduzir um inferno eterno e ardente?

Por acaso imaginaste
Que eu iria execrar esta vida,
Fugir para o ermo
Por alguns dos meus sonhos
Se haverem frustrado?

Aqui me tens, e homens farei
Segundo minha imagem,
Uma raça de, a mim, iguais
A padecer, a chorar,
A gozar, a sofrer
E nunca a ti se render
Como eu![1]


Dentre deuses, heróis, erínias, gigantes e outros, Hesíodo, em sua Teogonia[2], relata o nascimento e a vida de Prometeu, um titã que roubara o fogo do Olimpo a fim de presentear os homens. Castigado por Zeus, foi acorrentado a um penedo para que um abutre bicasse continuamente o seu fígado. Esse mito poderia servir para alertar os beberrões sobre as consequências do álcool, mas sua motivação é outra: mostrar os efeitos advindos da subversão por não reverenciar os deuses. Fato é — ou melhor, mito — que Prometeu dispôs-se a fazer homens segundo sua própria imagem, de maneira que não precisassem, como ele, idolatrar os habitantes do Olimpo. A captura do fogo seria, pode-se dizer, algo como a busca do conhecimento.

BABUREN, Dirck van. Prometeu sendo acorrentado por Vulcano. Óleo sobre tela, 202×184 cm. Amsterdam: Rijksmuseum, 1623.

Não somos os primeiros, contudo, a resgatar a alegoria: como Goethe (que em 1774 escreveu um poema do qual os versos finais nos servem de epígrafe), outros autores escreveram a respeito da figura que representa, grosso modo, a ambição humana por conhecimento. Evidencia-se, pois, a problemática da rebeldia contra os deuses, tema que se interpõe até hoje no seio da humanidade — desde que civilizada. Vale dizer que Francis Bacon, já no fim do século XIV, afirmara que tudo o que podia ser feito pela elevação do espírito já tinha sido consumado pelos gregos e romanos; pouco (ou quase nada) restaria às gerações posteriores a não ser dedicar-se ao aprofundamento das obras já escritas. E aqui estamos nós, mito de Prometeu em mãos e alguma dose de atualidade.

Mas o que seria, nesse ínterim, a “vergonha prometeica”? Seria, em resumo, um sentimento que se apropria do ser humano quando este se defronta com a humilhante qualidade das coisas que ele mesmo concebeu — máquinas, instrumentos variados, computadores, novas tecnologias em geral. Tal comiseração, apontada por Günther Anders [3], surge de uma “[…] assincronia diariamente crescente do ser humano com o mundo de seus produtos”[4], de um desnível que resulta em uma perspectiva a partir da qual os homens se veem insignificantes diante de suas próprias criações. Obviamente Anders referia-se aos produtos tecnológicos concebidos pela civilização; mas não poderíamos nós, diante de tal conceito, apontar a ideia de deus como também um produto criado pelos homens e, do mesmo modo, capaz de nos fazer menores, bagatelas ontológicas, insignificâncias bípedes?

Ao que parece a humanidade gosta, por natureza, de se humilhar. E para tal cria meios pelos quais permite-se constantemente se deparar com o abatimento; diante dos frutos de sua obstinação, sejam eles ábacos, catedrais, debulhadoras, foguetes espaciais, supercomputadores ou mesmo deuses, tudo é espelho para que os homens se reflitam desprezíveis. Afinal, nossos fracos braços não são tecnologia capaz de colher, em um dia, vastos hectares de soja; nossas pernas não são tecnologia adequada para alcançarmos grandes velocidades; nosso cérebro não é tecnologia de ponta capaz de realizar, como os supercomputadores, trilhões de operações de ponto flutuante por segundo — ou, como o deus cristão, capaz de nos fazer ubíquos, oniscientes e onipoderosos. Ademais, como declarou Michael Löwy, “Deus está inextricavelmente associado ao processo de culpabilização universal”[5].

Dessa feita, infelizmente se descobre (muito tarde, vale dizer) que ideias metafisicamente excêntricas não nos podem curar os medos, as culpas e os males que a todo custo tencionamos ignorar — pelo contrário, os agravam. Um exemplo é o temor da morte (que nada mais é do que sequela do temor que se tem da própria vida), posto que “[…] os deuses não podem libertar os homens do medo, pois são as vozes petrificadas do medo que eles trazem como nome”[6]. Daí o embaraço em ser homem: suposto soberano em seu trono (no máximo, de porcelana), limitado à sua restrita realidade, atado a seus sonhos de grandeza e a tremer com os medos que o fustigam.

Novas e velhas técnicas, tecnologias, paradigmas, ideias; limitação humana; vergonha prometeica. O que poderíamos disso concluir? Dentre outras coisas (que ficam a critério do leitor), o que se segue: ironias à parte, a ideia de deus nunca poderá operar com a mesma excelência de uma cafeteira elétrica.

*   *   *

Notas

  1. GOETHE, Johann Wolfgang von. “Prometheus”. Goethe’s Werke: Vollständige Ausgabe letzter Hand. II. J. G. Cotta’sche Buchhandlung: Stuttgart/Tübingen, 1827, p. 7778.
  2. HESÍODO. Teogonia. 700 a.e.c. (o texto, no original, pode ser encontrado no site do Perseus Digital Library.)
  3. ANDERS, Günther. Die Antiquiertheit des Menschen. Band I: Über die Seele im Zeitalter der zweiten industriellen Revolution. München: C. H. Beck, 1956.
  4. MARCONDES FILHO, Ciro. O espelho e a máscara. São Paulo: Discurso Editorial, 2002, p. 133.
  5. LÖWY, Michael. “O capitalismo como religião”. In: Folha de São Paulo, Caderno Mais!, domingo, 18 de setembro de 2005. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://antivalor2.vilabol.uol.com.br/textos/frankfurt/lowy05.html>. Acesso em 04 de fevereiro de 2010.
  6. ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. Dialektik der Aufklärung: Filosophische Fragmente. Gesammelte Schriften Adorno 3. Frankfurt am main: Suhrkamp, 1997.